Isabel Allende

A Casa dos Espritos

19.a edio

Traduo de
Carlos Martins Pereira


A minha me, a minha av e s outras extraordinrias mulheres
desta histria.
I. A.


Quanto vive o homem, por fim?
Vive mil anos ou um s?
Vive uma semana ou vrios sculos? 
Por quanto tempo morre o homem? 
Que quer dizer para sempre?

PABLO NERUDA


Captulo I

Rosa, a Bela

Barrabs chegou  famlia por via martima, anotou a menina
Clara com a sua delicada caligrafia. J nessa altura tinha o
hbito de escrever as coisas importantes e, mais tarde, quando
ficou muda, escrevia tambm as trivialidades, sem suspeitar
que cinquenta anos depois os seus cadernos me iriam servir
para resgatar a memria do passado e sobreviver ao meu prprio
espanto. O dia em que chegou Barrabs era Quinta-Feira Santa.
Vinha numa jaula indigna, coberto dos prprios excrementos e
de urina, com um olhar extraviado de preso miservel e
indefeso, adivinhando-se, porm, pelo porte real da cabea e
pelo tamanho do esqueleto o gigante lendrio que veio a ser.
Era um dia aborrecido e outonal, que em nada fazia imaginar
os acontecimentos que a menina registou para serem recordados
e que ocorreram durante a missa das doze, na parquia de San
Sebastin,  qual assistiu com toda a famlia. Em sinal de
luto, os santos estavam tapados com panos roxos que as beatas
sacudiam anualmente do arcaz da sacristia e, por baixo dos
lenis de luto, a corte celestial parecia um amontoado de
mveis esperando mudana, sem que as velas, o incenso ou os
gemidos do rgo pudessem contrastar com esse lamentvel
efeito. Erguiam-se vultos ameaadores no lugar dos santos de
corpo inteiro, com rostos idnticos, de expresso enjoada, com
complicadas cabeleiras de cabelo de morto, rubis, prolas,
esmeraldas de vidro pintado e vesturio de nobres florentinos.
O nico favorecido com o loto era o padroeiro da igreja, So
Sebastio, porque, na Semana Santa, reservava para os fiis o
espectculo do seu corpo torcido numa posio indecente,
atravessado por meia dzia de flechas, escorrendo sangue e
lgrimas, como um homossexual sofredor, cujas chagas,

milagrosamente frescas graas ao pincel do padre Restrepo,
faziam Clara estremecer de nojo. 

Era uma longa semana de penitncia e jejum, no se jogava s
cartas, no se tocava msica que incitasse  luxria e ao
esquecimento, observava-se, na medida do possvel, a maior
tristeza e castidade, apesar de, justamente nesses dias, o
aguilho do demnio tentar com maior insistncia a dbil carne
catlica. O jejum consistia em tenros pastis de massa
folhada, saborosos guisados de legumes, fofas tortilhas e
grandes queijos trazidos do campo, com que as famlias
recordavam a Paixo do Senhor, tendo o cuidado de no provar o
mais pequeno pedao de carne ou de peixe, sob pena de
excomunho, como dizia, insistindo, o padre Restrepo. Ningum
se atreveria a desobedecer-lhe. O sacerdote estava munido de
um grande dedo incriminador para apontar os pecadores em
pblico e uma lngua treinada para agitar os sentimentos.

-- Tu, ladro, que roubaste o dinheiro do culto! -- gritava do
plpito apontando um cavalheiro que fingia preocupar-se com
qualquer sujidade na lapela do casaco para esconder a cara. --
Tu, desavergonhada, que te prostituis nos molhes! -- e acusava
Dona Ester Trueba, invlida pela artrite e beata da Senhora do
Carmo, e que abria os olhos surpreendida, sem saber o
significado daquela palavra nem onde ficavam os molhes. --
Arrependei-vos, pecadores, carcaas imundas, indignos do
sacrifcio de Nosso Senhor! Jejuai! Fazei penitncia!

Levado pelo entusiasmo do seu zelo vocacional, o sacerdote
tinha de conter-se para no desobedecer declaradamente s
instrues dos superiores eclesisticos, sacudidos por ventos
de modernismo, e que se opunham ao cilicio e  flagelao. Era
partidrio de vencer as fraquezas da alma com uma boa
chicotada na carne. Era famoso pela sua oratria de enfreada.
Os fiis seguiam-no de parquia em parquia, suavam ouvindo-o
descrever os tormentos dos pecadores no inferno, as carnes
estraalhadas por engenhosas mquinas de tortura, os fogos
eternos, os garfos que trespassavam os membros viris, os
rpteis asquerosos que se introduziam pelos orifcios
femininos e outros suplcios que introduzia em cada sermo
para espalhar o terror de Deus. O prprio Satans era descrito
at s suas mais intimas anomalias com a pronncia galega do
sacerdote, cuja misso neste mundo era sacudir as conscincias
dos indolentes crioulos.

Severo del Valle era ateu e mao, mas tinha ambies
polticas. No podia por isso dar-se ao luxo de faltar  missa
mais concorrida dos domingos e dias de festa, para que todos
pudessem v-lo. Nvea, a esposa, preferia entender-se com Deus
sem auxilio de intermedirios, tinha profunda desconfiana das
sotainas, aborrecia-se com as descries do cu, do purgatrio
e do inferno, mas acompanhava o marido nas suas ambies
polticas, na esperana de que, conseguindo ele um lugar no
Congresso, ela podia obter o voto feminino, pelo qual lutava
fazia dez anos, sem que os seus numerosos estados de gravidez
a fizessem desanimar. Nessa Quinta-Feira Santa o padre
Restrepo  tinha levado os ouvintes ao limite da resistncia
com as suas vises apocalpticas, e Nvea comeou a sentir
enjoos. Perguntou a si mesma se no estaria grvida de novo.
Apesar das ablues com vinagre e das esponjas de fel, tinha
dado  luz quinze filhos, dos quais dez restavam ainda vivos,
e tinha razes para supor que j se estava acomodando  idade,
porque a sua filha Clara, a mais pequena, tinha dez anos.
Parecia que, por fim, tinha acabado o mpeto da sua assombrosa
fertilidade. Fez por atribuir a sua indisposio ao momento do
sermo do padre Restrepo, quando ele a apontou referindo-se
aos fariseus que pretendiam legalizar os bastardos e o
matrimnio civil, desarticulando a Famlia, a Ptria, a
Propriedade e a Igreja, dando s mulheres a mesma posio que
aos homens, em aberto desafio  lei de Deus, que nesse aspecto
era muito precisa. Nvea e Severo ocupavam com os filhos toda
a terceira fila de bancos. Clara sentava-se ao lado da me.
Esta apertava-lhe a mo com impacincia quando o discurso do
sacerdote se estendia demasiado pelos pecados da carne, porque
sabia que isso levaria a pequena a imaginar aberraes que iam
para l da realidade, como era evidente pelas perguntas que
fazia e a que ningum sabia responder. Clara era muito precoce
e tinha a transbordante imaginao herdada, via materna, por
todas as mulheres da famlia. A temperatura da igreja
aumentara e o cheiro penetrante das velas, do incenso e da
multido apinhada contribuiu para a fadiga de Nvea. Queria
que a cerimnia terminasse de vez para regressar  frescura da
sua casa, sentar-se no corredor dos fetos e saborear o
refresco de orchata que a Ama preparava nos dias de festa.
Olhou os filhos, os mais pequenos estavam cansados, rgidos na
roupa domingueira e os mais velhos comeavam a ficar
distrados. Poisou os olhos em Rosa, a mais velha das filhas
vivas, e, como sempre, ficou surpreendida. A sua estranha
beleza de uma qualidade perturbadora,  qual nem ela escapava,
parecia fabricada de material diferente do da raa humana.
Nvea soube que ela no era deste mundo ainda antes de a dar 
luz porque a viu em sonhos, por isso no se surpreendeu quando
a parteira deu um grito ao v-la. Ao nascer, Rosa era branca,
lisa, sem rugas, como uma boneca de loua, com o cabelo verde
e os olhos amarelos, a criatura mais formosa que tinha nascido
na terra desde os tempos do pecado original, como disse a
parteira benzendo-se. Desde o primeiro banho, a Ama lavou-lhe
o cabelo com infuso de camomila, que lhe enfraqueceu a cor,
dando-lhe tonalidades de bronze velho, e punha-a nua ao sol,
para fortalecer a pele, translcida nas zonas mais delicadas
do ventre e das axilas, onde se adivinhavam as veias e a
textura secreta dos msculos. Aqueles passes de cigana, no
entanto, no foram suficientes e depressa correu o boato que
tinha nascido um anjo. Nvea esperou que as ingratas fases do
crescimento dessem  sua filha algumas imperfeies, mas nada
disso aconteceu, bem pelo contrrio, aos dezoito anos Rosa no
engordara e no lhe tinham rebentado  borbulhas, mas havia
acentuado, isso sim, a sua graa martima. O tom da pele, com
reflexos azulados, e o do cabelo, a lentido dos movimentos e
o caracter silencioso evocavam um habitante aqutico. Tinha
qualquer coisa de peixe e se tivesse uma cauda com escamas
seria certamente uma sereia, mas as suas pernas punham-na no
limite impreciso entre a criatura humana e o ser mitolgico.
Apesar de tudo, a jovem fizera uma vida quase normal, tinha um
noivo e um dia havia de casar-se, passando dessa maneira a
responsabilidade da sua formosura para outras mos. Rosa
inclinou a cabea e um raio filtrou-se pelos vitrais da
igreja, dando-lhe uma halo de luz ao perfil. Algumas pessoas
voltaram-se para a ver e cochicharam, como frequentemente
sucedia, mas Rosa parecia no dar por nada, era imune 
vaidade e nesse dia estava mais ausente que de costume,
imaginando novos animais para bordar na sua toalha, metade
pssaros, metade mamferos, cobertos de plumas matizadas e
providos de cornos e cascos, to gordos e com asas to curtas
que desafiavam as leis da biologia e da aerodinmica. Raras
vezes pensava no noivo, Esteban Trueba, no por falta de amor,
mas por temperamento esquecedor, e porque dois anos de
separao so grande ausncia. Ele trabalhava nas minas do
Norte. Escrevia-lhe metodicamente e Rosa respondia-lhe de vez
em quando, mandando-lhe versos copiados e desenhos de flores a
tinta-da-china, em papel de pergaminho. Atravs dessa
correspondncia, que Nvea violava regularmente, inteirou-se
dos sobressaltos do oficio de mineiro, sempre ameaado por
derrocadas, perseguindo veios fugidios, pedindo crditos por
conta da boa sorte, acreditando que acabaria por aparecer um
maravilhoso filo de ouro, que lhe permitiria fazer rpida
fortuna e regressar para levar Rosa de brao dado ao altar,
tornando-se assim o homem mais feliz do universo, como dizia
sempre no fim das cartas. Rosa, no entanto, no tinha pressa
em casar-se, quase esquecera o nico beijo que haviam trocado
na despedida e tambm a cor dos olhos desse noivo tenaz. Por
influncia das novelas romnticas, que eram a sua nica
leitura, gostava de o imaginar com botas de cabedal, a pele
queimada pelos ventos do deserto, cavando a terra em busca de
tesouros de piratas, dobres espanhis e jias dos Incas, e
era intil que Nvea a tentasse convencer de que as riquezas
das minas estavam metidas nas pedras, porque para Rosa era
impossvel que Esteban Trueba recolhesse toneladas de
penhascos na esperana de que, ao submet-los a inquos
processos crematrios, cuspissem um grama de ouro. Entretanto,
esperava por ele sem se aborrecer, imperturbvel na gigantesca
tarefa que tinha imposto a si prpria: bordar a toalha maior
do mundo. Comeou com ces, gatos e borboletas, mas logo a
fantasia se apoderou do seu trabalho e foi surgindo um paraso
de animais impossveis que nasciam da agulha em frente dos
olhos preocupados do pai. Severo considerava que era tempo da
filha sair da modorra e de ter os ps assentes na terra, de
aprender algumas tarefas domsticas e preparar-se  para o
matrimnio, mas Nvea no compartilhava dessa inquietao.
Preferia no atormentar a filha com exigncias terrenas, pois
pressentia que Rosa era um ser celestial, que no tinha sido
feito para durar muito tempo no bulcio grosseiro deste mundo,
por isso deixava-a em paz com os seus fios de bordar e no
comentava aquele jardim zoolgico de pesadelo.

Uma barba do espartilho de Nvea quebrou-se, cravando-se-lhe
uma ponta entre as costelas. Sentia-se sufocar dentro do
vestido de veludo azul, com a gola de renda demasiado alta, as
mangas muito estreitas, a cintura to apertada que, quando
tirava o cinto, passava uma boa meia hora com retorcidelas de
barriga at as tripas se acomodarem na sua posio normal.
Tinham discutido isso muitas vezes, ela e as amigas
sufragistas, e haviam chegado  concluso de que, enquanto as
mulheres no encurtassem as saias e o cabelo e no despissem
os saiotes, tudo ficava na mesma, mesmo que pudessem estudar
medicina ou tivessem direito a voto, porque de modo algum
teriam coragem de o fazer; ela prpria no tinha coragem para
ser das primeiras a abandonar a moda. Notou que a voz da
Galiza tinha deixado de martelar-lhe o crebro. Estava numa
dessas grandes pausas do sermo que o padre empregava com
frequncia, por conhecer bem o efeito de um silncio incmodo.
Os seus olhos ardentes aproveitavam esses momentos para
observar os paroquianos um por um. Nvea largou a mo de Clara
e procurou um leno na manga para enxugar uma gota de suor que
lhe escorria pelo pescoo. O silncio tornou-se pesado, o
tempo pareceu parar dentro da igreja, mas ningum se atreveu a
tossir ou a ajeitar-se no banco, para no atrair a ateno do
padre Restrepo. As suas ltimas frases ainda vibravam entre as
colunas.

E nesse momento, como Nvea recordou anos mais tarde, no meio
da ansiedade e do silncio, ouviu-se com toda a nitidez a voz
da pequena Clara:

-- Pst! Padre Restrepo! Se o conto do inferno for pura mentira
chateamo-nos...

O dedo indicador do jesuta, que j estava no ar para
assinalar novos suplcios, ficou suspenso como um pra-raios
sobre a sua cabea. As pessoas deixaram de respirar e os que
estavam cabeceando acordaram. Os esposos del Valle foram os
primeiros a reagir ao sentir que o pnico os invadia e ao ver
que os filhos comeavam a agitar-se nervosos. Severo
compreendeu que devia actuar antes que rebentasse o riso geral
ou se desencadeasse algum cataclismo celestial. Pegou na
mulher pelo brao e em Clara pelo pescoo e saiu arrastando-as
a grandes passadas, seguido pelos outros filhos, que se
precipitaram em tropel para a porta. Conseguiram sair antes
que o sacerdote pudesse invocar um raio que os transformasse
em esttuas de sal, mas do umbral da porta ouviram a sua
terrvel voz de arcanjo ofendido:

-- Endemoninhada! Soberba endemoninhada!

Estas palavras do padre Restrepo permaneceram na memria da
famlia  com o peso de um diagnstico e, nos anos seguintes,
tiveram ocasio de as recordar variadas vezes. A nica que no
voltou a pensar nelas foi a prpria Clara, que se limitou a
anot-las no seu dirio para logo as esquecer. Os pais, em
contrapartida, no puderam ignor-las, apesar de concordarem
que a possesso demonaca e a soberbia eram dois pecados
demasiado grandes para uma criana to pequena. Temiam a
maldio do povo e o fanatismo do padre Restrepo. At esse
dia, no tinham posto nome s excentricidades da filha mais
nova nem as haviam relacionado com influncias satnicas.
Tomavam-nas como uma caracterstica da menina, como o coxear
era a de Lus e a beleza a de Rosa. Os poderes mentais de
Clara no causavam incmodo a ningum e no produziam desordem
de maior; manifestavam-se quase sempre em assuntos de pouca
importncia e na estrita intimidade do lar. Algumas vezes, 
hora da refeio, quando estavam todos reunidos na grande sala
de jantar da casa, sentados em absoluta ordem de dignidade e
hierarquia, o saleiro comeava a vibrar e deslocava-se depois
pela mesa fora entre copos e pratos, sem ter havido para isso
nenhuma fonte de energia conhecida nem truque de ilusionista.
Nvea dava um puxo s tranas de Clara e com esse sistema
conseguia que a filha abandonasse a distraco luntica e
devolvesse a normalidade ao saleiro, que acabava por recuperar
a imobilidade. Os irmos tinham-se organizado para que, no
caso de haver visitas, aquele que estivesse mais perto deter
com a mo o que estivesse andando sobre a mesa antes que os
estranhos dessem conta disso e apanhassem um susto. A famlia
continuava a comer sem comentrios. Tambm se tinham habituado
aos pressgios da irm mais nova. Ela anunciava os tremores de
terra com alguma antecipao, o que resultava muito til
naquele pais de catstrofes, porque dava tempo de pr a salvo
a baixela e deixar ao alcance da mo as pantufas para sair
noite dentro. Aos seis anos Clara previu que o cavalo havia de
deixar cair Lus, este negou-se a dar-lhe ouvidos e desde
ento tinha um quadril deslocado. Com o tempo, encurtou-se-lhe
a perna esquerda e teve de usar um sapato especial com uma
grande sola que ele prprio fabricava. Nessa ocasio Nvea
inquietou-se, mas a Ama tranquilizou-a dizendo que h muitos
meninos que voam como as moscas, que adivinham os sonhos e
falam com as almas, mas que tudo isso lhes passa quando perdem
a inocncia.

-- Nenhum chega a grande nesse estado -- explicou. -- Espere
que  menina lhe chegue a demonstrao e vai ver que perde a
mania de andar a mover os mveis e a anunciar desgraas.

A Ama preferia Clara. Tinha-a ajudado a nascer e era a nica
pessoa que compreendia a natureza extravagante da menina.
Quando Clara saiu do ventre da me, a Ama embalou-a, lavou-a e
desde esse momento amou desesperadamente a frgil criana com
os pulmes cheios de expectorao, sempre  beira de perder o
alento e pr-se roxa, que tinha feito reviver com o  calor
dos seus grandes peitos quando lhe faltava o ar, porque sabia
que era esse o nico remdio para a asma, muito mais eficaz
que os folhados aguardentados do doutor Cuevas.

Nessa Quinta-Feira Santa, Severo passeava pela sala
preocupado com o escndalo que a filha tinha dado na missa.
Argumentava que s um fantico como o padre Restrepo podia
acreditar em possessos em pleno sculo vinte, o sculo das
luzes, da cincia e da tcnica, no qual o demnio tinha ficado
definitivamente desprestigiado. Nvea interrompeu-o para dizer
que no era essa a questo. O que era grave  que, se as
proezas da filha transcendiam as paredes da casa e o padre
comeava a investigar, toda a gente iria saber.

-- Vai comear a chegar gente para a ver como se ela fosse um
fenmeno -- disse Nvea.

-- E o Partido Liberal vai para o caralho -- rematou Severo,
que via o prejuzo que podia ser para a sua carreira poltica
ter uma possessa na famlia.

Estavam nisto quando chegou a Ama arrastando as chinelas, com
o frufru de saiotes engomados, a anunciar que no ptio estavam
uns homens a descarregar um morto. Assim era. Entraram com uma
carraa de quatro cavalos, ocupando todo o primeiro ptio,
pisando as camlias e sujando de trampa o empedrado reluzente,
num turbilho de p, num empinar de cavalos e maldies de
homens supersticiosos que faziam gestos contra o mau olhado.
Traziam o cadver do tio Marcos com toda a sua bagagem. Aquele
tumulto era dirigido por um homenzinho melfluo, vestido de
negro, de labita e chapu demasiado grande, que iniciou um
discurso solene para explicar as circunstancias do caso, mas
que foi brutalmente interrompido por Nvea, que se lanou
sobre o atade empoeirado que continha os restos do seu irmo
mais querido. Nvea gritava que abrissem a tampa, para o ver
com os prprios olhos. J em ocasio anterior havia sido
encarregada de o enterrar, e por isso mesmo tinha o direito de
duvidar que dessa vez fosse verdadeira a sua morte. Os seus
gritos atraram a multido de criados da casa e todos os
filhos, que acudiram correndo ao ouvir o nome do tio
pronunciado com lamentaes de luto.

Havia um par de anos que Clara no via o tio Marcos, mas
recordava-o bem. Era a nica imagem perfeitamente ntida da
sua infncia e para a evocar no necessitava sequer de
consultar o daguerrtipo do salo, onde ele aparecia vestido
de explorador, apoiado a uma caadeira de dois canos de modelo
antigo, o p direito sobre um tigre da Malsia, na mesma
atitude triunfante que ela tinha visto na Virgem do altar-mor
pisando o demnio vencido entre nuvens de gesso e anjos
plidos. A Clara bastava fechar os olhos para ver o tio em
carne e osso, curtido pelas inclemncias de todos os climas do
planeta, magro,  com bigodes de flibusteiro, entre os quais
assomava um estranho sorriso com dentes de tubaro. Parecia
impossvel que ele estivesse naquele caixo negro no meio do
ptio.

Em cada visita que Marcos fez a casa da irm Nvea, ficou por
vrios meses, dando alegria aos sobrinhos, especialmente a
Clara, e provocando uma tempestade na qual a ordem domstica
perdia os horizontes. A casa atafulhava-se de bas, animais
embalsamados, lanas de ndios, bagagens de marinheiro. Por
todos os lados se tropeava em utenslios indescritveis, e
apareciam bichos nunca vistos que tinham viajado desde terras
remotas para acabarem esmagados debaixo da vassoura implacvel
da Ama em qualquer canto da casa. As maneiras do tio Marcos
eram as de um canibal, como dizia Severo. Passava a noite
fazendo movimentos incompreensveis na sala. Soube-se mais
tarde que eram exerccios destinados a aperfeioar o domnio
da mente sobre o corpo e a melhorar a digesto. Fazia
experincias de alquimia na cozinha, enchendo toda a casa de
fumaradas ftidas e arruinando as panelas com substancias
slidas que no podiam soltar-se do fundo. Enquanto os outros
tentavam dormir, arrastava as malas pelos corredores, ensaiava
sons agudos com instrumentos selvagens e ensinava espanhol a
um papagaio cuja lngua materna era de origem amaznica. De
dia, dormia numa rede que tinha esticado entre duas colunas do
corredor, cobrindo-se apenas com uma tanga que punha Severo de
pssimo humor, mas que Nvea desculpava porque Marcos tinha-a
convencido de que era assim que pregava o Nazareno. Clara
recordava perfeitamente, apesar de ser muito pequena na
altura, a primeira vez que o tio Marcos chegou a casa no
regresso de uma das suas viagens. Instalou-se como se fosse
para sempre. Ao fim de pouco tempo, aborrecido de
apresentar-se em tertlias de senhoras em que a dona da casa
tocava piano, de jogar as cartas e iludir os constrangimentos
de todos os seus parentes para que assentasse cabea e
comeasse a trabalhar como ajudante no escritrio de advogado
de Severo del Valle, comprou um realejo e percorreu as ruas
com a inteno de seduzir a prima Antonieta e, ao mesmo tempo,
alegrar o pblico com a sua msica de manivela. A mquina no
passava de um caixote manhoso provido de rodas, mas ele
pintou-a com motivos de marinheiros e ps-lhe uma chamin
falsa de barco. Ficou com aspecto de fogo a carvo. O realejo
tocava uma marcha militar e uma valsa alternadamente e entre
cada volta de manivela o papagaio, que tinha aprendido
espanhol, apesar de manter o sotaque estrangeiro, atraa o
pblico com gritos agudos. Tirava tambm com o bico papelitos
de uma caixa para vender a sorte aos curiosos. Os papis
cor-de-rosa, verdes e azuis eram to engenhosos que indicavam
sempre os mais secretos desejos do cliente. Alm dos papis da
sorte, vendia bolinhas de serradura para divertir as crianas
e ps contra a impotncia, de que falava a meia voz com os
transeuntes afectados por esse mal. A ideia  do realejo
surgiu como um ltimo e desesperado recurso para atrair a
prima Antonieta, depois de falharem outras formas mais
convencionais de a cortejar. Pensou que nenhuma mulher de
perfeito juzo podia permanecer impassvel perante uma
serenata de realejo. Foi isso que fez. Colocou-se debaixo da
janela dela ao entardecer, tocando a sua marcha militar e a
sua valsa no momento em que ela tomava ch com um grupo de
amigas. Antonieta no se deu por achada at que o papagaio
comeou a cham-la pelo seu nome de baptismo e ento chegou 
janela. A sua reaco no foi a que esperava o enamorado. As
amigas encarregaram-se de espalhar a noticia por todos os
sales da cidade e, no dia seguinte, as pessoas comeavam a
passear pelas ruas centrais esperando ver com os prprios
olhos o cunhado de Severo del Valle tocando realejo e a vender
bolas de serradura com um papagaio barulhento, simplesmente
pelo prazer de tirar a prova de que tambm nas melhores
famlias havia boas razes para ter vergonha.

Em face da tempestade familiar, Marcos teve de desistir do
realejo e escolher mtodos menos conspcuos para atrair a
prima Antonieta. Marcos no desistiu de a assediar. De
qualquer modo, no fim no teve xito, porque a jovem casou-se
dum dia para o outro com um diplomata vinte anos mais velho,
que a levou para um pais tropical cujo nome ningum conseguiu
recordar, mas que sugeria negritude, bananas e palmeiras, onde
ela ultrapassou a recordao do pretendente que arruinara os
seus dezassete anos com uma marcha militar e uma valsa. Marcos
ficou abalado durante dois ou trs dias, ao fim dos quais
anunciou que nunca havia de casar e que iria dar a volta ao
mundo. Vendeu o realejo a um cego e deixou o papagaio de
herana a Clara, mas a Ama envenenou-o secretamente com uma
boa dose de leo de fgado de bacalhau porque no podia
suportar o seu olhar lascivo, as pulgas e os gritos
desregrados oferecendo papelinhos para a sorte, bolas de
serradura e ps para a impotncia.

Foi a mais longa viagem de Marcos. Regressou com um
carregamento de enormes caixas que se armazenaram no ltimo
ptio, entre o galinheiro e a casa da lenha, at acabar o
Inverno. No comeo da Primavera, f-las passar ao Parque dos
Desfiles, um enorme descampado onde se juntava o povo para ver
marchar a tropa durante as festas da Ptria, com um passo de
ganso que tinham copiado dos Prussianos. Ao abrir as caixas,
viu-se que tinham l dentro peas soltas de madeira, metal e
tela pintada. Marcos passou duas semanas juntando as partes de
acordo com as instrues de um manual em ingls, que ele
decifrou com uma imaginao invencvel e um pequeno
dicionrio. Quando o trabalho ficou pronto, surgiu um pssaro
de dimenses pr-histricas, com um rosto de guia furiosa
pintado na parte da frente, asas mveis e um hlice no lombo.
Causou emoo. As famlias da oligarquia esqueceram o realejo
e Marcos tornou-se a novidade da temporada. As pessoas 
faziam passeios aos domingos para ir ver o pssaro e os
vendedores de quinquilharias e os fotgrafos ambulantes
fizeram o seu negcio. No entanto, em pouco tempo comeou a
esgotar-se o interesse do pblico. Marcos anunciou ento que,
mal o tempo desanuviasse, pensava levantar voo no pssaro e
passar por cima da cordilheira. A noticia correu em poucas
horas e converteu-se no acontecimento mais comentado do ano. A
mquina jazia com a pana assente em terra firme, pesada e
torpe, mais com o aspecto de um pato ferido do que de um
desses modernos aeroplanos que comeavam a fabricar-se na
Amrica do Norte. Nada na sua aparncia permitia supor que
pudesse mover-se e muito menos levantar voo e atravessar as
montanhas nevadas. Os jornalistas e curiosos acudiram em
tropel. Marcos sorria imvel face  avalancha de perguntas,
posando para os fotgrafos sem oferecer nenhuma explicao
tcnica ou cientifica a respeito de como pensava realizar a
sua proeza. Houve gente que viajou da provncia para ver o
espectculo. Quarenta anos depois, o seu sobrinho-neto
Nicolau, a quem Marcos no chegou a conhecer, desenterrou a
iniciativa de voar que sempre estivera presente nos homens da
sua estirpe. Nicolau teve a ideia de faz-lo com fins
comerciais, numa salsicha gigantesca cheia de ar quente, que
levaria impresso um anncio publicitrio de bebidas gasosas.
Mas, nos tempos em que Marcos anunciou a sua viagem em
aeroplano, ningum acreditava que esse invento pudesse servir
para alguma coisa de til. Ele fazia-o por esprito
aventureiro. O dia marcado para o voo amanheceu enevoado, mas
havia tanta expectativa que Marcos no quis adiar a data.
Apresentou-se pontualmente no local e no deu sequer uma
olhadela para o cu que se cobria de nuvens cinzentas. A
multido atnita encheu as ruas circundantes, empoleirou-se
nos telhados, nas varandas das casas prximas e apertou-se no
parque. Nenhuma concentrao poltica conseguiu reunir tanta
gente at meio sculo depois, quando o primeiro candidato
marxista aspirava, por meios totalmente democrticos, a ocupar
a poltrona dos presidentes. Clara recordaria em toda a sua
vida esse dia de festa. As pessoas vestiram-se como na
Primavera, adiantando-se um pouco  inaugurao oficial da
temporada, os homens com fatos de linho branco e as senhoras
com chapus de palhinha italiana, que fizeram furor nesse ano.
Desfilaram grupos de alunos das escolas, com os professores,
levando flores para o heri. Marcos recebia as flores e
gracejava, dizendo que esperassem que ele casse para lhe
levarem flores ao enterro. O bispo em pessoa, sem que ningum
lhe pedisse, apareceu com dois incensrios a benzer o pssaro,
e o orfeo da polcia tocou msica alegre e sem pretenses,
para o gosto popular. A policia, a cavalo e com lanas, teve
dificuldade em manter a multido afastada do centro do parque,
onde estava Marcos, vestido com calas de mecnico, com
grandes culos de automobilista e o seu capacete de
explorador. Para o voo levava, alm disso, a sua bssola, um
binculo e uns estranhos  mapas de navegao area que ele
prprio tinha traado baseando-se nas teorias de Leonardo da
Vinci e nos conhecimentos astrais dos Incas. Contra toda a
lgica,  segunda tentativa, o pssaro elevou-se sem problemas
e mesmo com certa elegncia entre os estalidos do esqueleto e
os estertores do motor. Subiu dando s asas, perdendo-se nas
nuvens, despedido por uma exploso de aplausos, assobios,
lenos, bandeiras, acordes musicais do orfeo e asperses de
gua benta. Em terra ficou o comentrio da concorrncia
maravilhada e dos homens mais instrudos, que tentaram dar uma
explicao razovel do milagre. Clara continuou olhando o cu
at muito tempo depois do tio se ter tornado invisvel.
Acreditou v-lo dez minutos mais tarde, mas tratava-se apenas
de um pardal que passava. Passados trs dias, a euforia
provocada no pas pelo primeiro voo de aeroplano desvaneceu-se
e ningum tornou a lembrar-se do episdio, excepto Clara, que
olhava incansavelmente as alturas.

Sem haver notcias do tio voador durante uma semana, sups-se
que tinha subido at se perder no espao sideral. Os mais
ignorantes especulavam com a ideia de que chegaria  Lua.
Severo determinou, com uma mistura de tristeza e de alvio,
que o seu cunhado tinha cado com a mquina nalguma garganta
da cordilheira, onde nunca mais seria encontrado. Nvea chorou
inconsolvel e ofereceu velas a Santo Antnio, padroeiro das
coisas perdidas. Severo ops-se  ideia de mandar dizer
algumas missas, porque no acreditava nesse recurso para
ganhar o cu e muito menos para voltar  terra, e defendia que
as missas e as promessas, assim como as indulgncias e o
trfico de imagens e escapulrios eram um negcio desonesto.
Em vista disso, Nvea e a Ama puseram todas as crianas a
rezar o tero s escondidas, durante nove dias. Entretanto,
grupos de exploradores e andinistas voluntrios procuraram-no
incansavelmente por picos e quebradas da cordilheira,
percorrendo, uma por uma, todas as passagens acessveis, at
que por ltimo regressaram triunfantes e entregaram  famlia
os restos mortais dentro de um fretro selado, negro e
modesto. Enterraram o intrpido viajante num funeral
grandioso. A morte converteu-o num heri e o seu nome esteve
vrios dias nos ttulos dos jornais. A mesma multido que se
juntou para se despedir dele no dia em que levantou voo no
pssaro desfilou em frente do atade. Toda a famlia o chorou
como ele merecia, menos Clara, que continuou esquadrinhando o
cu com pacincia de astrnomo. Uma semana depois da inumao,
apareceu no umbral da porta da casa de Nvea e de Severo del
Valle o prprio tio Marcos, de corpo presente, com um alegre
sorriso entre os bigodes de pirata. Graas s rezas
clandestinas das mulheres e das crianas, como ele prprio
admitiu, estava vivo e em posse de todas as suas faculdades,
incluindo a do bom humor. Apesar da nobre origem dos seus
mapas areos, o voo tinha sido um fracasso, perdera o
aeroplano e teve de regressar a p, no trazendo todavia
nenhum osso partido e com o esprito aventureiro intacto. Isto
consolidou para sempre a devoo da famlia  por Santo
Antnio e no desenganou as geraes futuras, que tambm
tentaram voar por diversos meios. No entanto, legalmente,
Marcos era um cadver. Severo del Valle teve de pr todo o seu
conhecimento das leis no sentido de devolver a vida e a
condio de cidado ao cunhado. Ao abrir o caixo, diante das
autoridades respectivas, todos viram que se tinha enterrado um
saco de areia. Este facto enodoou o prestigio, at ento sem
mcula, dos exploradores e andinistas voluntrios; desde esse
dia foram considerados pouco menos que malfeitores.

A herica ressurreio de Marcos acabou por fazer esquecer a
toda a gente a histria do realejo. Voltaram a convid-lo para
todos os sales da cidade e, pelo menos por algum tempo, o seu
nome foi solicitado. Marcos viveu em casa da irm por alguns
meses. Uma noite foi-se embora sem se despedir de ningum,
deixando os bas, os livros, as armas, as botas e todo o
instrumental. Severo, e at mesmo Nvea, respiraram aliviados.
A sua ltima visita tinha durado tempo de mais.

Mas Clara sentiu-se to afectada que passou uma semana
caminhando sonmbula a chupar no dedo. A menina, que ento
tinha sete anos, aprendera a ler os livros de contos do tio e,
devido s suas habilidades adivinhatrias, estava mais perto
dele que de nenhum membro da famlia. Marcos pretendia que a
rara virtude da sua sobrinha podia ser uma fonte de lucros e
uma boa oportunidade para desenvolver a sua prpria
clarividncia. Tinha a teoria de que esta condio estava
presente em todos os seres humanos, especialmente nos da sua
famlia, e que se no funcionava com eficincia era s por
falta de treino. Comprou no Mercado Persa uma bola de vidro
que, em sua opinio, tinha propriedades mgicas e vinha do
Oriente, embora mais tarde ie soubesse que era apenas uma bia
de bote de pesca; p-la sobre um pano de veludo negro e
anunciou que podia ver a sorte, curar o mau olhado, ler o
passado e melhorar a qualidade dos sonhos, tudo por cinco
centavos. Os seus primeiros clientes foram as criadas da
vizinhana. Uma delas fora acusada de ladra, porque a patroa
tinha perdido um anel. A bola de vidro indicou o lugar onde se
encontrava a jia: tinha rebolado para baixo de um roupeiro.
No dia seguinte havia uma bicha de gente  porta da casa.
Chegavam os cocheiros, os comerciantes, os fornecedores de
leite e gua e mais tarde, apareceram discretamente alguns
empregados municipais e senhoras distintas, que deslizavam
discretamente ao longo das paredes, procurando no serem
reconhecidas. A clientela era recebida pela Ama, que punha as
pessoas por ordem na antecmara e cobrava os honorrios. Este
trabalho mantinha-a ocupada quase todo o dia e chegou a
prend-la tanto que descuidou os seus afazeres na cozinha. A
famlia comeou a queixar-se de que a nica coisa que havia
para o jantar era feijes e marmelada. Marcos arranjou a
cocheira com uns cortinados pudos que tinham pertencido em
tempos ao salo, mas que o  abandono e a velhice tinham
tornado tripas cheias de p. Era ali que atendia o pblico com
Clara. Os dois adivinhos vestiam tnicas da cor dos homens da
luz, como Marcos chamava ao amarelo. A Ama tingiu as tnicas
com p de aafro, fazendo-as ferver na panela destinada ao
manja branco. Marcos tinha, alm da tnica, um turbante
amarrado na cabea e um amuleto egpcio pendurado ao pescoo.
Deixara crescer a barba e o cabelo e estava mais magro do que
nunca. Marcos e Clara ficavam totalmente convincentes,
sobretudo porque a menina no necessitava olhar a bola de
vidro para adivinhar o que cada um queria ouvir. Soprava-o ao
ouvido do tio Marcos, que transmitia a mensagem ao cliente e
improvisava os conselhos que lhe pareciam ajuizados. Assim se
propagou a sua fama, porque os que chegavam ao consultrio
dbeis e tristes saiam cheios de esperana, os namorados que
no eram correspondidos obtinham orientao para cativar o
corao indiferente e os pobres levavam infalveis artimanhas
para apostar nas corridas de ces. O negcio chegou a ser to
prspero que a antecmara estava sempre atafulhada de gente e
a Ama comeou a ter desmaios por estar parada tanto tempo.

Nessa ocasio Severo no teve necessidade de intervir para pr
fim  iniciativa empresarial do seu cunhado, porque os dois
adivinhos, ao notar que a sua percia podia modificar o
destino da clientela, que seguia  letra as suas palavras,
atemorizaram-se e decidiram que era um oficio de
trampolineiros. Abandonaram o orculo da cocheira e dividiram
os ganhos ao meio, ainda que a nica que de facto estava
interessada no aspecto material fosse a Ama.

De todos os irmos del Valle, Clara era a que tinha mais
resistncia e interesse em ouvir os contos do tio. Podia
repeti-los um por um, sabia de memria vrias palavras de
ndios estrangeiros, conhecia os seus costumes e podia
descrever a maneira como atravessavam pedaos de madeira nos
lbios e nos lbulos das orelhas, assim como os ritos de
iniciao e os nomes das serpentes mais venenosas e seus
antdotos. O tio era to eloquente que a menina podia sentir
na sua prpria carne a mordedura quente das vboras, ver o
rptil deslizar sobre a almofada, entre os troncos de
jacarands e escutar os gritos das guacamaias (1) atravs das
cortinas do salo. Lembrava-se sem hesitaes do trajecto de
Lope de Aguirre em busca do El Dorado, dos nomes
impronunciveis da flora e da fauna vistas ou inventadas pelo
seu tio maravilhoso, sabia que os lamas comem ch salgado com
gordura de iaque e podia descrever com pormenor as opulentas
nativas da Polinsia, os arrozais da China ou as plancies
brancas dos pases do Norte, onde o gelo eterno mata os
animais e os homens que se distraem, petrificando-os em poucos
minutos. Marcos tinha vrios dirios de viagem onde escrevia
os seus itinerrios e as suas impresses, assim como uma
coleco de mapas e livros de contos de 

(1) Ave da famlia dos papagaios. Arara. (N. T.)

aventuras, e at de fadas, que guardava nos bas no quarto das
vasilhas, ao fundo do terceiro ptio da casa. Saram dali para
povoar os sonhos dos seus descendentes at que foram queimados
por erro, meio sculo depois, numa pira infame.

Da sua ltima viagem, Marcos regressou num caixo. Tinha
morrido de uma misteriosa peste africana que o foi pondo
enrugado e amarelo como um pergaminho. Ao sentir-se doente
iniciou a viagem de volta, esperando que os cuidados da sua
irm e a sabedoria do doutor Cuevas lhe tornassem a dar a
sade e a juventude, mas no resistiu aos sessenta dias de
travessia de barco e, por alturas de Guaiaquil, morreu
consumido pela febre e delirando sobre mulheres perfumadas e
tesouros escondidos. O capito do barco, um ingls de apelido
Longfellow, esteve a ponto de o lanar ao mar embrulhado numa
bandeira, mas Marcos tinha feito tantos amigos e apaixonado
tantas mulheres a bordo do transatlntico, apesar do seu
aspecto campesino e do seu delrio, que os passageiros o
impediram, e Longfellow teve de o armazenar, junto s
hortalias do cozinheiro chins, para o preservar do calor e
dos mosquitos do trpico, at que o carpinteiro de bordo
improvisasse um caixo. Em El Callao conseguiram um fretro
apropriado e alguns dias depois o capito, furioso pelos
contratempos que aquele passageiro tinha causado  Companhia
de Navegao e a ele pessoalmente, descarregou-o sem
contemplaes no cais, estranhando que ningum aparecesse a
reclam-lo nem a pagar as despesas extraordinrias. Mais tarde
soube que naquelas latitudes o correio no oferecia o mesmo
crdito que na sua longnqua Inglaterra e que os seus
telegramas se tinham evaporado no caminho. Felizmente para
Longfellow, apareceu um advogado da alfndega que conhecia a
famlia del Valle e que se ofereceu para tratar do assunto,
metendo Marcos e a sua complicada bagagem num carro de aluguer
e levando-o para a capital, para o nico domicilio fixo que
dele se conhecia: a casa da irm.

Para Clara esse teria sido um dos momentos mais dolorosos da
sua vida, se Barrabs no tivesse chegado misturado com os
instrumentos do tio. Ignorando a confuso que ia pelo ptio, o
seu instinto levou-a directamente ao canto onde tinham posto a
jaula. Dentro estava Barrabs. Era um monto de ossinhos
cobertos por plo de cor indefinida, cheio de peladas
infectas, um olho fechado e outro escorrendo remelas, imvel
como um cadver na sua prpria porcaria. Apesar desta
aparncia, a menina no teve dificuldade em identific-lo:

-- Um cozinho! -- exclamou.

Encarregou-se do animal, tirou-o da jaula, embalou-o contra o
peito e, com cuidados de missionria, conseguiu deitar-lhe
gua no focinho inchado e seco. Ningum se tinha preocupado em
aliment-lo desde que o capito Longfellow, que como todos os
ingleses tratava muito melhor os animais que  os humanos, o
depositou no cais. Enquanto o co esteve a bordo junto ao dono
moribundo, o capito alimentou-o pela prpria mo e passeou-o
pela coberta, dando-lhe todas as atenes que no dera a
Marcos, mas uma vez em terra firme foi tratado como parte da
bagagem. Clara tornou-se uma me para o animal, sem que
ningum lhe disputasse esse privilgio duvidoso, conseguindo
reanim-lo. Dois dias mais tarde, logo que se acalmou a
tempestade da chegada do cadver e do enterro do tio Marcos,
Severo reparou no bicho peludo que a filha levava nos braos:

-- Que  isso? -- perguntou.

--  o Barrabs -- disse Clara.

-- Entrega-o ao jardineiro para que o mate. Pode contagiar-nos
com alguma doena -- ordenou Severo.

Mas Clara tinha-o adoptado:

--  meu, pap. Se mo tirar, juro-lhe que deixo de respirar e
morro.

Ficou em casa. Em pouco tempo corria por todos os lados
devorando as franjas das cortinas, as almofadas e os ps dos
mveis. Saiu rapidamente da agonia e comeou a crescer. Quando
se lhe deu banho, soube-se que era negro, de cabea quadrada,
patas muito grandes e plo curto. A Ama sugeriu que lhe
cortassem a cauda para ficar como os ces finos, mas Clara
teve uma birra que acabou em ataque de asma e ningum voltou a
falar no assunto. Barrabs ficou com o rabo inteiro, que com o
tempo chegou a ter o comprimento de um taco de golfe, com
movimentos incontrolveis que varriam as porcelanas das mesas
e tombavam candeeiros. Era de raa desconhecida. No tinha
nada em comum com os ces que vagueavam pelas ruas e muito
menos com os animais de raa pura que algumas famlias
aristocrticas criavam. O veterinrio no soube dizer qual era
a sua origem e Clara sups que vinha da China porque grande
parte do contedo da bagagem do tio eram recordaes desse
pais distante. Tinha uma capacidade ilimitada de crescimento.
Aos seis meses era do tamanho de uma ovelha e com um ano tinha
a proporo de um poldro. A famlia, desesperada, perguntava
at onde ele ia crescer, e comeou-se a duvidar que fosse
realmente um co. Especularam que podia tratar-se de um animal
extico caado pelo tio explorador nalguma regio remota do
mundo e que, provavelmente, no seu estado primitivo era feroz.
Quando Nvea lhe observava as patas de crocodilo e os dentes
afiados, o seu corao de me estremecia ao pensar que o
animal podia arrancar a cabea de um adulto com uma dentada e
com maior razo a de um dos seus filhos. Mas Barrabs no
mostrava ferocidade alguma, bem pelo contrrio. Tinha
brincadeiras de gatinho. Dormia abraado a Clara, dentro da
cama, com a cabea no almofado de penas, tapado at ao
pescoo porque tinha frio, mas depois, quando j no cabia na
cama, estendia-se no cho a seu lado, com o focinho de cavalo
apoiado na mo da menina. Nunca se ouviu ladrar nem to pouco
rosnar. Era negro e  silencioso como uma pantera, apreciava
o presunto e as compotas de fruta e, sempre que havia visitas
e se esqueciam de o fechar, entrava sorrateiro na sala de
jantar, dando volta  mesa para, com delicadeza, tirar dos
pratos os bocados preferidos sem que nenhum dos comensais se
atrevesse a impedi-lo. Apesar da sua mansido de donzela,
Barrabs inspirava terror Os fornecedores fugiam
precipitadamente quando aparecia na rua e uma vez a sua
presena provocou pnico entre as mulheres que faziam bicha em
frente da carroa que distribua o leite, espantando o cavalo
perchero que saiu disparado no meio de um quebrar de bilhas
de leite entornadas na calada. Severo teve de pagar todos os
prejuzos e mandou amarrar o co no ptio, mas Clara teve
outra crise nervosa e a deciso foi adiada por tempo
indefinido. A fantasia popular e o desconhecimento da sua raa
atriburam a Barrabs caractersticas mitolgicas. Constava
que continuava a crescer e que, se no fosse a brutalidade de
um carniceiro, que lhe ps termo  existncia, teria chegado
ao tamanho de um camelo. As pessoas acreditavam que era um
cruzamento de co e gua, supunham que podiam aparecer-lhe
asas, cornos e um bafo sulfuroso de drago, como os animais
que Rosa bordava no seu interminvel manto. A Ama, farta de
apanhar porcelana partida e ouvir os boatos de que se
transformava em lobo nas noites de lua cheia, usou para ele o
mesmo sistema que para o papagaio, mas a superdose de leo de
fgado de bacalhau no o matou, deu-lhe uma caganeira de
quatro dias que encheu a casa de alto a baixo e que ela mesma
teve de limpar.


Eram tempos difceis. Eu tinha ento  volta de vinte e cinco
anos, mas julgava que tinha  minha frente pouca vida para
construir um futuro e conseguir a posio que desejava.
Trabalhava que nem um animal, e as poucas vezes que me sentava
para descansar, obrigado pelo tdio de algum domingo, sentia
que estava a perder momentos preciosos e que cada minuto de
cio me afastava de Rosa mais um sculo. Vivia na mina, numa
barraca de tbuas com telhado de zinco que eu prprio construi
com a ajuda de dois serventes. Tinha uma nica diviso, onde
arrumei os meus haveres, com um janelo em cada parede, para
fazer circular o ar quente do dia, fechados com postigos 
noite, quando soprava o vento glacial. Todo o meu mobilirio
consistia numa cadeira, uma cama de campanha, uma mesa
rstica, uma mquina de escrever e uma pesada caixa forte que
teve de ser levada no lombo de uma mula atravs do deserto,
onde eu guardava as jornas dos mineiros, alguns documentos e
uma pequena bolsa de lona em que brilhavam os pedacinhos de
ouro que representavam o fruto de tanto esforo. No era
cmoda, mas eu estava habituado  falta de comodidades. Nunca
havia tomado banho em gua quente e as recordaes que tinha
da infncia eram de frio, solido e um eterno vazio  no
estmago. Ali comi, dormi e escrevi durante anos, sem mais
distraces que uns quantos livros, lidos muitas vezes, uma
pilha de jornais j atrasados, textos em ingls, que me
serviram para aprender os rudimentos dessa magnifica lngua, e
um caixa com chave onde guardava a correspondncia que
mantinha com Rosa. Tinha-me acostumado a escrever-lhe 
mquina, com uma cpia que guardava para mim e que ordenava
por datas junto s poucas cartas que dela recebi. Comia o
mesmo rancho que se fazia para os mineiros e tinha proibido
que circulasse lcool dentro da mina. Nem o tinha em casa,
porque sempre pensei que a solido e o aborrecimento acabam
por fazer do homem um alcolico. Talvez a recordao que tenho
de meu pai, com o colarinho desabotoado, a gravata frouxa,
manchada, os olhos turvos e o hlito pesado, com um copo na
mo, tenha feito de mim um abstmio. No tenho boa cabea para
a bebida, embebedo-me com facilidade. Descobri isso aos
dezasseis anos e nunca mais o esqueci. Uma vez a minha neta
perguntou-me como consegui viver tanto tempo sozinho e to
afastado da civilizao. No sei. Porm, deve ter sido mais
fcil para mim do que para muitos outros, porque no sou uma
pessoa socivel, no tenho muitos amigos nem gosto de festas
nem de barulho, pelo contrrio, sinto-me melhor sozinho.
Custa-me muito tornar-me intimo das pessoas. Nesse tempo no
tinha ainda vivido com uma mulher e por isso no podia deitar
fora o que no conhecia. No era namoradeiro, nunca o fui, nem
sou de natureza fiel, apesar de bastar a sombra de um brao, a
curva de uma cintura, o redondo de um joelho de mulher para
que me venham ideias  cabea, ainda hoje, quando j estou to
velho que ao olhar-me ao espelho no me reconheo. Pareo uma
rvore torcida. No estou a querer justificar os meus pecados
da juventude com a histria de que no podia controlar o
mpeto dos meus desejos, nem mais ou menos. Nessa idade estava
acostumado s relaes sem futuro com mulheres de vida fcil,
j que no tinha possibilidade com outras. Na minha gerao
distinguamos entre as mulheres decentes e as outras e tambm
dividiam ~s as decentes em prprias e alheias. No pensava no
amor antes de conhecer Rosa, o romantismo afigurava-se-me
perigoso e intil e, se alguma vez gostei de alguma rapariga,
no me atrevi a aproximar-me dela com medo de ser repelido e
do ridculo. Fui muito orgulhoso e por causa do meu orgulho
sofri mais que outros.

Passou muito mais de meio sculo, mas ainda tenho gravado na
memria o momento preciso em que Rosa, a bela, entrou na minha
vida como um anjo distrado que ao passar me roubou a alma.
Ela ia com a Ama e outra criana, provavelmente alguma irm
mais nova. Creio que levava um vestido lils, mas no estou
certo disso, porque no tenho olhos para roupa de mulher e ela
era to formosa que mesmo que levasse uma capa de arminho eu
no podia ver seno o seu rosto. Habitualmente no tenho a
mania das mulheres, mas teria de ser tarado para no notar
essa apario que provocava um tumulto  com a sua passagem,
congestionando o trfego, com aquele incrvel cabelo verde que
lhe emoldurava a cara como um chapu de fantasia, o porte de
fada e aquela maneira de se mover como se voasse. Passou
diante de mim sem me ver e entrou flutuando na confeitaria da
Praa de Armas. Fiquei na rua, estupefacto, enquanto ela
comprava caramelos de anis, escolhendo-os um por um, com um
riso de cascavel, metendo uns na boca e dando outros  irm.
No fui o nico hipnotizado: em poucos minutos formou-se uma
multido de homens que espreitava pela montra. Ento no
resisti. No me ocorreu que estava muito longe de ser o
pretendente ideal para aquela jovem celestial, uma vez que no
tinha fortuna, estava longe de ser bom rapaz e tinha pela
frente um futuro incerto. E no a conhecia! Mas estava
deslumbrado e decidi nesse momento que ela era a nica mulher
digna de ser minha esposa e que, se eu a no pudesse ter,
preferia ficar solteiro. Segui-a todo o caminho de regresso a
casa. Subi para o mesmo elctrico e sentei-me atrs dela, sem
poder tirar os olhos da sua nuca perfeita, do pescoo redondo,
dos ombros suaves acariciados pelos caracis verdes que se
escapavam do penteado. No dei pelo movimento do elctrico,
porque ia com os meus sonhos. Quando deslizou pelo passeio e
passou ao meu lado as suas surpreendentes pupilas de ouro
detiveram-se um pouco nas minhas. Devo ter morrido um pouco.
No podia respirar e senti o pulso parar. Quando recuperei a
compostura, tive de saltar para o passeio, com risco de partir
algum osso, e corri em direco  rua que ela havia tomado.
Adivinhei onde vivia ao ver uma mancha lils esfumando-se por
um porto. Desde esse dia montei guarda em frente da casa,
passeando pelo quarteiro como co vadio, espiando, subornando
o jardineiro, metendo conversa com as criadas, at que
consegui falar com a Ama e essa santa mulher se compadeceu de
mim e aceitou fazer-lhe chegar as cartas de amor, as flores e
as incontveis caixas de caramelos de anis com que tentei
conquistar o seu corao. Tambm Ihe mandava acrsticos. No
sei fazer versos, mas havia um livreiro espanhol, que era um
gnio para a rima, a quem eu mandava fazer poemas, canes,
qualquer coisa cuja matria-prima fosse tinta e papel. A minha
irm Frula ajudou-me a aproximar da famlia del Valle,
descobrindo remotos parentescos entre os nossos apelidos e
procurando a oportunidade de nos cumprimentarmos  sada da
missa. Aconteceu assim que pude visitar Rosa. No dia em que
entrei na sua casa e a tive ao alcance da voz, no me veio
nada  cabea para dizer-lhe. Fiquei mudo, com o chapu na mo
e a boca aberta, at que os pais, que conheciam esses
sintomas, me ajudaram. No sei o que Rosa viu em mim, nem por
que razo, com o tempo, me aceitou para marido. Cheguei a ser
o seu noivo oficial sem ter de legalizar nenhuma proeza
sobrenatural porque, apesar da sua beleza inumana e das suas
inumerveis virtudes, Rosa no tinha pretendentes. A me
deu-me uma explicao:  disse-me que nenhum homem se sentia
suficientemente forte para passar a vida a defender Rosa do
desejo dos outros. Muitos tinham-na rondado, perdendo a razo
por causa dela, mas, at eu aparecer no horizonte, no se
tinha decidido por ningum. A sua beleza era de meter medo,
por isso admiravam-na de longe, sem se aproximarem. Nunca
pensei nisso, na verdade. O meu problema era que eu no tinha
nem um tosto, mas sentia-me capaz, por fora do amor, de
transformar-me num homem rico. Olhei  minha volta procurando
um caminho rpido, dentro dos limites da honestidade, em que
me tinham educado, e vi que para triunfar precisava de ter
padrinhos, estudos especiais ou qualquer capital. No era
bastante ter um apelido respeitvel. Suponho que, se tivesse
tido dinheiro para comear, teria apostado s cartas ou nos
cavalos, mas como no era o caso tive de pensar em trabalhar
em alguma coisa que, embora arriscada, pudesse dar-me fortuna.
As minas de ouro e de prata eram o sonho dos aventureiros;
podia afund-los na misria, mat-los de tuberculose ou
torn-los homens poderosos. Era tudo uma questo de sorte.
Obtive a concesso de uma mina no Norte com a ajuda do
prestigio do apelido da minha me, que serviu para que o Banco
me desse uma fiana. Decidi-me a explorar a mina at ao ltimo
grama de ouro, nem que para isso tivesse de espremer o cerro
com as prprias mos e moer as rochas a pontaps. Por Rosa
estava disposto a isso e a muito mais.

No fim de Outono, quando a famlia se tranquilizara a respeito
das intenes do padre Restrepo, que teve de acalmar a sua
vocao de inquisidor depois que o bispo em pessoa o advertiu
que deixasse em paz a pequena Clara del Valle, e quando todos
se tinham resignado  ideia de que o tio Marcos estava
realmente morto, comearam a concretizar-se os planos
polticos de Severo. Tinha trabalhado durante anos com esse
fim. Foi um triunfo para ele quando o convidaram a
apresentar-se com candidato do Partido Liberal nas eleies
parlamentares, em representao de uma provncia do Sul onde
nunca tinha estado e que nem se encontrava facilmente no mapa.
O partido estava muito necessitado e Severo muito ansioso por
ocupar um lugar, de modo que no tiveram dificuldade em
convencer os humildes eleitores do Sul a nomearem Severo como
seu candidato. O convite foi apoiado por um porco assado,
rosado e monumental, enviado pelos eleitores  casa da famlia
del Valle. Ia sobre uma grande bandeja de madeira, perfumado e
brilhante, com salsa no focinho e uma cenoura no rabo,
repousando num leito de tomates. Tinha uma costura na barriga
e dentro ia cheio de perdizes que por sua vez estavam cheias
de cerejas. Chegou acompanhado por uma garrafa com meio galo
da melhor aguardente do pais. A ideia de tornar-se deputado
ou, melhor ainda, senador, era um sonho largamente acarinhado
por Severo. Tinha levado as coisas at essa meta com um
minucioso trabalho de contactos,  amizades, concilibulos,
aparies pblicas discretas mas eficazes, dinheiro e favores
que fazia s pessoas adequadas no momento preciso. Aquela
provncia do Sul, ainda que remota e desconhecida, era do que
ele estava  espera.

O dia do porco foi uma tera-feira. Na sexta-feira, quando do
porco no restava mais que os coiratos e a pele que Barrabs
roa no ptio, Clara anunciou que haveria outro morto em casa:

-- Mas  um morto por engano -- disse.

No sbado, passara a noite mal disposta e acordou aos gritos.
A Ama deu-lhe um ch de tlia e ningum fez caso, porque
estavam ocupados com os preparativos da viagem ao Sul e porque
a bela Rosa tinha acordado com febre. Nvea deu ordens para
que deixassem ficar Rosa na cama, o doutor Cuevas disse que
no era nada de grave, que lhe dessem uma limonada morna bem
aucarada, com lcool para ela suar com a febre. Severo foi
ver a filha, encontrou-a afogueada e com os olhos brilhantes,
afundada nas rendas cor de manteiga dos lenis. Levou-lhe de
presente um carnet (1) de baile e autorizou a Ama a abrir a
garrafa de aguardente e deitar-lhe um pouco na limonada. Rosa
bebeu a limonada, embrulhou-se no xaile de l e adormeceu de
seguida ao lado de Clara, com quem partilhava o quarto. Na
manh do domingo trgico, a Ama levantou-se cedo como sempre.
Antes de ir  missa foi  cozinha preparar o pequeno almoo da
famlia. O fogo a lenha e carvo tinha ficado preparado de
vspera, e ela acendeu a fornalha com os restos das brasas
ainda mornas. Enquanto aquecia a gua e fervia o leite, foi
arrumando os pratos para os levar depois para a sala de
jantar. Comeou a cozer a aveia, a coar o caf, a torrar o
po. Arranjou as bandejas, uma para Nvea, que tomava sempre o
pequeno almoo na cama, e outra para Rosa que por estar doente
tinha direito ao mesmo. Cobriu a bandeja de Rosa com um
guardanapo de linho bordado pelas freiras, para o caf no
esfriar e no entrarem moscas, e espreitou o ptio para ter a
certeza de que Barrabs no estava perto. Tinha a mania de a
assaltar quando ela passava com o pequeno almoo. Ao v-lo
distrado com uma galinha, aproveitou para sair para a grande
viagem pelos ptios e corredores, desde a cozinha, ao fundo da
casa, at ao quarto das meninas, no outro extremo. Em frente
da porta de Rosa vacilou, apanhada pela fora do
pressentimento. Entrou no quarto sem se fazer anunciar, como
era seu costume, e notou que cheirava a rosas apesar de no
ser poca de tais flores. Ento a Ama soube que se tinha dado
uma desgraa irreparvel. Ps a bandeja na mesa de cabeceira
com cuidado e caminhou lentamente at  janela. Abriu as
pesadas cortinas e o sol da manh entrou no quarto. Voltou-se
angustiada e no ficou surpresa ao ver Rosa morta, mais bela
do que nunca, com o cabelo definitivamente verde, a pele cor
de marfim novo e os olhos 

(1) Em francs no texto (N. T.)

amarelos, abertos. Aos ps da cama estava a pequena Clara
observando a irm. A Ama ajoelhou-se junto da cama, pegou na
mo de Rosa e comeou a rezar. Ficou a rezar at que se ouviu
por toda a casa um terrvel lamento de barco perdido. Foi a
primeira e ltima vez que Barrabs teve voz. Uivou todo o dia
pela morta, at rebentar os nervos aos habitantes da casa e
aos vizinhos, que acudiram atrados por esse gemido de
naufrgio.

Ao doutor Cuevas bastou olhar o corpo de Rosa para saber que a
morte se devia a algo muito mais grave que uma febre de trazer
por casa. Comeou a pesquisar por todos os lados, inspeccionou
a cozinha, passou os dedos pelas caarolas, abriu os sacos de
farinha, os pacotes de acar, as caixas de frutas secas,
revolveu tudo e tudo deixou espalhado na sua passagem como se
fosse um furaco. Mexeu nas gavetas de Rosa, interrogou os
criados um por um, acusou a Ama at p-la fora de si e,
finalmente, as suas pesquisas conduziram-no  garrafa de
aguardente que inspeccionou sem hesitaes. No comunicou a
ningum as suas dvidas, mas levou a garrafa para o
laboratrio. Trs horas depois estava de volta com uma
expresso de horror que lhe transformava o rosto rubicundo de
fauno numa mscara plida que no o abandonou durante todo
esse caso terrvel. Dirigiu-se a Severo, agarrou-o por um
brao, chamou-o de parte:

-- Na aguardente havia suficiente veneno para rebentar um
touro --segredou-lhe. -- Mas para ter a certeza de que foi
isso que matou a menina tenho de fazer uma autpsia.

-- Quer dizer que a vai abrir? -- gemeu Severo.

-- No completamente. Na cabea no vou tocar, apenas no
aparelho digestivo -- explicou o doutor Cuevas.

Severo sentiu-se enfraquecer.

A essa hora Nvea estava esgotada de chorar, mas, quando soube
que pensavam levar a filha para a morgue, recuperou a energia
de repente. S se acalmou com o juramento de que levariam Rosa
directamente de casa para o Cemitrio Catlico. Ento
consentiu em tomar o calmante que o mdico lhe deu e dormiu
durante vinte horas. Ao anoitecer, Severo tratou dos
preparativos. Mandou os filhos para a cama e autorizou os
criados a retirarem-se mais cedo. Permitiu que Clara passasse
a noite no quarto da outra irm, porque a viu demasiado
impressionada com o sucedido. Depois de se apagarem as luzes e
da casa entrar no sossego, chegou o ajudante do doutor Cuevas,
um jovem mirrado e mope que entaramelava a voz. Ajudaram
Severo a transportar o corpo de Rosa para a cozinha e
colocaram-no com delicadeza sobre o mrmore onde a Ama
amassava o po e picava os legumes. Apesar da fora do seu
caracter, Severo no pde resistir no momento em que tiraram a
camisa de dormir da sua filha e apareceu a esplendorosa nudez
de sereia. Saiu cambaleando, bbado de dor e deixou-se cair no
salo chorando como uma criana.  Tambm o doutor Cuevas,
que tinha visto nascer Rosa e a conhecia como a palma da mo,
teve um sobressalto ao v-la sem roupa. O jovem ajudante, por
seu lado, comeou a dar impresso de cansado e continuou
ofegante pelos anos que se seguiram, cada vez que recordava a
viso incrvel de Rosa a dormir nua sobre a mesa da cozinha,
com os grandes cabelos caindo como uma cascata vegetal at ao
cho.

Enquanto eles trabalhavam no ofcio terrvel, a Ama, cansada
de chorar e de rezar, pressentindo que algo de estranho estava
acontecendo nos seus territrios do terceiro ptio,
levantou-se, embrulhou-se num xaile e saiu para dar uma volta
 casa. Viu luz na cozinha, mas as portas e os postigos das
janelas estavam fechados. Seguiu pelos corredores silenciosos
e gelados, atravessando os trs corpos da casa, at chegar ao
salo. Pela porta entreaberta viu o patro que se passeava com
ar desolado. O lume da chamin tinha-se apagado. A Ama entrou.

-- Onde est a menina Rosa? -- perguntou.

-- O doutor Cuevas est com ela, Ama. Fica aqui e bebe um copo
comigo -- suplicou Severo.

A Ama ficou de p com os braos cruzados apertando o xaile
contra o peito. Severo apontou-lhe o sof e ela aproximou-se
com timidez. Sentou-se a seu lado. Era a primeira vez que
estava to perto do patro desde que vivia naquela casa.
Severo encheu um clice de xerez para cada um e bebeu o seu de
um trago. Apertou a cabea com os dedos arrepelando os cabelos
e mastigando entre dentes uma incompreensvel e triste
ladainha. A Ama, que estava rigidamente na beira da cadeira,
descontraiu-se ao v-lo chorar. Estendeu a mo spera e com um
gesto automtico alisou-lhe o cabelo com a mesma carcia que
durante vinte anos tinha feito para consolar os filhos. Ele
levantou os olhos e observou a face sem idade, as mas do
rosto indgena, o carrapito negro, o amplo regao onde tinha
visto chorar e dormir todos os seus descendentes, e sentiu que
aquela mulher quente e generosa como a terra podia dar-lhe
consolo. Apoiou-lhe a testa na saia, aspirou o cheiro suave do
avental engomado e rompeu a soluar como uma criana, vertendo
todas as lgrimas que tinha aguentado na sua vida de homem. A
Ama caou-lhe as costas, deu-lhe palmadinhas de consolo,
falou-lhe a meia voz como fazia para adormecer os meninos,
cantou-lhe em sussurro as suas baladas de camponesa, at que
conseguiu tranquiliz-lo. Ficaram sentados muito juntos,
bebendo xerez, chorando de vez em quando e lembrando os bons
tempos em que Rosa corria pelo jardim surpreendendo as
borboletas, com a sua beleza de fundo de mar.

Na cozinha, o doutor Cuevas e o seu ajudante prepararam os
sinistros utenslios e os frascos malcheirosos, puseram
aventais de oleado, arregaaram as mangas e comearam a
esgravatar na intimidade da bela Rosa, at  provar, sem
lugar para dvidas, que a jovem tinha ingerido um dose
superlativa de veneno para ratazanas.

-- Isto estava destinado a Severo -- concluiu o doutor lavando
as mos no lava-loias.

O ajudante, demasiado emocionado pela formosura da morta, no
se resignava a deix-la cosida como um saco e sugeriu
arranj-la um pouco mais. Dedicaram-se ambos  tarefa de
preservar o corpo com unguentos e ench-lo com emplastros de
embalsamador. Trabalharam at s quatro da madrugada, hora em
que o doutor Cuevas se declarou vencido pelo cansao e pela
tristeza e saiu. Na cozinha ficou Rosa nas mos do ajudante,
que a lavou com uma esponja, tirando-lhe as manchas de sangue,
lhe vestiu a camisa bordada para tapar a costura que exibia
desde a garganta at ao sexo e lhe deu um jeito no cabelo.
Depois limpou os vestgios do seu trabalho.

O doutor Cuevas encontrou no salo Severo acompanhado pela
Ama, brio de pranto e xerez.

-- Est pronta -- disse. -- Arranjmo-la um pouco para que a
me a possa ver.

Explicou a Severo que as suas suspeitas eram fundadas e que no
estmago de sua filha tinha encontrado a mesma substancia
mortal que existia na aguardente oferecida. Ento Severo
recordou-se da previso de Clara e perdeu o resto da
compostura, incapaz de resignar-se  ideia de que a filha
tinha morrido em seu lugar. Caiu abatido, dizendo que era ele
o culpado, por ser ambicioso e fanfarro, que ningum o tinha
mandado meter-se na poltica, que estava muito melhor quando
era um simples advogado e pai de famlia, que renunciava
naquele momento e para sempre  maldita candidatura do Partido
Liberal, s suas pompas e obras, que esperava que nenhum dos
seus descendentes voltasse a misturar-se com a poltica, que
isso era um negcio de aldrabes e bandidos, at que o doutor
Cuevas teve d dele, acabando de o embebedar. O xerez pde
mais que a dor e a culpa. A Ama e o doutor levaram-no em
braos at ao quarto de dormir, despiram-no e meteram-no na
cama. Depois foram  cozinha, onde o ajudante acabava de
aprontar Rosa.

Nvea e Severo del Valle despertaram tarde na manh seguinte.

Os parentes tinham ornamentado a casa para os ritos da morte,
as cortinas estavam corridas, adornadas com crepes negros e ao
longo das paredes alinhavam-se as coroas de flores que enchiam
o ar com o seu aroma doce. Tinham feito uma cmara ardente na
sala de jantar. Sobre a grande mesa, coberta com um pano negro
de reflexos dourados, estava o caixo branco de Rosa com
rebites de prata. Doze velas amarelas em candelabros de bronze
iluminavam a jovem com luz difusa. Tinham-na vestido com o
vestido de noiva e posto a coroa de flores de laranjeira em
cera que guardava para o dia do casamento. 

Ao meio-dia comeou o desfile de familiares, amigos e
conhecidos a dar os psames e acompanhar os del Valle no seu
luto. Apresentaram-se em casa at os seus mais encarniados
inimigos polticos e a todos Severo del Valle observou
fixamente, procurando descobrir em cada par de olhos que via o
segredo do assassino, mas em todos, inclusive no presidente do
Partido Conservador, viu o mesmo pesar e a mesma inocncia.

Durante o velrio, os cavalheiros circulavam pelos sales e
corredores da casa, comentando em voz baixa os seus assuntos
de negcios. Mantinham silncio respeitoso quando se
aproximava algum da famlia. No momento de entrar na sala de
jantar e aproximar-se do atade, para olhar Rosa pela ltima
vez, todos estremeciam, porque a sua beleza no tinha seno
aumentado naquelas horas. As senhoras passavam ao salo onde
ordenaram em circulo as cadeiras da casa. Ali havia comodidade
para chorar  vontade, desabafando as prprias tristezas com o
bom pretexto da morte dos outros. O pranto era copioso, mas
digno e calado. Algumas murmuravam oraes em voz baixa. As
criadas da casa circulavam pelos sales e corredores
oferecendo chvenas de ch, clices de conhaque, lenos limpos
para as mulheres, bolos caseiros e pequenas compressas
embebidas em amonaco para as senhoras que sofriam de enjoos
pelo ambiente fechado, o cheiro das velas e a dor. Todas as
irms del Valle, menos Clara, que era ainda muito jovem,
estavam vestidas de negro rigoroso, sentadas ao redor da me
como uma roda de corvos. Nvea, que tinha chorado todas as
lgrimas, mantinha-se rgida na cadeira, sem um suspiro, sem
uma palavra e sem o alivio do amonaco porque lhe causava
alergias. Os visitantes que chegavam davam-lhe os psames.
Alguns beijavam-na em ambas as faces, outros abraavam-na
estreitamente por alguns segundos, mas ela dava a impresso de
no reconhecer nem os mais ntimos. Tinha visto morrer outros
filhos na primeira infncia ou ao nascer, mas nenhum lhe dera
a sensao de perda que tinha naquele momento.

Cada irmo despediu-se de Rosa com um beijo na testa gelada,
menos Clara que no quis aproximar-se da sala de jantar. No
insistiram porque conheciam a sua extrema sensibilidade e a
sua tendncia para caminhar sonmbula quando a imaginao se
lhe agitava. Ficou no jardim, de ccoras ao lado de Barrabs,
negando-se a comer ou a participar no velrio. S a Ama se
preocupou com ela e procurou consol-la, mas Clara mandou-a
embora.

Apesar das preocupaes que Severo tomou para abafar os
murmrios, a morte de Rosa foi um escndalo pblico. O doutor
Cuevas ofereceu a quem o quis ouvir a explicao perfeitamente
razovel de que a morte da jovem se devia, segundo ele, a uma
pneumonia fulminante. Mas corria o boato de que tinha sido
envenenada por engano, em lugar de seu pai. Os assassinatos
polticos eram desconhecidos no pais naquele tempo e o veneno,
em qualquer caso, era um recurso de mulheres, algo
desprestigiado e que no se usava  desde a poca colonial,
porque mesmo os crimes passionais resolviam-se cara a cara.
Elevou-se um clamor de protesto pelo atentado e, antes que
Severo o pudesse evitar, saiu a noticia publicada num jornal
da oposio, acusando veladamente a oligarquia e acrescentando
que os conservadores at eram capazes de fazer isso, porque
no podiam perdoar a Severo del Valle que, a despeito da sua
classe social, se tivesse passado para o grupo liberal. A
policia tentou seguir a pista da garrafa de aguardente, mas a
nica coisa que se apurou foi que no tinha a mesma origem que
o porco cheio de perdizes e que os eleitores do Sul no tinham
nada a ver com o assunto. A misteriosa garrafa foi encontrada
por casualidade junto da porta de servio da casa dos del
Valle no mesmo dia e  mesma hora da chegada do porco assado.
A cozinheira sups que fazia parte do mesmo presente. Nem o
zelo da policia nem as pequenas pesquisas que Severo realizou
por sua conta, por intermdio de um detective privado,
conseguiram descobrir os assassinos, e a sombra dessa vingana
pendente ficou presente em geraes posteriores. Foi o
primeiro dos muitos actos de violncia que marcaram o destino
da famlia.


Recordo-me perfeitamente. Esse dia tinha sido muito feliz para
mim porque tinha aparecido um novo veio, o abundante e
maravilhoso filo que eu tinha perseguido durante todo aquele
tempo de sacrifcio, de ausncia e de espera, e que poderia
representar a riqueza que eu desejava. Estava certo de que em
seis meses teria dinheiro suficiente para me casar e que
dentro de um ano poderia comear a considerar-me um homem
rico. Tive muita sorte, porque, no negcio de minas, eram mais
os que se arruinavam do que os que triunfavam, como estava
dizendo, escrevendo, a Rosa nessa tarde, to eufrico, to
impaciente que os dedos travavam-se-me nas teclas da velha
mquina, saindo palavras pegadas. Estava nisto quando ouvi na
porta as pancadas que me cortaram a respirao para sempre.
Era um arrieiro com um par de mulas que me trazia um telegrama
da povoao, enviado por minha irm Frula, e que anunciava a
morte de Rosa.

Tive de ler o pedao de papel trs vezes at compreender o
tamanho da minha desolao. A nica ideia que no me tinha
ocorrido era que Rosa fosse mortal. Sofri muito pensando que
ela, aborrecida por esperar por mim, decidisse casar-se com
outro, ou que nunca chegasse a aparecer o maldito filo que
pusesse uma fortuna nas minhas mos, ou que a mina se pudesse
desmoronar, esmagando-me como uma barata. Considerei todas
essas possibilidades e algumas mais, mas nunca a morte de
Rosa, apesar do meu proverbial pessimismo, que me faz sempre
esperar o pior. Senti que sem Rosa a vida no tinha
significado para mim. Esvaziei-me por dentro como um balo
picado, foi-se-me todo o entusiasmo. Fiquei sentado na cadeira
olhando o deserto pela  janela, quem sabe por quanto tempo,
at que lentamente a alma me voltou ao corpo. A minha primeira
reaco foi de clera. Dei murros nos frgeis tabiques de
madeira da casa at me sangrarem os ns das mos, rasguei em
mil pedaos as cartas, os desenhos de Rosa e as cpias das
minhas cartas que eu tinha guardado, meti  pressa nas malas a
minha roupa, os papis e a bolsinha de lona onde estava o ouro
e fui logo procurar o capataz para lhe entregar as jornas dos
trabalhadores e as chaves da cantina. O arrieiro ofereceu-se
para me acompanhar at ao comboio. Tivemos de viajar uma boa
parte da noite a cavalo, com mantas de Castela como nico
abafo contra a morrinha, avanando com lentido naquelas
solides interminveis onde s o instinto do meu guia dava
garantias de chegarmos ao destino, por no termos nenhum ponto
de referncia. A noite estava clara e estrelada, sentia o frio
trespassar-me os ossos, apertar-me as mos, entrando-me na
alma. Ia pensando em Rosa e desejando com veemncia irracional
que a sua morte no fosse verdade, pedindo ao cu com
desespero que tudo fosse engano ou que, reanimada pelo meu
amor, recuperasse a vida e se levantasse do seu leito de
morte, como Lzaro. Eu chorava por dentro, afundado na dor e
no gelo da noite, cuspindo blasfmias contra a mula que andava
to devagar, contra Frula, portadora de desgraas, contra
Rosa por ter morrido e contra Deus por o ter permitido, at
que comeou a amanhecer, vi desaparecer as estrelas e surgirem
as primeiras cores do nascer do Sol, tingindo de vermelho e
laranja a paisagem do Norte, e com a luz voltou-me algum
alento. Comecei a resignar-me pela minha desgraa e a pedir,
no j que ela ressuscitasse, mas apenas que eu conseguisse
chegar a tempo de a ver antes de ser enterrada. Apressmos o
passo e, uma hora mais tarde, o arrieiro despediu-se de mim na
minscula estao por onde o comboio de via reduzida unia o
mundo civilizado com aquele deserto onde passei dois anos.

Viajei mais de trinta horas sem parar nem para comer,
esquecido at da sede, mas consegui chegar a casa da famlia
del Valle antes do funeral. Dizem que entrei em casa coberto
de p, sem chapu, sujo e barbudo, com sede e furioso,
perguntando aos gritos pela minha noiva. A pequena Clara, que
ento era apenas uma menina magra e feia, veio ao meu encontro
quando entrei no ptio, pegou-me na mo e levou-me
silenciosamente  sala de jantar. Estava ali Rosa, entre as
pregas brancas de cetim no caixo branco, conservada intacta
trs dias depois de morrer, e mil vezes mais bela do que eu me
lembrava, porque Rosa na morte tinha-se transformado
subtilmente na sereia que sempre fora em segredo.

-- Maldita seja! Fugiu-me das mos! -- dizem que disse,
gritei, caindo de joelhos a seu lado, escandalizando os
parentes, porque ningum podia compreender a minha frustrao
por ter passado dois anos escavando a terra para me tornar
rico, com o nico propsito de levar um dia a jovem ao altar,
e  por fim a morte tinha-ma roubado. Momentos depois chegou
a carreta, enorme, negra e reluzente, puxada por seis cavalos
com penacho, como se usava ento, e conduzida por dois
cocheiros de libr. Saiu de casa a meio da tarde, debaixo de
chuvisco fraco, seguida de uma procisso de carros que levavam
os parentes, os amigos e as coroas de flores. Por costume, as
mulheres e as crianas no assistiam aos enterros, isso era
assunto de homens, mas Clara conseguiu  ltima da hora
misturar-se com o cortejo, para acompanhar a irm Rosa. Senti
a sua mozinha enluvada agarrada  minha e durante todo o
trajecto tive-a a meu lado, pequena sombra silenciosa, que
originava uma ternura desconhecida na minha alma. Nesse
momento, eu nem dei conta que Clara no tinha pronunciado uma
s palavra em dois dias, e passariam mais trs antes que a
famlia se alarmasse pelo seu silncio.

Severo del Valle e os filhos mais velhos levaram aos ombros o
atade branco de Rosa com rebites de prata, e eles prprios o
colocaram no nicho aberto do mausolu. Iam de luto,
silenciosos e sem lgrimas, como corresponde s normas de
tristeza num pais habituado  dignidade da dor. Depois de
fechadas as portas do tmulo e de se terem retirado os
parentes, os amigos e os coveiros, fiquei ali, parado, entre
as flores que escaparam s dentadas de Barrabs e acompanharam
Rosa ao cemitrio. Devo ter parecido um pssaro de Inverno,
com a aba do casaco abanando ao vento, alto e fraco, como eu
era nesse tempo, antes de se cumprir a maldio de Frula e
comear a encolher. O cu estava cinzento ameaando chuva.
Suponho que fazia frio, mas julgo que o no sentia, porque a
raiva consumia-me. No podia despregar os olhos do pequeno
rectngulo de mrmore onde tinham gravado o nome de Rosa, a
bela, e as datas que limitavam a sua curta passagem por este
mundo, em altas letras gticas. Pensava que tinha perdido dois
anos a sonhar com Rosa, a trabalhar para Rosa, a escrever a
Rosa, a desejar Rosa e que no fim de tudo nem sequer tinha a
consolao de ser enterrado a seu lado. Pensei nos anos que
tinha para viver e cheguei  concluso de que sem ela no
valia a pena, porque nunca iria encontrar em todo o universo
outra mulher com o cabelo verde e a sua formosura marinha. Se
me tivessem dito que ia viver mais de noventa anos teria
metido um balzio na cabea. No ouvi os passos do guarda do
cemitrio, que se aproximou por detrs de mim. Por isso
surpreendi-me quando me tocou no ombro:

-- Como se atreve a tocar-me? -- rugi.

Recuou assustado, o pobre homem. Algumas gotas de chuva
molhavam tristemente as flores dos mortos.

-- Desculpe, cavalheiro, so seis horas e tenho de fechar --
julgo que me disse.

Tentou explicar-me que o regulamento proibia que pessoas
estranhas ao pessoal do cemitrio permanecessem no recinto
depois do pr do Sol, mas  no o deixei acabar, meti-lhe
algumas notas na mo e empurrei-o para que se fosse embora e
me deixasse em paz. Vi-o afastar-se olhando-me por cima do
ombro. Deve ter pensado que eu era um louco, um desses
dementes necrfilos que por vezes rondam os cemitrios.

Foi uma longa noite, talvez a mais longa noite da minha vida.
Passei-a sentado junto do tmulo de Rosa, falando com ela,
acompanhando-a na primeira parte da sua viagem ao Mais-Alm,
quando  mais difcil desprendermo-nos da terra e se necessita
do amor dos que ficam vivos, para ir pelo menos com o consolo
de ter semeado alguma coisa no corao dos outros. Recordava o
seu rosto perfeito e maldizia a minha sorte. Fiz notar a Rosa
os anos que passei metido num buraco na mina, sonhando com
ela. No lhe disse que no tinha visto mais mulheres em todo
esse tempo, alm de miserveis prostitutas envelhecidas e
gastas, que serviam todo o acampamento com mais boa vontade do
que mrito. Mas disse-lhe que tinha vivido entre homens rudes
e sem lei, comendo gro-de-bico e bebendo gua limosa, longe
da civilizao, pensando nela noite e dia, levando na alma a
sua imagem como um estandarte que me dava foras para
continuar picando a montanha, mesmo que desaparecesse o veio,
doente do estmago a maior parte do ano, gelado de frio 
noite e alucinado pelo calor durante o dia, tudo isso com o
nico fim de me casar com ela e eis que ela se vai embora e me
morre  traio, antes que eu pudesse cumprir os meus sonhos,
deixando-me uma desolao miservel. Disse-lhe que ela me
tinha enganado, atirei-lhe  cara que nunca tnhamos estado
completamente ss, que s a tinha podido beijar uma vez. Tinha
mantido o amor com recordaes e desejos compensadores, mas
impossveis de satisfazer, com cartas atrasadas e desbotadas
que no podiam reflectir os meus sentimentos nem a dor da sua
ausncia, porque no tenho facilidade para o gnero epistolar
e muito menos para escrever sobre as minhas emoes. Disse-lhe
que esses anos na mina tinham sido uma perda irremedivel, que
se eu tivesse sabido que ela ia durar to pouco neste mundo
teria roubado o dinheiro necessrio para casar com ela e
construir um palcio ornamentado com tesouros do fundo do mar:
corais, prolas, ncar, onde a teria mantido sequestrada e
onde s eu tivesse acesso. T-la-ia amado sem parar por um
tempo quase infinito, porque estava certo de que se ela
tivesse estado ao p de mim no teria bebido o veneno
destinado a seu pai e teria durado mil anos. Falei-lhe das
caricias que tinha reservadas para ela, dos presentes com que
lhe iria fazer surpresa, da forma como a teria tornado
enamorada e feliz.

Nessa noite acreditei que tinha perdido para sempre a
capacidade de me apaixonar, que nunca mais podia rir-me nem
perseguir uma iluso. Mas nunca mais  muito tempo. Tirei a
prova disso ao longo da vida. Vi a raiva crescer dentro de mim
como um tumor maligno, manchando as melhores  horas da minha
existncia, incapacitando-me para a ternura ou para a
clemncia. Mas, acima da confuso e da ira, o sentimento mais
forte que me lembro ter tido nessa noite foi o desejo
frustrado, porque jamais poderia realizar o desejo de afagar
Rosa com as mos, de penetrar nos seus segredos, de soltar o
verde manancial do seu cabelo e afundar-me nas suas guas mais
profundas. Evoquei com desespero a ltima imagem que tinha
dela, recortada entre as pregas de cetim do seu atade
virginal, com a flor de laranjeira de noiva coroando-lhe a
cabea e um rosrio entre os dedos. No sabia que assim mesmo,
com a flor de laranjeira e o rosrio, tornaria a v-la por um
instante fugaz muitos anos mais tarde.

Com as primeiras luzes do amanhecer, o guarda voltou. Deve ter
sentido pena por aquele louco semicongelado que tinha passado
a noite entre os lvidos fantasmas do cemitrio e estendeu-me
o cantil:

--  ch quente. Beba um pouco, senhor -- ofereceu-me.

Mas eu repeli-o com um empurro e afastei-me, rogando pragas,
a grandes passadas raivosas por entre as fileiras de tumbas e
ciprestes.


Na noite em que o doutor Cuevas e o seu ajudante estriparam o
cadver de Rosa na cozinha, para descobrir a causa da sua
morte, Clara estava na cama com os olhos abertos, tremendo no
escuro. Tinha a terrvel dvida de que a irm morrera porque
ela o tinha dito. Acreditava que, assim como a fora da sua
mente podia mover o saleiro, igualmente podia ser a causa das
mortes, dos tremores de terra e de outras desgraas maiores. A
me tinha-lhe explicado em vo que ela no podia provocar os
acontecimentos, apenas os podia ver com alguma antecipao.
Sentia-se desolada e culpada, e pensou que se pudesse estar
com Rosa sentir-se-ia melhor. Levantou-se descala, em camisa,
e entrou no quarto de dormir que tinha compartilhado com a
irm mais velha, mas no a encontrou na cama, onde a tinha
visto pela ltima vez. Saiu para a procurar pela casa. Tudo
estava escuro e silencio o. A me dormia drogada pelo doutor
Cuevas, e os irmos e os criados tinham-se retirado mais cedo
para os seus quartos. Percorreu os sales, deslizando agarrada
s paredes, assustada e gelada. Os mveis pesados, as grossas
cortinas drapejadas, os quadros nas paredes, o papel com as
suas flores pintadas sobre pano escuro, os candeeiros apagados
oscilando nos tectos e os matagais de fetos sobre colunas de
loia pareceram-lhe ameaadores. Notou que no salo brilhava
um pouco de luz por uma frincha debaixo da porta. Esteve vai
no vai para entrar, mas receou encontrar o pai e que ele a
mandasse de volta para a cama. Dirigiu-se ento para a
cozinha, pensando que no peito da Ama encontraria aconchego.
Cruzou o ptio principal, entre as camlias e as laranjeiras
ans, atravessou os sales do segundo corpo da casa e os
sombrios corredores abertos, onde as  luzes tnues dos
candeeiros a gs ficavam acesas toda a noite, a oscilar
durante os tremores de terra e a espantar os morcegos e outros
bichos nocturnos, e chegou ao terceiro ptio, onde estavam as
dependncias de servio e as cozinhas. Ali, a casa perdia o
aspecto senhorial, comeava a desordem dos canis, dos
galinheiros e os quartos dos serviais. Mais para a frente
estava a cavalaria, onde se guardavam os velhos cavalos que
Nvea ainda usava, apesar de Severo del Valle ter sido um dos
primeiros a comprar um automvel. A porta e os postigos da
cozinha e o reposteiro estavam fechados. O instinto advertiu
Clara de que algo de anormal se estava a passar l dentro;
tratou de espreitar, mas o nariz no Ihe chegava ao peitoril
da janela e teve de arrastar um caixote e encost-lo  parede;
trepou e pde olhar por um buraco entre o postigo de madeira e
o peitoril da janela que a humidade e o tempo tinham
deformado. E foi ento que viu o interior.

O doutor Cuevas, esse homem grande, bonacheiro e doce, de
farta barba e ventre opulento, que a ajudara a nascer e a
tratara em todas as doenas da infncia e ataques de asma,
tinha-se transformado num vampiro gordo e escuro como os das
ilustraes do tio Marcos. Estava inclinado sobre a mesa onde
a Ama preparava a comida. A seu lado estava um jovem
desconhecido, plido como a lua, com a camisa manchada de
sangue e os olhos perdidos de amor. Viu as pernas branquinhas
de sua irm e os seus ps nus. Clara comeou a tremer. Nesse
momento, o doutor Cuevas afastou-se e ela pde ver o horrendo
espectculo de Rosa estendida de costas, sobre o mrmore,
aberta de alto a baixo por um golpe profundo, com os
intestinos postos ao lado dentro da saladeira. Rosa tinha a
cabea virada em direco  janela de onde ela estava
espiando, e o seu cabelo verde compridssimo caia como um feto
da mesa at aos azulejos do cho, manchados de vermelho. Tinha
os olhos fechados, mas a menina, por efeito das sombras, da
distncia e da imaginao, julgou ver-lhe uma expresso
suplicante e humilhada.

Clara, imvel sobre o caixote, no pde deixar de olhar at ao
fim. Ficou espreitando pela frincha muito tempo, arrefecendo
sem dar por isso, at que os dois homens acabaram de esvaziar
Rosa, de injectar-lhe lquidos nas veias e banh-la por dentro
e por fora com vinagre aromtico e essncia de alfazema. Ficou
ali at que a encheram de emplastros de embalsamador e a
coseram com uma agulha de colchoeiro. Ficou at que o doutor
Cuevas se lavou no lava-loias e enxugou as lgrimas, enquanto
o outro limpava o sangue e as vsceras. Ficou at que o mdico
saiu, vestindo o casaco negro com um gesto de tristeza mortal.
Ficou at que o jovem desconhecido beijou Rosa nos lbios, no
pescoo, nos seios, entre as pernas, a lavou com uma esponja,
lhe vestiu a camisa bordada e lhe ajeitou o cabelo, arquejando
de cansao. Ficou at que o ajudante a carregou nos braos com
a mesma ternura comovente que teria tido ao pegar-lhe ao colo
para passar pela primeira vez a porta de uma casa, se 
tivesse sido sua noiva. E no conseguiu mover-se at
aparecerem as primeiras luzes. Ento deslizou at  cama,
sentindo por dentro todo o silncio do mundo. O silncio
encheu-a por inteiro e no tornou a falar durante nove anos,
at puxar da voz para anunciar que se ia casar.
Recordo-me perfeitamente. Esse dia tinha sido muito feliz para
mim porque tinha aparecido um novo veio, o abundante e
maravilhoso filo que eu tinha perseguido durante
todo aquele tempo de sacrifcio, de ausncia e de espera, e
que poderia representar a riqueza que eu desejava. Estava
certo de que em seis meses teria dinheiro suficiente
para me casar e que dentro de um ano poderia comear a
considerar-me um homem rico. Tive muita sorte, porque, no
negcio de minas, eram mais os que se arruinavam
do que os que triunfavam, como estava dizendo, escrevendo, a
Rosa nessa tarde, to eufrico, to impaciente que os dedos
travavam-se-me nas teclas da velha mquina,
saindo palavras pegadas. Estava nisto quando ouvi na porta as
pancadas que me cortaram a respirao para sempre. Era um
arrieiro com um par de mulas que me trazia
um telegrama da povoao, enviado por minha irm Frula, e que
anunciava a morte de Rosa.

Tive de ler o pedao de papel trs vezes at compreender o
tamanho da minha desolao. A nica ideia que no me tinha
ocorrido era que Rosa fosse mortal. Sofri muito
pensando que ela, aborrecida por esperar por mim, decidisse
casar-se com outro, ou que nunca chegasse a aparecer o maldito
filo que pusesse uma fortuna nas minhas
mos, ou que a mina se pudesse desmoronar, esmagando-me como
uma barata. Considerei todas essas possibilidades e algumas
mais, mas nunca a morte de Rosa, apesar
do meu proverbial pessimismo, que me faz sempre esperar o
pior. Senti que sem Rosa a vida no tinha significado para
mim. Esvaziei-me por dentro como um balo picado,
foi-se-me todo o entusiasmo. Fiquei sentado na cadeira olhando
o deserto pela  janela, quem sabe por quanto tempo, at que
lentamente a alma me voltou ao corpo.
A minha primeira reaco foi de clera. Dei murros nos frgeis
tabiques de madeira da casa at me sangrarem os ns das mos,
rasguei em mil pedaos as cartas, os
desenhos de Rosa e as cpias das minhas cartas que eu tinha
guardado, meti  pressa nas malas a minha roupa, os papis e a
bolsinha de lona onde estava o ouro e
fui logo procurar o capataz para lhe entregar as jornas dos
trabalhadores e as chaves da cantina. O arrieiro ofereceu-se
para me acompanhar at ao comboio. Tivemos
de viajar uma boa parte da noite a cavalo, com mantas de
Castela como nico abafo contra a morrinha, avanando com
lentido naquelas solides interminveis onde
s o instinto do meu guia dava garantias de chegarmos ao
destino, por no termos nenhum ponto de referncia. A noite
estava clara e estrelada, sentia o frio trespassar-me
os ossos, apertar-me as mos, entrando-me na alma. Ia pensando
em Rosa e desejando com veemncia irracional que a sua morte
no fosse verdade, pedindo ao cu com
desespero que tudo fosse engano ou que, reanimada pelo meu
amor, recuperasse a vida e se levantasse do seu leito de
morte, como Lzaro. Eu chorava por dentro, afundado
na dor e no gelo da noite, cuspindo blasfmias contra a mula
que andava to devagar, contra Frula, portadora de desgraas,
contra Rosa por ter morrido e contra
Deus por o ter permitido, at que comeou a amanhecer, vi
desaparecer as estrelas e surgirem as primeiras cores do
nascer do Sol, tingindo de vermelho e laranja
a paisagem do Norte, e com a luz voltou-me algum alento.
Comecei a resignar-me pela minha desgraa e a pedir, no j
que ela ressuscitasse, mas apenas que eu conseguisse
chegar a tempo de a ver antes de ser enterrada. Apressmos o
passo e, uma hora mais tarde, o arrieiro despediu-se de mim na
minscula estao por onde o comboio
de via reduzida unia o mundo civilizado com aquele deserto
onde passei dois anos.

Viajei mais de trinta horas sem parar nem para comer,
esquecido at da sede, mas consegui chegar a casa da famlia
del Valle antes do funeral. Dizem que entrei em
casa coberto de p, sem chapu, sujo e barbudo, com sede e
furioso, perguntando aos gritos pela minha noiva. A pequena
Clara, que ento era apenas uma menina magra
e feia, veio ao meu encontro quando entrei no ptio, pegou-me
na mo e levou-me silenciosamente  sala de jantar. Estava ali
Rosa, entre as pregas brancas de cetim 
no caixo branco, conservada intacta trs dias depois de
morrer, e mil vezes mais bela do que eu me lembrava, porque
Rosa na morte tinha-se transformado subtilmente 
na sereia que sempre fora em segredo.

-- Maldita seja! Fugiu-me das mos! -- dizem que disse,
gritei, caindo de joelhos a seu lado, escandalizando os
parentes, porque ningum podia compreender a minha 
frustrao por ter passado dois anos escavando a terra para me
tornar rico, com o nico propsito de levar um dia a jovem ao
altar, e  por fim a morte tinha-ma 
roubado. Momentos depois chegou a carreta, enorme, negra e
reluzente, puxada por seis cavalos com penacho, como se usava
ento, e conduzida por dois cocheiros de 
libr. Saiu de casa a meio da tarde, debaixo de chuvisco
fraco, seguida de uma procisso de carros que levavam os
parentes, os amigos e as coroas de flores. Por 
costume, as mulheres e as crianas no assistiam aos enterros,
isso era assunto de homens, mas Clara conseguiu  ltima da
hora misturar-se com o cortejo, para acompanhar 
a irm Rosa. Senti a sua mozinha enluvada agarrada  minha e
durante todo o trajecto tive-a a meu lado, pequena sombra
silenciosa, que originava uma ternura desconhecida 
na minha alma. Nesse momento, eu nem dei conta que Clara no
tinha pronunciado uma s palavra em dois dias, e passariam
mais trs antes que a famlia se alarmasse 
pelo seu silncio.

Severo del Valle e os filhos mais velhos levaram aos ombros o
atade branco de Rosa com rebites de prata, e eles prprios o
colocaram no nicho aberto do mausolu. 
Iam de luto, silenciosos e sem lgrimas, como corresponde s
normas de tristeza num pais habituado  dignidade da dor.
Depois de fechadas as portas do tmulo e de 
se terem retirado os parentes, os amigos e os coveiros, fiquei
ali, parado, entre as flores que escaparam s dentadas de
Barrabs e acompanharam Rosa ao cemitrio. 
Devo ter parecido um pssaro de Inverno, com a aba do casaco
abanando ao vento, alto e fraco, como eu era nesse tempo,
antes de se cumprir a maldio de Frula e 
comear a encolher. O cu estava cinzento ameaando chuva.
Suponho que fazia frio, mas julgo que o no sentia, porque a
raiva consumia-me. No podia despregar os 
olhos do pequeno rectngulo de mrmore onde tinham gravado o
nome de Rosa, a bela, e as datas que limitavam a sua curta
passagem por este mundo, em altas letras 
gticas. Pensava que tinha perdido dois anos a sonhar com
Rosa, a trabalhar para Rosa, a escrever a Rosa, a desejar Rosa
e que no fim de tudo nem sequer tinha a 
consolao de ser enterrado a seu lado. Pensei nos anos que
tinha para viver e cheguei  concluso de que sem ela no
valia a pena, porque nunca iria encontrar em 
todo o universo outra mulher com o cabelo verde e a sua
formosura marinha. Se me tivessem dito que ia viver mais de
noventa anos teria metido um balzio na cabea. 
No ouvi os passos do guarda do cemitrio, que se aproximou
por detrs de mim. Por isso surpreendi-me quando me tocou no
ombro:

-- Como se atreve a tocar-me? -- rugi.

Recuou assustado, o pobre homem. Algumas gotas de chuva
molhavam tristemente as flores dos mortos.

-- Desculpe, cavalheiro, so seis horas e tenho de fechar --
julgo que me disse.

Tentou explicar-me que o regulamento proibia que pessoas
estranhas ao pessoal do cemitrio permanecessem no recinto
depois do pr do Sol, mas  no o deixei acabar, 
meti-lhe algumas notas na mo e empurrei-o para que se fosse
embora e me deixasse em paz. Vi-o afastar-se olhando-me por
cima do ombro. Deve ter pensado que eu era 
um louco, um desses dementes necrfilos que por vezes rondam
os cemitrios.

Foi uma longa noite, talvez a mais longa noite da minha vida.
Passei-a sentado junto do tmulo de Rosa, falando com ela,
acompanhando-a na primeira parte da sua 
viagem ao Mais-Alm, quando  mais difcil desprendermo-nos da
terra e se necessita do amor dos que ficam vivos, para ir pelo
menos com o consolo de ter semeado 
alguma coisa no corao dos outros. Recordava o seu rosto
perfeito e maldizia a minha sorte. Fiz notar a Rosa os anos
que passei metido num buraco na mina, sonhando 
com ela. No lhe disse que no tinha visto mais mulheres em
todo esse tempo, alm de miserveis prostitutas envelhecidas e
gastas, que serviam todo o acampamento 
com mais boa vontade do que mrito. Mas disse-lhe que tinha
vivido entre homens rudes e sem lei, comendo gro-de-bico e
bebendo gua limosa, longe da civilizao, 
pensando nela noite e dia, levando na alma a sua imagem como
um estandarte que me dava foras para continuar picando a
montanha, mesmo que desaparecesse o veio, 
doente do estmago a maior parte do ano, gelado de frio 
noite e alucinado pelo calor durante o dia, tudo isso com o
nico fim de me casar com ela e eis que ela 
se vai embora e me morre  traio, antes que eu pudesse
cumprir os meus sonhos, deixando-me uma desolao miservel.
Disse-lhe que ela me tinha enganado, atirei-lhe 
 cara que nunca tnhamos estado completamente ss, que s a
tinha podido beijar uma vez. Tinha mantido o amor com
recordaes e desejos compensadores, mas impossveis 
de satisfazer, com cartas atrasadas e desbotadas que no
podiam reflectir os meus sentimentos nem a dor da sua
ausncia, porque no tenho facilidade para o gnero 
epistolar e muito menos para escrever sobre as minhas emoes.
Disse-lhe que esses anos na mina tinham sido uma perda
irremedivel, que se eu tivesse sabido que 
ela ia durar to pouco neste mundo teria roubado o dinheiro
necessrio para casar com ela e construir um palcio
ornamentado com tesouros do fundo do mar: corais, 
prolas, ncar, onde a teria mantido sequestrada e onde s eu
tivesse acesso. T-la-ia amado sem parar por um tempo quase
infinito, porque estava certo de que se 
ela tivesse estado ao p de mim no teria bebido o veneno
destinado a seu pai e teria durado mil anos. Falei-lhe das
caricias que tinha reservadas para ela, dos 
presentes com que lhe iria fazer surpresa, da forma como a
teria tornado enamorada e feliz.

Nessa noite acreditei que tinha perdido para sempre a
capacidade de me apaixonar, que nunca mais podia rir-me nem
perseguir uma iluso. Mas nunca mais  muito tempo. 
Tirei a prova disso ao longo da vida. Vi a raiva crescer
dentro de mim como um tumor maligno, manchando as melhores 
horas da minha existncia, incapacitando-me 
para a ternura ou para a clemncia. Mas, acima da confuso e
da ira, o sentimento mais forte que me lembro ter tido nessa
noite foi o desejo frustrado, porque jamais 
poderia realizar o desejo de afagar Rosa com as mos, de
penetrar nos seus segredos, de soltar o verde manancial do seu
cabelo e afundar-me nas suas guas mais profundas. 
Evoquei com desespero a ltima imagem que tinha dela,
recortada entre as pregas de cetim do seu atade virginal, com
a flor de laranjeira de noiva coroando-lhe a 
cabea e um rosrio entre os dedos. No sabia que assim mesmo,
com a flor de laranjeira e o rosrio, tornaria a v-la por um
instante fugaz muitos anos mais tarde.

Com as primeiras luzes do amanhecer, o guarda voltou. Deve ter
sentido pena por aquele louco semicongelado que tinha passado
a noite entre os lvidos fantasmas do 
cemitrio e estendeu-me o cantil:

--  ch quente. Beba um pouco, senhor -- ofereceu-me.

Mas eu repeli-o com um empurro e afastei-me, rogando pragas,
a grandes passadas raivosas por entre as fileiras de tumbas e
ciprestes.


Na noite em que o doutor Cuevas e o seu ajudante estriparam o
cadver de Rosa na cozinha, para descobrir a causa da sua
morte, Clara estava na cama com os olhos 
abertos, tremendo no escuro. Tinha a terrvel dvida de que a
irm morrera porque ela o tinha dito. Acreditava que, assim
como a fora da sua mente podia mover o 
saleiro, igualmente podia ser a causa das mortes, dos tremores
de terra e de outras desgraas maiores. A me tinha-lhe
explicado em vo que ela no podia provocar 
os acontecimentos, apenas os podia ver com alguma antecipao.
Sentia-se desolada e culpada, e pensou que se pudesse estar
com Rosa sentir-se-ia melhor. Levantou-se 
descala, em camisa, e entrou no quarto de dormir que tinha
compartilhado com a irm mais velha, mas no a encontrou na
cama, onde a tinha visto pela ltima vez. 
Saiu para a procurar pela casa. Tudo estava escuro e silencio
o. A me dormia drogada pelo doutor Cuevas, e os irmos e os
criados tinham-se retirado mais cedo para 
os seus quartos. Percorreu os sales, deslizando agarrada s
paredes, assustada e gelada. Os mveis pesados, as grossas
cortinas drapejadas, os quadros nas paredes, 
o papel com as suas flores pintadas sobre pano escuro, os
candeeiros apagados oscilando nos tectos e os matagais de
fetos sobre colunas de loia pareceram-lhe ameaadores. 
Notou que no salo brilhava um pouco de luz por uma frincha
debaixo da porta. Esteve vai no vai para entrar, mas receou
encontrar o pai e que ele a mandasse de 
volta para a cama. Dirigiu-se ento para a cozinha, pensando
que no peito da Ama encontraria aconchego. Cruzou o ptio
principal, entre as camlias e as laranjeiras 
ans, atravessou os sales do segundo corpo da casa e os
sombrios corredores abertos, onde as  luzes tnues dos
candeeiros a gs ficavam acesas toda a noite, a 
oscilar durante os tremores de terra e a espantar os morcegos
e outros bichos nocturnos, e chegou ao terceiro ptio, onde
estavam as dependncias de servio e as 
cozinhas. Ali, a casa perdia o aspecto senhorial, comeava a
desordem dos canis, dos galinheiros e os quartos dos
serviais. Mais para a frente estava a cavalaria, 
onde se guardavam os velhos cavalos que Nvea ainda usava,
apesar de Severo del Valle ter sido um dos primeiros a comprar
um automvel. A porta e os postigos da 
cozinha e o reposteiro estavam fechados. O instinto advertiu
Clara de que algo de anormal se estava a passar l dentro;
tratou de espreitar, mas o nariz no lhe 
chegava ao peitoril da janela e teve de arrastar um caixote e
encost-lo  parede; trepou e pde olhar por um buraco entre o
postigo de madeira e o peitoril da janela 
que a humidade e o tempo tinham deformado. E foi ento que viu
o interior.

O doutor Cuevas, esse homem grande, bonacheiro e doce, de
farta barba e ventre opulento, que a ajudara a nascer e a
tratara em todas as doenas da infncia e ataques 
de asma, tinha-se transformado num vampiro gordo e escuro como
os das ilustraes do tio Marcos. Estava inclinado sobre a
mesa onde a Ama preparava a comida. A seu 
lado estava um jovem desconhecido, plido como a lua, com a
camisa manchada de sangue e os olhos perdidos de amor. Viu as
pernas branquinhas de sua irm e os seus 
ps nus. Clara comeou a tremer. Nesse momento, o doutor
Cuevas afastou-se e ela pde ver o horrendo espectculo de
Rosa estendida de costas, sobre o mrmore, aberta 
de alto a baixo por um golpe profundo, com os intestinos
postos ao lado dentro da saladeira. Rosa tinha a cabea virada
em direco  janela de onde ela estava espiando, 
e o seu cabelo verde compridssimo caia como um feto da mesa
at aos azulejos do cho, manchados de vermelho. Tinha os
olhos fechados, mas a menina, por efeito das 
sombras, da distncia e da imaginao, julgou ver-lhe uma
expresso suplicante e humilhada.

Clara, imvel sobre o caixote, no pde deixar de olhar at ao
fim. Ficou espreitando pela frincha muito tempo, arrefecendo
sem dar por isso, at que os dois homens 
acabaram de esvaziar Rosa, de injectar-lhe lquidos nas veias
e banh-la por dentro e por fora com vinagre aromtico e
essncia de alfazema. Ficou ali at que a 
encheram de emplastros de embalsamador e a coseram com uma
agulha de colchoeiro. Ficou at que o doutor Cuevas se lavou
no lava-loias e enxugou as lgrimas, enquanto 
o outro limpava o sangue e as vsceras. Ficou at que o mdico
saiu, vestindo o casaco negro com um gesto de tristeza mortal.
Ficou at que o jovem desconhecido 
beijou Rosa nos lbios, no pescoo, nos seios, entre as
pernas, a lavou com uma esponja, lhe vestiu a camisa bordada e
lhe ajeitou o cabelo, arquejando de cansao. 
Ficou at que o ajudante a carregou nos braos com a mesma
ternura comovente que teria tido ao pegar-lhe ao colo para
passar pela primeira vez a porta de uma casa, 
se  tivesse sido sua noiva. E no conseguiu mover-se at
aparecerem as primeiras luzes. Ento deslizou at  cama,
sentindo por dentro todo o silncio do mundo. 
O silncio encheu-a por inteiro e no tornou a falar durante
nove anos, at puxar da voz para anunciar que se ia casar.


Captulo II

Las Tres Marias

Na sala de jantar da casa, entre mveis antiquados e
maltratados que num passado longnquo tinham sido boas peas
vitorianas, Esteban Trueba jantava com a irm Frula 
a mesma sopa gordurosa de todos os dias e o mesmo peixe
inspido de todas as sextas-feiras. Eram servidos por uma
criada que os tinha atendido toda a vida, na tradio 
dos escravos pagos desse tempo. A velha ia e vinha entre a
cozinha e a sala, curvada e meio cega, mas ainda enrgica,
levando e trazendo as travessas com ar solene. 
Dona Ester Trueba no acompanhava os filhos  mesa. Passava as
manhs imvel na cadeira, olhando pela janela o movimento da
rua, vendo como o decorrer dos anos ia 
deteriorando o bairro que na sua juventude tinha sido
distinto. Depois do almoo, mudavam-na para a cama,
instalando-a de modo a que pudesse estar meio sentada, 
nica posio que a artrite lhe permitia, sem mais companhia
que as leituras beatas dos seus livrinhos pios de vidas e
milagres dos santos. Ficava ali at ao dia 
seguinte, em que tornava a repetir-se a mesma rotina. A sua
nica sada  rua era para assistir  missa do domingo na
Igreja de So Sebastio, a dois passos da casa, 
onde Frula e a criada a levavam na cadeira de rodas.

Esteban acabou de esgravatar no peixe esbranquiado entre o
emaranhado de espinhas e poisou os talheres no prato.
Sentava-se rgido, tal como caminhava, muito direito, 
com a cabea ligeiramente inclinada para trs e um pouco de
lado, olhando de traves, com uma mistura de altivez,
desconfiana e miopia. Essa atitude seria desagradvel 
se os seus olhos no fossem surpreendentemente doces e claros.
A posio, to dura, era prpria de um homem forte e baixo que
quisesse parecer mais alto, mas ele 
media um metro e oitenta e era muito magro. Todas as linhas do
seu corpo eram verticais e ascendentes, desde o nariz afiado e
adunco e as sobrancelhas em bico at 
 testa alta coroada  por uma juba de leo que penteava para
trs. Tinha ossos largos e mos com dedos espalmados.
Caminhava com grandes passadas, movia-se com 
energia e parecia muito forte, sem lhe faltar, contudo, certa
graa nos gestos. Tinha um rosto muito harmonioso, apesar do
gesto austero e sombrio e da frequente 
expresso de mau humor. O seu trao predominante era o mau
gnio e a tendncia para se tornar violento e perder a cabea,
caracterstica que tinha desde a infncia, 
quando se atirava ao cho, com a boca cheia de espuma, sem
poder respirar, de raiva, torcendo-se como um endemoninhado.
Tinham de o mergulhar em gua gelada para 
recuperar o controlo. Mais tarde aprendeu a dominar-se, mas
ficou-lhe para o resto da vida aquela ira sempre pronta que
precisava de pouco estmulo para rebentar 
em ataques terrveis.

-- No volto  mina -- disse.

Era a primeira frase que trocava  mesa. Decidira isso com a
irm, na noite anterior, ao dar conta que no tinha sentido
continuar a fazer vida de eremita em busca 
de uma riqueza rpida. Tinha a concesso da mina por mais dois
anos, tempo suficiente para explorar bem o maravilhoso filo
que descobrira, mas pensava que, embora 
o capataz o roubasse um pouco ou no soubesse explor-la como
ele, no havia nenhuma razo para se ir enterrar no deserto.
No desejava tornar-se rico  custa de 
tantos sacrifcios. Tinha a vida  sua frente para enriquecer
se pudesse, para chatear-se e esperar a morte, sem Rosa.

-- Tens de trabalhar nalguma coisa, Esteban -- disse Frula.
-- Sabes que gastamos muito pouco, quase nada, mas os remdios
da mam so caros.

Esteban olhou a irm. Era ainda uma linda mulher de formas
opulentas e rosto ovalado de madona romana, mas, atravs da
pele plida com reflexos de pssego e os olhos 
cheios de sombras, adivinhava-se j a fealdade da resignao.
Dormia no quarto a seguir ao de Dona Ester, disposta a acudir
correndo para ao p dela para lhe dar 
as mezinhas, pr-lhe a arrastadeira, aconchegar-lhe as
almofadas. Tinha uma alma atormentada. Comprazia-se na
humilhao e nos trabalhos abjectos, acreditava que 
ia conseguir o cu pelo processo terrvel de sofrer
injustias, por isso sentia prazer em limpar as pstulas das
pernas doentes da me, lavando-a, afundando-se nos 
seus cheiros e misrias, investigando-lhe o bacio. Odiava-se
tanto a si prpria por esses prazeres tortuosos e
inconfessveis como tinha dio a sua me por servir 
de instrumento para isso. Atendia-a sem se queixar, mas
procurava com subtileza fazer-lhe pagar o preo da sua
invalidez. Sem o dizer abertamente, estava presente 
entre as duas o facto de que a filha tinha sacrificado a sua
vida para cuidar da me, e que, por isso, tinha ficado
solteira. Frula tinha deixado dois noivos com 
o pretexto da doena da me. No falava disso, mas toda a
gente sabia. Tinha gestos bruscos e rudes, com o mesmo mau
carcter do  irmo, mas era obrigada pela 
vida, e pela sua condio de mulher, a dominar-se, e a morder
o freio. Parecia to perfeita que chegou a ter fama de santa.
Citavam-na como exemplo pela dedicao 
que Ester tinha por ela e pela maneira como tinha criado o seu
nico irmo quando a me caiu doente e o pai morreu
deixando-os na misria. Frula adorara o irmo 
Esteban quando era menino. Dormia com ele, dava-lhe banho,
levava-o a passear, trabalhava de sol a sol cosendo roupa para
fora para lhe pagar o colgio, e chorou 
de raiva e impotncia no dia em que Esteban teve de comear a
trabalhar num cartrio porque em casa o que ela ganhava para
comer no chegava. Tinha-o cuidado e. 
servido como fazia agora com a me, envolvendo-o tambm a ele
na rede invisvel da culpabilidade e das dividas de gratido
por pagar. O rapaz comeou a afastar-se 
dela mal ps calas compridas. Esteban podia recordar o
momento exacto em que se deu conta que a irm era um sombra
fatdica. Foi quando ganhou o primeiro salrio. 
Decidiu que guardaria para si cinquenta centavos para realizar
um sonho que acarinhava desde a infncia: tomar um caf
vienense. Tinha visto, atravs das janelas 
do Hotel Francs, os empregados que passavam com as bandejas
no ar levando tesouros: copos grandes de cristal coroados por
torres de creme batido e decorados com 
uma linda ginja cristalizada. No dia do seu primeiro salrio
passou diante do estabelecimento muitas vezes antes de se
atrever a entrar. Finalmente passou com timidez 
a porta, com a boina na mo, e avanou at  luxuosa sala,
entre lustres e mveis de estilo, com a sensao de que toda a
gente olhava para ele, que mil olhos criticavam 
o seu fato demasiado apertado e os seus sapatos velhos.
Sentou-se na beira da cadeira, com as orelhas a escaldar, e
fez o pedido ao empregado com uma voz sumida. 
Esperou impaciente, espiando nos espelhos o ir e vir das
pessoas, saboreando de antemo o prazer tantas vezes
imaginado. Chegou finalmente o seu caf vienense, muito 
mais impressionante do que imaginara, soberbo, delicioso e
acompanhado por trs frasquinhos de mel. Contemplou-o
longamente fascinado, por fim atreveu-se a pegar 
na colher de cabo grande e, com um suspiro de felicidade,
mergulhou-a no crome. Sentia gua na boca. Estava disposto a
fazer durar aquele instante o mais possvel, 
estic-lo at ao infinito. Comeou a mexer, vendo como se
misturava o liquido escuro do copo com a espuma do creme.
Mexeu, mexeu, mexeu... E, de repente, a ponta 
da colher bateu no cristal, abrindo um orifcio por onde
saltou o caf em jorro. Caiu-lhe na roupa. Esteban,
horrorizado, viu todo o contedo do copo espalhar-se 
sobre o seu nico fato, ante o olhar divertido dos ocupantes
das outras mesas. Pagou, plido de frustrao, e saiu do Hotel
Francs com cinquenta centavos a menos, 
deixando  sua passagem um rego de caf vienense nas macias
alcatifas. Chegou a casa humilhado, furioso, perturbado.
Quando Frula soube o que tinha sucedido, comentou 
com azedume: Isso aconteceu por gastares o dinheiro dos
remdios da mam  com os teus caprichos. Deus castigou-te.
Nesse momento, Esteban viu perfeitamente os 
mecanismos que sua irm usava para dominar, a forma como
conseguia faz-lo sentir-se culpado, e compreendeu que devia
libertar-se.  medida que se foi afastando 
da sua tutela, Frula foi antipatizando com ele. A liberdade
que ele tinha, doa-lhe a ela como uma acusao, como uma
injustia. Quando se enamorou de Rosa e ela 
o viu desesperado, como um garoto, pedindo-lhe ajuda,
necessitando dela, perseguindo-a pela casa para lhe suplicar
que se aproximasse da famlia del Valle, que falasse 
a Rosa, que subornasse a Ama, Frula voltou a sentir-se
importante para Esteban. Por algum tempo pareceram
reconciliados. Mas aquele encontro no durou muito e Frula 
no tardou a ver que tinha sido utilizada. Alegrou-se quando
viu partir o irmo para a mina. Desde que comeou a trabalhar,
aos quinze anos, Esteban manteve a casa 
e assumiu o compromisso de o fazer sempre, mas para Frula
isso no era suficiente. Sentia-se mal por ter de ficar
fechada entre aquelas paredes hediondas, com velhice 
e remdios, acordada pelos gemidos da doente, atenta ao
relgio para lhe dar os remdios, aborrecida, cansada, triste,
enquanto o irmo ignorava essas obrigaes. 
Ele podia ter um destino luminoso, livre, cheio de xitos.
Podia casar-se, ter filhos, conhecer o amor. No dia em que
mandou o telegrama anunciando-lhe a morte de 
Rosa sentiu um formigueiro estranho, quase de alegria.

-- Tens de trabalhar em alguma coisa -- repetiu Frula.

-- Nunca vos faltar nada enquanto eu viver -- disse ele.

--  fcil de dizer -- respondeu Frula, enquanto tirava uma
espinha de peixe dos dentes.

-- Penso que vou para o campo, para Las Tres Marias.

-- Isso so runas, Esteban. Sempre te disse que  melhor
vender essa terra, mas tu s teimoso que nem um burro.

-- Nunca se deve vender a terra.  a nica coisa que fica
quando o resto se acaba.

-- No estou de acordo. A terra  uma ideia romntica, o que
enriquece os homens  o bom faro para os negcios -- defendeu
Frula. -- Mas tu dizias sempre que um 
dia ias viver para o campo.

-- Esse dia chegou. Odeio esta cidade.

-- Porque no dizes antes que odeias esta casa?

-- Tambm -- respondeu ele brutalmente.

-- Gostava de ter nascido homem, para poder ir tambm -- disse
ela cheia de dio.

-- E eu no gostava de ter nascido mulher -- disse ele.

Acabaram de comer em silncio.

Os irmos estavam muito afastados e a nica coisa que ainda os
unia era a presena da me e a recordao apagada do amor que
tinham tido um pelo  outro na infncia. 
Tinham crescido numa casa arruinada, presenciando a destruio
moral e econmica do pai e a seguir a lenta doena da me.
Dona Ester Trueba comeou a padecer de 
artrite desde muito nova, foi-se tornando rgida at acabar
por mover-se com grande dificuldade, como que amortalhada em
vida, e por ltimo, quando j no podia 
dobrar os joelhos, instalou-se definitivamente na sua cadeira
de rodas, na sua viuvez e desolao. Esteban recordava a sua
infncia e a juventude, os fatos apertados, 
o cordo de So Francisco que o obrigavam a usar, quem sabe se
em paga de promessas da me ou da irm, as camisas remendadas
com cuidado e a solido. Frula, cinco 
anos mais velha, lavava e engomava, dia sim dia no, as suas
duas nicas camisas, para ele estar sempre limpo e
apresentvel, e recordava-lhe que por parte da me 
ele usava o apelido mais nobre e de mais alta linhagem do
Vice-Reino de Lima. Trueba no tinha sido mais que um
lamentvel acidente na vida de Dona Ester, destinada 
a casar com algum da sua classe, mas tinha-se apaixonado
perdidamente por aquele doidivanas, emigrante da primeira
gerao, que em poucos anos delapidou o seu dote 
e a seguir a sua herana. Mas de nada serviu a Esteban o
passado de sangue azul, se em casa no havia com que pagar as
contas da loja e se tinha de ir a p para 
o colgio porque no tinha um centavo para o elctrico.
Recordava que o mandavam para a escola com o peito e as costas
forrados com papel de jornal porque no tinha 
roupa interior de l e o seu casaco era uma lstima, e que
sofria imaginando que os companheiros podiam ouvir o barulho
do papel esfregando-se contra a pele. No 
Inverno, a nica fonte de calor era uma braseira no quarto da
me, onde se reuniam os trs para poupar velas e carvo. Tinha
sido uma infncia de privaes, de incomodidades, 
de amarguras, de interminveis teros nocturnos, de medos e de
culpas. De tudo isso no lhe ficara mais que a raiva e o
orgulho exagerado.

Dois dias depois, Esteban Trueba partiu para o campo. Frula
acompanhou-o  estao. Ao despedir-se, beijou-o friamente na
face e esperou que subisse para o comboio, 
com as duas malas de couro com fechaduras de bronze, as mesmas
que tinha comprado para ir para a mina e que deviam durar-lhe
toda a vida, como lhe tinha prometido 
o vendedor. Recomendou-lhe que cuidasse de si e tratasse de
visit-las de vez em quando; ele disse que o faria sem
esforo, mas ambos sabiam que estavam destinados 
a no se ver durante muitos anos e no fundo sentiam um certo
alivio.

-- Avisa-me se a mam piorar -- gritou Esteban pela janela
quando o comboio se ps em marcha.

-- No te preocupes -- respondeu Frula no cais, agitando o
seu leno.

Esteban Trueba encostou-se no banco forrado de veludo vermelho
e agradeceu a iniciativa dos Ingleses de construir carruagens
de primeira classe, onde se podia viajar 
como um cavalheiro, sem ter de suportar as galinhas, os 
canastros, os volumes de carto amarrados com cordel e o
choramingar das crianas dos outros. Felicitou-se 
por ter decidido comprar uma passagem mais cara, pela primeira
vez na vida, e concluiu que era nos pormenores que estava a
diferena entre um cavalheiro e um campons. 
Por isso, embora em m situao, desse dia em diante iria
gastar dinheiro nas pequenas comodidades que o faziam
sentir-se rico.

-- No voltarei a ser pobre! -- decidiu, pensando no filo de
ouro.

Pela janela do comboio viu passar a paisagem do vale central.
Vastos campos estendiam-se no sop da cordilheira, campinas
frteis de vinhedo, de trigais, de luzerna 
e de maravilha. Comparou tudo isso com as desoladas plancies
do Norte, onde tinha passado dois anos metido num buraco, no
meio de uma natureza agreste e lunar cuja 
beleza aterradora no se cansava de olhar, fascinado pelas
cores do deserto, pelos azuis, os roxos, os amarelos dos
minerais  flor da terra.

-- Para mim a vida est a mudar -- murmurou.

Fechou os olhos e adormeceu.


Desceu do comboio na estao de San Lucas. Era um lugar
miservel. A essa hora no se via vivalma no cais de madeira,
com um telhado arruinado pela intemprie e 
pelas formigas. Dali podia ver-se todo o vale atravs de uma
neblina tnue que subia da terra molhada pela chuva da noite.
As montanhas longnquas perdiam-se entre 
as nuvens de um cu carregado e s a ponta nevada do vulco se
distinguia nitidamente, recortada contra a paisagem e
iluminada por um tmido sol de Inverno. Olhou 
 volta. Na sua infncia, a nica poca feliz que podia
recordar, antes que o pai acabasse por arruinar-se e
abandonar-se  bebida e  prpria vergonha, tinha andado 
a cavalo com ele por aquela regio. Recordava que em Las Tres
Marias tinha brincado no Vero, mas isso tinha sido h tantos
anos que a memria quase se desvanecia 
e no podia reconhecer o lugar. Procurou com a vista a
povoao de San Lucas, mas apenas descortinou um casario
longnquo, desbotado na humidade da manh. Percorreu 
a estao. Estava fechada, com um cadeado na porta do nico
escritrio. Havia um aviso escrito a lpis, mas estava to
apagado que no conseguiu l-lo. Ouviu que 
nas suas costas o comboio se punha em marcha e comeava a
afastar-se deixando atrs uma coluna de fumo branco. Estava
sozinho naquele apeadeiro silencioso. Pegou 
nas malas e comeou a andar pelo barro e pelas pedras de um
carreiro que ia ter  povoao. Caminhou mais de dez minutos,
pedindo que no chovesse, porque s com 
muita dificuldade conseguia avanar com as pesadas malas por
aquele caminho e viu que a chuva o tornaria em poucos segundos
num lamaal intransitvel. Ao aproximar-se 
das casas viu fumo nalgumas chamins e suspirou aliviado, 
porque a principio teve a impresso de que era um vilrio
abandonado, tal a sua runa e solido.

Deteve-se  entrada da aldeia, sem ver ningum. Na nica rua,
ladeada de modestas casas de adobe, reinava o silncio, e teve
a sensao de caminhar em sonhos. Acercou-se 
da casa mais prxima, que no tinha nenhuma janela e cuja
porta estava aberta. Deixou as malas no passeio e entrou
chamando em voz alta. Dentro estava escuro, porque 
a luz s vinha da porta, de modo que necessitou de alguns
segundos para adaptar a vista e acostumar-se  penumbra. Ento
viu duas crianas brincando no cho de terra 
batida que o olhavam com grandes olhos assustados e, num ptio
mais  frente, uma mulher que caminhava secando as mos com o
avental. Ao v-lo, esboou um gesto 
instintivo para desviar uma madeixa de cabelo que lhe caa
sobre a testa. Saudou-a e ela respondeu tapando a boca com a
mo para esconder as gengivas sem dentes. 
Trueba explicou-lhe que precisava de alugar um carro, mas ela
pareceu no compreender e limitou-se a esconder as crianas
nas pregas do avental, com um olhar sem 
expresso. Ele saiu, pegou na bagagem e seguiu o seu caminho.

Quando tinha percorrido quase toda a aldeia sem ver ningum e
comeava a desesperar, ouviu atrs de si as patas de um
cavalo. Era uma carroa desengonada conduzida 
por um lenhador. Parou  sua frente e obrigou o condutor a
deter-se.

-- Pode levar-me a Las Tres Marias? Pago-lhe bem! -- gritou.

-- Que vai l fazer, cavalheiro? -- perguntou o homem. -- Isso
 uma terra de ningum, um barrocal sem lei.

Mas aceitou lev-lo e ajudou-o a pr a bagagem entre os atados
de lenha. Trueba sentou-se a seu lado na boleia. De algumas
casas saram crianas correndo atrs da 
carroa. Trueba sentiu-se mais s do que nunca.

A onze quilmetros da aldeia de San Lucas, por um caminho
devastado invadido pelo mato e cheio de covas, apareceu a
tabuleta de madeira com o nome da propriedade. 
Estava pendurada de uma corrente partida, de modo que o vento
fazia-a bater contra o poste com um rudo surdo que lhe soou
como um tambor de luto. Bastou dar uma 
olhada para compreender que s um hrcules podia tirar aquilo
da desolao. A erva daninha tinha comido o carreiro e para
onde quer que olhasse s via penhascos, 
matagais e monte. No havia nem sinais de pastos, nem restos
de vinhas que ele recordava, ningum que viesse receb-lo. A
carroa avanou lentamente, seguindo um 
rasto que a passagem dos animais e dos homens tinha traado no
mato. Ao fim de pouco tempo, viu a casa do fundo, que ainda se
mantinha de p, mas que surgiu como 
uma viso de pesadelo, cheia de escombros, de redes de
capoeira pelo cho, e de lixo. Tinha metade das telhas
partidas e uma trepadeira selvagem que entrava pelas 
janelas e cobria quase todas as paredes.  volta da  casa viu
alguns casebres de adobe sem cal, sem janelas, com telhados de
palha negros de fuligem. Dois ces 
lutavam encarniadamente no ptio.

O chiar das rodas da carroa e as maldies do lenhador
atraram os ocupantes dos casebres, que foram aparecendo aos
poucos. Olhavam os recm-chegados com estranheza 
e desconfiana. Tinham passado quinze anos sem verem nenhum
patro e haviam concludo que simplesmente o no tinham. No
podiam reconhecer naquele homem alto e autoritrio 
o menino de caracis castanhos que h muito tempo atrs
brincava naquele mesmo ptio. Esteban olhou-os e tambm no
conseguiu recordar nenhum. Eram um grupo miservel. 
Viu vrias mulheres de idade indefinida, com a pele gretada e
seca, algumas aparentemente grvidas, todas vestidas de
farrapos desbotados e descalas. Calculou que 
haveria pelo menos uma dzia de crianas de todas as idades.
As mais pequenas estavam nuas. Outros rostos assomaram s
ombreiras das portas, sem se atreverem a sair. 
Esteban esboou um gesto de saudao, mas ningum respondeu.
Algumas crianas correram a esconder-se detrs das mulheres.

Esteban desceu da carroa, descarregou as duas malas e deu
algumas moedas ao lenhador.

-- Se quiser fico  sua espera, patro -- disse o homem.

-- No, eu fico aqui.

Dirigiu-se  casa, abriu a porta com um empurro e entrou.
Dentro havia suficiente luz, porque a manh entrava pelos
postigos partidos e pelos buracos do telhado, 
onde as telhas tinham cedido. Estava cheia de p e teias de
aranha, com um aspecto de total abandono, e era evidente que
nesses anos todos nenhum dos camponeses 
se atrevera a deixar a sua choa para ocupar a grande casa
senhorial vazia. No tinham tocado nos mveis; eram os mesmos
da sua infncia, nos mesmos lugares de sempre, 
mas os mais feios, sombrios e desengonados de tudo o que
podia recordar. Toda a casa estava alcatifada com uma camada
de erva, de p e de folhas secas. Cheirava 
a tmulo. Um co esqueltico ladrou furiosamente, mas Esteban
Trueba no fez caso e o animal, finalmente cansado, foi para
um canto coar as pulgas. Deixou as malas 
sobre uma mesa e saiu para percorrer a casa, lutando contra a
tristeza que comeava a invadi-lo. Passou de um quarto para
outro, viu a deteriorao que o tempo tinha 
feito em todas as coisas, a pobreza, a sujidade, e sentiu que
aquilo era um buraco muito pior do que a mina. A cozinha era
uma grande diviso srdida, de tecto alto 
e paredes enegrecidas pelo fumo da lenha e do carvo,
bolorenta, em runas, mas onde ainda estavam penduradas de
pregos, nas paredes, as caarolas e frigideiras 
de cobre e de ferro que no tinham sido usadas em quinze anos
e em que ningum tinha tocado em todo esse tempo. Os quartos
de dormir tinham as mesmas camas e os 
grandes armrios com espelhos ovais que o pai comprou noutro
tempo, mas os colches eram um monto de l  apodrecida e de
bichos que neles tinham feito ninho durante 
geraes. Escutou os passinhos discretos das ratazanas no
forro do tecto. No conseguiu descobrir se o piso era de
madeira ou de tijoleira porque no se via em lado 
nenhum e a imundcie cobria-o por completo. A camada cinzenta
de p escondia o contorno dos mveis. Onde tinha sido o salo,
ainda se via o piano alemo com uma 
perna partida e as teclas amarelecidas, soando como um cravo
desafinado. Nas estantes havia alguns livros ilegveis, com as
pginas comidas pela humidade, e no cho 
restos de revistas muito antigas, que o vento espalhara. Os
cadeires tinham as molas  vista e havia um ninho de ratos na
poltrona onde a me se sentava a tecer 
antes que a doena lhe transformasse as mos em garfos.

Quando acabou de correr a casa, Esteban tinha as ideias mais
claras. Sabia que tinha  sua frente um trabalho titnico,
porque, se a casa estava naquele estado de 
abandono, no podia esperar que o resto da propriedade
estivesse em melhores condies. Por um momento teve a
tentao de carregar as duas malas na carroa e voltar 
pelo mesmo caminho que o tinha trazido, mas ps logo de parte
esse pensamento, e achou que, se havia alguma coisa que
pudesse acalmar a dor e a raiva de ter perdido 
Rosa, era partir as costas trabalhando naquela terra
abandonada. Tirou o casaco, respirou profundamente e saiu para
o ptio, onde estava ainda o lenhador, junto 
dos caseiros, reunidos a certa distncia, com a timidez
prpria da gente do campo. Observaram-se mutuamente com
curiosidade. Trueba deu dois ou trs passos at eles 
e percebeu um leve movimento de recuo no grupo, correu os
olhos pelos camponeses maltrapilhos e tentou fazer um sorriso
amigvel s crianas sujas de ranho, aos 
velhos remelosos e s mulheres sem esperana, mas saiu-lhe
apenas um trejeito.

-- Onde esto os homens? -- perguntou.

O nico homem novo deu um passo em frente. Provavelmente tinha
a mesma idade que Esteban Trueba, mas parecia mais velho.

-- Foram-se embora -- disse.

-- Como te chamas?

-- Pedro Segundo Garcia, senhor -- respondeu o outro.

-- Eu sou o patro agora. Acabou a festa. Vamos trabalhar.
Quem no gostar da ideia v-se embora imediatamente. Aos que
ficarem no faltar que comer, mas tero 
de esforar-se. No quero fracos nem gente insolente, ouviram?

Olharam-se assombrados. No tinham compreendido nem metade do
discurso, mas sabiam reconhecer a voz do patro quando a
escutavam.

-- Entendidos, patro -- disse Pedro Segundo Garcia. -- No
temos onde ir, vivemos sempre aqui. Ficamos.

Um menino agachou-se e ps-se a cagar e um co sarnento
aproximou-se  a cheir-lo. Esteban, enojado, deu ordem de
levar a criana, lavar o ptio e matar o co. 
Assim comeou a nova vida que, com o tempo, havia de faz-lo
esquecer Rosa.


Ningum me vai tirar da cabea a ideia de que fui um bom
patro. Quem tivesse visto Las Tres Marias nos tempos do
abandono e a visse agora, que  um bom modelo, 
teria de concordar comigo. Por isso no posso aceitar que a
minha neta me venha com a histria da luta de classes, porque,
se virmos bem, esses pobres camponeses 
esto muito pior agora do que h cinquenta anos. Eu era como
um pai para eles. Com a reforma agrria fodemo-nos todos.

Para tirar Las Tres Marias da misria, destinei todo o capital
que tinha poupado para casar com Rosa e tudo o que me enviava
o capataz da mina, mas no foi o dinheiro 
que salvou esta terra, mas sim o trabalho e a organizao.
Correu a notcia de que havia um novo patro em Las Tres
Marias e que estavam tirando as pedras com bois 
e lavrando os prados para semear. Comearam logo a chegar
homens a oferecerem-se como braais, porque eu pagava bem e
lhes dava bastante comida. Comprei animais. 
Os animais eram sagrados para mim e, embora passssemos o ano
sem provar carne, no se sacrificavam. Assim cresceu o gado.
Organizei os homens em grupos de quatro 
e, depois de trabalhar no campo, dedicvamo-nos a reconstruir
a casa senhorial. No eram carpinteiros nem pedreiros, tive de
lhes ensinar tudo, com a ajuda de manuais 
que comprei. At canalizaes fizemos com eles arranjamos os
telhados, caimos tudo e limpmos at deixar a casa brilhante
por dentro e por fora. Reparti os mveis 
entre os caseiros, menos a sala de jantar, que ainda estava
intacta apesar do p que tinha invadido tudo, e a cama de
ferro forjado que tinha sido dos meus pais. 
Fiquei a viver na casa vazia, sem mais mobilirio que essas
duas coisas e uns caixotes onde me sentava, at que Frula me
mandou da capital os mveis novos que lhe 
encomendei. Eram peas grandes, pesadas, faustosas, feitas
para resistir muitas geraes e adequadas para a vida no
campo, e a prova  que foi preciso um terramoto 
para as destruir. Encostei-os s paredes, pensando na
comodidade e no na esttica, e logo que a casa ficou
confortvel senti-me satisfeito e comecei-me a acostumar 
 ideia de que ia passar muitos anos, talvez toda a vida, em
Las Tres Marias.

As mulheres dos caseiros faziam turnos para servir na casa
senhorial e encarregaram-se da minha horta. Em breve vi as
primeiras flores no jardim, que tracei por 
minhas prprias mos e que, com muito poucas modificaes,  o
mesmo que existe hoje em dia. Nessa poca, a gente trabalhava
sem contar anedotas. Creio que a minha 
presena lhes tornou a dar segurana e viram que pouco a pouco
aquela terra se convertia num lugar prspero. Era gente  boa e
simples, no havia revoltados. Tambm 
 certo que eram muito pobres e ignorantes. Antes de eu
chegar, limitavam-se a cultivar as suas pequenas quintarolas
familiares, que lhes davam o indispensvel para 
no morrer de fome desde que as no flagelasse alguma
catstrofe, como a seca, a geada, a peste, a formiga ou o
caracol, casos em que as coisas se tornavam muito 
difceis para eles. Comigo tudo isso mudou. Fomos recuperando
os pastos, um por um, reconstrumos o galinheiro e os
estbulos e comeam os a praticar um sistema 
de regas para que as sementeiras no dependessem do clima, mas
de um mecanismo cientifico. Mas a vida no era fcil. Era
muito dura. Por vezes, eu ia  aldeia e 
voltava com um veterinrio que via as vacas e as galinhas e
que, de passagem, dava uma olhada nos doentes. No  que eu
partisse do principio de que, se os conhecimentos 
do veterinrio chegavam para os animais, tambm serviam para
os pobres, como me diz a minha neta quando me quer pr
furioso. O que se passava era que no se conseguiam 
mdicos por aquelas paragens. Os camponeses consultavam uma
bruxa indigena que conhecia o poder das ervas e da sugesto,
em quem tinham grande confiana, muito mais 
que no veterinrio. As parturientes davam  luz com a ajuda
das vizinhas, da orao e de uma parteira que quase nunca
chegava a tempo, porque fazia a viagem de burro, 
mas que tanto servia para fazer nascer uma criana como para
tirar um vitelo atravessado numa vaca. Os doentes graves,
esses que nenhum encantamento da bruxa nem 
mezinha do veterinrio podiam curar, eram levados por Pedro
Segundo Garcia ou por mim, numa carroa, ao hospital das
freiras, onde s vezes havia um mdico de turno 
que os ajudava a morrer. Os mortos iam parar a um pequeno
campo santo junto da igreja abandonada ao p do vulco, onde
h agora um cemitrio como Deus manda. Uma 
ou duas vezes por ano, eu conseguia que um padre fosse benzer
os casamentos, os animais e as mquinas, baptizar as crianas
e dizer algumas oraes atrasadas aos 
defuntos. As nicas diverses eram capar porcos e touros, as
lutas de galos, a raia e as incrveis histrias de Pedro
Garcia, o velho, que em paz descanse. Era o 
pai de Pedro Segundo e dizia que o seu av tinha combatido nas
fileiras dos patriotas que escorraaram os Espanhis da
Amrica. Ensinava as crianas a deixar-se 
picar por aranhas e a tomar urina de mulher grvida para as
imunizar. Conhecia quase tantas ervas como a bruxa, mas
confundia-se no momento de decidir a sua aplicao 
e cometia alguns erros irreparveis. Para arrancar dentes, no
entanto, reconheo que tinha um sistema insupervel, que lhe
tinha dado justa fama em toda a regio: 
era uma combinao de vinho tinto e pais-nossos que punha o
paciente em transe hipntico. A mim tirou-me um molar sem dor
e, se estivesse vivo, seria o meu dentista.

Muito depressa comecei a sentir-me bem no campo. Os meus
vizinhos mais prximos ficavam a uma boa distncia a cavalo,
mas no me interessava  a vida social, agradava-me 
a solido e alm disso tinha muito trabalho entre mos. Fui-me
convertendo num selvagem, esqueci as palavras, encurtou-se o
vocabulrio, tornei-me muito mando. 
Como no tinha necessidade de aparentar isto ou aquilo,
acentuou-se o mau carcter que sempre tive. Tudo me dava
raiva, indignava-me quando via as crianas rondando 
as cozinhas para roubar po, quando as galinhas esvoaavam
pelo ptio, quando os pardais invadiam os milheirais. Quando o
mau humor comeava a estorvar-me e me sentia 
incomodado dentro da prpria pele, sala  caa. Levantava-me
muito antes do nascer do Sol e partia de espingarda ao ombro,
com o meu bornal e o meu co perdigueiro. 
Gostava de uma cavalgada no escuro, do frio do amanhecer, do
olhar largo pela sombra, do silncio, do cheiro da plvora e
do sangue, sentir contra o ombro o recuar 
da arma com um coice seco e de ver a presa cair aos
trambolhes; isso tranquilizava-me e, quando regressava de uma
caada, com quatro coelhos miserveis no bornal 
e umas quantas perdizes to chumbadas que nem serviam para
serem cozinhadas, meio morto de fadiga e cheio de lama,
sentia-me aliviado e feliz.

Quando penso nesses tempos, d-me uma grande tristeza. A vida
passou por mim multo rpida. Se voltasse a comear, h alguns
erros que no cometeria, mas em geral 
no me arrependo de nada. Sim, fui um bom patro, disso no h
dvida.


Nos primeiros meses, Esteban Trueba esteve to ocupado
canalizando a gua, cavando poos, arrancando pedras, limpando
cavalarias e reparando galinheiros e estbulos, 
que no teve tempo de pensar em nada. Deitava-se estafado e
levantava-se de madrugada, tomava um magro pequeno almoo na
cozinha e partia a cavalo para vigiar os 
trabalhos do campo. No regressava antes do anoitecer. Nessa
hora fazia a nica refeio completa do dia, sozinho na sala
de jantar da casa. Nos primeiros meses 
fez teno de tomar banho e de mudar de roupa diariamente 
hora de jantar, como tinha ouvido que faziam os colonos
ingleses nas aldeias mais longnquas da sia 
e da frica, para no perder a respeitabilidade e a
autoridade. Vestia-se com a melhor roupa, barbeava-se e punha
no gramofone as mesmas rias das suas operas preferidas 
todas as noites. Mas a pouco e pouco deixou-se vencer pela
rusticidade e aceitou que no tinha vocao de penitente,
especialmente se no tinha ningum que pudesse 
apreciar o esforo. Deixou de se barbear, cortava o cabelo
quando lhe chegava aos ombros e continuou a tomar banho s
porque tinha o hbito muito arreigado, mas 
despreocupou-se da sua roupa e das suas maneiras. Foi-se
tornando um brbaro. Antes de dormir, lia um bocado ou jogava
xadrez -- tinha desenvolvido a habilidade 
de competir contra um livro sem fazer batota e de perder
partidas sem se aborrecer. No entanto, a fadiga  do trabalho
no foi suficiente para sufocar a sua natureza 
robusta e sensual. Comeou a passar mal as noites, os
cobertores pareciam-lhe muito pesados, os lenis demasiado
suaves. O seu cavalo dava passadas irrequietas 
e de repente transformava-se numa fmea formidvel, numa
montanha dura e selvagem de carne, sobre a qual cavalgava at
moer os ossos. Os macios e perfumados meles 
da horta pareciam-lhe descomunais peitos de mulher e
surpreendia-se enterrando a cara na manta da sua montada,
buscando no cheiro acre do suor do animal a semelhana 
com aquele aroma longnquo e proibido das suas primeiras
prostitutas. De noite, excitava-se com pesadelos de mariscos
apodrecidos, de pedaos enormes de rs esquartejada, 
de sangue, de smen, de lgrimas. Acordava tenso, com o sexo
como um ferro entre as pernas, mais violento do que nunca.
Para aliviar-se corria a mergulhar-se todo 
nu no rio e aprofundava-se nas guas geladas at perder a
respirao, mas ento julgava sentir mos invisveis que lhe
acariciavam as pernas. Vencido, deixava-se 
flutuar  deriva, sentindo-se abraar pela corrente, beijado
pelos limos, fustigado pelas canas da margem. Ao fim de pouco
tempo a sua necessidade oprimida era notria, 
no se acalmava nem com imerses nocturnas no rio, nem com
infuses de canela, nem pondo pedra almen debaixo do colcho,
nem sequer com as manipulaes vergonhosas 
que no internato punham os rapazes malucos e os deixavam cegos
e os fariam desaparecer na condenao eterna. Quando comeou a
olhar com olhos de concupiscncia as 
aves do curral e as crianas que brincavam nuas na horta, e
at a massa crua do po, compreendeu que a sua virilidade no
se acalmaria com substitutos de sacristo. 
O seu sentido prtico disse-lhe que tinha de procurar uma
mulher e, uma vez tomada a deciso, a ansiedade que o consumia
acalmou-se e a sua raiva pareceu acalmar-se 
tambm. Nesse dia, amanheceu, sorrindo pela primeira vez em
tanto tempo.

Pedro Garcia, o velho, viu-o sair assobiando pelo caminho at
ao estbulo e abanou a cabea inquieto.

O patro andou todo o dia ocupado em lavrar um terreno que
acabava de mandar limpar e que tinha destinado a semear milho.
Depois foi com Pedro Segundo Garcia ajudar 
uma vaca que nessa altura estava a parir e tinha o vitelo
atravessado. Teve de introduzir-lhe o brao at ao cotovelo
para dar volta  cria e ajud-la a mostrar 
a cabea. Apesar de tudo, a vaca morreu, mas isso no o ps de
mau humor. Ordenou que alimentassem o vitelo com uma garrafa,
lavou-se num balde e voltou a montar 
a cavalo. Normalmente era a sua hora da comida, mas no tinha
fome. No tinha nenhuma pressa, porque j tinha feito a sua
escolha.

Tinha visto muitas vezes a rapariga carregando na anca um
irmozinho ranhoso, com um saco s costas ou um cntaro de
gua do poo  cabea. Tinha-a observado enquanto 
lavava roupa, agachada nas pedras planas do rio,  com as
pernas morenas polidas pela gua, esfregando os trapos
descoloridos com as rudes mos de camponesa. Tinha 
ossos grandes e rosto com traos ndios, com a face gorda e a
pele escura, de expresso calma e doce, e a sua enorme boca
carnuda, que conservava ainda os dentes, 
quando sorria iluminava-se, mas fazia-o muito poucas vezes.
Tinha a beleza da primeira juventude, embora ele pudesse ver
que isso se iria embora muito depressa, 
como sucede s mulheres nascidas para parir muitos filhos,
trabalhar sem descanso e enterrar os seus mortos. Chamava-se
Pancha Garcia e tinha quinze anos.

Quando Esteban Trueba saiu a procur-la, j tinha cado a
tarde e estava mais fresco. Percorreu, com o cavalo a passo,
as longas alamedas que dividiam os pastos, 
perguntando por ela aos que passavam, at que a viu no caminho
que conduzia ao seu casebre. Ia dobrada sob o pesado feixe de
espinheiro para o fogo da cozinha, 
sem sapatos, cabisbaixa. Olhou-a do alto do cavalo e sentiu
nesse mesmo instante a urgncia do desejo que o tinha
incomodado durante tantos meses. Aproximou-se a 
trote at pr-se a seu lado. Ela viu-o, mas seguiu o seu
caminho sem o olhar, pelo costume ancestral de todas as
mulheres da sua estirpe de baixar a cabea em frente 
do macho. Esteban baixou-se e tirou-lhe o fardo, segurou-o um
momento no ar e logo o atirou com violncia para a beira do
caminho, apanhou a rapariga com um brao 
pela cintura e levantou-a com um repelo bestial, sentando-a 
frente da sela, sem que ela opusesse nenhuma resistncia.
Esporeou o cavalo e partiram a galope para 
o rio. Desmontaram sem trocar nem uma palavra e mediram-se com
os olhos. Esteban desapertou o largo cinturo de couro e ela
recuou, mas apanhou-a de um saco. Caram 
abraados entre as folhas dos eucaliptos.

Esteban no tirou a roupa. Atacou-a com ferocidade,
cravando-se nela sem prembulos, com uma brutalidade intil.
Deu-se conta demasiado tarde, pelas salpicadelas 
de sangue no vestido, que a jovem era virgem, mas nem a
humilde condio de Pancha, nem as oprimidas exigncias do seu
apetite lhe permitiram ter contemplaes. 
Pancha Garcia no se defendeu, no se queixou, no fechou os
olhos. Ficou de costas, olhando o cu com uma expresso
espavorida, at que sentiu o homem que cala 
com um gemido a seu lado. Ento comeou a chorar suavemente.
Antes dela a sua me, antes da sua me a sua av tinham
sofrido o mesmo destino de cadela. Esteban Trueba 
comps as calas, apertou o cinto, ajudou-a a pr-se em p e
sentou-a na garupa do cavalo. Tomaram o caminho de regresso.
Ele ia assobiando. Antes de a deixar no 
casebre, o patro beijou-a na boca:

-- A partir de amanh quero que trabalhes l em casa -- disse.

Pancha disse que sim, sem levantar os olhos. Tambm a me e a
av tinham servido na casa senhorial.

Nessa noite Esteban Trueba dormiu como um justo, sem sonhar
com Rosa. De manh sentia-se cheio de energia, maior e
poderoso. Foi para o  campo cantarolando e, 
no regresso, Pancha estava na cozinha, atarefada, mexendo o
manjar branco numa grande panela de cobre. Nessa noite
esperou-a com impacincia e, quando se calaram 
os rudos domsticos do velho casaro de adobe e comearam as
andanas das ratazanas, sentiu a presena da rapariga no
umbral da porta.

-- Vem Pancha -- chamou-a. No era uma ordem, mas antes uma
splica.

Dessa vez Esteban teve tempo para a gozar e faz-la gozar.
Percorreu-a tranquilamente, aprendendo de memria o cheiro a
fumo do seu corpo e da sua roupa lavada com 
cinza e passada com ferro a carvo. Conheceu a textura do seu
cabelo negro e liso, da sua pele suave nos stios mais
recnditos, spera e calosa nos outros, dos 
seus lbios frescos, do seu sexo sereno e do seu ventre amplo.
Desejou-a com calma e iniciou-a na cincia mais secreta e mais
antiga. Provavelmente foi feliz nessa 
noite e nalgumas noites mais, brincando como dois cachorros na
grande cama de ferro forjado que tinha sido do primeiro Trueba
e que j estava meio coxa, mas que 
ainda podia resistir s investidas do amor.

Cresceram os seios de Pancha Garcia e arredondaram-se-lhe as
ancas. Esteban Trueba melhorou por algum tempo o mau humor e
comeou a interessar-se pelos seus caseiros. 
Visitou-os nos casebres de misria. Descobriu na penumbra de
um deles um caixote cheio de papel de jornal onde
compartilhavam o sono uma criana de peito e uma cadela 
recm-parida. Noutro, viu uma anci que h quatro anos estava
morrendo e que tinha os ossos  vista pelas chagas das costas.
Num ptio conheceu um adolescente idiota 
que se babava, com uma corda ao pescoo, atado a um poste,
falando de coisas de outro mundo, nu e com um sexo de macho
que esfregava incansavelmente contra o cho. 
Deu-se conta, pela primeira vez, que o pior abandono no era o
das terras e dos animais, mas o dos habitantes de Las Tres
Marias, que tinham vivido no desamparo 
desde a poca em que o seu pai jogou o dote e a herana de sua
me. Decidiu que era tempo de levar um pouco de civilizao a
esse canto perdido entre a cordilheira 
e o mar.


Em Las Tres Marias comeou uma febre de actividade que sacudiu
a modorra. Esteban Trueba ps os camponeses a trabalhar como
nunca o tinham feito. Cada homem, mulher, 
velho ou criana que pudesse ter-se nas pernas foi empregado
pelo patro, ansioso de recuperar em poucos meses os anos de
abandono. Mandou construir um celeiro e 
despensas para guardar alimentos para o Inverno, mandou salgar
a carne de cavalo e fumar a de porco e ps as mulheres a fazer
doces e conservas de frutas. Modernizou 
a ordenha, que no passava de um barraco cheio de esterco e
moscas, e obrigou as vacas a produzir suficiente leite.
Iniciou a construo de uma escola com seis 
 salas porque tinha a ambio de que todas as crianas e
adultos das Tres Marias deviam aprender a ler, escrever e
somar, ainda que no fosse partidrio de que 
adquirissem outros conhecimentos, para que no se lhes
enchesse a cabea com ideias imprprias ao seu estado e
condio. No entanto, no conseguiu um professor que 
quisesse trabalhar naquelas lonjuras e, perante a dificuldade
de apanhar os garotos com promessas de aoites e caramelos
para alfabetiz-los ele mesmo, abandonou 
a iluso e deu outros usos  escola. Sua irm Frula
enviava-lhe da capital os livros que ele encomendava. Era
literatura prtica. Com eles aprendeu a dar injeces 
nas pernas e fabricou um rdio de galena. Gastou os seus
primeiros ganhos na compra de tecidos rsticos, uma mquina de
costura, uma caixa de plulas homeopticas 
com o seu manual de instrues, uma enciclopdia e um
carregamento de cartilhas, cadernos e lpis. Acarinhou o
projecto de fazer um refeitrio onde todas as crianas 
recebessem uma refeio completa por dia, para crescerem
fortes e ss e poderem trabalhar desde pequenas, mas
compreendeu que era loucura obrigar as crianas a virem 
do extremo da propriedade por um prato de comida, de maneira
que mudou o projecto para um oficina de costura. Pancha Garcia
foi a encarregada de desvendar os mistrios 
da mquina de costura. A principio, julgava que era um
instrumento do diabo, dotado de vida prpria, e negava-se a
aproximar-se, mas ele foi inflexvel e ela acabou 
por domin-la. Trueba organizou uma cantina. Era um modesto
armazm onde os caseiros podiam comprar o necessrio sem ter
de fazer a viagem de carroa at San Lucas. 
O patro comprava as coisas por grosso e revendia-as pelo
mesmo preo aos seus trabalhadores. Imps um sistema de vales,
que funcionou a princpio como uma forma 
de crdito e com o tempo chegou a substituir o dinheiro legal.
Com os seus papis cor-de-rosa comprava-se de tudo na cantina
e pagavam-se os salrios. Cada trabalhador 
tinha direito, alm dos famosos papelinhos, a um pedao de
terra para cultivar no seu tempo livre, seis galinhas por
famlia por ano, uma poro de sementes, uma 
parte da colheita que cobrisse as suas necessidades, po e
leite para o dia e cinquenta pesos que se dividiam pelo Natal
e pelas festas nacionais entre os homens. 
As mulheres no tinham esse bnus, mesmo que trabalhassem como
os homens de igual para igual, porque no eram consideradas
chefes de famlia, excepto no caso das 
vivas. O sabo para lavar, a l para tecer e o xarope para
fortalecer os pulmes eram distribudos gratuitamente, porque
Trueba no queria  sua volta gente suja, 
com frio ou doente. Um dia leu na enciclopdia as vantagens de
uma dieta equilibrada e comeou a sua mania das vitaminas, que
havia de durar-lhe para o resto da 
vida. Tinha acessos de clera quando verificava que os
camponeses davam s crianas s o po e alimentavam os porcos
com leite e ovos. Comeou a fazer reunies obrigatrias 
na escola para lhes falar das vitaminas e de caminho
inform-los sobre as notcias que  conseguia captar atravs
dos escarcus infernais da galena. Aborreceu-se 
rapidamente de perseguir a onda com o arame e encomendou da
capital um rdio transocenico, munido de duas enormes
baterias. Com ele podia captar algumas mensagens 
coerentes no meio de um ensurdecedor barulho de assobios de
ultramar. Assim soube da guerra na Europa e seguiu os avanos
das tropas num mapa que pendurou no quadro 
da escola e que ia marcando com alfinetes. Os camponeses
observavam-no estupefactos, sem compreender, nem remotamente,
o propsito de cravar um alfinete na cor azul 
e no dia seguinte pass-lo para a cor verde. No podiam
imaginar o mundo do tamanho de um papel suspenso no quadro,
nem os exrcitos reduzidos  cabea de um alfinete. 
Na realidade, a guerra, os inventos da cincia, o progresso da
indstria, o preo do ouro e as extravagancias da moda no os
preocupavam. Eram contos de fadas que 
em nada modificavam a estreiteza da sua existncia. Para
aquele impvido auditrio, as notcias da rdio eram afastadas
e alheias, e o aparelho desprestigiou-se 
rapidamente quando foi evidente que no podia prever o estado
do tempo. O nico que demonstrava interesse pelas mensagens
vindas do ar era Pedro Segundo Garcia.

Esteban Trueba compartilhou com ele muitas horas, primeiro
junto do rdio de galena e depois com o de bateria, esperando
o milagre de uma voz annima e remota que 
os pusesse em contacto com a civilizao. Isto, no entanto,
no conseguiu aproxim-los. Trueba sabia que aquele rude
campons era mais inteligente que os outros. 
Era o nico que sabia ler e era capaz de manter uma
conversao de mais de trs frases. Era o mais parecido com um
amigo que tinha em cem quilmetros  volta, mas 
o seu orgulho monumental impedia-o de reconhecer nele alguma
virtude, excepto aquelas prprias da sua condio de bom
trabalhador do campo. Nem era partidrio das 
familiaridades com os subalternos. Por seu lado, Pedro Segundo
odiava-o, mesmo que nunca tivesse posto nome a esse sentimento
tormentoso que lhe abrasava a alma 
e o enchia de confuso. Pressentia que nunca se atreveria a
fazer-lhe frente, porque ele era o patro. Teria de suportar
as suas cleras, as suas ordens injustas 
e a sua prepotncia durante o resto da vida. Nos anos em que
Las Tres Marias estiveram abandonadas, ele tinha assumido de
forma natural o mando da pequena tribo 
que sobreviveu nessas terras esquecidas. Tinha-se acostumado a
ser respeitado, a mandar, a tomar decises e a no ter mais
que o cu sobre a sua cabea. A chegada 
do patro mudou-lhe a vida, mas no podia deixar de admitir
que agora viviam melhor, que no passavam fome e que estavam
mais protegidos e seguros. Algumas vezes, 
Trueba julgou ver-lhe nos olhos um brilho assassino, mas nunca
pde acus-lo de uma insolncia que fosse. Pedro Segundo
obedecia sem refilar, trabalhava sem se queixar, 
era  honesto e parecia leal. Se via passar a irm Pancha no
corredor da casa senhorial, com o vaivm pesado de fmea
satisfeita, baixava a cabea e calava-se.

Pancha Garcia era jovem e o patro era forte. O resultado
previsto da sua relao comeou a notar-se em poucos meses. As
veias das pernas da rapariga apareceram 
como lombrigas na sua pele morena, o seu gesto tornou-se mais
lento, o seu olhar mais largo, perdeu o interesse pelas
brincadeiras descaradas na cama de ferro forjado 
e rapidamente ficou com a cintura grossa e os seios a
carem-lhe com o peso de uma nova vida que lhe crescia nas
entranhas. Esteban levou muito tempo a dar-se conta 
disso, porque quase nunca a olhava e, passado o entusiasmo do
primeiro momento, nem a acariciava. Limitava-se a utiliz-la
como uma medida higinica que lhe aliviava 
a tenso do dia e lhe oferecia uma noite sem sonhos. Mas
chegou o momento em que a gravidez de Pancha foi evidente
inclusivamente para ele. Tomou-lhe r pulsa. Comeou 
a v-la como uma enorme vasilha que continha uma substncia
informe e gelatinosa, que no podia reconhecer como seu filho.
Pancha abandonou a casa do patro e regressou 
ao casebre de seus pais onde no Ihe fizeram perguntas.
Continuou a trabalhar na cozinha senhorial, amassando o po e
cosendo  mquina, cada dia mais deformada 
pela maternidade. Deixou de servir Esteban  mesa e evitou
encontrar-se com ele, j que nada tinham a compartilhar. Uma
semana depois de ela sair da sua cama, voltou 
a sonhar com Rosa e despertou com os lenis hmidos. Olhou
pela janela e viu uma menina delgada que estava a pendurar
roupa recm-lavada no arame. No parecia ter 
mais que treze ou catorze anos, mas estava completamente
desenvolvida. Nesse momento voltou-se e olhou-o, tinha o olhar
de uma mulher.

Pedro Garcia viu o patro sair assobiando a caminho do
estbulo e abanou a cabea inquieto.


No decurso dos dez anos seguintes, Esteban Trueba tornou-se o
patro mais respeitado da regio, construiu casas de tijolo
para os seus trabalhadores, conseguiu um 
professor para a escola e subiu o nvel de vida a toda a gente
nas suas terras. Las Tres Marias era um bom negcio, que no
precisava da ajuda do filo de ouro mas, 
pelo contrrio, serviu de garantia para prorrogar a concesso
da mina. O mau carcter de Trueba tornou-se lenda e
acentuou-se at chegar a incomod-lo a ele prprio. 
No aceitava que ningum o contestasse, no tolerava nenhuma
contradio e considerava que a menor discordncia era
provocao. Tambm aumentou a sua voluptuosidade. 
No passava nenhuma rapariga da puberdade  idade adulta sem
que ele a fizesse provar o bosque, a orla do rio ou a cama de
ferro forjado. Quando no ficaram mulheres 
disponveis em Las Tres Marias, dedicou-se a perseguir as de
outras  fazendas, violando-as num abrir e fechar de olhos, em
qualquer lugar do campo, geralmente 
ao entardecer. No se preocupava em faz-lo s escondidas
porque no tinha medo de ningum. Nalgumas ocasies, chegaram
a Las Tres Marias um irmo, um pai, um marido 
ou um patro a pedir-lhe contas, mas, ante a sua violncia
descontrolada, essas visitas de justia ou de vingana foram
cada vez menos frequentes. A fama da sua 
brutalidade estendeu-se por toda a zona e causava invejosa
admirao entre os machos da sua classe. Os camponeses
escondiam as raparigas e apertavam os punhos inutilmente, 
pois no podiam fazer-lhe frente. Esteban Trueba era mais
forte e tinha impunidade. Por duas vezes apareceram cadveres
de camponeses de outras fazendas crivados 
por tiros de espingarda e a ningum coube dvida de que se
tinha de procurar o culpado em Las Tres Marias, mas os
polcias rurais limitaram-se a anotar o facto no 
livro de registos, com a trabalhosa caligrafia dos
semianalfabetos, acrescentando que tinham sido surpreendidos a
roubar. A coisa no passou dali. Trueba continuou 
cultivando o seu prestigio de racha-diabos, semeando a regio
de bastardos, colhendo dio e armazenando culpas que no lhe
faziam mossa, porque se lhe havia curtido 
a alma e tranquilizado a conscincia com o pretexto do
progresso. Em vo Pedro Segundo Garcia e o velho padre do
hospital das montanhas trataram de lhe sugerir que 
no eram as casinhas de tijolo nem os litros de leite que
faziam um bom patro, ou um bom cristo, mas sim dar s
pessoas um salrio decente em vez de papelinhos 
cor-de-rosa, um horrio de trabalho que no lhes moesse os
rins e um pouco de respeito e dignidade. Trueba no queria
ouvir falar dessas coisas que, segundo ele, 
cheiravam a comunismo.

-- So ideias degeneradas -- dizia entre dentes, -- ideias
bolchevistas para sublevar os rendeiros. No se do conta de
que esta pobre gente no tem cultura nem 
educao, no pode assumir responsabilidades, so crianas.
Como vo saber o que lhes convm? Sem mim estariam perdidos. A
prova  que, quando volto a cara, vai 
tudo para o diabo e comeam a fazer asneiras. So muito
ignorantes. A minha gente est muito bem, que mais querem? No
lhes falta nada. Se se queixam  porque so 
mal agradecidos. Tm casas de tijolo, preocupo-me em assoar os
moncos, em tirar os parasitas aos garotos, levar-lhes vacinas
e ensinar-lhes a ler. H por aqui outra 
fazenda que tenha a sua prpria escola? No! Sempre que posso,
levo-os ao padre para que lhes diga umas missas, por isso no
percebo porque vem o padre falar-me 
de injustia. No tem de se meter no que no sabe e no  da
sua incumbncia. Eu queria v-lo a tomar conta desta
propriedade, para ver se ia andar com paninhos 
quentes. Com estes pobres diabos h que ter mo dura,  a
nica linguagem que entendem. Se nos tornarmos brandos, no
nos respeitam. No nego que muitas vezes fui 
demasiado severo, mas fui sempre justo. Tive de lhes ensinar
tudo, at a comer, porque se fosse por eles alimentavam-se s
de  po! Se me descuido, do o leite 
e os ovos aos porcos. No sabem limpar o cu e querem ter o
direito de voto! Se no sabem onde esto, como vo saber de
poltica? So capazes de votar pelos comunistas, 
como os mineiros do Norte, que com as greves prejudicam todo o
pais, justamente quando o preo do minrio est no seu ponto
mximo. Mandar para l a tropa era o 
que eu faria no Norte, para os correr  bala, a ver se
aprendem de uma vez por todas. Infelizmente, o cacete  a
nica coisa que funciona nestes pases. No estamos 
na Europa. Aqui o que se necessita  um governo forte, um
patro forte. Seria muito bonito sermos todos iguais, mas no
o somos. Isso salta  vista. Aqui a nica 
pessoa que sabe trabalhar sou eu e desafio a que me provem o
contrrio. Sou o primeiro a levantar-se e o ltimo a deitar-se
nesta maldita terra. Se fosse por mim, 
mandava tudo para o caralho e ia viver como um prncipe na
capital, mas tenho de estar aqui, porque se me ausento, ainda
que seja uma semana, isto cai de rastos 
e estes infelizes comeam a morrer de fome. Lembrem-se como
era isto quando cheguei, faz nove ou dez anos: uma desolao.
Era uma runa de pedras e abutres. Uma 
terra de ningum. Estavam todos os pastos abandonados. Ningum
se tinha lembrado de canalizar a gua. Contentavam-se em
plantar quatro alfaces imundas nos seus quintais 
e deixavam que tudo o resto se afundasse na misria. Foi
necessrio eu chegar para haver aqui ordem, lei, trabalho.
Como no vou estar orgulhoso? Trabalhei to bem 
que j comprei as duas terras vizinhas e esta propriedade  a
maior e mais rica de toda a zona, a inveja de toda a gente, um
exemplo, uma propriedade modelo. E agora 
que a estrada passa ao lado, duplicou o seu valor, se quisesse
vend-la podia ir-me embora para a Europa e viver dos meus
rendimentos, mas no vou, fico aqui a chatear-me. 
Fao isto por esta gente. Sem mim, estariam perdidos. Se vamos
ao fundo das coisas, no servem nem para fazer recados, sempre
o disse: so como crianas. No h 
nenhum que faa o que tem a fazer sem que eu tenha de estar
por trs a chicote-lo. E depois vm-me com a histria de que
somos todos iguais!  de morrer a rir, 
caralho...

Para a sua me e irm mandava caixotes com frutas, carnes
salgadas, presuntos, ovos frescos, galinhas vivas e em
escabeche, farinha, arroz e gro em sacos, queijos 
do campo, e todo o dinheiro de que necessitavam, porque isso
no lhe faltava. Las Tres Marias e a mina produziam como era
devido pela primeira vez desde que Deus 
ps aquilo no planeta, como ele gostava de dizer a quem
quisesse ouvi-lo. Dava a Dona Ester e Frula o que tinham
ambicionado, mas no teve tempo, em todos esses 
anos, para as ir visitar ainda que fosse de caminho, nalguma
das suas viagens ao Norte. Estava to ocupado no campo, nas
novas terras que tinha comprado e em outros 
negcios em que comeava a pr a luva, que no podia perder o
seu tempo junto ao leito de uma enferma. Alm disso, existia o
correio que os mantinha  em contacto 
e o comboio que lhe permitia mandar tudo o que quisesse. No
tinha necessidade de as ver. Tudo se podia dizer por carta.
Tudo menos o que no queria que soubessem, 
como a recua de bastardos que ia nascendo como por artes
mgicas. Bastava tombar uma rapariga no prado e p-la prenha
imediatamente, era coisa do demnio, tanta 
fertilidade era inslita, mas estava seguro de que metade das
crianas no eram suas. Por isso decidiu que, fora o filho de
Pancha Garcia, que se chamava Esteban 
como ele e que no tinha dvida disso porque a sua me era
virgem quando a possura, os outros podiam ser seus filhos e
podiam no o ser, e sempre era melhor pensar 
que o no eram. Quando chegava a sua casa alguma mulher com
uma criana nos braos para reclamar o apelido ou alguma
ajuda, punha-a na rua com um par de notas na 
mo e a ameaa de que, se tornasse a importun-lo, corr-la-ia
a pontaps para que no lhe ficasse vontade de andar abanando
o rabo ao primeiro homem que visse e 
de acus-lo depois a ele. Foi assim que nunca se inteirou do
nmero exacto dos seus filhos e, na realidade, o assunto no
lhe interessava. Pensava que, quando quisesse 
ter filhos, procurava uma esposa da sua classe, com a bno
da Igreja, porque os nicos que contavam eram os que levavam o
apelido do pai, os outros eram como se 
no existissem... Que no lhe viessem com a monstruosidade de
que todos nasciam com os mesmos direitos e herdavam igual,
porque nesse caso ia tudo para o caralho 
e a civilizao regressava  Idade da Pedra. Recordava-se de
Nvea, a me de Rosa, que, depois do marido renunciar 
poltica aterrado pela aguardente envenenada, 
iniciou a sua prpria poltica. Juntava-se s outras senhoras
nas fileiras do Congresso e da Corte Suprema, provocando um
espectculo acalorado que metia os maridos 
a ridculo. Sabia que Nvea saia de noite a colar cartazes
sufragistas nas paredes da cidade e era capaz de passear pelo
centro em pleno meio-dia de um domingo, 
com uma vassoura na mo e um barrete na cabea, pedindo que as
mulheres tivessem os direitos dos homens, que pudessem votar e
entrar na universidade, pedindo tambm 
que todas as crianas gozassem da proteco da lei, mesmo que
fossem bastardas.

-- Essa senhora est mal da cabea! -- dizia Trueba. -- Isso
seria ir contra a natureza. Se as mulheres no sabem somar
dois mais dois, ainda menos podero pegar 
num bisturi. A sua funo  a maternidade, o lar. Por este
caminho, qualquer dia vo querer ser deputados e juizes, at
presidentes da Repblica! E entretanto esto 
fazendo uma confuso e uma desordem que pode terminar em
desastre. Andam publicando panfletos indecentes, falam pela
rdio, sentam-se em lugares pblicos e tem de 
ir l a polcia com um ferreiro para que lhes ponha as algemas
e as possa levar presas, que  como devem estar.  lamentvel
que haja sempre um marido influente, 
um juiz de poucos brios ou um parlamentar com ideias
revoltosas que as pe em liberdade... Mo lura  o que faz
falta tambm neste caso. 

A guerra na Europa tinha terminado e os vages cheios de
mortos era um clamor longnquo, mas que ainda no se apagara.
De l, estavam chegando as ideias subversivas 
trazidas pelos ventos incontrolveis da rdio, do telgrafo e
dos barcos carregados de emigrantes, que chegavam como um
tropel atnito, escapando  fome da sua terra, 
assolados pelo rugido das bombas e dos mortos apodrecendo nos
sulcos do arado. Era ano de eleies presidenciais e de
preocupao pela reviravolta que os acontecimentos 
estavam tomando. O pas despertava. A onda de descontentamento
que agitava o povo embatia contra a slida estrutura daquela
sociedade oligrquica. Nos campos houve 
de tudo: seca, caracol, febre aftosa. No Norte havia
desemprego e na capital sentia-se o efeito da guerra afastada.
Foi um ano de misria em que s faltou um terramoto 
para rematar o desastre.

A classe alta, no entanto, dona do poder e da riqueza, no se
deu conta do perigo que ameaava o frgil equilbrio da sua
posio. Os ricos divertiam-se danando 
o charleston e os novos ritmos do jazz, o fox-trot e cumbias
(1) de negros que eram uma maravilhosa indecncia.
Renovaram-se as viagens de barco  Europa, 
que se haviam suspendido durante os quatro anos de guerra, e
tornaram-se moda outras  Amrica do Norte. Chegou a novidade
do golfe, que reunia a melhor sociedade 
para bater numa bolinha com um taco, tal como duzentos anos
antes faziam os ndios naqueles mesmos lugares. As damas
punham colares de prolas falsas at ao joelho 
e chapus de penico enfiados at s sobrancelhas, cortavam o
cabelo como os homens e pintavam-se como meretrizes, tinham
acabado com o espartilho e fumavam de perna 
cruzada. Os cavalheiros andavam deslumbrados pelo invento dos
carros norte-americanos, que chegavam ao pas pela manh e se
vendiam no mesmo dia  tarde, apesar 
de custarem uma pequena fortuna e no passarem dum estrpito
de fumo e de porcas soltas correndo a uma velocidade suicida
pelos caminhos que tinham sido feitos para 
os cavalos e outras bestas naturais, mas em nenhum caso para
mquinas de fantasia. Nas mesas de jogo, jogavam-se as
heranas e as riquezas fceis do aps-guerra, 
abria-se o champanhe e chegou a novidade da cocana para os
mais refinados e viciosos. A loucura colectiva parecia no ter
fim.

(1) Dana tpica da costa colombiana (N. T.)

Mas no campo os novos automveis eram uma realidade to remota
como os vestidos curtos, e mesmo os que se livraram do caracol
e da febre aftosa no acharam que fosse 
um bom ano. Esteban Trueba e outros senhores da terra da
regio juntavam-se no clube da povoao para planear a aco
poltica antes das eleies. Os camponeses 
ainda viviam como nos tempos coloniais, no tinham ouvido
falar de sindicatos, nem de domingos festivos, nem de salrio
mnimo, mas j comeavam a infiltrar-se nas 
propriedades os delegados dos  novos partidos de esquerda,
entravam disfarados de evangelizadores com uma bblia debaixo
de brao e panfletos marxistas debaixo 
do outro, pregando simultaneamente a vida abstmia e a morte
pela revoluo. Esses almoos de confraternizao dos patres
terminavam em bebedeiras romanas ou em 
lutas de galos, e ao anoitecer tomavam de assalto o Farolito
Rojo, onde as prostitutas de doze anos e Carmelo, o nico
maricas do bordel e da aldeia, bailavam ao 
som de uma grafonola antediluviana, sob o olhar atento de
Sofia, que j no estava para essas cavalgadas, mas que ainda
tinha energia para o gerir com mo de ferro 
e para impedir que se pusessem os polcias a esfregar a
pacincia e os patres a exceder-se com as raparigas, fodendo
sem pagar. Entre todas, Trnsito Soto era a 
que melhor bailava e a que mais resistia s investidas dos
bbados, era incansvel e nunca se queixava de nada, como se
tivesse a virtude tibetana de deixar o msero 
esqueleto de adolescente nas mos dos clientes e mudar a alma
para uma regio afastada. Agradava a Esteban Trueba porque no
se cortava s inovaes e brutalidades 
do amor, sabia cantar com voz de pssaro rouco e porque lhe
disse uma vez que chegaria muito longe e ele achou graa a
isso.

-- No vou ficar no Farolito Rojo toda a vida, patro. Vou
para a capital, porque quero ser rica e famosa -- disse.

Esteban ia ao lupanar porque era o nico lugar de diverso da
povoao, mas no era homem de prostitutas. No gostava de
pagar pelo que podia fazer por outros meios. 
Mas no entanto apreciava Trnsito Soto. A jovem fazia-o rir.

Um dia, depois de fazer amor, sentiu-se generoso, o que
raramente lhe sucedia, e perguntou a Trnsito Soto se gostava
que ele lhe desse um presente.

-- Empresta-me cinquenta pesos, patro! -- pediu ela por fim.

--  muita prata. Para que a queres tu?

-- Para uma passagem de comboio, um vestido vermelho, uns
sapatos de salto alto, um frasco de perfume e para fazer a
permanente.  tudo o que eu preciso para comear. 
Vou devolv-los um dia, patro. Com juros.

Esteban deu-lhe os cinquenta pesos porque nesse dia tinha
vendido cinco novilhos e andava com os bolsos cheios de notas
e tambm porque a fadiga do prazer satisfeito 
o punha um pouco sentimental.

-- A nica coisa que sinto  que no te vou voltar a ver,
Trnsito. Tinha-me acostumado a ti.

-- Vamo-nos voltar a ver, sim, patro. A vida  longa e d
muitas voltas.

Essas comezainas no clube, as rixas de galos e as tardes no
bordel culminaram num plano inteligente, ainda que no
original de todo, para fazer votar os camponeses. 
Deram-lhes uma festa com empadas e muito vinho,
sacrificaram-se algumas reses para assar, tocaram-lhes canes
na guitarra, impingiram-lhes alguns discursos patriticos 
e prometeram-lhes que se vencesse  o candidato conservador
teriam uma gratificao, mas se vencesse outro qualquer
ficavam sem trabalho. Alm disso, controlaram 
as urnas e subornaram a polcia. Depois da festa meteram os
camponeses dentro de carroas e levaram-nos a votar, bem
vigiados, entre chalaas e gargalhadas, a nica 
oportunidade em que tinham familiaridades com eles: compadre
para aqui compadre para acol, conte comigo que eu no lhe
falto, patrozinho, assim agrada-me, homem, 
tens de ter conscincia patritica, olha que os liberais e os
radicais so todos uns poltres e os comunistas so uns ateus,
filhos da pura, que comem criancinhas.

No dia das eleies tudo correu como estava previsto, em
perfeita ordem. As Foras Armadas garantiram o processo
democrtico, tudo em paz, um dia de Primavera mais 
alegre e com mais sol que os outros.

-- Um exemplo para este continente de ndios e de negros, que
passam a vida em revolues, para derrubar um ditador e pr
outro. Este  um pais diferente, uma verdadeira 
Repblica, temos orgulho cvico, aqui o Partido Conservador
ganha de caras e no necessita de um general para haver ordem
e tranquilidade, no  como essas ditaduras 
da regio onde se matam uns aos outros, enquanto os gringos
levam todas as matrias-primas -- afirmou Trueba na sala de
jantar do clube, brindando com um copo na 
mo, no momento em que soube dos resultados da votao.

Trs dias depois, quando se tinha voltado  rotina, chegou a
carta de Frula a Las Tres Marias. Esteban Trueba tinha
sonhado essa noite com Rosa. Fazia muito tempo 
que isso no lhe acontecia. No sonho viu-a com o seu cabelo de
salgueiro solto pelos ombros, como um manto vegetal que a
cobria at  cintura, a pele dura e gelada, 
da cor e textura do alabastro. Ia nua e levava um embrulho nos
braos, caminhava como se caminha nos sonhos, aureolada pelo
resplendor que flutuava  volta do seu 
corpo. Viu-a aproximar-se lentamente e, quando quis toc-la,
ela atirou o embrulho para o cho, partindo-se a seus ps. Ele
baixou-se, apanhou-o e viu uma menina 
sem olhos que lhe chamava papa. Acordou angustiado e andou de
mau humor toda a manh. Por causa do sonho, sentiu-se inquieto
muito antes de receber a carta de Frula. 
Entrou na cozinha para tomar o pequeno almoo, como todos os
dias, e viu uma galinha que andava a bicar as migalhas no
cho. Mandou-lhe um pontap que lhe abriu 
a barriga, deixando-a agonizante num charco de tripas e penas,
batendo as asas no meio da cozinha. Isso no o acalmou, pelo
contrrio, aumentou a sua raiva e sentiu 
que comeava a afogar-se. Montou no cavalo e foi a galope
vigiar o gado que estavam a marcar. Nessa altura chegou a casa
Pedro Segundo Garcia, que tinha ido  estao 
de San Lucas deixar uma encomenda e tinha passado pela
povoao a recolher o correio. Trazia a carta de Frula.

O sobrescrito aguardou toda a manh sobre a mesa da entrada.
Quando  Esteban Trueba chegou foi directamente tomar banho
porque vinha coberto de suor e p, impregnado 
do cheiro inconfundvel dos animais aterrorizados. Depois
sentou-se no escritrio a fazer contas e ordenou que lhe
servissem a comida numa bandeja. No viu a carta 
da irm at  noite, quando percorreu a casa como fazia sempre
antes de se deitar, para ver se as luzes estavam apagadas e as
portas fechadas. A carta de Frula 
era igual a todas as que tinha recebido dela, mas, ao t-la na
mo, soube, ainda antes de a abrir, que o seu contedo lhe
mudaria a vida. Teve a mesma sensao que 
quando pegara no telegrama da irm anunciando-lhe a morte de
Rosa, anos atrs.

Abriu-a sentindo que lhe estalavam as fontes pelo
pressentimento. A carta dizia laconicamente que Dona Ester
Trueba estava a morrer e que Frula, depois de tantos 
anos a cuidar dela e a servi-la como uma escrava, tinha de
aguentar que a sua me nem sequer a reconhecesse, mas que
chamava dia e noite pelo seu filho Esteban, 
porque no queria morrer sem v-lo! Esteban nunca tinha
querido realmente a sua me, nem se sentia bem na sua
presena, mas a notcia deixou-o a tremer. Compreendeu 
que j no lhe serviam os pretextos sempre novos que inventava
para no a visitar, e que tinha chegado o momento de fazer o
caminho de volta  capital e enfrentar 
pela ltima vez essa mulher que estava presente nos seus
pesadelos, com o seu cheiro ranoso a medicamentos, os seus
queixumes tnues, as suas interminveis oraes, 
essa mulher sofredora que tinha povoado de proibies e
terrores a sua infncia e carregado de responsabilidades e
culpas a sua vida de homem.

Chamou Pedro Segundo Garcia e explicou-lhe a situao. Levou-o
ao escritrio e mostrou-lhe o livro da contabilidade e as
contas da cantina. Entregou-lhe um molho 
com todas as chaves, menos a da adega, e anunciou-lhe que, a
partir desse momento e at ao seu regresso, ele era o
responsvel por tudo o que havia em Las Tres Marias. 
Pedro Segundo Garcia recebeu as chaves, meteu o livro das
contas debaixo do brao e sorriu de alegria.

-- Cada um faz o que pode, nada mais, patro -- disse
encolhendo os ombros.

No dia seguinte, Esteban Trueba refez, pela primeira vez em
muitos anos, o caminho que o tinha levado de casa da me para
o campo. Foi numa carroa com as duas malas 
de couro at  estao de San Lucas, tomou a carruagem de
primeira classe dos tempos da companhia inglesa de
caminhos-de-ferro e tornou a percorrer os vastos campos
que se estendiam no sop da cordilheira.


Captulo III

Clara, Clarividente


Clara tinha dez anos quando decidiu que no valia a pena falar
e se fechou no mutismo. A sua vida mudou de maneira notvel. O
mdico da famlia, o gordo e afvel
doutor Cuevas, tentou cur-la do silncio com plulas da sua
inveno, com vitaminas em xarope e zaragatoas de brax na
garganta, mas sem nenhum resultado aparente. 
Deu conta de que os seus medicamentos eram ineficazes e que a
sua presena punha a menina em estado de terror. Ao v-lo,
Clara comeava a berrar e refugiava-se no 
canto mais afastado, encolhida como um animal acossado, de
maneira que abandonou as curas e recomendou a Severo e Nvea
que a levassem a um romeno, de apelido Rostipov, 
que estava causando sensao nessa temporada. Rostipov ganhava
a vida fazendo truques de ilusionista nos teatros de
variedades e tinha realizado a incrvel faanha 
de estender um arame desde a ponta da catedral at  cpula da
Irmandade Galega, do outro lado da praa, para a atravessar
caminhando pelo ar com uma vara por nica 
segurana. Apesar do seu lado frvolo, Rostipov estava
provocando uma confuso nos crculos cientficos porque nas
horas livres melhorava a histeria com varinhas 
mgicas e transes hipnticos. Nvea e Severo levaram Clara ao
consultrio que o romeno tinha improvisado no hotel. Rostipov
examinou-a cuidadosamente e por fim declarou 
que o caso no era da sua incumbncia, porque a pequena no
falava porque no queria mesmo, e no porque no pudesse. De
qualquer modo, face  insistncia dos pais, 
fabricou umas plulas de acar pintadas de cor violeta e
receitou-as advertindo de que era um remdio siberiano para
curar surdos e mudos. Mas a sugesto no funcionou 
neste caso e o segundo frasco foi devorado por Barrabs por
descuido, sem que isso provocasse no animal nenhuma reaco
aprecivel. Severo e Nvea tentaram faz-la 
falar com mtodos caseiros, com  ameaas e splicas e at
deixando-a sem comer, a ver se a fome a obrigava a abrir a
boca, para pedir o jantar, mas nem isso resultou.

A Ama tinha a ideia de que um bom susto podia conseguir que a
menina falasse e passou nove anos inventando recursos
desesperados para aterrorizar Clara, o que s 
conseguiu imuniz-la contra a surpresa e o espanto. Em pouco
tempo, Clara no tinha medo de nada, no a comoviam as
aparies de monstros lvidos e magros no seu 
quarto nem as pancadas dos vampiros e demnios na janela. A
Ama disfarava-se de flibusteiro sem cabea, verdugo da Torre
de Londres, de co lobo e de diabo cornudo, 
segundo a inspirao do momento e as ideias que tirava de uns
folhetos de terror que comprava para esse fim e donde, embora
no fosse capaz de os ler, copiava as 
ilustraes. Adquiriu o costume de deslizar silenciosamente
pelos corredores para assaltar a menina no escuro, de uivar
detrs das portas e de lhe esconder bichos 
vivos na cama, mas nada disto conseguiu arrancar-lhe uma
palavra que fosse. s vezes Clara perdia a pacincia,
atirava-se ao cho, torcia-se e gritava, mas sem articular 
nenhum som em idioma conhecido, ou ento anotava na pequena
lousa que trazia sempre consigo os piores insultos para a
pobre mulher, que ia para a cozinha chorar 
pela incompreenso.

-- Fao isto para teu bem, meu anjinho! -- soluava embrulhada
no lenol ensanguentado e com a cara mascarrada de cortia
queimada.

Nvea proibiu-a de continuar a assustar a filha. Verificou que
o estado de perturbao aumentava os seus poderes mentais e
produzia desordem nas aparies que andavam 
 volta da criana. Alm disso, aquele desfile de figuras
truculentas estava a destruir o sistema nervoso de Barrabs,
que nunca teve bom faro e era incapaz de reconhecer 
a Ama debaixo dos seus disfarces. O co comeou a urinar-se
sentado, deixando  sua volta um imenso charco, e com
frequncia rangia os dentes. Mas a Ama aproveitava 
qualquer descuido da me para continuar nas suas invenes de
curar a mudez com o mesmo remdio com que se curam os soluos.

Retiraram Clara do colgio das freiras onde se tinham educado
todas as irms del Valle e puseram-lhe professores em casa.
Severo mandou vir de Inglaterra uma instrutora, 
Miss Agatha, alta, toda ela cor de mbar e com grandes mos de
pedreiro, mas que no resistiu  mudana de clima,  comida
picante e aos voos autnomos do saleiro 
deslocando-se sobre a mesa de jantar e acabou por regressar a
Liverpool. A que se seguiu foi uma sua que no teve melhor
sorte, e a francesa que chegou graas 
aos contactos do embaixador desse pais com a famlia era to
rosada, redonda e doce que ficou grvida em poucos meses e, ao
fazerem-se investigaes sobre o caso, 
soube-se que o pai era Lus, irmo mais velho de Clara. Severo
casou-os sem lhes perguntar a opinio e, contra todas as
previses de Nvea e suas amigas, foram muito 
felizes. Em face destas experincias, Nvea convenceu o marido
de que  aprender idiomas estrangeiros no era importante para
uma criana com habilidades telepticas 
e que era muito melhor insistir com as classes de piano e
ensinar-lhe a bordar.

A pequena Clara lia muito. O seu interesse pela leitura era
indiscriminado, e tanto lhe serviam os livros mgicos dos bas
encantados de tio Marcos como os documentos 
do Partido Liberal que o pai guardava no escritrio. Enchia
incontveis cadernos com anotaes privadas, onde foram
ficando registados os acontecimentos desse tempo, 
que graas a isso no se perderam apagados pela neblina do
esquecimento, e que posso usar agora para recuperar a sua
memria.

Clara, clarividente, conhecia o significado dos sonhos. Esta
habilidade era natural nela e no requeria os intrincados
estudos cabalsticos que usava o tio Marcos 
com mais esforos e menos acerto. O primeiro a dar-se conta
disso foi Honrio, o jardineiro da casa, que sonhou um dia com
cobras que lhe andavam entre os ps e 
que, para as desenrolar deles, tinha de lhes dar patadas at
que conseguiu esmagar dezanove. Contou isto  menina enquanto
podava as roseiras, s para a entreter, 
porque gostava muito dela e lhe fazia pena que fosse muda.
Clara tirou a lousa do bolso do avental e escreveu a
interpretao do sonho de Honrio: ters muito dinheiro, 
durar-te- pouco, ganh-lo-s sem esforo, joga no dezanove.
Honrio no sabia ler, mas Nvea leu-lhe a mensagem entre
conjecturas e risadas. O jardineiro fez o 
que lhe diziam e ganhou oitenta pesos num antro clandestino
que havia por detrs da casa do carvo. Gastou-os num fato
novo, numa bebedeira memorvel com todos os 
seus amigos e numa boneca de loia para Clara. A partir de
ento a menina teve muito trabalho decifrando sonhos s
escondidas da me, porque quando se soube da histria 
de Honrio iam perguntar-lhe o que quer dizer voar sobre uma
torre com asas de cisne, ir numa barca  deriva e cantar uma
sereia com voz de viva, nascerem dois 
gmeos pegados pelas costas, cada um com uma espada na mo, e
Clara anotava sem vacilar, na lousa, que a torre  a morte e
aquele que voa por cima salvar-se- de 
morrer num acidente, o que naufraga e escuta a sereia perder
o trabalho e passar privaes, mas vai ajud-lo uma mulher
com a qual far um negcio, os gmeos so 
marido e mulher forados no mesmo destino, ferindo-se
mutuamente com golpes de espada.

Os sonhos no eram a nica coisa que Clara adivinhava. Tambm
via o futuro e conhecia a inteno das pessoas, virtudes que
manteve ao longo da sua vida e aumentou 
com o tempo. Anunciou a morte do padrinho, Don Salomon Valds,
que era corretor da Bolsa do Comrcio e que, julgando ter
perdido tudo, pendurou-se do candeeiro do 
seu elegante escritrio. Ali o encontraram por insistncia de
Clara, com o aspecto de um carneiro triste, tal como ela o
descreveu na lousa. Previu a hrnia do pai, 
todos os tremores de terra e outras alteraes da natureza, a
nica vez que caiu neve na capital  matando de frio os pobres
nas aldeias e os roseirais nos jardins 
dos ricos, e a identidade do assassino das colegiais muito
antes que a polcia descobrisse o segundo cadver, mas ningum
acreditou e Severo no quis que a filha 
tivesse opinio sobre assuntos criminais que eram estranhos 
famlia. Clara deu conta imediatamente que Getlio Armando ia
dar cabo de seu pai com o negcio das 
ovelhas australianas porque o leu na cor da aura. Escreveu
isso ao pai, mas este no fez caso e, quando veio a lembrar-se
das previses da filha mais nova, j tinha 
perdido metade da fortuna, e o seu scio andava pelas Carabas
transformado em homem rico, com um serralho de negras cuzudas
e um barco prprio para apanhar sol.

A habilidade de Clara para mover objectos sem lhes tocar no
passou com a menstruao, como vaticinava a Ama, mas, pelo
contrrio, foi-se acentuando at ter tanta 
prtica que podia mover as teclas do piano com a tampa
fechada, ainda que nunca conseguisse deslocar o instrumento
pela sala, como era seu desejo. Nessas extravagncias 
ocupava a maior parte da energia e do tempo. Desenvolveu a
capacidade de adivinhar uma assombrosa percentagem de cartas
do baralho e inventou jogos de fantasia para 
divertir os irmos. O pai proibiu-a de descobrir o futuro nas
cartas e de invocar fantasmas e espritos travessos que
molestavam o resto da famlia e aterrorizavam 
a criadagem, mas Nvea compreendeu que quanto mais limitaes
e sustos tivesse de impor  sua filha mais nova mais luntica
ela se punha, de modo que decidiu deix-la 
em paz com os seus truques de espiritista, os seus jogos de
pitonisa e o silncio de caverna, fazendo por am-la sem
condies e aceit-la tal como era. Clara cresceu 
como uma planta selvagem, apesar das recomendaes do doutor
Cuevas, que tinha trazido da Europa a novidade dos banhos de
gua fria e dos choques elctricos para 
curar os loucos.

Barrabs acompanhava a menina dia e noite, excepto nos
perodos normais da sua actividade sexual. Estava sempre a
rond-la como uma gigantesca sombra, to silenciosa 
como a prpria menina, deitava-se a seus ps quando ela se
sentava e dormia a seu lado com resfolegar de locomotiva.
Chegou a ter uma ligao to grande com a dona 
que, quando ela sala da cama para caminhar sonmbula pela
casa, o co seguia-a na mesma atitude. Em noites de lua cheia
era comum v-los passear pelos corredores, 
como dois fantasmas flutuando  luz plida.  medida que o co
foi crescendo tornaram-se evidentes as suas distraces. Nunca
compreendeu a natureza translcida 
do vidro e nos seus momentos de emoo costumava bater nas
janelas ao correr, com a inocente inteno de apanhar algumas
moscas. Cala do outro lado num estardalhao 
de vidros partidos, surpreendido e triste. Naquele tempo os
vidros vinham de Frana por barco e a mania do animal de se
lanar contra eles chegou a ser um problema, 
at que Clara idealizou o recurso extremo de pintar gatos nas
vidraas. Ao tornar-se adulto Barrabs deixou de fornicar  com
as pernas do piano, como fazia na 
infncia, e o seu instinto reprodutor manifestava-se s quando
farejava alguma cadela com o cio nas proximidades. Nessas
ocasies no havia corrente nem porta que 
o pudessem reter, lanava-se para a rua vencendo todos os
obstculos que se lhe punham pela frente e perdia-se por dois
ou trs dias. Voltava sempre com a pobre 
cadela pendurada atrs, suspensa no ar, atravessada pela sua
enorme masculinidade. Tinham de esconder as crianas para que
no vissem o horrendo espectculo do jardineiro 
molhando-os com gua fria at que, depois de muita gua,
patadas e palavres, Barrabs se desprendia da sua namorada,
deixando-a agonizante no ptio da casa, onde 
Severo tinha de a acabar com um tiro de misericrdia.

A adolescncia de Clara decorreu suavemente na grande casa de
trs ptios de seus pais, mimada pelos irmos mais velhos, por
Severo que a preferia entre todos os 
filhos, por Nvea e pela Ama, que alternava as suas sinistras
excurses disfarada de cuco com os cuidados mais ternos.
Quase todos os irmos tinham casado ou partido, 
uns de viagem, outros para trabalhar na provncia, e a grande
casa, que havia albergado uma famlia numerosa, estava quase
vazia, com muitos quartos fechados. A 
menina ocupava o tempo que lhe deixavam os perceptores a ler,
a mover sem lhes tocar os objectos mais diversos, a prender
Barrabs, a praticar jogos de adivinhar, 
e a aprender a tecer, o que, de todas as artes domsticas, foi
a nica que conseguiu dominar. Desde aquela Quinta-Feira Santa
em que o padre Restrepo a acusou de 
endemoninhada, houve uma sombra sobre a sua cabea que o amor
de seus pais e a discrio dos irmos conseguiu controlar, mas
a fama das suas estranhas habilidades 
circulou em voz baixa pelas tertlias de senhoras. Nvea notou
que ningum convidava a filha e at os prprios primos a
evitavam. Procurou compensar a falta de amigos 
com uma dedicao total, com tanto xito que Clara cresceu
alegremente e sempre recordaria a infncia como um perodo
luminoso da sua existncia, apesar da solido 
e da mudez. Em toda a sua vida guardaria na memria as tardes
partilhadas com a me na salinha de costura, onde Nvea cosia
 mquina roupa para os pobres e lhe 
contava histrias e anedotas familiares, lhe mostrava os
daguerretipos da parede e contava o passado.

-- Est a ver este senhor to srio, com barba de pirata?  o
tio Mateus, que foi ao Brasil por causa de um negcio de
esmeraldas, mas uma mulata de fogo deitou-lhe 
mau olhado. Caiu-lhe o cabelo, desprenderam-se-lhe as unhas,
soltaram-se-lhe os dentes. Teve de ir a um curandeiro, um
bruxo vudu, um negro retinto, que lhe deu 
um amuleto e os dentes seguraram-se-lhe, nasceram-lhe novas
unhas e recuperou o cabelo.

Clara sorria sem dizer nada e Nvea continuava falando porque
se tinha acostumado ao silncio da filha. Por outro lado,
tinha a esperana que, de tanto  lhe meter 
ideias na cabea, mais cedo ou mais tarde ela faria uma
pergunta e recuperaria a fala.

-- E este - dizia --  o tio Joo. Eu gostava muito dele. Uma
vez deu um peido e foi a sua condenao  morte, uma grande
desgraa. Aconteceu num almoo no campo. 
Estvamos todos ns, as primas, num lindo dia de Primavera,
com os nossos vestidos de musselina e os nossos chapus com
flores e fitas, e os rapazes vestiam a melhor 
roupa domingueira. Joo tirou o casaco branco, parece que o
estou vendo! Arregaou a camisa e pendurou-se airoso no ramo
de uma rvore para provocar, com as suas 
proezas de trapezista, a admirao de Constana Andrade, que
foi Rainha da Vindima, e logo desde a primeira vez que a viu,
perdeu a tranquilidade, devorado pelo 
amor. Joo fez duas flexes impecveis, deu uma volta completa
e, no movimento seguinte, lanou uma sonora ventosidade. No
se ria Clarinha! Foi terrvel. Fez-se 
um silncio de espanto e a Rainha da Vindima comeou a rir
descontroladamente. Joo vestiu o casaco, estava muito plido,
afastou-se do grupo sem pressa e no o 
voltmos a ver mais. Procuraram-no at na Legio Estrangeira,
perguntaram por ele em todos os consulados, mas nunca mais se
soube da sua existncia. Penso que se 
tornou missionrio e foi cuidar leprosos para a Ilha da
Pscoa, que  onde mais longe conseguiria chegar para esquecer
e para que o esquecessem, porque fica fora 
das rotas de navegao e nem sequer figura nos mapas dos
Holandeses. Desde ento, as pessoas recordam-no como Joo do
Peido.

Nvea levava a filha  janela e mostrava-lhe o tronco seco do
lamo.

-- Era uma rvore enorme -- dizia. -- Mandei-o cortar antes de
nascer o meu filho mais velho. Dizem que era to alto que da
ponta se podia ver toda a cidade, mas 
o nico que chegou to acima no tinha olhos para a ver. Cada
homem da famlia del Valle, quando quis vestir calas
compridas, teve de trepar por ele para provar 
o seu valor. Era qualquer coisa como um rito de iniciao. A
rvore estava cheia de marcas. Eu prpria pude comprovar,
quando a cortaram. Desde os primeiros ramos 
intermdios, grossos como chamins, j se podiam ver as marcas
deixadas pelos avs que fizeram a subida na sua poca. Pelas
iniciais gravadas no tronco sabia-se 
quais tinham subido mais alto, quais os mais valentes, e
tambm quais se tinham detido, assustados. Um dia tocou a vez
a Jernimo, o primo cego. Subiu tacteando 
os ramos sem vacilar, porque no via a altura e no pressentia
o vazio. Chegou l acima, mas no conseguiu terminar o jota da
sua inicial, porque se desprendeu como 
uma grgula e caiu de cabea no cho, aos ps do pai e dos
irmos. Tinha eu quinze anos. Levaram o corpo  me, envolto
num lenol, a pobre mulher cuspiu-lhes a 
todos na cara, gritando-lhes insultos de marinheiro e
amaldioou a raa de homens que tinham incitado o filho a
subir  rvore, at que as irms da caridade a levaram 
atada num colete-de-foras. Eu sabia que os meus  filhos
haviam um dia de continuar essa brbara tradio. Por isso
mandei-o cortar. No queria que Lus e os outros 
meninos crescessem com a sombra deste patbulo na janela.

Clara acompanhava por vezes a me e duas ou trs das suas
amigas sufragistas a visitar as fbricas, onde subiam a
caixotes, para arengar s operrias enquanto, a 
distncia prudente, os capatazes e patres observavam,
ruidosos e agressivos. Apesar da sua pouca idade e da completa
ignorncia das coisas do mundo, Clara podia 
perceber o absurdo da situao e descrevia nos seus cadernos o
contraste entre a me e as suas amigas, com casacos de pele e
botas de camura, falando de opresso, 
de igualdade e de direitos a um grupo triste e resignado de
trabalhadoras, com os aventais toscos de cotim e as mos
vermelhas de frieiras. Da fbrica, as sufragistas 
iam para a confeitaria da Praa das Armas, tomar ch com
pastelinhos e comentar os programas da campanha, sem que esta
distraco frvola as afastasse nem um segundo 
dos seus inflamados ideais. Outras vezes a me levava-a s
aldeias dos subrbios e aos bairros de lata, onde chegavam com
o carro carregado de alimentos e roupa 
que Nvea e as amigas cosiam para os pobres. Tambm nesta
ocasio a menina escrevia, com assombrosa intuio, que as
obras de caridade no podiam mitigar a injustia 
monumental. A relao com a me era alegre e intima, e Nvea,
apesar de ter tido quinze filhos, tratava-a como se fosse a
nica, estabelecendo um vinculo to forte 
que se prolongou pelas geraes posteriores como uma tradio
familiar.

A Ama tinha-se tornado uma mulher sem idade, que conservava
intacta a fora da juventude e podia andar aos saltos pelos
cantos assustando a mudez, tanto como podia 
passar o dia mexendo com um pau na marmita de cobre, num
fogaru dos diabos, no centro do terceiro ptio, onde
borbulhava a marmelada, um lquido espesso cor de 
topzio que ao esfriar se vazava em moldes de todos os
tamanhos que Nvea repartia pelos seus pobres. Acostumada a
viver rodeada de crianas, quando os outros cresceram 
e se foram embora a Ama dedicou a Clara todas as suas
ternuras. Embora a menina j no tivesse idade para isso,
banhava-a como se fosse um beb, mergulhando-a na 
banheira esmaltada em gua perfumada com alfavaca e jasmim,
esfregava-a com uma esponja, ensaboava-a meticulosamente sem
esquecer nenhum cantinho das orelhas ou 
dos ps, friccionava-a com gua-de-colnia, punha-lhe p de
talco com um hissope de penas de cisne e penteava-lhe o cabelo
com infinita pacincia at o deixar brilhante 
e dcil como uma planta do mar. Vestia-a, abria-lhe a cama,
levava-lhe o pequeno almoo numa bandeja, obrigava-a a tomar
ch de tlia para os nervos, de macela para 
o estmago, de limo para a transparncia da pele, de arruda
para os maus fgados e de hortel-pimenta para a frescura do
hlito, at que a menina se tornou um ser 
angelical e formoso que deambulava pelos ptios e corredores
envolta num  aroma de flores, num rumor de saiotes engomados e
num halo de risos e fitas. 

Clara passou a infncia e entrou na juventude dentro das
paredes de sua casa, num mundo de histrias assombrosas, de
silncios tranquilos, onde o tempo no se marcava 
com relgios nem com calendrios e onde os objectos tinham
vida prpria, as aparies se sentavam  mesa e falavam com os
humanos, o passado e o futuro faziam parte 
da mesma coisa e a realidade do presente era um caleidoscpio
de espelhos desordenados onde tudo podia acontecer.  uma
delicia para mim ler os cadernos dessa poca, 
onde se descreve um mundo mgico que acabou. Clara habitava um
universo inventado por ela, protegida das inclemncias da
vida, onde se confundiam a verdade prosaica 
das coisas materiais e a verdade tumultuosa dos sonhos, onde
nem sempre funcionavam as leis da fsica ou da lgica. Clara
viveu esse perodo ocupada nas suas fantasias, 
acompanhada pelos espritos do ar, da gua e da terra, to
feliz que no sentiu a necessidade de falar durante nove anos.
Todos tinham perdido a esperana de tornar 
a ouvir-lhe a voz quando, no dia do seu aniversrio, depois de
soprar as dezanove velas do bolo de chocolate, estreou uma voz
que tinha estado guardada durante todo 
aquele tempo e que tinha ressonncia de instrumento
desafinado:

-- Vou casar imediatamente -- disse.

-- Com quem? -- perguntou Severo.

-- Com o noivo de Rosa -- respondeu ela.

E ento deram conta que tinha falado pela primeira vez em
todos esses anos e o prodgio remexeu a casa at aos alicerces
e provocou o pranto de toda a famlia. Chamaram-se 
uns aos outros, espalhou-se a noticia pela cidade, consultaram
o doutor Cuevas, que no podia acreditar, e, na confuso por
Clara ter falado, todos se esqueceram 
do que ela tinha dito e s se recordaram dois meses mais
tarde, quando apareceu Esteban Trueba, a quem no tinham visto
desde o enterro de Rosa, para pedir a mo 
de Clara.


Esteban desceu na estao e carregou ele mesmo as duas malas.
A cpula de ferro que os Ingleses haviam construdo imitando a
Estao Vitria, nos tempos em que; 
tinham a concesso dos caminhos-de-ferro nacionais, no mudara
nada desde a ltima vez que tinha estado ali anos antes os
mesmos vidros sujos, os garotos a engraxar 
sapatos, as vendedeiras de po-de-ovos e doces crioulos e os
carregadores com as boinas escuras com a insgnia da coroa
britnica, que ningum tinha pensado substituir 
por outra com as cores da bandeira. Apanhou um fiacre e deu a
direco da casa da me. A cidade pareceu-lhe desconhecida,
havia uma desordem de modernismo, um prodgio 
de mulheres mostrando as canelas, de homens com colete e
calas de pregas, uma barulheira de operrios fazendo buracos
no pavimento, tirando rvores  para pr 
postes, tirando postes para pr edifcios, tirando edifcios
para plantar rvores, um estorvo de pregoeiros ambulantes
gritando as maravilhas do afiador de facas, 
do amendoim torrado, do bonequinho que baila sozinho, sem
arame, sem fios, veja voc mesmo, pegue nele, um vento de
lixeiras, de fritos, de fbricas, de automveis 
esbarrando com os fiacres e as tranvias de traco a sangue,
como chamavam aos cavalos velhos que puxavam os transportes
colectivos, uma respirao de multido, 
um rumor de correria, de ir e vir com pressa, de impacincia e
horrio fixo. Esteban sentiu-se oprimido. Odiava aquela cidade
mais do que a recordava, evocou as 
alamedas do campo, o tempo medido pelas chuvas, a vasta
solido dos seus pastos, a fresca mansido do rio e da sua
casa silenciosa.

-- Isto  uma cidade de merda -- concluiu.

O fiacre levou-o a trote  casa onde se tinha criado.
Estremeceu ao ver como o bairro se tinha deteriorado durante
esses anos, desde que os ricos quiseram viver 
mais acima que os outros e a cidade crescera at s faldas da
cordilheira. Da praa onde brincara em menino nada restava,
era um sitio baldio cheio de carroas do 
mercado estacionadas entre o lixo onde escavavam os ces
vadios. A sua casa estava devastada. Viu nela todos os sinais
do tempo. Na porta envidraada com motivos 
de pssaros exticos no cristal trabalhado, fora de moda e
desengonada, havia um batente em forma de mo feminina
agarrando uma bola. Tocou e teve de esperar algum 
tempo, que lhe pareceu interminvel, at que a porta se abriu
com um puxo de uma corda que ia do trinco  parte superior da
escada. A me habitava o segundo piso 
e alugava o rs-do-cho a uma fbrica de botes. Esteban
comeou a subir os degraus que rangiam e que j no eram
encerados h muito tempo. Uma criada velhssima, 
cuja existncia tinha esquecido por completo, esperava-o l em
cima, e recebeu-o com lacrimosas manifestaes de afecto, tal
como o recebia aos quinze anos, quando 
voltava do notrio onde ganhava a vida copiando mudanas de
propriedade e de procuraes de desconhecidos. Nada tinha
mudado, nem sequer o lugar dos mveis, mas 
tudo pareceu diferente a Esteban, o corredor com as tbuas
gastas, alguns vidros partidos, mal remendados com pedaos de
carto, uns fetos cheios de p definhando 
em vasos oxidados e potes de loia rachada, um cheiro ftido
de comida e urinas que dava volta ao estmago. Que pobreza!
pensou Esteban, sem perceber onde ia parar 
todo o dinheiro que enviava  irm para viver com decncia.

Frula saiu a receb-lo com uma triste careta de boas-vindas.
Havia mudado muito, j no era a mulher opulenta que deixara
anos atrs, tinha emagrecido e o nariz 
parecia enorme no seu rosto anguloso, tinha um ar de
melancolia e ofuscao, cheiro intenso a lavanda e roupa
antiquada. Abraaram-se em silncio.

-- Como est a mam? -- perguntou Esteban.

-- Vem v-la, est  tua espera -- disse ela.

Passaram por um corredor de quartos com comunicao entre si,
todos  iguais, escuros, de paredes morturias, tectos altos e
janelas estreitas, as paredes forradas 
de papel com flores desbotadas e donzelas languidas, manchado
pela fuligem dos braseiros e pela ptina do tempo e pela
pobreza. De muito longe chegava a voz de um 
locutor de rdio anunciando as plulas do doutor Ross,
pequeninas mas eficientes, que combatem a priso de ventre, a
insnia e o mau hlito. Pararam em frente da 
porta fechada do quarto de Dona Ester Trueba.

-- Est aqui -- disse Frula.

Esteban abriu a porta e necessitou de alguns segundos para ver
no escuro. O cheiro a medicamentos e podrido bateu-lhe na
cara, o odor adocicado do suor, da humidade, 
da clausura e de algo que a principio no identificou, mas que
logo se colou a ele como uma peste: o cheiro da carne em
decomposio. Entrava um fio de luz pela 
janela entreaberta, viu a cama larga onde morrera o seu pai e
onde dormia a me desde o dia do casamento, de negra madeira
esculpida, com um dossel de anjos em alto-relevo 
e penduricalhos de brocado vermelho estafados pelo uso. A me
estava semideitada. Era um bloco de carne compacta, uma
monstruosa pirmide de gordura e trapos, terminada 
por uma pequena cabecinha calva com olhos doces,
surpreendentemente vivos, azuis e inocentes. A artrite tinha-a
tornado um ser monoltico, no podia dobrar as articulaes 
nem virar a cabea, tinha os dedos em garfo, como patas de um
fssil, e para manter a posio na cama necessitava do apoio
de uma gaveta nas costas, segura por uma 
trave de madeira que por sua vez assentava na parede.
Notava-se o passar dos anos pelas marcas que a viga deixara na
parede, um rasto de sofrimento, um caminho de 
dor.

-- Mam... -- murmurou Esteban, e a voz quebrou-se-lhe no
peito num pranto contido, apagando de uma penada as
recordaes tristes, a infncia pobre, os cheiros ranosos, 
as manhs glidas e a sopa gordurosa da sua meninice, a me
doente, o pai ausente e essa raiva comendo-lhe as entranhas
desde o dia em que usou a razo, esquecendo 
tudo menos os nicos momentos luminosos em que aquela mulher
desconhecida que jazia na cama o tinha embalado nos braos,
lhe tinha tocado na testa para lhe ver a 
febre, lhe havia cantado uma cano de embalar, se tinha
inclinado com ele sobre as pginas de um livro, soluado de
pena por v-lo levantar-se ao nascer do Sol 
para ir trabalhar quando era ainda um menino, soluado de
alegria ao v-lo regressar  noite, tinha soluado, me, por
mim.

Dona Ester Trueba estendeu a mo, no era uma saudao, mas
apenas um gesto para o deter:

-- Filho, no se aproxime -- e tinha a voz inteira, tal como
ele recordava a voz cantante e s de uma jovenzinha.

--  por causa do cheiro -- explicou Frula secamente. --
Pega-se.

Esteban afastou a colcha de damasco esfiapada e viu as pernas
da me.  Eram duas colunas arroxeadas, cobertas de chagas,
onde as larvas das moscas e os vermes 
faziam ninhos e cavavam tneis, duas pernas apodrecendo em
vida, com uns ps descomunais cor azul-plido, sem unhas nos
dedos, rebentando pelo pus, pelo sangue negro, 
pela fauna abominvel que se alimentava da sua carne, me,
por Deus, da minha carne.

-- O doutor quer cortar-mas, filho -- disse Dona Ester com a
sua voz tranquila de rapariga, -- mas estou muito velha para
isso e muito cansada de sofrer, por isso 
 melhor morrer. Mas no queria morrer sem v-lo, porque em
todos estes anos cheguei a pensar que voc estava morto e que
as suas cartas era a sua irm quem as escrevia, 
para no me dar essa dor. Acenda a luz, filho, para o ver
melhor. Meu Deus! Parece um selvagem!

--  a vida do campo, mam -- murmurou ele.

-- Enfim! Est ainda forte. Quantos anos tem?

-- Trinta e cinco.

-- Boa idade para se casar e assentar cabea, para eu poder
morrer em paz.

-- A mam no vai morrer -- suplicou Esteban.

-- Quero ter a certeza de que terei netos, algum que leve o
meu sangue, que tenha o nosso apelido. Frula perdeu as
esperanas de casar, mas voc tem de procurar 
esposa. Uma mulher decente e crist. Mas antes disso tem de
cortar esse cabelo e essa barba, est a ouvir-me?

Esteban disse que sim. Ajoelhou-se junto da me e ps a cara
na sua mo inchada, mas o cheiro f-lo recuar. Frula
pegou-lhe no brao e tirou-o daquele quarto de 
pesadelo. L fora respirou profundamente, com o fedor colado
nas narinas e ento sentiu a raiva, a sua raiva to conhecida,
subir-lhe como uma onda quente  cabea, 
injectar-lhe os olhos, pr-lhe blasfmias de pirata nos
lbios, raiva pelo tempo passado sem pensar em si, me, no
quis dizer isso, porra, est a morrer, a velha, 
e eu no posso fazer nada, nem sequer acalmar-lhe a dor,
aliviar-lhe a podrido, tirar-lhe este cheiro de meter medo,
este caldo de morte em que est a ser cozinhada, 
me.

Dois dias depois Dona Ester Trueba morreu no leito dos
suplcios onde tinha padecido os ltimos anos da sua vida.
Estava sozinha porque a sua filha Frula tinha 
ido, como acontecia todas as sextas-feiras, aos bairros dos
pobres, na Misericrdia, rezar o tero aos indigentes, aos
ateus, s prostitutas e aos rfos, que lhe 
atiravam com lixo, lhe vazavam penicos e lhe cuspiam na cara,
enquanto ela, de joelhos nas lajes do cho, gritava
pais-nossos e ave-marias em incansvel ladainha, 
suja de porcaria de indigente, de cuspo de ateu, de
desperdcio de prostituta e caca de rfo, chorando, a de
humilhao, pedindo perdo para os que no sabem o 
que fazem, e sentindo que os ossos a abandonavam, que uma
languidez mortal lhe punha as pernas em algodo, que um calor
de Vero lhe metia pecados nos msculos, 
afasta de mim esse clice, Senhor, porque o ventre
rebentava-se-lhe em chamas de Inferno, ai  de santidade, de
medo, Pai Nosso, no me deixes cair em tentao, 
Jesus. 

Esteban tambm no estava com Dona Ester quando ela morreu
silenciosamente no leito dos suplcios. Tinha ido visitar a
famlia del Valle para ver se lhe restava 
alguma filha solteira, porque, com tantos anos de ausncia e
tantos de barbrie, no sabia por onde comear a cumprir a
promessa feita  me de dar-lhe netos legtimos 
e concluiu que, se Severo e Nvea o tinham aceite como genro
nos tempos de Rosa, a bela, no havia nenhuma razo para que
no o aceitassem de novo, especialmente 
agora que era homem rico e no tinha de escavar a terra para
arrecadar o seu ouro, agora quando tinha tudo o que era
necessrio na sua conta do Banco.

Esteban e Frula encontraram a me morta na cama. Tinha um
sorriso calmo, como se a doena tivesse querido poupar-lhe a
quotidiana tortura no ltimo instante de 
vida.


No dia em que Esteban Trueba pediu para ser recebido, Severo e
Nvea del Valle recordaram as palavras com que Clara tinha
quebrado a sua longa mudez, por isso no 
manifestaram nenhuma estranheza quando o visitante lhes
perguntou se tinham alguma filha em idade de casar. Fizeram as
contas e informaram que Ana se tinha feito 
freira, Teresa estava muito doente e todas as outras estavam
casadas, menos Clara, a mais nova, que ainda estava
disponvel, mas que era um ser um tanto extravagante, 
pouco apta para as responsabilidades matrimoniais e para a
vida domstica. Com toda a honestidade contaram-lhe as
excentricidades da filha mais nova, sem esconder 
o facto de que tinha permanecido sem falar durante metade da
sua existncia, porque no lhe apetecia faz-lo e no porque
no pudesse, como tinha dito muito bem 
o romeno Rostipov e confirmado o doutor Cuevas com inmeros
exames. Mas Esteban Trueba no era homem para se deixar
amedrontar por histrias de fantasmas que andam 
pelos corredores, por objectos que se movem  distncia com o
poder da mente ou por pressgios de m sorte, e muito menos
pelo prolongado silncio, que considerava 
uma virtude. Concluiu que nenhuma dessas coisas eram
inconvenientes para deitar filhos sos e legtimos ao mundo e
pediu para conhecer Clara. Nvea foi buscar a 
filha e os dois homens ficaram sozinhos no salo, ocasio que
Trueba, com a franqueza habitual, aproveitou para apresentar
sem prembulos a sua solvncia econmica.

-- Por favor, no diga mais, Esteban! -- interrompeu Severo.
-- Primeiro tem de ver a menina, conhec-la melhor, e tambm
porque temos de atender aos desejos de 
Clara. No lhe parece?

Nvea regressou com Clara. A jovem entrou no salo com as
faces coradas e as unhas negras, porque tinha estado a ajudar
o jardineiro a plantar batatas  de dlias 
e nessa ocasio faltou-lhe a clarividncia para esperar o
futuro noivo com aspecto mais esmerado. Ao v-la, Esteban
ps-se de p assombrado. Lembrava-se dela como 
uma criana fraca e asmtica, sem a menor graa, mas a jovem
que tinha na frente era um delicado medalho de marfim, com
rosto doce e uma mata de cabelo castanho, 
crespo e desordenado escapando do penteado em caracis, olhos
melanclicos, que se transformavam numa expresso matreira e
coriscante quando sorria, com um riso 
franco e aberto, a cabea ligeiramente inclinada para trs.
Ela saudou-o com um aperto de mo, sem dar mostras de timidez:

-- Estava  sua espera -- disse simplesmente.

A visita de cortesia prolongou-se por um par de horas, falando
da temporada lrica, das viagens  Europa, da situao
poltica e dos resfriados de Inverno, bebendo 
mistelas e comendo pastis de massa folhada. Esteban observava
Clara com toda a discrio de que era capaz, sentindo-se a
pouco e pouco seduzido pela rapariga. No 
se recordava de ter estado to interessado em algum desde o
dia glorioso em que viu Rosa, a bela, comprando caramelos de
anis na confeitaria da Praa de Armas. 
Comparou as duas irms e chegou  concluso de que Clara
ganhava em simpatia, ainda que Rosa, sem dvida, tivesse sido
muito mais formosa. Caiu a noite e entraram 
duas criadas a correr as cortinas e a acender as luzes, ento
Esteban reparou que a visita tinha durado demasiado tempo. Os
seus modos deixavam muito a desejar. 
Saudou Severo e Nvea rigidamente e pediu para visitar Clara
de novo.

-- Espero no a aborrecer, Clara -- disse corando. -- Sou um
homem rude, do campo, e pelo menos quinze anos mais velho. No
sei tratar com uma jovem como voc...

-- Voc quer casar comigo? -- perguntou Clara, e ele notou-lhe
um brilho irnico nas pupilas de avel.

-- Clara, por amor de Deus!-exclamou a me horrorizada. --
Desculpe Esteban, esta menina foi sempre muito impertinente.

-- Quero saber mam, para no perder tempo -- disse Clara.

-- Eu tambm gosto das coisas directas -- sorriu feliz
Esteban. -- Sim, Clara, foi por isso que vim.

Clara pegou-lhe pelo brao e acompanhou-o at  sada. No
ltimo olhar que trocaram, Esteban compreendeu que ela o
aceitara e sentiu-se invadido de alegria. Ao subir 
para o fiacre, sorria, sem poder acreditar na sua boa sorte e
sem saber por que razo uma jovem encantadora como Clara o
tinha aceite sem o conhecer. No sabia que 
ela havia visto o seu prprio destino, e que por isso o tinha
chamado com o pensamento e estava disposta a casar sem amor.

Deixaram passar alguns meses por respeito ao luto de Esteban
Trueba, durante os quais ele a cortejou  antiga, da mesma
forma como tinha feito  com a irm Rosa, 
sem saber que Clara detestava os caramelos de anis e que os
acrsticos a faziam rir. No fim do ano, pelo Natal, anunciaram
oficialmente o noivado no jornal e puseram 
as alianas na presena dos pais e dos amigos ntimos, mais de
cem pessoas ao todo, num banquete pantagrulico onde
desfilavam as bandejas com perus recheados, os 
porcos com caramelo, os congros de gua fria, as lagostas
gratinadas, as ostras vivas, as tortas de laranja e limo das
Carmelitas, de amndoas e nozes das Dominicanas, 
de chocolate e ovos-moles das Clarissas, e caixas de champanhe
trazidas de Frana atravs do cnsul, que fazia contrabando
aproveitando-se dos privilgios diplomticos, 
mas tudo servido e apresentado com grande simplicidade pelas
antigas servas da casa, com os aventais negros de todos os
dias, para dar ao festim a aparncia de uma 
modesta reunio familiar, porque toda a extravagar ia era uma
prova de grosseria e condenada como um pecado de vaidade
mundana e um sinal de mau gosto, devido ao 
passado austero e um tanto triste daquela sociedade
descendente dos mais esforados emigrantes castelhanos e
bascos. Clara era uma apario de rendas brancas de 
Chantilly e de camlias naturais, libertando-se como um
periquito feliz dos nove anos de silncio, danando com o
noivo debaixo dos toldos e lampies, alheia por 
completo s advertncias dos espritos que lhe faziam sinais
desesperados por detrs das cortinas, mas que no meio da
multido e do barulho ela no via. A cerimnia 
das alianas mantinha-se igual desde os tempos coloniais. s
dez da noite, um criado circulou por entre os convidados
tocando um sininho de cristal, calou-se a msica, 
parou o baile e os convidados reuniram-se no salo principal.
Um sacerdote pequeno e inocente, adornado com os paramentos de
missa grande, leu o emaranhado sermo 
que tinha preparado, exaltando virtudes confusas e
impraticveis. Clara no o ouviu porque, quando parou o
barulho da msica e a luta dos bailarinos, prestou ateno 
aos sussurros dos espritos entre as cortinas e reparou que h
j muitas horas no via Barrabs. Procurou-o com os olhos,
pondo os sentidos alerta, mas uma cotovelada 
da me devolveu-a s urgncias da cerimnia. O padre terminou
o discurso, benzeu os anis de ouro e em seguida Esteban ps
um  noiva e colocou outro no prprio 
dedo.

Nesse momento um grito de terror sacudiu os presentes. As
pessoas afastaram-se, abrindo caminho, por onde entrou
Barrabs, mais negro e maior do que nunca, com uma 
faca de carniceiro espetada no lombo at ao cabo, sangrando
como um boi, com as grandes patas de potro a tremer, o focinho
babando um fio de sangue, os olhos enevoados 
pela agonia, passo a passo, arrastando uma pata atrs da outra
num avanar ziguezagueante de dinossauro ferido. Clara caiu
sentada no sof de seda francesa. O canzarro 
aproximou-se dela, colocou-lhe a grande cabea de fera
milenria na saia e ficou a olh-la com olhos enamorados, que
se embaciaram pouco a pouco, ficando cego, enquanto 
a renda branca de Chantilly, a seda francesa do sof, a 
almofada persa e o parquet (1) se ensoparam de sangue.
Barrabs foi morrendo, sem pressa alguma, com 
os olhos presos em Clara, que lhe acariciava as orelhas e
murmurava palavras de consolo, at que finalmente num nico
estertor se tornou rgido. Ento todos pareceram 
despertar de um pesadelo e um rumor de espanto percorreu o
salo, os convidados comearam a despedir-se  pressa, a
escapar contornando os charcos de sangue, pegando 
de passagem nas estolas de pele, nos chapus de copa, nas
bengalas, nos guarda-chuvas, nas bolsas de missanga. No salo
da festa ficaram apenas Clara com o animal 
no regao, os seus pais, que se abraavam paralisados pelo mau
pressgio, e o noivo, que no entendia a causa de tanto
alvoroo por um co morto mas que, quando 
viu que Clara parecia em transe, levantou-a nos braos e
levou-a meio inconsciente at ao quarto, onde os cuidados da
Ama e os sais do doutor Cuevas impediram que 
tornasse a cair no estupor e na mudez. Esteban Trueba pediu
ajuda ao jardineiro e os dois atiraram para o carro o cadver
de Barrabs, que com a morte aumentou de 
peso at ser quase impossvel levant-lo.

(1) em francs no texto (N. T.)


O ano passou com os preparativos para a boda. Nvea ocupou-se
em ajudar Clara, que no demonstrava o menor interesse no
contedo dos bas de sndalo e continuava 
fazendo experincias com a mesa de p-de-galo e as suas cartas
de adivinhar. Os lenis bordados com primor, as toalhas de
renda e a roupa interior que h dez anos 
atrs as freiras tinham feito para Rosa, com as iniciais
entrelaadas de Trueba e del Valle, serviram para o enxoval de
Clara. Nvea encomendou em Buenos Aires, 
em Paris e em Londres vestidos de viagem, roupa para o campo,
trajes de festa, chapus  moda, sapatos e carteiras de pele
de lagarto e camura, e outras coisas 
que se guardavam embrulhadas em papel de seda e se conservavam
com lavanda e cnfora, sem que a noiva lhes desse mais que uma
olhadela distrada.

Esteban Trueba ps-se  frente de um grupo de pedreiros,
carpinteiros e canalizadores para construir a casa mais
slida, ampla e soalheira que se pudesse conceber, 
destinada a durar mil anos e a albergar vrias geraes de uma
famlia numerosa de Truebas legtimos. Encarregou dos planos
um arquitecto francs e mandou vir parte 
dos materiais do estrangeiro para que a sua casa fosse a nica
com vitrais alemes, com socos talhados na ustria, com
torneiras de bronze inglesas, com mrmores 
italianos no cho e fechaduras pedidas por catlogo dos
Estados Unidos, que chegaram com instrues trocadas e sem
chaves. Frula, horrorizada pelas despesas, procurou 
evitar que ele continuasse a fazer loucuras, comprando mveis
franceses,  lustres e almofadas turcas, com o argumento de que
se iam arruinar e s~ voltaria a repetir 
a histria do Trueba extravagante que os tinha engendrado mas
Esteban demonstrou-lhe que era bastante rico para dar-se a
esses luxos e ameaou-a de forrar as portas 
de prata se continuasse a chate-lo. Ento ela disse que tanto
esbanjamento era seguramente pecado mortal e que Deus os ia
castigar por gastar em pirosices de novo 
rico o que seria melhor empregue ajudando os pobres.

Apesar de Esteban Trueba no ser amante de inovaes antes,
pelo contrrio, ter grande desconfiana pelos transtornos do
modernismo, decidiu que a sua casa devia 
ser construda como os novos palacetes da Europa e Amrica do
Norte, com todas as comodidades embora mantendo um estilo
clssico. Queria que fosse o mais despojada 
possvel de arquitectura indgena. No queria trs ptios,
corredores, fontes barulhentas, quartos escuros, paredes de
adobe branqueadas de cal, nem telhas poeirentas, 
mas dois ou trs pisos hericos, fileiras de colunas brancas,
uma escada senhorial que desse meia volta sobre si mesma e
aterrasse num hall (1) de mrmore branco, 
janelas grandes e iluminadas e, de uma maneira geral, um
aspecto de ordem e acerto de beleza e civilizao, prprio dos
povos estrangeiros, e de acordo com a sua 
nova vida. A sua casa devia ser o reflexo dele prprio, da sua
famlia e do prestigio que pensava dar ao apelido que o pai
tinha sujado. Desejava que o esplendor 
se visse da rua, por isso mandou desenhar um jardim francs
com um pavilho versalhesco, macios de flores, um relvado
liso e perfeito, repuxos e algumas esttuas 
representando os deuses do Olimpo e talvez algum ndio
selvagem da histria americana, nu e coroado de penas, como
uma concesso ao patriotismo. No podia saber 
que aquela manso solene cbica, compacta e bojuda, colocada
como um chapu com o seu contorno verde e geomtrico, acabaria
por encher-se de protuberncias, de mltiplas 
escadarias torcidas que conduziam a lugares vagos, de
torrees, de postigos que no se abriam e de portas suspensas
no vazio, de corredores torcidos e de olhos-de-boi 
que ligavam os quartos para a hora da sesta, de acordo com a
inspirao de Clara, que, cada vez que necessitava de instalar
um novo hspede, mandaria fazer outro 
quarto em qualquer parte, e, se os espritos lhe indicavam que
havia um tesouro oculto ou um cadver insepulto nos alicerces,
deitaria abaixo uma parede, at deixar 
a manso transformada num labirinto encantado, impossvel de
limpar, que desafiava numerosas leis urbansticas e
municipais. Mas quando Trueba construiu o que todos 
chamavam a grande casa da esquina, tinha o selo solene que
procurava impor a tudo o que o rodeava, em recordao das
privaes da infncia. Clara nunca foi ver 
a casa durante o processo de construo. Parecia
interessar-lhe to pouco como o 

(1) Em ingls no texto (N. T.)

prprio enxoval, depositando as decises nas mos do noivo e
da futura cunhada.

Ao morrer a me, Frula viu-se sozinha e sem nada de til para
dedicar a sua vida, numa idade em que j no tinha a iluso de
casar-se. Por algum tempo andou visitando 
bairros de lata todos os dias, numa frentica obra piedosa que
lhe provocou uma bronquite crnica e no trouxe nenhuma paz 
sua alma atormentada. Esteban quis que 
viajasse, que comprasse roupa e se divertisse pela primeira
vez na sua melanclica existncia, mas ela tinha o hbito da
austeridade e passava demasiado tempo fechada 
em casa. Tinha medo de tudo. O casamento do irmo consumia-a
na incerteza, porque pensava que isso ia ser mais um motivo de
afastamento para Esteban, que era o seu 
nico sustento. Tinha medo de terminar os seus dias
trabalhando nalgum asilo para solteironas de boas famlias,
por isso sentiu-se muito feliz ao descobrir que Clara 
era incompetente para todas as coisas da vida domstica e que,
sempre que tinha de enfrentar uma deciso, adoptava um ar
distrado e vago.  um pouco idiota, concluiu 
Frula encantada. Era evidente que Clara seria incapaz de
administrar o casaro que o seu irmo estava a construir e que
necessitaria de muita ajuda. Com maneiras 
subtis procurava fazer saber a Esteban que a sua futura mulher
era uma intil e que ela, com o seu esprito de sacrifcio to
amplamente demonstrado, podia ajud-la 
e estava disposta a faz-lo. Esteban no seguia a conversa
quando se entrava por esse caminho.  medida que se aproximava
a data do matrimnio e se via na necessidade 
de decidir do seu destino, Frula comeou a desesperar.
Convencida de que no ia conseguir nada com o irmo, procurou
a oportunidade de falar a ss com Clara e encontrou-a 
um sbado s cinco da tarde quando a viu a passear na rua.
Convidou-a a tomar ch no Hotel Francs. As duas mulheres
sentaram-se rodeadas de pastelinhos com creme 
e porcelana da Baviera, enquanto ao fundo do salo uma
orquestra de senhoras interpretava um melanclico quarteto de
cordas. Frula observava disfaradamente a sua 
futura cunhada, que parecia de quinze anos e ainda tinha a voz
desafinada, produto dos anos de silncio, sem saber como
abordar o tema. Depois de uma pausa enorme 
em que comeram uma bandeja de biscoitos e beberam duas
chvenas de ch de jasmim cada uma, Clara ajeitou uma mecha do
cabelo que lha cala sobre os olhos, sorriu 
e deu uma palmadinha carinhosa na mo de Frula:

-- No te preocupes. Vais viver connosco e seremos as duas
como irms -- disse a rapariga.

Frula sobressaltou-se, perguntando a si prpria se seriam
certos os boatos sobre a habilidade de Clara para ler o
pensamento dos outros. A sua primeira reaco 
foi de orgulho e teria recusado a oferta apenas pela beleza do
gesto, mas Clara no lhe deu tempo. Inclinou-se e beijou-a na
face com  tanta candura que Frula 
perdeu o controlo e rompeu a chorar. H muito tempo que no
derramava uma lgrima e comprovou assombrada quanta falta lhe
fazia um gesto de ternura. No se lembrava 
da ltima vez que algum lhe tinha tocado espontaneamente.
Chorou longo tempo, libertando-se de muitas tristezas e
solides passadas, da mo de Clara que a ajudava 
a assoar-se e, entre soluo e soluo, lhe dava mais pedaos de
pastel e sorvos de ch. Ficaram chorando e falando at s oito
horas da noite e, nessa tarde, no Hotel 
Francs, selaram um pacto de amizade que durou muitos anos.


Logo que terminou o luto por morte de Dona Ester e a grande
casa da esquina ficou pronta, Esteban Trueba e Clara del Valle
casaram-se numa cerimnia discreta. Esteban 
ofereceu a sua noiva um adereo de brilhantes, que ela achou
muito bonito e que guardou numa caixa de sapatos, esquecendo
em seguida onde o tinha posto. Foram de 
viagem a Itlia e, a dois dias de embarcarem, Esteban
sentia-se apaixonado como um adolescente, apesar dos balanos
do barco terem dado a Clara interminveis enjoos 
e da clausura lhe produzir asma. Sentado a seu lado no
estreito camarote, pondo-lhe panos molhados na testa e
segurando-a quando vomitava, sentia-se profundamente 
feliz e desejava-a com uma intensidade injustificada, tomando
em considerao o seu lamentvel estado. Ao quarto dia ela
acordou melhor e saram para a coberta para 
ver o mar. Ao v-la com o nariz corado pelo vento e rindo-se
por qualquer pretexto, Esteban jurou a si prprio que mais
cedo ou mais tarde ela acabaria por am-lo 
tal como ele necessitava de ser amado, ainda que para
conseguir isso tivesse de empregar os recursos mais extremos.
Dava-se conta que Clara no lhe pertencia e que, 
se ela continuava habitando um mundo de aparies, de mesas
p-de-galo que se mexem sozinhas e de baralhos que vem o
futuro, o mais provvel era que no chegasse 
a pertencer-lhe nunca. A despreocupada e impudica sensualidade
de Clara tambm no lhe chegava. Desejava muito mais que o seu
corpo, queria apoderar-se dessa matria 
imprecisa e luminosa que havia no seu interior e que lhe
escapava ainda nos momentos em que ela parecia morrer de
prazer. Sentia que as suas mos eram muito pesadas, 
os seus ps muito grandes, a sua voz muito dura, a barba muito
spera, o seu costume de violaes e de prostitutas muito
arreigado, mas, mesmo que tivesse de virar-se 
do avesso como uma luva, estava disposto a seduzi-la.

Regressaram da lua-de-mel trs meses depois. Frula
esperava-os com a casa nova, que ainda cheirava a pintura e
cimento fresco, cheia de flores e travessas com frutos, 
tal como Esteban lhe tinha ordenado. Ao cruzar o  umbral pela
primeira vez, Esteban levantou a mulher nos braos. A irm
ficou surpreendida por no sentir cimes 
e viu que Esteban parecia ter rejuvenescido.

-- Fez-te muito bem o casamento -- disse.

Levou Clara a dar uma volta pela casa. Ela passeava os olhos,
achava tudo muito bonito, com a mesma cortesia com que tinha
celebrado um pr do Sol no alto mar, a 
Praa de So Marcos ou o adereo de brilhantes.  porta do
quarto destinado a ela, Esteban pediu que fechasse os olhos e
levou-a pela mo at ao centro.

-- J os podes abrir -- disse-lhe encantado.

Clara olhou  volta. Era uma grande diviso com as paredes
forradas de seda azul, mveis ingleses, grandes janelas com
balces abertos sobre o jardim e uma cama 
de dossel e cortinas de gaze que parecia um veleiro navegando
na gua mansa da seda azul.

-- Muito bonito -- disse Clara.

Ento Esteban indicou-lhe o lugar onde estava parada. Era a
maravilhosa surpresa que tinha preparado para ela. Clara
baixou os olhos e deu um grito pavoroso; estava 
de p sobre o lombo negro de Barrabs, que jazia aberto, patas
para o lado, transformado em almofada, com a cabea intacta e
dois olhos de vidro olhando-a com a 
expresso de desamparo prpria da taxidermia. Seu marido
conseguiu segur-la antes que casse desmaiada no cho.

-- Esteban, eu disse-te que ela no ia gostar! -- disse
Frula.

A pele curtida de Barrabs foi rapidamente tirada do quarto e
mandada para um canto da cave, juntamente com os livros
mgicos dos bas encantados do tio Marcos e 
outros tesouros, onde ficou livre das traas e do abandono com
uma tenacidade digna de melhor causa, at que outras geraes
a recuperaram.

Depressa se tornou evidente que Clara estava grvida. O
carinho que Frula sentia pela cunhada transformou-se em
paixo por cuidar dela, uma dedicao em servi-la 
e uma tolerncia ilimitada para resistir s suas distraces e
excentricidades. Para Frula, que tinha dedicado a sua vida a
cuidar de uma anci que ia apodrecendo 
sem remisso, cuidar de Clara foi como entrar na glria.
Banhava-a em gua perfumada com alfavaca e jasmim, esfregava-a
com uma esponja, ensaboava-a, friccionava-a 
com gua-de-colnia, punha-lhe p de talco com um hissope de
penas de cisne e penteava-lhe o cabelo at o deixar brilhante
e dcil como uma planta do mar, tal como 
antes tinha feito a Ama.


Muito antes de se acalmar a sua impacincia de marido recente,
Esteban Trueba teve de regressar a Las Tres Marias, onde no
punha os ps fazia mais de um ano e que, 
apesar dos esmeros de Pedro Segundo Garcia, reclamava  a
presena do patro. A propriedade que antes parecia um paraso
e era todo o seu orgulho, agora parecia-lhe 
fastidiosa. Olhava as vacas inexpressivas ruminando nos
pastos, a lenta tarefa dos camponeses repetindo os mesmos
gestos todos os dias ao longo da vida, o imutvel 
contorno da cordilheira nevada e a frgil coluna de fumo do
vulco, e sentia-se como um preso.

Enquanto ele esteve no campo, a vida na grande casa da esquina
mudava para se acomodar a uma suave rotina sem homens. Frula
era a primeira a despertar, porque lhe 
tinha ficado o hbito de madrugar desde a poca em que velava
junto da me enferma, mas deixava a sua cunhada dormir at
tarde. A meio da manh, levava-lhe pessoalmente 
o pequeno almoo  cama, abria as cortinas de seda azul para
que entrasse o sol pelos vidros, enchia a banheira de
porcelana francesa pintada com nenfares, dando 
tempo a Clara para sacudir a modorra saudando os espritos
presentes, puxar a bandeja e molhar as torradas no chocolate
espesso. Tirava-a da cama acariciando-a com 
cuidados de me e dizendo-lhe as noticias agradveis do
jornal, que cada dia eram menos, por isso tinha de preencher
as lacunas com histrias sobre os vizinhos, 
pormenores domsticos e anedotas inventadas que Clara achava
muito bonitas e cinco minutos depois j no recordava, de modo
que era possvel voltar a contar-lhe 
a mesma vrias vezes por dia, e ela divertia-se sempre como se
fosse a primeira vez.

Frula levava-a a passear para que apanhasse luz, faz bem 
criana; a fazer compras, para que quando nasa no lhe falte
nada e tenha a roupa mais fina do mundo; 
a almoar no Clube de Golfe, para que todos vejam como te
puseste bonita desde que te casaste com o meu irmo; visitar
os teus pais, para que no julguem que os 
esqueceste; ao teatro, para que no passes todo o dia fechada
em casa. Clara deixava-se conduzir com uma doura que no era
imbecilidade, mas distraco, e gastava 
toda a sua capacidade de concentrao em inteis tentativas de
comunicar telepaticamente com Esteban, que no recebia as
mensagens, e em aproveitar a sua prpria 
clarividncia.

Pela primeira vez desde que podia recordar, Frula sentia-se
feliz. Estava mais perto de Clara do que alguma vez tinha
estado de algum, mesmo da me. Uma pessoa 
menos original que Clara teria acabado por aborrecer-se com os
mimos excessivos e a constante preocupao da cunhada, ou
teria sucumbido ao seu caracter dominante 
e meticuloso. Mas Clara vivia noutro mundo. Frula detestava o
momento em que o irmo regressava do campo e a sua presena
enchia toda a casa, rompendo a harmonia 
que se estabelecia na sua ausncia. Com ele em casa, ela devia
pr-se na sombra e ser mais prudente na forma de se dirigir
aos criados, tanto como nas atenes que 
tinha para com Clara. Todas as noites, no momento em que os
esposos se retiravam para os seus quartos, sentia-se invadida
por um dio desconhecido, que no podia 
 explicar e que lhe enchia a alma de funestos sentimentos.
Para se distrair retomava o vicio de rezar o tero nos asilos
e de confessar-se ao padre Antnio.

-- Ave-Maria purssima.

-- Concebida sem pecado.

-- Estou a ouvir-te, minha filha.

-- Padre, no sei como comear. Creio que  pecado o que
fiz...

-- Da carne, minha filha?

-- Ai! A carne est seca, padre, mas o esprito no.
Atormenta-me o demnio.

-- A misericrdia de Deus  infinita.

-- O padre no conhece os pensamentos que podem existir na
mente de uma mulher sozinha, uma virgem que no conheceu
homem, no por falta de oportunidades, mas porque 
Deus mandou uma longa doena a minha me e tive de cuidar
dela.

-- Esse sacrifcio est registado no cu, minha filha.

-- Mesmo com pecado de pensamento, padre?

-- Bom, depende do pensamento...

-- De noite no posso dormir, sufoco. Para me acalmar
levanto-me e caminho pelo jardim, vagueio pela casa, vou ao
quarto de minha cunhada, encosto o ouvido  porta, 
s vezes entro em pontas dos ps para a ver quando dorme,
parece um anjo, tenho a tentao de meter-me na sua cama para
sentir o calor da sua pele e da sua respirao.

-- Reza, minha filha. A orao ajuda.

-- Espere, no lhe disse tudo. Tenho vergonha.

-- No deves envergonhar-te de mim, porque no sou mais do que
um instrumento de Deus.

-- Quando o meu irmo vem do campo  muito pior, padre. De
nada me serve a orao, no posso dormir, transpiro, tremo,
por fim levanto-me e atravesso toda a casa 
s escuras, deslizando devagarinho com muito cuidado para o
soalho no ranger. Oio-os atravs da porta do quarto e uma
vez pude at v-los, porque a porta tinha 
ficado entreaberta. No lhe posso contar o que vi, padre, mas
deve ser um pecado terrvel. No  culpa de Clara, ela 
inocente como uma criana.  o meu irmo que 
a leva a isso. Ele ser condenado, por certo.

-- S Deus pode julgar e condenar, minha filha. Que faziam
eles?

Ento Frula podia passar uma boa meia hora a contar os
pormenores. Era uma narradora virtuosa, sabia fazer as pausas,
medir a entoao, explicar sem gestos, pintando 
um quadro to vivo que o ouvinte parecia estar mesmo a v-lo;
era incrvel como podia perceber da porta entreaberta a
qualidade dos estremecimentos, a abundncia 
dos orgasmos, as palavras murmuradas ao  ouvido, os cheiros
mais secretos -- um prodgio, na verdade. Liberta daqueles
tumultuosos estados de nimo, regressava 
a casa com a sua mscara de dolo, impassvel e severa, a dar
ordens, contando os talheres, determinando a comida, fechando
 chave, exigindo ponha-me isto aqui, 
se o apanham, mudem as flores dos jarres, mudavam-nas, lavem
os vidros, faam calar esses pssaros do diabo, que a
barulheira no deixa dormir a senhora Clara e 
com tanto cacarejo a criana vai espantar-se e  capaz de
nascer com asas. Nada escapava aos seus olhos vigilantes e
estava sempre em actividade, em contraste com 
Clara, que achava tudo muito bonito e tanto lhe fazia comer
trufas recheadas ou sopa de sobras, dormir em colcho de penas
ou sentada numa cadeira, banhar-se em 
guas perfumadas ou no tomar banho.  medida que avanava o
estado de gravidez, parecia ir-se desligando irremissivelmente
da realidade, voltando-se para o interior 
de si prpria, num dilogo secreto e constante com a criana.

Esteban queria um filho que tivesse o seu nome e passasse 
sua descendncia o apelido dos Trueba.

--  uma menina e chama-se Blanca -- disse Clara desde o dia
em que anunciou a sua gravidez.

E assim foi.

O doutor Cuevas, de quem Clara tinha perdido finalmente o
medo, calculava que o parto devia dar-se em meados de Outubro,
mas em princpios de Novembro ela continuava 
bamboleando uma pana enorme, em estado semi-sonmbulo, cada
vez mais distrada e cansada, asmtica, indiferente a tudo o
que a rodeava, inclusivamente a seu marido, 
a quem por vezes nem sequer reconhecia e lhe perguntava que
quer voc? quando o via a seu lado. Logo que o mdico se
descartou de qualquer possvel erro nas suas 
matemticas e foi evidente que Clara no tinha nenhuma
inteno de parir por via natural, tratou de abrir a barriga 
me e tirar Blanca, que sucedeu ser uma menina 
mais peluda e feia do que era normal. Esteban sentiu um
calafrio quando a viu, convencido de que tinha sido enganado
pelo destino e, em vez do Trueba legtimo que 
prometera a sua me no leito de morte, tinha engendrado um
monstro e, para cmulo, do sexo feminino. Revistou a menina
pessoalmente e comprovou que ela tinha todas 
as partes no stio correspondente, pelo menos aquelas que eram
visveis ao olho humano. O doutor Cuevas consolou-o com a
explicao de que o aspecto repugnante da 
criana se devia ao facto de ter estado mais tempo que o
normal dentro da me, ao sofrimento da cesariana e  sua
constituio pequena, delgada, morena e um pouco 
peluda. Clara, pelo contrrio, estava encantada com a filha.
Pareceu despertar de um longo sono e descobrir a alegria de
estar viva. Pegou a menina nos braos e 
no a largou mais, andava com ela presa ao peito, dando-lhe de
mamar a todo o momento, sem horrio fixo e sem contemplaes 
com as boas maneiras ou o pudor, como 
uma indgena. No quis enfaix-la, cortar-lhe o cabelo,
abrir-lhe furos nas orelhas ou contratar-lhe uma aia para a
criar, e muito menos recorrer ao leite de algum 
laboratrio, como faziam todas as senhoras que podiam pagar
esse luxo. Nem aceitou a receita da Ama de dar-lhe leite de
vaca diludo em gua de arroz, porque concluiu 
que, se a natureza tivesse querido que os humanos se criassem
assim, teria feito que os seios humanos segregassem esse tipo
de produto. Clara falava  menina todo 
o tempo, sem usar meias palavras nem diminutivos, em espanhol
correcto, como se dialogasse com uma adulta, da mesma maneira
pausada e razovel com que falava aos 
animais e s plantas, convencida de que, se isso tinha dado
resultado com a flora e a fauna, no havia razo nenhuma para
no ser indicado tambm para a menina. 
A combinao de leite materno e conversao teve a virtude de
transformar Blanca numa menina saudvel e quase formosa, que
no se parecia em nada com o tatu que 
era quando nasceu.
Poucas semanas depois do nascimento de Blanca, Esteban Trueba
pde comprovar, atravs das brincadeiras no veleiro de gua
mansa da seda azul, que a esposa no tinha 
perdido com a maternidade o encanto ou a boa disposio para
fazer amor, mas bem pelo contrrio. Por seu lado, Frula,
demasiado preocupada com a criao da menina, 
no tinha tempo para ir rezar aos asilos, para confessar-se ao
padre Antnio e muito menos para espreitar pela porta
entreaberta.


Captulo IV

O Tempo dos Espritos

Na idade em que a maioria das crianas anda com fraldas e de
gatas, balbuciando incoerncias e escorrendo baba, Blanca
parecia uma an, caminhava aos tropees, 
mas nas duas pernas, falava correctamente e comia sozinha,
devido ao sistema de sua me a tratar como pessoa crescida.
Tinha todos os dentes e comeava a abrir os 
armrios para desarrumar o contedo, quando a famlia decidiu
ir passar o Vero a Las Tres Marias, que Clara s conhecia de
ouvir falar. Nesse perodo da vida de 
Blanca, a curiosidade era mais forte que o instinto de
sobrevivncia e Frula passava apuros, correndo atrs dela
para evitar que se atirasse do segundo andar, se 
metesse no forno ou engolisse o sabo. A ideia de ir com a
menina para o campo parecia-lhe perigosa, estafante e intil,
j que Esteban podia arranjar-se sozinho 
em Las Tres Marias, enquanto elas desfrutavam de uma
existncia civilizada na capital. Mas Clara estava
entusiasmada. O campo parecia-lhe uma ideia romntica, porque 
nunca tinha estado dentro de um estbulo, como dizia Frula.
Os preparativos da viagem ocuparam toda a famlia durante mais
de duas semanas e a casa encheu-se de 
bas, cestos e malas. Alugaram uma carruagem especial no
comboio para se deslocarem com a incrvel bagagem e os criados
que Frula considerou necessrio levar, alm 
das gaiolas dos pssaros, que Clara no quis abandonar, e as
caixas com os brinquedos de Blanca, cheias de arlequins
mecnicos, figurinhas de loia, animais de trapo, 
bailarinas de corda com cabelos de gente e articulaes
humanas, que viajavam com os seus prprios vestidos, coches e
baixelas. Ao ver aquela multido desconcertada 
e nervosa e aquela confuso, Esteban sentiu-se derrotado pela
primeira vez na vida, especialmente quando descobriu entre a
bagagem um Santo Antnio de tamanho natural, 
com olhos estrbicos e sandlias de couro  lavrado. Olhava o
caos que o rodeava, arrependido da deciso de viajar com a
mulher e a filha, perguntando a si prprio 
como era possel que ele s precisasse de duas malas para ir
pelo mundo fora e que elas, em comparao, levassem aquele
carregamento de trastes e aquela procisso 
de criados que nada tinham a ver com o propsito da viagem.

Em San Lucas tomaram trs carros que os conduziram a Las Tres
Marias envoltos numa nuvem de p, como ciganos. No ptio do
fundo esperavam para les dar as boas-vindas 
todos os caseiros com Pedro Segundo Garcia, o administrador, 
cabea. Ao ver aquele circo ambulante, ficaram atnitos. Sob
as ordens de Frula, comearam a descarregar 
os carros e a meter as coisas em casa. Ningum prestou ateno
a um menino que tinha aproximadamente a mesma idade de Blanca,
nu, ranhoso, com a barriga inchada 
pelos parasitas, de formosos olhos negros com expresso de.
ancio. Era o filho do administrador, chamava-se, para o
diferenciar do pai e do av, Pedro Tercero Garcia. 
Na confuso de instalar-se, conhecer a casa, ver a horta,
saudar toda a gente, armar o altar de Santo Antnio e espantar
as galinhas das camas e os ratos dos roupeiros, 
Blanca tirou a roupa e saiu nua com Pedro Tercero. Brincaram
por entre os embrulhos, meteram-se por baixo dos mveis,
molharam-se com beijos babosos, mastigaram 
o mesmo po, sorveram os mesmos moncos, bezuntaram-se com a
mesma caca, at que, por fim, adormeceram abraados debaixo da
mesa da sala de jantar. Ali os encontrou 
Clara s dez da noite. Tinha-os procurado durante horas com
tochas, os caseiros em grupos tinham percorrido a margem do
rio, os celeiros, os prados e os estbulos, 
Frula tinha pedido de joelhos a Santo Antnio, Esteban estava
esgotado de os chamar e a prpria Clara invocara inutilmente
os seus dotes de vidente. Quando os encontrou, 
o menino estava de costas no cho e Blanca deitava-se com a
cabea apoiada no ventre panudo do seu novo amigo. Nessa
mesma posio seriam surpreendidos muitos anos 
depois, para desdita de ambos e no lhes chegaria a vida para
o pagar.

Desde o primeiro dia, Clara compreendeu que havia um lugar
para ela em Las Tres Marias e, tal como apontou nos seus
cadernos de anotar a vida, sentiu que por fim 
tinha encontrado a sua misso no mundo. No a impressionaram
as casas de tijolo, a escola e a abundncia de comida, porque
a sua capacidade para ver o invisvel 
detectou o receio, o medo e o rancor dos trabalhadores, e o
imperceptvel rumor que se acalmava quando virava a cara, que
lhe permitiram adivinhar algumas coisas 
sobre o carcter e o passado de seu marido. O patro tinha
mudado, apesar de tudo. Todos puderam apreciar que deixara de
ir ao Farolito Rojo, acabaram-se as suas 
tardes de pndega, de luta de galos, de apostas, as violentas
iras e, sobretudo, o mau hbito de tombar raparigas nos
trigais. Atriburam-no a Clara. Por seu lado, 
ela tambm mudou. Abandonou da noite para a manh a sua
languidez, deixou de achar tudo muito bonito  e pareceu curada
do vcio de falar com os seres invisveis 
e mover os mveis com recursos sobrenaturais. Levantava-se ao
amanhecer com o marido, partilhavam o pequeno almoo j
vestidos, ele ia vigiar os trabalhos e tarefas 
do campo, enquanto Frula se encarregava da casa, dos criados
da capital que no se acostumavam s incomodidades e s moscas
do campo, e de Blanca. Clara dividia 
o tempo entre a sala de costura, a cantina e a escola, onde
fez o seu quartel-general para aplicar remdios contra a sarna
e parafina contra os piolhos, desentranhar 
os mistrios da cartilha, ensinar as crianas a cantar tenho
uma vaca leiteira, tenho uma vaca malhada, e ensinar as
mulheres a ferver o leite, curar a diarreia 
e branquear a roupa. Ao entardecer, antes que os homens
regressassem do campo, Frula reunia as camponesas e as
crianas para rezar o tero. Acudiam por simpatia, 
mais por isso que por f, e davam  solteirona a oportunidade
de recordar os bons tempos dos seus bairros de lata. Clara
esperava que a cunhada terminasse as msticas 
ladainhas de pais-nossos e ave-marias e aproveitava a reunio
para repetir as instrues que tinha ouvido  me quando se
sentava nas filas do Congresso na sua presena. 
As mulheres escutavam-na risonhas e envergonhadas, pela mesma
razo por que rezavam com Frula: para no desgostar a patroa.
Mas aquelas frases inflamadas pareciam-lhes 
contos de loucos. Nunca se viu que um homem no possa bater
na sua prpria mulher, se no lhe chega  porque no a quer ou
porque no  um homem a srio; onde se 
viu que aquilo que ganha um homem ou o que produz a terra ou
pem as galinhas seja dos dois, se quem manda  ele? onde se
viu que uma mulher possa fazer as mesmas 
coisas que um homem, se ela nasceu com mamas e sem colhes?
pois , dona Clarita, diziam. Clara desesperava-se. Elas
acotovelavam-se e sorriam tmidas, com as bocas 
desdentadas e os olhos cheios de rugas, curtidas pelo sol e
pela vida m, sabendo de antemo que, se tivessem a peregrina
ideia de pr em prtica os conselhos da 
patroa, os maridos davam-lhes uma surra. E bem merecida,
certamente, como a prpria Frula sustentava. Em pouco tempo
Esteban teve conhecimento da segunda parte 
das reunies para rezar e entrou em clera. Era a primeira vez
que se chateava com Clara e a primeira que ela o via num dos
seus famosos ataques de raiva. Esteban 
gritava como um alienado, passeando pela sala com grandes
passadas e dando murros nos mveis, argumentando que, se Clara
pensava seguir os passos de sua me, ia 
encontrar um macho bem assente que lhe baixaria as cuecas e
lhe daria uma carga de aoites para lhe tirar as malditas
ganas de andar arengando s pessoas, que lhe 
proibia terminantemente as reunies para rezar ou para
qualquer outro fim e que ele no era nenhum boneco de palha a
quem a mulher pudesse meter a ridculo. Clara 
deixou-o gritar e dar pancadas nos mveis at que se cansou e,
depois, distrada como sempre estava, perguntou-lhe se sabia
mexer as orelhas.

As frias alargaram-se e as reunies na escola continuaram.
Terminou o  Vero e o Outono cobriu o campo de fogo e ouro,
mudando a paisagem. Comearam os primeiros 
dias frios, as chuvas e a lama, sem que Clara desse sinais de
querer regressar  capital, apesar da presso contida de
Frula, que detestava o campo. No Vero, tinha-se 
queixado das tardes de calor, espantando moscas, da terra do
ptio, que empoeirava a casa como se vivessem no poo de uma
mina, da gua suja da banheira, onde os 
sais perfumados se transformavam em sopa de chineses, das
baratas voado as, que se metiam entre os lenis, dos caminhos
dos ratos e das formigas, das aranhas que 
de manh esperneavam no copo de gua sobre a mesa de
cabeceira, das galinhas insolentes, que punham ovos nos
sapatos e cagavam na roupa branca do armrio. Quando 
mudou o clima, teve novas calamidades para lamentar: o lodaal
do ptio, os dias mais curtos, s cinco estava escuro e no
havia nada mais para fazer que no fosse 
enfrentar a longa noite solitria, o vento e o frio, que ela
combatia com cataplasmas de eucalipto, sem poder evitar que se
contagiassem uns aos outros numa cadeia 
sem fim. Estava farta de lutar contra os elementos sem mais
distraco do que ver crescer Blanca, que parecia um
antropfago, como dizia, ao brincar com esse garoto 
sujo, Pedro Tercero, que era como se a menina no tivesse
algum da sua classe com quem se misturar, estava a adquirir
maus modos, andava com as bochechas lambuzadas, 
e crostas secas nos joelhos, olhem como fala, parece um
ndio, estou cansada de lhe tirar piolhos da cabea e pr-lhe
azul de mitilene na sarna. Apesar das queixas, 
conservava a rgida dignidade, o rosto inaltervel, a blusa
engomada e o molho de chaves pendurado  cintura, nunca suava,
no se cansava e mantinha sempre o seu 
tnue aroma de lavanda e limo. Ningum pensava que alguma
coisa pudesse alterar o seu autodomnio, at um dia em que
sentiu comicho nas costas. Era uma coceira 
to forte que no pde evitar coar-se com dissimulao, mas
nada podia alivi-la. Por fim foi tomar banho e tirou o
espartilho, que mesmo nos dias de maior trabalho 
trazia vestido. Ao soltar as fitas, caiu no cho um ratinho
aturdido que tinha ali estado toda a manh procurando
inutilmente furar at  sada, entre as barbas 
duras da faixa e a carne oprimida da dona. Frula teve a
primeira crise de nervos da sua vida. Aos gritos acudiram
todos e encontraram-na metida na banheira, lvida 
de terror e ainda meio nua, com alaridos de manaca, e
indicando com um dedo trmulo o pequeno roedor, que se punha
trabalhosamente em p e procurava avanar at 
um lugar seguro. Esteban disse que era a menopausa e no havia
que fazer caso. Nem fizeram caso quando teve o segundo ataque.
Era o aniversrio de Esteban. Amanheceu 
um dia de sol, e havia muita agitao na casa porque pela
primeira vez iam dar uma festa em Las Tres Marias, desde os
dias esquecidos em que Dona Ester era uma rapariguinha. 
Convidaram vrios parentes e amigos, que fizeram a viagem de
comboio desde a capital, e os proprietrios da zona, sem
esquecer os notveis  da aldeia. Com uma 
semana de antecedncia prepararam o banquete: meia rs assada
no ptio, pastel de rins, ensopado de galinha, guisado de
milho, torta de manjar branco, lcumas (1), 
e os melhores vinhos da colheita. Ao meio-dia comearam a
chegar os convidados em carros ou a cavalo, e a grande casa de
adobe encheu-se de conversas e risos. Frula 
distraiu-se um momento para correr para a casa de banho, uma
dessas imensas casas de banho onde a latrina ficava no meio da
diviso, rodeada por um deserto de cermicas 
brancas. Estava instalada naquele assento solitrio como um
trono, quando se abriu a porta e entrou um dos convidados,
nada menos que o regedor da aldeia, abrindo 
a braguilha e um pouco embriagado com o aperitivo. Ao ver a
senhora, ficou paralisado de confuso e surpresa e, quando
pde reagir, a nica coisa que lhe ocorreu 
foi avanar com um sorriso torcido, atravessar toda a diviso,
estender a mo e saud-la com uma vnia:

(1) Fruto do lcumo, rvore sapotcea da Amrica do Sul. (N.
T.)

-- Zorobabel Blanco Jamasmi, s suas prezadas ordens --
apresentou-se.

Santo Deus! Ningum pode viver entre gente to rstica. Se
querem fiquem vocs neste purgatrio de incivilizados, que eu
volto para a cidade, quero viver como crist, 
como sempre vivi, exclamou Frula quando conseguiu falar do
assunto sem pr-se a chorar. Mas no foi. No queria
separar-se de Clara, tinha chegado at a adorar 
o ar que ela exalava e, mesmo que j no tivesse ocasio de
dar-lhe banho e dormir com ela, procurava demonstrar-lhe a sua
ternura com mil pequenos pormenores aos 
quais dedicava a existncia. Aquela mulher severa e to pouco
complacente consigo mesma e com os demais podia ser doce e
risonha com Clara e, por vezes, por extenso, 
tambm com Blanca. S com ela se dava ao luxo de ceder ao seu
transbordante desejo de servir e ser amada, s com ela podia
manifestar, embora dissimuladamente, os 
mais secretos e delicados desejos da sua alma. Ao longo de
tantos anos de solido e tristeza, tinha ido decantando as
emoes e limpando os sentimentos, at os reduzir 
a umas quantas terrveis e magnficas paixes, que a ocupavam
por completo. No tinha capacidade para as pequenas
perturbaes, para os rancores mesquinhos, as invejas 
dissimuladas, as obras de caridade, os carinhos mornos, a
cortesia amvel ou as consideraes citadinas. Era um desses
seres nascidos para a grandeza de um s amor, 
para o dio exagerado, para a vingana apocalptica e para o
herosmo mais sublime, mas no conseguiu realizar o seu
destino  medida da sua romntica vocao, e 
esse destino decorreu chato e cinzento, entre as paredes de um
quarto de enferma, em mseros asilos, em tortuosas confisses,
onde essa mulher grande, opulenta, 
de sangue ardente, feita para a maternidade, para a
abundncia, a aco e o ardor, se foi consumindo. Nessa poca
tinha  volta de quarenta e cinco  anos, a sua 
esplndida raa e os seus afastados antepassados mouriscos
mantinham-na polida, com o cabelo todo negro e sedoso, com uma
nica mecha branca na frente, o corpo forte 
e delgado e o andar resoluto de gente s, contudo o deserto da
sua vida dava-lhe um aspecto muito maior. Tenho um retrato de
Frula tirado nesses anos, durante um 
aniversrio de Blanca.  uma velha fotografia cor de spia,
descolorida pelo tempo, onde todavia ainda  possvel v-la
com clareza. Era uma rgia matrona, mas tinha 
no rosto um ricto amargo que lhe denunciava a tragdia
interior. Provavelmente esses anos junto de Clara foram os
nicos felizes para ela, porque s com Clara pde 
ter intimidade. Ela foi a depositria das suas mais subtis
emoes, e a ela pde dedicar a sua enorme capacidade de
sacrifcio e venerao. Uma vez atreveu-se a 
diz-lo, e Clara escreveu no seu caderno de anotar a vida que
Frula a amava muito mais do que ela merecia, ou podia
retribuir. Por esse amor sem medida, Frula 
no quis ir-se embora de Las Tres Marias nem sequer quando
caiu a praga das formigas, que comeou com um ronrom nos
prados, uma sombra escura que deslizava com rapidez 
comendo tudo, as maarocas, os trigais, a luzerna e a
maravilha. Regavam-nas com gasolina e largavam-lhes fogo, mas
reapareciam com novos brios. Pintavam com cal 
viva os troncos das rvores, mas elas subiam sem parar e no
respeitavam pras, mas, nem laranjas, metiam-se na horta e
acabavam com os meles, entravam na leitaria 
e o leite de manh estava azedo e devoravam os frangos vivos,
deixando um desperdcio de penas e uns ossinhos de lstima.
Faziam caminhos dentro de casa, entravam 
pelas canalizaes, apoderavam-se da despensa, tudo o que se
cozinhava tinha de se comer logo porque, se ficava uns minutos
sobre a mesa, chegavam em procisso e 
devoravam-no. Pedro Segundo Garcia combateu-as com gua e fogo
e enterrou esponjas empapadas em mel de abelhas, para que se
juntassem atradas pelo doce e pudesse 
mat-las sem risco, mas foi tudo intil. Esteban Trueba foi 
aldeia e regressou carregado de pesticidas de todas as marcas
conhecidas, em p, em lquido e em plulas, 
e deitou tanto por todos os lados que no se podiam comer os
legumes porque davam clicas de barriga. Mas as formigas
continuavam a aparecer e a multiplicarem-se, 
cada dia mais insolentes e decididas. Esteban foi outra vez 
aldeia e mandou um telegrama para a capital. Trs dias depois,
desembarcou na estao Mister Brown, 
um gringo ano, munido de uma mala misteriosa, que Esteban
apresentou como tcnico agrcola especialista em pesticidas.
Depois de se refrescar com um jarro de vinho 
com frutas, abriu a mala em cima da mesa. Extraiu dela um
arsenal de instrumentos nunca vistos, comeou por pegar numa
formiga e observ-la detidamente com um microscpio.

-- Porque olha tanto para ela, Mister, se so todas iguais? --
disse Pedro Segundo Garcia.

O gringo no lhe respondeu. Quando acabou de identificar a
raa, o estilo  de vida, a localizao dos formigueiros, os
hbitos e at as suas mais funestas intenes, 
tinha passado uma semana e as formigas metiam-se nas camas das
crianas, tinham comido as reservas de alimento para o Inverno
e comeavam a atacar os cavalos e as 
vacas. Ento Mister Brown explicou que tinham de as fumigar
com um produto da sua inveno que tornava os machos estreis,
com o qual deixavam de se multiplicar, 
e logo a seguir deviam borrif-las com outro veneno, tambm da
sua inveno, que provocava uma enfermidade mortal nas fmeas,
e isso, assegurou ele, acabaria com 
o problema.

-- Em quanto tempo? -- perguntou Esteban Trueba, que da
impacincia estava passando  fria.

-- Um ms -- disse Mister Brown.

-- Para nessa altura j terem comido, at os homens, Mister?!
-- disse Pedro Segundo Garcia. -- Se mo permite, patro, vou
chamar o meu pai. H trs semanas que 
me vem dizendo que conhece um remdio para a praga. Eu creio
que so coisas de velho, mas no perdemos nada em tirar a
prova.

Chamaram o velho Pedro Garcia, que chegou arrastando os ps,
to escuro, mirrado e desdentado que Esteban se sobressaltou
ao verificar a passagem do tempo. O velho 
escutou com o chapu na mo, olhando o cho e mastigando o ar
com as gengivas nuas. Depois pediu um leno branco que Frula
lhe trouxe do armrio de Esteban e saiu 
de casa, cruzou o ptio e foi direito  horta, seguido por
todos os habitantes da casa e pelo ano estrangeiro, que
sorria de desprezo, estes brbaros, oh God! O 
ancio baixou-se com dificuldade e comeou a apanhar formigas.
Quando tinha um punhado, p-las dentro do leno, atou as
quatro pontas e meteu o atado no chapu.

-- Vou-lhes mostrar o caminho, para que se vo embora,
formigas, e para que levem as outras -- disse.

O velho montou num cavalo e foi murmurando pelo caminho
conselhos e recomendaes para as formigas, oraes de
sabedoria e frmulas de encantamento. Viram-no afastar-se 
at ao limite da propriedade. O gringo sentou-se no cho a rir
como um maluco, at que Pedro Segundo Garcia o sacudiu:

-- V rir-se da sua av, Mister, olhe que o velho  meu pai --
advertiu-o.

Ao entardecer Pedro Garcia regressou. Desmontou lentamente,
disse ao patro que tinha posto as formigas na estrada e foi
para sua casa. Estava cansado. Na manh 
seguinte viram que no havia formigas na cozinha nem na
dispensa, buscaram no celeiro, no estbulo, nos galinheiros,
foram aos pastos, e at ao rio, revistaram tudo 
e no encontraram uma s, nem para amostra. O tcnico ps-se
frentico:

-- Ter de dizer-me como fazer isso! -- gritava.

-- Falando-lhes, pois, Mister. Diga-lhes que se vo, que aqui
esto chateando e elas entendem -- explicou Pedro Garcia, o
velho.

Clara foi a nica que considerou natural o procedimento.
Frula agarrou-se  a isso para dizer que se encontravam num
buraco, numa regio inumana, onde no funcionavam 
as leis de Deus nem o progresso da cincia, que qualquer dia
comeavam a voar vassouras, mas Esteban Trueba f-la calar:
no queria que metessem novas ideias na 
cabea da mulher. Nos ltimos dias Clara tinha voltado aos
afazeres lunticos, a falar com as aparies e a passar horas
escrevendo nos cadernos de anotar a vida. 
Quando perdeu o interesse pelo escola, pela oficina de costura
ou pelas reunies feministas e voltou a dar a opinio de que
tudo era muito bonito, compreenderam 
que estava outra vez grvida.

-- Por culpa tua! -- gritou Frula ao irmo.

-- Espero bem que sim -- respondeu ele.

Em breve se tornou evidente que Clara no estava em condies
de passar a gravidez no campo e parir na aldeia, por isso
organizaram o regresso  capital. Isso consolou 
um pouco Frula, que sentia a gravidez de Clara como uma
afronta pessoal. Viajou primeiro, com parte da bagagem e os
criados, para abrir a grande casa da esquina 
e preparar a chegada de Clara. Esteban, dias depois,
acompanhou a mulher e a filha de volta  cidade, e deixou
novamente Las Tres Marias nas mos de Pedro Segundo 
Garcia, que se tinha tornado o administrador, embora por isso
no ganhasse mais privilgios, mas apenas mais trabalho.


A viagem de Las Tres Marias at  capital acabou por esgotar
as foras de Clara. Eu via-a cada vez mais plida, asmtica,
olheirenta. Com o bambolear dos cavalos 
e depois com o do comboio, o p do caminho e a sua natural
tendncia para o enjoo, ia perdendo as energias a olhos vistos
e eu no podia fazer muito para ajud-la, 
porque quando estava mal preferia que no lhe falassem. Ao
descermos na estao tive de a segurar porque lhe fraquejavam
as pernas.

-- Creio que vou elevar-me -- disse.

-- Aqui no! -- gritei-lhe, espantado com a ideia de que
sasse voando por cima das cabeas dos passageiros que estavam
na gare.

Mas ela no se referia concretamente  levitao, mas sim a
subir a um nvel que lhe permitisse libertar-se da
incomodidade, do peso da sua gravidez e da profunda 
fadiga que se lhe estava a meter nos ossos. Entrou noutro dos
seus longos perodos de silncio, julgo que lhe durou vrios
meses, durante os quais se servia da lousa 
de escrever, como nos tempos da mudez. Nessa ocasio no me
alarmei, porque supus que recuperaria a normalidade como tinha
acontecido depois do nascimento de Blanca 
e, por outro lado, eu tinha acabado por compreender que o
silncio era o ltimo refgio inviolvel de minha mulher, e
no uma doena mental, como pretendia o doutor 
Cuevas.  Frula cuidava dela da mesma forma obsessiva como
cuidara antes da nossa me, tratava-a como se fosse uma
invlida, no queria deix-la nunca sozinha 
e tinha-se descuidado de Blanca, que chorava todo o dia porque
queria regressar a Las Tres Marias. Clara deambulava como uma
sombra gorda e calada pela casa, com 
um desinteresse budista por tudo o que a rodeava. A mim nem
sequer me olhava, passava a meu lado como seu eu fosse um
mvel e quando lhe dirigia a palavra ficava 
na lua, como se no me ouvisse ou no me conhecesse. No
tnhamos voltado a dormir juntos. Os dias ociosos na cidade e
a atmosfera irracional que se respirava punham-me 
os nervos em franja. Fazia por me manter ocupado, mas isso no
era suficiente, estava sempre de mau humor. Sala todos os dias
para vigiar os meus negcios. Nessa 
poca comecei a especular na Bolsa do Comrcio e passava horas
estudando os altos e baixos dos valores internacionais,
dediquei-me a investir em prata, a formar 
sociedades ou a fazer importaes. Passava muitas horas no
Clube. Comecei tambm a interessar-me pela poltica e at
entrei num ginsio, onde um gigantesco treinador 
me obrigava a exercitar msculos que eu no suspeitava ter no
corpo. Tinham-me recomendado que me dessem massagens, mas
nunca gostei disso: detesto que me toquem 
mos mercenrias. Mas nada daquilo me podia preencher o dia,
estava incomodado e aborrecido, queria voltar para o campo;
mas no me atrevia a deixar a casa, onde 
por todos os motivos se necessitava de um homem sensato no
meio daquelas mulheres histricas. Alm disso, Clara estava a
engordar demasiado. Tinha uma barriga to 
descomunal que mal se podia suster no seu frgil esqueleto.
Por pudor no queria que eu a visse nua, mas ela era minha
mulher e eu no ia permitir que tivesse vergonha 
de mim. Ajudava-a a tomar banho, a vestir-se, quando Frula
no se adiantava, e sentia uma pena infinita por ela, to
pequena e fraca, com aquela pana monstruosa, 
aproximando-se perigosamente o momento do parto. Muitas vezes,
preocupei-me pensando que podia morrer ao dar  luz e
fechava-me com o doutor Cuevas a discutir a 
melhor maneira de a ajudar. Tnhamos concordado que, se as
coisas no se apresentassem bem, era melhor fazer-lhe outra
cesariana, mas eu no queria que a levassem 
para uma clnica e ele negava-se a fazer-lhe outra operao
como a primeira, na sala de jantar da casa. Dizia que no
havia comodidades, mas nesses tempos as clnicas 
eram um foco de infeces e, l, eram mais os que morriam do
que os que se salvavam.

Um dia, faltando pouco para a data do parto, Clara desceu sem
aviso prvio do seu refgio bramnico e voltou a falar. Quis
uma chvena de chocolate e pediu-me que 
a levasse a passear. O corao deu-me uma volta. Toda a casa
se encheu de alegria, abrimos champanhe, mandei pr flores
frescas em todas as jarras, encomendei-lhe 
camlias, as suas flores preferidas e atapetei com elas o seu
quarto, at que ela comeou a ter asma e tivemos de  as tirar
dali rapidamente. Corri a comprar-lhe 
um broche de diamantes na rua dos joalheiros judeus. Clara
agradeceu-me efusivamente, achou-o muito bonito, mas nunca lho
vi posto. Suponho que ter ido parar a 
algum lugar impensado onde o ps e logo o esqueceu, como quase
todas as jias que lhe comprei ao longo da nossa vida em
comum. Chamei o doutor Cuevas, que apareceu 
com o pretexto de tomar ch, mas na realidade vinha examinar
Clara. Levou-a ao quarto e depois disse-nos, a Frula e a mim,
que, se a sua crise mental parecia curada, 
tinha de se preparar para um parto difcil, porque a criana
era muito grande. Nesse momento, Clara entrou na sala e deve
ter ouvido a ltima frase.

-- Tudo correr bem, no se preocupem -- disse.

-- Espero que desta vez seja um homem, para ter o meu nome --
gracejei.

-- No  um, so dois -- respondeu Clara. -- Os gmeos vo-se
chamar Jaime e Nicolau respectivamente -- acrescentou.

Aquilo foi demasiado para mim. Suponho que estoirei pela
presso acumulada nos ltimos meses. Fiquei furioso, disse que
eram nomes de comerciantes estrangeiros, 
que ningum se chamava assim na minha famlia, nem na sua, que
pelo menos um devia chamar-se Esteban, como eu e como meu pai,
mas Clara explicou que os nomes repetidos 
criavam confuso nos cadernos da vida e manteve-se inflexvel
na sua deciso. Para a assustar, parti com um murro um jarro
de porcelana que, julgo eu, era o ltimo 
vestgio dos tempos faustosos do meu bisav, mas ela no se
comoveu e o doutor Cuevas sorriu por detrs da chvena de ch,
o que me indignou ainda mais. Sa batendo 
com a porta, e fui ao Clube.

Nessa noite embebedei-me. Em parte porque precisava disso e em
parte por vingana, fui ao bordel mais conhecido da cidade,
que tinha um nome histrico. Quero deixar 
claro que no sou homem de prostitutas e que s nos perodos
em que me foi dado viver sozinho por longo tempo recorri a
elas. No sei o que me passou pela cabea 
nesse dia, estava picado com Clara, andava chateado,
sobravam-me energias, tentei-me. Nesses anos o negcio do
Cristbal Coln era florescente, mas no tinha adquirido 
ainda o prestigio internacional que chegou a ter quando
aparecia nas cartas de navegao das companhias inglesas e nos
folhetos tursticos e o filmaram para a televiso. 
Entrei num salo com mveis franceses desses com ps
retorcidos, onde me recebeu uma matrona nacional que imitava
na perfeio o sotaque de Paris, e que comeou 
por me dar a conhecer a lista de preos e em seguida me
perguntou se eu tinha algum em especial na ideia. Disse-lhe
que a minha experincia se limitava ao Farolito 
Rojo e alguns miserveis lupanares de mineiros do Norte, de
maneira que qualquer mulher jovem e limpa me servia bem.

-- O senhor  muit simptico, mesi -- disse ela. -- Vou-lhe
trazer o melhor da casa.

Ao seu chamamento acudiu uma mulher enfiada num vestido de
cetim  preto demasiado apertado, que mal continha a
exuberncia da sua feminilidade. Tinha o cabelo 
puxado sobre uma orelha, um penteado de que eu nunca tinha
gostado, e  sua passagem ficava um terrvel perfume
almiscarado a flutuar no ar, to persistente como 
um gemido.

-- Tenho alegria em v-lo, patro -- saudou, e ento
reconheci-a, porque a voz era a nica coisa que no tinha
mudado em Trnsito Soto.

Levou-me pela mo a um quarto fechado como um tmulo, com as
janelas cobertas de cortinas escuras, onde no penetrava um
raio de luz natural desde tempos ignotos, 
mas que de todos os modos parecia um palcio comparado com as
srdidas instalaes do Farolito Rojo. Ali, tirei pessoalmente
o vestido de cetim preto a Trnsito, 
desarmei o seu horrendo penteado e pude ver que nesses anos
tinha crescido, engordado, embelezado.

-- Vejo que progrediste muito -- disse-lhe.

-- Graas aos seus cinquenta pesos, patro. Serviram-me para
comear -- respondeu-me. -- Agora posso devolv-los
actualizados, porque com a inflao j no valem 
o que valiam antes.

-- Prefiro que me faas um favor, Trnsito! -- e ri-me.

Acabei de lhe tirar os saiotes e comprovei que no existia
quase nada da rapariga delgada, com os joelhos e cotovelos
salientes, que trabalhava no Farolito Rojo, 
excepto a sua incansvel disposio para a sensualidade e a
sua voz de pssaro rouco. Tinha o corpo depilado e tinha
friccionado a pele com limo e mel de hamamlide, 
como me explicou, at ficar suave e branca como a de uma
criana. Tinha as unhas pintadas de vermelho e uma serpente
tatuada  volta do umbigo, que podia fazer mover 
em crculos enquanto mantinha em perfeita imobilidade o resto
do corpo. Simultaneamente ao demonstrar-me a sua habilidade
para ondular a serpente, contou-me a sua 
vida.

-- Se tivesse ficado no Farolito Rojo, que teria sido de mim,
patro? J no teria dentes, seria uma velha. Nesta profisso
desgastamo-nos muito, temos de nos cuidar. 
 por isso que eu no ando pela rua! Nunca gostei disso, 
muito perigoso. Na rua temos de ter um chulo, porque seno
arrisca-se muito. Ningum nos respeita. Mas 
por qu dar a um homem o que custa tanto a ganhar? Nesse
sentido as mulheres so muito brutas. So filhas do rigor.
Necessitam de um homem para se sentirem seguras 
e no se do conta de que a nica coisa que h a temer so os
prprios homens. No sabem administrar, necessitam
sacrificar-se por algum. As putas so as piores, 
patro, acredite-me. Deixam a vida para trabalhar para um
chulo, alegram-se quando ele lhes liga, sentem-se orgulhosas
de o ver bem vestido, com dentes de ouro, 
com anis e, quando ele as deixa ou vai com outra mais nova,
perdoam-lhe porque  homem. No, patro, eu no sou assim.
Nunca estive por conta, por isso nem que 
fosse louca nunca me poria a sustentar fosse quem fosse.
Trabalho para mim, o que ganho gasto-o como eu quero.
Custou-me muito, no julgue  que foi fcil, porque 
as donas dos prostbulos no gostam de lidar com mulheres,
preferem entender-se com os chulos. No ajudam nenhuma de ns.
No tm considerao.

-- Mas parece que aqui te apreciam, Trnsito. Disseram-me que
eras a melhor da casa.

-- E sou. Mas este negcio ia por gua abaixo se no fosse eu,
que trabalho que nem um burro-- disse ela. -- As outras j
esto como esfreges, patro. Aqui vm 
s velhos, j no  como dantes. H que modernizar isto, para
atrair os funcionrios pblicos, que no tm nada para fazer
ao meio-dia, a juventude, os estudantes. 
H que ampliar as instalaes, dar mais alegria ao local e
limpar. Limpar a fundo! Assim a clientela teria confiana e
no estaria a pensar que pode apanhar um esquentamento, 
no  verdade? Isto  uma porcaria. No limpam nunca. Olhe,
levante a almofada e tenho a certeza que lhe salta um
percevejo. J o disse  madame, mas no fez caso. 
No tem olho para o negcio.

-- E tu tens?

-- Pois claro, patro! A mim ocorre-me um milho de coisas
para melhorar o Cristbal Coln. Eu tenho entusiasmo por esta
profisso. No sou como essas que andam 
s a queixar-se e deitam as culpas  m sorte, quando as
coisas lhes correm mal. No v onde cheguei? J sou a melhor.
Se me empenho, posso ter a melhor casa do 
pais, juro-lhe.

Eu estava a divertir-me muito. Sabia apreci-la, porque de
tanto ver a ambio no espelho, quando fazia a barba de manh,
tinha acabado por aprender a reconhec-la 
quando a via nos demais.

-- Parece-me uma excelente ideia, Trnsito. Porque no montas
o teu prprio negcio? Eu entro com o capital -- ofereci-lhe,
fascinado com a ideia de ampliar os meus 
interesses comerciais nessa direco, como devia estar de
bbado!

-- No, obrigado, patro! -- respondeu Trnsito, acariciando a
sua serpente com uma unha pintada de laca chinesa. -- No me
convm sair de um capitalista para cair 
noutro. O que h a fazer  uma cooperativa e mandar a madame
para o caralho. No ouviu falar disso? Tenha cuidado, olhe que
se os seus caseiros formam uma cooperativa, 
no campo, voc est fodido. O que eu quero  uma cooperativa
de putas. Podem ser putas e maricas, para ampliar mais o
negcio. Ns pomos tudo, o capital e o trabalho. 
Para que queremos um patro?

Fizemos amor de maneira violenta e feroz, que eu quase tinha
esquecido de tanto navegar no veleiro de guas mansas da seda
azul. Naquela desordem de almofadas e 
lenis, apertados no nu vivo do desejo, enroscando-nos at
desfalecer, voltei a sentir-me com vinte anos, contente por
ter nos braos uma fmea brava e apertada 
que no desfalecia em fiapos quando a montavam,  uma gua
forte que se podia cavalgar sem contemplaes, sem que as mos
nos ficassem pesadas, a voz muito dura, 
os ps muito grandes ou a barba muito spera, voltei a
sentir-me como aquele que resiste a um chorrilho de palavres
ao ouvido e no necessita de ser embalado com 
ternuras nem enganado com galanteios. Depois, adormecido e
feliz, descansei um bocado a seu lado, admirando-lhe a curva
slida das ancas e a tremura da serpente.

-- Voltaremos a ver-nos, Trnsito -- disse ao dar-lhe a
gratificao.

-- Isso mesmo lhe disse eu antes, patro, recorda-se? --
respondeu-me com um ltimo vaivm da serpente.

Na realidade, no tinha inteno de tornar a v-la. Preferia
esquec-la.

No teria mencionado este episdio se Trnsito no houvesse
desempenhado papel to importante para mim muito tempo depois,
porque, como j disse, no sou homem de 
prostitutas. Mas esta histria no se tinha podido escrever se
ela no tivesse intervido para nos salvar e salvar, ao mesmo
tempo, as nossas recordaes.


Poucos dias depois, quando o doutor Cuevas lhes estava
preparando o nimo para voltar a abrir a barriga de Clara,
morreram Severo e Nvea del Valle, deixando vrios 
filhos e quarenta e sete netos vivos. Clara soube antes dos
outros, atravs de um sonho, mas no o disse a ningum, a no
ser a Frula, que procurou tranquiliz-la, 
explicando que a gravidez produz um estado de sobressalto no
qual os maus sonhos so frequentes. Duplicou os cuidados,
friccionava-a com leo de amndoas doces para 
evitar as estrias na pele do ventre, punha-lhe mel de abelhas
nos mamilos para no gretarem, dava-lhe a comer cascas de ovo
moda para que tivesse bom leite e no 
se lhe furassem os dentes, e rezava oraes de Belm para um
bom parto. Dois dias depois do sonho, chegou Esteban Trueba a
casa mais cedo que de costume, plido 
e descomposto, agarrou a irm Frula por um brao e fechou-se
com ela na biblioteca.

-- Os meus sogros morreram num acidente -- disse-lhe apenas.
-- No quero que Clara saiba antes do parto. Tem de se fazer
um muro de censura  sua volta, nem jornais, 
nem rdio, nem visitas, nada! Vigia os criados para que
ningum lhe diga nada.

Mas as suas boas intenes ficaram desfeitas pela fora das
premonies de Clara. Nessa noite voltou a sonhar que os pais
caminhavam por um campo de cebolas e que 
Nvea ia sem cabea, de modo que, assim, soube todo o ocorrido
sem necessidade de o ler no jornal nem de o ouvir pela rdio.
Acordou muito excitada e pediu a Frula 
que a ajudasse a vestir, porque devia sair  procura da cabea
de sua me. Frula correu at onde estava Esteban e este
chamou o doutor Cuevas, que, embora com risco 
de prejudicar os gmeos, lhe deu uma beberagem para loucos
destinada a faz-la dormir dois dias, mas que nela no teve o
menor efeito. 

Os esposos del Valle morreram tal como Clara o sonhou e tal
como, a brincar, Nvea tinha anunciado frequentemente que
morreriam:

-- Qualquer dia vamo-nos matar nesta mquina infernal -- dizia
Nvea, apontando o velho automvel de seu marido.

Severo del Valle teve desde jovem um fraco pelos inventos
modernos. O automvel no foi excepo. Nos tempos em que toda
a gente andava a p, em coche de cavalos 
ou em velocpedes, ele comprou o primeiro automvel que chegou
ao pais, e que estava exposto como curiosidade numa montra do
centro. Era um prodgio mecnico que 
se deslocava a velocidade suicida de quinze a vinte
quilmetros por hora, no meio do assombro dos pees e das
maldies daqueles que  sua passagem ficavam salpicados 
de barro ou cobertos de p. A principio foi combatido como um
perigo pblico. Eminentes cientistas explicaram atravs da
imprensa que o organismo humano no estava 
feito para resistir a uma deslocao de vinte quilmetros por
hora, e que o novo ingrediente, a que chamavam gasolina, podia
inflamar-se e produzir uma reaco em 
cadeia que acabaria com a cidade. O padre Restrepo, que tinha
a famlia del Valle na mira desde o desagradvel episdio com
Clara na missa de Quinta-Feira Santa, 
constituiu-se em guardio dos bons costumes e fez ouvir a sua
voz da Galiza contra os amicis rerum novarum, amigos das
coisas novas, como esses aparelhos satnicos, 
que comparou com o carro de fogo em que o profeta Elias
desapareceu em direco ao cu. Mas Severo ignorava o
escndalo e em pouco tempo outros cavalheiros seguiram 
o seu exemplo, at que o espectculo dos automveis deixou de
ser uma novidade. Usou-o mais de dez anos, negando-se a mudar
de modelo quando a cidade se encheu de 
carros modernos que eram mais eficientes e seguros, pela mesma
razo que a esposa no quis eliminar os cavalos de tiro at
que morreram tranquilamente de velhice. 
O Sunbeam tinha cortinas com rendas e floreiras de cristal nas
costas dos bancos, onde Nvea mantinha flores frescas, era
todo forrado de madeira polida e de couro 
castanho claro e as suas peas de bronze eram brilhantes como
o ouro. Apesar da sua origem britnica, foi baptizado com um
nome indgena, Covadonga. Era perfeito, 
na verdade, com excepo dos traves, que nunca funcionaram
bem. Severo orgulhava-se das suas habilidades mecnicas.
Desarmou-o vrias vezes, tentando arranj-lo 
e outras tantas confiou-o ao Grande Cornudo, um mecnico
italiano, que era o melhor do pais. Devia a alcunha a uma
tragdia que tinha empobrecido a sua vida. Diziam 
que sua mulher, farta de lhe pr os cornos sem ele dar por
isso, abandonou-o numa noite de tempestade, mas, antes de se
ir embora, atou uns cornos de carneiro que
conseguiu no carniceiro no alto da porta da oficina de
mecnica. No dia seguinte, quando o italiano chegou ao
trabalho, encontrou uma cambada de midos e vizinhos
gozando com ele. Aquele drama, no entanto, no diminuiu em
nada o seu prestigio profissional, mas ele no conseguiu 


A viagem de Las Tres Marias at  capital acabou por esgotar
as foras de Clara. Eu via-a cada vez mais plida, asmtica,
olheirenta. Com o bambolear dos cavalos
e depois com o do comboio, o p do caminho e a sua natural
tendncia para o enjoo, ia perdendo as energias a olhos vistos
e eu no podia fazer muito para ajud-la,
porque quando estava mal preferia que no lhe falassem. Ao
descermos na estao tive de a segurar porque lhe fraquejavam
as pernas.

-- Creio que vou elevar-me -- disse.

-- Aqui no! -- gritei-lhe, espantado com a ideia de que
sasse voando por cima das cabeas dos passageiros que estavam
na gare.

Mas ela no se referia concretamente  levitao, mas sim a
subir a um nvel que lhe permitisse libertar-se da
incomodidade, do peso da sua gravidez e da profunda 
fadiga que se lhe estava a meter nos ossos. Entrou noutro dos
seus longos perodos de silncio, julgo que lhe durou vrios
meses, durante os quais se servia da lousa 
de escrever, como nos tempos da mudez. Nessa ocasio no me
alarmei, porque supus que recuperaria a normalidade como tinha
acontecido depois do nascimento de Blanca 
e, por outro lado, eu tinha acabado por compreender que o
silncio era o ltimo refgio inviolvel de minha mulher, e
no uma doena mental, como pretendia o doutor 
Cuevas.  Frula cuidava dela da mesma forma obsessiva como
cuidara antes da nossa me, tratava-a como se fosse uma
invlida, no queria deix-la nunca sozinha 
e tinha-se descuidado de Blanca, que chorava todo o dia porque
queria regressar a Las Tres Marias. Clara deambulava como uma
sombra gorda e calada pela casa, com 
um desinteresse budista por tudo o que a rodeava. A mim nem
sequer me olhava, passava a meu lado como seu eu fosse um
mvel e quando lhe dirigia a palavra ficava 
na lua, como se no me ouvisse ou no me conhecesse. No
tnhamos voltado a dormir juntos. Os dias ociosos na cidade e
a atmosfera irracional que se respirava punham-me 
os nervos em franja. Fazia por me manter ocupado, mas isso no
era suficiente, estava sempre de mau humor. Sala todos os dias
para vigiar os meus negcios. Nessa 
poca comecei a especular na Bolsa do Comrcio e passava horas
estudando os altos e baixos dos valores internacionais,
dediquei-me a investir em prata, a formar 
sociedades ou a fazer importaes. Passava muitas horas no
Clube. Comecei tambm a interessar-me pela poltica e at
entrei num ginsio, onde um gigantesco treinador 
me obrigava a exercitar msculos que eu no suspeitava ter no
corpo. Tinham-me recomendado que me dessem massagens, mas
nunca gostei disso: detesto que me toquem 
mos mercenrias. Mas nada daquilo me podia preencher o dia,
estava incomodado e aborrecido, queria voltar para o campo;
mas no me atrevia a deixar a casa, onde 
por todos os motivos se necessitava de um homem sensato no
meio daquelas mulheres histricas. Alm disso, Clara estava a
engordar demasiado. Tinha uma barriga to 
descomunal que mal se podia suster no seu frgil esqueleto.
Por pudor no queria que eu a visse nua, mas ela era minha
mulher e eu no ia permitir que tivesse vergonha 
de mim. Ajudava-a a tomar banho, a vestir-se, quando Frula
no se adiantava, e sentia uma pena infinita por ela, to
pequena e fraca, com aquela pana monstruosa, 
aproximando-se perigosamente o momento do parto. Muitas vezes,
preocupei-me pensando que podia morrer ao dar  luz e
fechava-me com o doutor Cuevas a discutir a 
melhor maneira de a ajudar. Tnhamos concordado que, se as
coisas no se apresentassem bem, era melhor fazer-lhe outra
cesariana, mas eu no queria que a levassem 
para uma clnica e ele negava-se a fazer-lhe outra operao
como a primeira, na sala de jantar da casa. Dizia que no
havia comodidades, mas nesses tempos as clnicas 
eram um foco de infeces e, l, eram mais os que morriam do
que os que se salvavam.

Um dia, faltando pouco para a data do parto, Clara desceu sem
aviso prvio do seu refgio bramnico e voltou a falar. Quis
uma chvena de chocolate e pediu-me que 
a levasse a passear. O corao deu-me uma volta. Toda a casa
se encheu de alegria, abrimos champanhe, mandei pr flores
frescas em todas as jarras, encomendei-lhe 
camlias, as suas flores preferidas e atapetei com elas o seu
quarto, at que ela comeou a ter asma e tivemos de  as tirar
dali rapidamente. Corri a comprar-lhe 
um broche de diamantes na rua dos joalheiros judeus. Clara
agradeceu-me efusivamente, achou-o muito bonito, mas nunca lho
vi posto. Suponho que ter ido parar a 
algum lugar impensado onde o ps e logo o esqueceu, como quase
todas as jias que lhe comprei ao longo da nossa vida em
comum. Chamei o doutor Cuevas, que apareceu 
com o pretexto de tomar ch, mas na realidade vinha examinar
Clara. Levou-a ao quarto e depois disse-nos, a Frula e a mim,
que, se a sua crise mental parecia curada, 
tinha de se preparar para um parto difcil, porque a criana
era muito grande. Nesse momento, Clara entrou na sala e deve
ter ouvido a ltima frase.

-- Tudo correr bem, no se preocupem -- disse.

-- Espero que desta vez seja um homem, para ter o meu nome --
gracejei.

-- No  um, so dois -- respondeu Clara. -- Os gmeos vo-se
chamar Jaime e Nicolau respectivamente -- acrescentou.

Aquilo foi demasiado para mim. Suponho que estoirei pela
presso acumulada nos ltimos meses. Fiquei furioso, disse que
eram nomes de comerciantes estrangeiros, 
que ningum se chamava assim na minha famlia, nem na sua, que
pelo menos um devia chamar-se Esteban, como eu e como meu pai,
mas Clara explicou que os nomes repetidos 
criavam confuso nos cadernos da vida e manteve-se inflexvel
na sua deciso. Para a assustar, parti com um murro um jarro
de porcelana que, julgo eu, era o ltimo 
vestgio dos tempos faustosos do meu bisav, mas ela no se
comoveu e o doutor Cuevas sorriu por detrs da chvena de ch,
o que me indignou ainda mais. Sa batendo 
com a porta, e fui ao Clube.

Nessa noite embebedei-me. Em parte porque precisava disso e em
parte por vingana, fui ao bordel mais conhecido da cidade,
que tinha um nome histrico. Quero deixar 
claro que no sou homem de prostitutas e que s nos perodos
em que me foi dado viver sozinho por longo tempo recorri a
elas. No sei o que me passou pela cabea 
nesse dia, estava picado com Clara, andava chateado,
sobravam-me energias, tentei-me. Nesses anos o negcio do
Cristbal Coln era florescente, mas no tinha adquirido 
ainda o prestigio internacional que chegou a ter quando
aparecia nas cartas de navegao das companhias inglesas e nos
folhetos tursticos e o filmaram para a televiso. 
Entrei num salo com mveis franceses desses com ps
retorcidos, onde me recebeu uma matrona nacional que imitava
na perfeio o sotaque de Paris, e que comeou 
por me dar a conhecer a lista de preos e em seguida me
perguntou se eu tinha algum em especial na ideia. Disse-lhe
que a minha experincia se limitava ao Farolito 
Rojo e alguns miserveis lupanares de mineiros do Norte, de
maneira que qualquer mulher jovem e limpa me servia bem.

-- O senhor  muit simptico, mesi -- disse ela. -- Vou-lhe
trazer o melhor da casa.

Ao seu chamamento acudiu uma mulher enfiada num vestido de
cetim  preto demasiado apertado, que mal continha a
exuberncia da sua feminilidade. Tinha o cabelo 
puxado sobre uma orelha, um penteado de que eu nunca tinha
gostado, e  sua passagem ficava um terrvel perfume
almiscarado a flutuar no ar, to persistente como 
um gemido.

-- Tenho alegria em v-lo, patro -- saudou, e ento
reconheci-a, porque a voz era a nica coisa que no tinha
mudado em Trnsito Soto.

Levou-me pela mo a um quarto fechado como um tmulo, com as
janelas cobertas de cortinas escuras, onde no penetrava um
raio de luz natural desde tempos ignotos, 
mas que de todos os modos parecia um palcio comparado com as
srdidas instalaes do Farolito Rojo. Ali, tirei pessoalmente
o vestido de cetim preto a Trnsito, 
desarmei o seu horrendo penteado e pude ver que nesses anos
tinha crescido, engordado, embelezado.

-- Vejo que progrediste muito -- disse-lhe.

-- Graas aos seus cinquenta pesos, patro. Serviram-me para
comear -- respondeu-me. -- Agora posso devolv-los
actualizados, porque com a inflao j no valem 
o que valiam antes.

-- Prefiro que me faas um favor, Trnsito! -- e ri-me.

Acabei de lhe tirar os saiotes e comprovei que no existia
quase nada da rapariga delgada, com os joelhos e cotovelos
salientes, que trabalhava no Farolito Rojo, 
excepto a sua incansvel disposio para a sensualidade e a
sua voz de pssaro rouco. Tinha o corpo depilado e tinha
friccionado a pele com limo e mel de hamamlide, 
como me explicou, at ficar suave e branca como a de uma
criana. Tinha as unhas pintadas de vermelho e uma serpente
tatuada  volta do umbigo, que podia fazer mover 
em crculos enquanto mantinha em perfeita imobilidade o resto
do corpo. Simultaneamente ao demonstrar-me a sua habilidade
para ondular a serpente, contou-me a sua 
vida.

-- Se tivesse ficado no Farolito Rojo, que teria sido de mim,
patro? J no teria dentes, seria uma velha. Nesta profisso
desgastamo-nos muito, temos de nos cuidar. 
 por isso que eu no ando pela rua! Nunca gostei disso, 
muito perigoso. Na rua temos de ter um chulo, porque seno
arrisca-se muito. Ningum nos respeita. Mas 
por qu dar a um homem o que custa tanto a ganhar? Nesse
sentido as mulheres so muito brutas. So filhas do rigor.
Necessitam de um homem para se sentirem seguras 
e no se do conta de que a nica coisa que h a temer so os
prprios homens. No sabem administrar, necessitam
sacrificar-se por algum. As putas so as piores, 
patro, acredite-me. Deixam a vida para trabalhar para um
chulo, alegram-se quando ele lhes liga, sentem-se orgulhosas
de o ver bem vestido, com dentes de ouro, 
com anis e, quando ele as deixa ou vai com outra mais nova,
perdoam-lhe porque  homem. No, patro, eu no sou assim.
Nunca estive por conta, por isso nem que 
fosse louca nunca me poria a sustentar fosse quem fosse.
Trabalho para mim, o que ganho gasto-o como eu quero.
Custou-me muito, no julgue  que foi fcil, porque 
as donas dos prostbulos no gostam de lidar com mulheres,
preferem entender-se com os chulos. No ajudam nenhuma de ns.
No tm considerao.

-- Mas parece que aqui te apreciam, Trnsito. Disseram-me que
eras a melhor da casa.

-- E sou. Mas este negcio ia por gua abaixo se no fosse eu,
que trabalho que nem um burro-- disse ela. -- As outras j
esto como esfreges, patro. Aqui vm 
s velhos, j no  como dantes. H que modernizar isto, para
atrair os funcionrios pblicos, que no tm nada para fazer
ao meio-dia, a juventude, os estudantes. 
H que ampliar as instalaes, dar mais alegria ao local e
limpar. Limpar a fundo! Assim a clientela teria confiana e
no estaria a pensar que pode apanhar um esquentamento, 
no  verdade? Isto  uma porcaria. No limpam nunca. Olhe,
levante a almofada e tenho a certeza que lhe salta um
percevejo. J o disse  madame, mas no fez caso. 
No tem olho para o negcio.

-- E tu tens?

-- Pois claro, patro! A mim ocorre-me um milho de coisas
para melhorar o Cristbal Coln. Eu tenho entusiasmo por esta
profisso. No sou como essas que andam 
s a queixar-se e deitam as culpas  m sorte, quando as
coisas lhes correm mal. No v onde cheguei? J sou a melhor.
Se me empenho, posso ter a melhor casa do 
pais, juro-lhe.

Eu estava a divertir-me muito. Sabia apreci-la, porque de
tanto ver a ambio no espelho, quando fazia a barba de manh,
tinha acabado por aprender a reconhec-la 
quando a via nos demais.

-- Parece-me uma excelente ideia, Trnsito. Porque no montas
o teu prprio negcio? Eu entro com o capital -- ofereci-lhe,
fascinado com a ideia de ampliar os meus 
interesses comerciais nessa direco, como devia estar de
bbado!

-- No, obrigado, patro! -- respondeu Trnsito, acariciando a
sua serpente com uma unha pintada de laca chinesa. -- No me
convm sair de um capitalista para cair 
noutro. O que h a fazer  uma cooperativa e mandar a madame
para o caralho. No ouviu falar disso? Tenha cuidado, olhe que
se os seus caseiros formam uma cooperativa, 
no campo, voc est fodido. O que eu quero  uma cooperativa
de putas. Podem ser putas e maricas, para ampliar mais o
negcio. Ns pomos tudo, o capital e o trabalho. 
Para que queremos um patro?

Fizemos amor de maneira violenta e feroz, que eu quase tinha
esquecido de tanto navegar no veleiro de guas mansas da seda
azul. Naquela desordem de almofadas e 
lenis, apertados no nu vivo do desejo, enroscando-nos at
desfalecer, voltei a sentir-me com vinte anos, contente por
ter nos braos uma fmea brava e apertada 
que no desfalecia em fiapos quando a montavam,  uma gua
forte que se podia cavalgar sem contemplaes, sem que as mos
nos ficassem pesadas, a voz muito dura, 
os ps muito grandes ou a barba muito spera, voltei a
sentir-me como aquele que resiste a um chorrilho de palavres
ao ouvido e no necessita de ser embalado com 
ternuras nem enganado com galanteios. Depois, adormecido e
feliz, descansei um bocado a seu lado, admirando-lhe a curva
slida das ancas e a tremura da serpente.

-- Voltaremos a ver-nos, Trnsito -- disse ao dar-lhe a
gratificao.

-- Isso mesmo lhe disse eu antes, patro, recorda-se? --
respondeu-me com um ltimo vaivm da serpente.

Na realidade, no tinha inteno de tornar a v-la. Preferia
esquec-la.

No teria mencionado este episdio se Trnsito no houvesse
desempenhado papel to importante para mim muito tempo depois,
porque, como j disse, no sou homem de 
prostitutas. Mas esta histria no se tinha podido escrever se
ela no tivesse intervido para nos salvar e salvar, ao mesmo
tempo, as nossas recordaes.


Poucos dias depois, quando o doutor Cuevas lhes estava
preparando o nimo para voltar a abrir a barriga de Clara,
morreram Severo e Nvea del Valle, deixando vrios 
filhos e quarenta e sete netos vivos. Clara soube antes dos
outros, atravs de um sonho, mas no o disse a ningum, a no
ser a Frula, que procurou tranquiliz-la, 
explicando que a gravidez produz um estado de sobressalto no
qual os maus sonhos so frequentes. Duplicou os cuidados,
friccionava-a com leo de amndoas doces para 
evitar as estrias na pele do ventre, punha-lhe mel de abelhas
nos mamilos para no gretarem, dava-lhe a comer cascas de ovo
moda para que tivesse bom leite e no 
se lhe furassem os dentes, e rezava oraes de Belm para um
bom parto. Dois dias depois do sonho, chegou Esteban Trueba a
casa mais cedo que de costume, plido 
e descomposto, agarrou a irm Frula por um brao e fechou-se
com ela na biblioteca.

-- Os meus sogros morreram num acidente -- disse-lhe apenas.
-- No quero que Clara saiba antes do parto. Tem de se fazer
um muro de censura  sua volta, nem jornais, 
nem rdio, nem visitas, nada! Vigia os criados para que
ningum lhe diga nada.

Mas as suas boas intenes ficaram desfeitas pela fora das
premonies de Clara. Nessa noite voltou a sonhar que os pais
caminhavam por um campo de cebolas e que 
Nvea ia sem cabea, de modo que, assim, soube todo o ocorrido
sem necessidade de o ler no jornal nem de o ouvir pela rdio.
Acordou muito excitada e pediu a Frula 
que a ajudasse a vestir, porque devia sair  procura da cabea
de sua me. Frula correu at onde estava Esteban e este
chamou o doutor Cuevas, que, embora com risco 
de prejudicar os gmeos, lhe deu uma beberagem para loucos
destinada a faz-la dormir dois dias, mas que nela no teve o
menor efeito. 

Os esposos del Valle morreram tal como Clara o sonhou e tal
como, a brincar, Nvea tinha anunciado frequentemente que
morreriam:

-- Qualquer dia vamo-nos matar nesta mquina infernal -- dizia
Nvea, apontando o velho automvel de seu marido.

Severo del Valle teve desde jovem um fraco pelos inventos
modernos. O automvel no foi excepo. Nos tempos em que toda
a gente andava a p, em coche de cavalos 
ou em velocpedes, ele comprou o primeiro automvel que chegou
ao pais, e que estava exposto como curiosidade numa montra do
centro. Era um prodgio mecnico que 
se deslocava a velocidade suicida de quinze a vinte
quilmetros por hora, no meio do assombro dos pees e das
maldies daqueles que  sua passagem ficavam salpicados 
de barro ou cobertos de p. A principio foi combatido como um
perigo pblico. Eminentes cientistas explicaram atravs da
imprensa que o organismo humano no estava 
feito para resistir a uma deslocao de vinte quilmetros por
hora, e que o novo ingrediente, a que chamavam gasolina, podia
inflamar-se e produzir uma reaco em 
cadeia que acabaria com a cidade. O padre Restrepo, que tinha
a famlia del Valle na mira desde o desagradvel episdio com
Clara na missa de Quinta-Feira Santa, 
constituiu-se em guardio dos bons costumes e fez ouvir a sua
voz da Galiza contra os amicis rerum novarum, amigos das
coisas novas, como esses aparelhos satnicos, 
que comparou com o carro de fogo em que o profeta Elias
desapareceu em direco ao cu. Mas Severo ignorava o
escndalo e em pouco tempo outros cavalheiros seguiram 
o seu exemplo, at que o espectculo dos automveis deixou de
ser uma novidade. Usou-o mais de dez anos, negando-se a mudar
de modelo quando a cidade se encheu de 
carros modernos que eram mais eficientes e seguros, pela mesma
razo que a esposa no quis eliminar os cavalos de tiro at
que morreram tranquilamente de velhice. 
O Sunbeam tinha cortinas com rendas e floreiras de cristal nas
costas dos bancos, onde Nvea mantinha flores frescas, era
todo forrado de madeira polida e de couro 
castanho claro e as suas peas de bronze eram brilhantes como
o ouro. Apesar da sua origem britnica, foi baptizado com um
nome indgena, Covadonga. Era perfeito, 
na verdade, com excepo dos traves, que nunca funcionaram
bem. Severo orgulhava-se das suas habilidades mecnicas.
Desarmou-o vrias vezes, tentando arranj-lo 
e outras tantas confiou-o ao Grande Cornudo, um mecnico
italiano, que era o melhor do pais. Devia a alcunha a uma
tragdia que tinha empobrecido a sua vida. Diziam 
que sua mulher, farta de lhe pr os cornos sem ele dar por
isso, abandonou-o numa noite de tempestade, mas, antes de se
ir embora, atou uns cornos de carneiro que 
conseguiu no carniceiro no alto da porta da oficina de
mecnica. No dia seguinte, quando o italiano chegou ao
trabalho, encontrou uma cambada de midos e vizinhos 
gozando com ele. Aquele drama, no entanto, no diminuiu em
nada o seu prestigio profissional, mas ele no conseguiu 
compor os traves do Covadonga. Severo optou 
por trazer uma pedra grande no automvel e, quando estacionava
em descidas, um passageiro pisava o travo de p e o outro
descia rapidamente e punha a pedra diante 
das rodas. O sistema em geral dava bom resultado, mas nesse
domingo fatal, assinalado pelo destino como o ltimo das suas
vidas, no foi assim. Os esposos del Valle 
saram a passear pelos arrabaldes da cidade, como faziam
sempre que havia um dia de sol. Os traves depressa deixaram
de funcionar por completo e, antes que Nvea 
conseguisse saltar do carro para colocar a pedra, ou Severo
pudesse manobrar, o automvel foi rodando cerro abaixo. Severo
tentou desvi-lo ou det-lo, mas o diabo 
tinha-se apoderado da mquina, que voou descontrolada at se
espetar contra uma carroa carregada de ferragens de
construo. Uma das laminas entrou pelo pra-brisas 
e decapitou Nvea num abrir e fechar de olhos. A cabea
saiu-lhe disparada e, apesar das buscas da policia, dos
guardas florestais e dos vizinhos voluntrios que 
saram a buscar-lhe o rasto com ces, foi impossvel durante
dois dias dar com ela. No terceiro dia, como os corpos
comearam a feder, tiveram de enterr-los incompletos, 
num funeral magnifico a que assistiu a tribo del Valle e um
nmero incrvel de amigos e conhecidos, alm das delegaes de
mulheres que foram despedir-se dos restos 
mortais de Nvea, considerada ento a primeira feminista do
pais e de quem os seus inimigos ideolgicos disseram que, se
tinha perdido a cabea em vida, no havia 
razo para que a conservasse na morte. Clara, recolhida em
casa, rodeada de criados que a cuidavam, com Frula como
guardi e drogada pelo doutor Cuevas, no assistiu 
ao enterro. No fez nenhum comentrio que indicasse que sabia
do horroroso assunto da cabea perdida, para considerao de
todos os que haviam tentado poupar-lhe 
essa ltima dor; no entanto, quando terminaram os funerais e a
vida pareceu voltar  normalidade, Clara convenceu Frula que
a acompanhasse a procur-la e foi intil 
que a sua cunhada lhe desse mais beberagens e plulas, porque
no desistiu da ideia. Vencida, Frula compreendeu que no era
possvel continuar alegando que o caso 
da cabea era um mau sonho e que o melhor era ajud-la nos
seus planos, antes que a ansiedade acabasse por dar cabo dela.
Esperaram que Esteban Trueba sasse. Frula 
ajudou-a a vestir-se e chamou um carro de aluguer. As
instrues que Clara deu ao motorista foram algo imprecisas:

-- O senhor v para a frente, que eu vou-lhe dizendo o caminho
-- disse-lhe, guiada pelo seu instinto para ver o invisvel.

Saram da cidade e entraram no espao aberto onde as casas se
distanciavam e comeavam as colinas e os vales suaves. 
indicao de Clara, viraram por um caminho 
lateral e seguiram entre os vidoeiros e campos de cebolas, at
que disse ao motorista que parasse junto de uns matagais.

--  aqui -- disse.

-- No pode ser! Estamos longssimo do lugar do acidente! --
duvidou Frula.

-- Digo-te que  aqui! -- insistiu Clara, descendo do carro
com dificuldade,  balanando o enorme ventre, seguida por sua
cunhada, que dizia oraes entredentes, 
e pelo homem, que no tinha a menor ideia do objectivo da
viagem. Tentou rastejar entre o mato, mas o volume dos gmeos
impediram-na.

-- Faa-me o favor, senhor, meta-se ali e passe-me uma cabea
de senhora que vai encontrar -- pediu ao motorista.

Ele arrastou-se debaixo dos espinhos e encontrou a cabea de
Nvea, que parecia um melo solitrio. Pegou-lhe pelo cabelo e
saiu com ela gatinhando. Enquanto o homem 
vomitava apoiado numa rvore prxima, Frula e Clara limparam
a Nvea a terra e os seixos que se lhe tinham metido pelas
orelhas, pelo nariz e pela boca, e compuseram-lhe 
o cabelo, que se lhe havia despenteado um pouco, mas no
puderam fechar-lhe os olhos. Envolveram-na num xaile e
regressaram ao carro.

-- Apresse-se, senhor, porque creio que vou dar  luz! --
disse Clara ao motorista.

Chegaram justamente a tempo de acomodar a me na sua cama.
Frula tratou dos preparativos enquanto iam buscar o doutor
Cuevas e a parteira. Clara, que com os solavancos 
do carro, as emoes dos ltimos dias e as beberagens do
mdico tinha adquirido a facilidade para dar  luz que no
teve com a sua primeira filha, apertou os dentes, 
agarrou-se ao mastro da mezena e do traquete do veleiro e
entregou-se  tarefa de dar ao mundo, na gua mansa da seda
azul, Jaime e Nicolau, que nasceram precipitadamente, 
ante o olhar atento da av, cujos olhos continuavam abertos
observando-os da cmoda. Frula agarrou-os um de cada vez pela
mecha de cabelo hmido que lhes coroava 
a nuca e ajudou-os a sair com puxes, com a experincia
adquirida a ver nascer potros e vitelos em Las Tres Marias.
Antes que chegassem o mdico e a parteira ocultou 
debaixo da cama a cabea de Nvea, para evitar explicaes
complicadas. Quando eles chegaram, tiveram muito pouco que
fazer, porque a me descansava tranquila e 
as crianas, minsculas como sete-mesinhos, mas com todas as
suas partes inteiras e em bom estado, dormiam nos braos da
sua extenuada tia.

A cabea de Nvea tornou-se um problema, porque no tinham
onde a pr para que a no vissem. Por fim, Frula colocou-a
dentro de uma chapeleira de couro envolvida 
em trapos. Discutiram a possibilidade de a enterrar como Deus
manda, mas teria sido uma papelada interminvel para conseguir
que abrissem o tmulo para incluir nele 
o que faltava e, por outro lado, temiam o escndalo se se
tornava pblica a maneira como Clara a tinha encontrado onde
os sabujos tinham fracassado. Esteban Trueba, 
temeroso do ridculo como sempre foi, optou por uma soluo
que no desse argumentos s ms lnguas, porque sabia que o
estranho comportamento de sua mulher era 
motivo de chacota. Tinha constado a habilidade de Clara para
mover objectos sem lhes tocar e para adivinhar o impossvel.
Algum desenterrou a histria  da mudez 
de Clara durante a sua infncia e a acusao do padre
Restrepo, aquele santo varo que a Igreja pretendia converter
no primeiro boato do pais. O par de anos em Las 
Tres Marias serviu para calar os murmrios e para que as
pessoas esquecessem, mas Trueba sabia que bastava uma
insignificncia, como o assunto da cabea da sagra, 
para que voltassem com falatrios. Por isso, e no por
desleixo, como se disse anos mais tarde, a chapeleira
guardou-se na cave  espera de uma ocasio adequada 
para dar-lhe sepultura crist.


Clara recomps-se do duplo parto com rapidez. Entregou as
crianas, para serem criadas,  cunhada e  Ama, que, depois
da morte dos antigos patres, se empregou 
em casa dos Trueba para continuar servindo o mesmo sangue,
como dizia. Tinha nascido para embalar filhos alheios, para
usar a roupa que os outros deitavam fora, 
para comer as suas sobras, para viver de sentimentos e
tristezas emprestadas, para envelhecer debaixo do tecto dos
outros, para morrer um dia no seu cubculo do 
ltimo ptio, na sua cama que no era sua e ser enterrada na
vala comum do Cemitrio Central. Tinha cerca de setenta anos,
mas mantinha-se imperturbvel no seu trabalho, 
incansvel nas lides da casa, sem acusar o tempo, com
agilidade para disfarar-se de cuco e assaltar Clara nos
cantos quando lhe vinha a mania da mudez e da lousa, 
com fora para lidar com os gmeos e ternura para compreender
Blanca, tal como antes o tinha feito com a sua me e a sua
av. Tinha adquirido o hbito de murmurar 
oraes constantemente, mas, quando se deu conta de que
ningum em casa era crente, assumiu a responsabilidade de orar
pelos vivos da famlia, e por certo tambm 
pelos mortos, como um prolongamento dos servios que lhes
tinha prestado em vida. Na velhice chegou a esquecer para quem
rezava, mas manteve o costume com a certeza 
de que ele serviria a algum. A devoo era a nica coisa que
compartilhava com Frula. Em tudo o resto foram rivais.

Uma sexta-feira, pela tarde, tocaram  porta da grande casa da
esquina trs senhoras translcidas, de mos tnues e olhos de
bruma, com chapus com flores passados 
de moda e banhadas num intenso perfume a violetas silvestres,
que se infiltrou por todos os quartos e deixou a casa
cheirando a flores por vrios dias. Eram as trs 
irms Mora. Clara estava no jardim e parecia t-las esperado
toda a tarde, recebeu-as com um menino em cada peito e com
Blanca brincando a seus ps. Olharam-se, 
reconheceram-se, sorriram-se. Foi o comeo de uma apaixonada
relao espiritual que lhes durou toda a vida, e que, se as
suas previses se cumprissem, continuaria 
no Mais-Alm.

As trs irms Mora eram estudiosas do espiritismo e dos
fenmenos naturais, eram as nicas que tinham a prova
irrefutvel de que as almas podem materializar-se, 
graas a uma fotografia que as mostrava  volta de uma mesa e
voando por cima das suas cabeas um ectoplasma difuso e alado, 
que alguns descrentes atribuam a 
uma mancha na revelao do retrato e outros a um simples
engano do fotgrafo. Inteiraram-se, por condutas misteriosas
ao alcance dos iniciados, da existncia de 
Clara, puseram-se em contacto teleptico com ela e
compreenderam de imediato que eram irms astrais. Por meio de
discretas averiguaes deram com a sua direco 
da terra e apresentaram-se com os seus prprios baralhos
impregnados de fluidos benficos, uns jogos de figuras
geomtricas e nmeros cabalsticos de sua inveno, 
para desmascarar os falsos parapsiclogos, e uma bandeja de
pastelinhos comuns e correntes de presente para Clara.
Fizeram-se amigas intimas e, a partir desse dia, 
procuravam juntar-se todas as sextas-feiras para invocar os
espritos, trocar cabalas e receitas de cozinha. Descobriram a
forma de enviar energia mental da grande 
casa da esquina at ao outro extremo da cidade, onde viviam os
Mora, num velho moinho que tinham transformado na sua
extraordinria morada, e tambm no sentido inverso, 
com o que podiam apoiar-se nas circunstancias difceis da vida
quotidiana. As Mora conheciam muitas pessoas, quase todas
interessadas nesses assuntos, que comearam 
a chegar s reunies das sextas-feiras e trouxeram os seus
conhecimentos e fluidos magnticos. Esteban Trueba via-as
desfilar pela casa e ps como nicas condies 
que respeitassem a sua biblioteca, que no utilizassem as
crianas para experincias psquicas e, fossem discretas,
porque no queria escndalo pblico. Frula no 
aprovava estas actividades de Clara, porque lhe pareciam em
desacordo com a religio e os bons costumes. Observava as
sesses a uma distancia prudente, sem participar, 
mas vigiando pelo rabo do olho enquanto tecia, disposta a
intervir logo que Clara entrasse nalgum transe. Tinha
verificado que a cunhada ficava exausta depois de 
algumas sesses em que servia de mdium e comeava a falar em
idiomas pagos com uma voz que no era a sua. A Ama tambm
vigiava com o pretexto de oferecer chavenazinhas 
de caf, espantando as almas com os seus saiotes engomados e o
seu cacarejar de oraes murmuradas e de dentes soltos, mas
no fazia isso para cuidar de Clara nos 
seus prprios excessos, mas para verificar que ningum roubava
os cinzeiros. Era intil que Clara lhe explicasse que as suas
visitas no tinham o menor interesse 
neles; principalmente porque ningum fumava, porque a Ama
tinha classificado todos, excepto as trs encantadoras jovens
Mora, como um bando de rufias evanglicos.

A Ama e Frula detestavam-se. Disputavam entre si o carinho
das crianas e lutavam por cuidar de Clara nas suas
extravagncias e desvarios, num surdo e permanente 
combate que se desenrolava nas cozinhas, nos ptios, nos
corredores, mas nunca perto de Clara, porque as duas estavam
de acordo em evitar-lhe essa molstia. Frula 
tinha chegado a gostar de Clara com uma paixo zelosa que se
parecia mais com a de um marido exigente que com a de uma
cunhada. Com o tempo perdeu a prudncia e 
comeou a deixar  transparecer a sua adorao em muitos
pormenores que no passavam despercebidos a Esteban. Quando
ele regressava do campo, Frula procurava convenc-lo 
de que Clara estava naquilo a que chamavam um dos seus maus
momentos, para que ele no dormisse na sua cama e no
estivesse com ela mais que ocasies contadas 
e por tempo limitado. Defendia recomendaes do doutor Cuevas
que depois, ao serem confrontadas com o mdico, resultavam
invenes. Interpunha-se de mil maneiras 
entre os esposos e se tudo lhe falhava incitava os trs
meninos a que pedissem para ir passear com o seu pai, ler com
a me, que os tapassem porque tinham febre, 
que brincassem com eles; pobrezinhos necessitam do seu papa e
da sua mam. Passam todo o dia nas mos dessa velha ignorante
que lhes mete ideias atrasadas na cabea, 
que os est pondo imbecis com as suas supersties, o que h a
fazer com a Ama  intern-la, dizem que as servas de Deus tm
um asilo para empregadas velhas que 
 uma maravilha, tratam-nas como senhoras, no tm de
trabalhar, h boa comida, isso seria o mais humano, pobre Ama,
j no d para mais, dizia. Sem poder detectar 
a causa, Esteban comeou a sentir-se incomodado na sua prpria
casa. Sentia a mulher cada vez mais afastada, mais rara e
inacessvel, no podia alcan-la nem com 
presentes, nem com as suas tmidas mostras de ternura, nem com
a paixo desenfreada que o comovia sempre na sua presena. Em
todo esse tempo, o seu amor tinha aumentado 
at se tornar numa obsesso. Queria que Clara no pensasse em
ningum mais que nele, que no tivesse mais vida que aquela
que pudesse repartir com ele, que lhe contasse 
tudo, que no possusse nada que no viesse das suas mos, que
dependesse dele totalmente.

Mas a realidade era diferente Clara parecia andar voando de
aeroplano, como o seu tio Marcos, desprendida do solo firme,
procurando Deus em disciplinas tibetanas, 
consultando os espritos com mesas de p-de-galo que davam
pancadinhas, duas para sim, trs para no, decifrando
mensagens de outros mundos, que podiam indicar-lhe 
at o estado das chuvas. Uma vez, anunciaram que havia um
tesouro escondido debaixo da chamin e ela mandou primeiro
deitar abaixo a parede, mas no apareceu, depois 
foi a escada, nada, a seguir a metade do salo principal,
nada. Por ltimo aconteceu que o espirito, confundido com as
modificaes arquitectnicas que ela tinha 
feito em casa, no reparou que o esconderijo dos dobres de
ouro no estava na casa dos Trueba, mas do outro lado da rua,
em casa dos Ugarte, que se negaram a deitar 
abaixo a sala de jantar porque no acreditaram no conto do
fantasma espanhol. Clara no era capaz de fazer as tranas a
Blanca para ir para a escola, disso se encarregavam 
Frula e a Ama, mas tinha com ela uma estupenda relao
baseada nos mesmos princpios que ela tinha tido com Nvea:
contavam contos, liam os livros mgicos dos bas 
encantados, consultavam os retratos de famlia, contavam-se
anedotas dos tios que deixavam  escapar ventos e dos cegos que
caem como grgulas dos lamos, saam 
a olhar a cordilheira e a contar as nuvens, comunicavam entre
si num idioma inventado que suprimia o te ao castelhano e o
substitua por ne e o rre por le, de 
maneira que ficavam falando como o chins da tinturaria.
Entretanto, Jaime e Nicolau cresciam separados do binmio
feminino, de acordo com o principio daqueles tempos 
de que se tm de fazer homens. As mulheres, por seu lado,
nasciam com a sua condio incorporada geneticamente e no
tinham necessidade de a adquirir com as vicissitudes 
da vida. Os gmeos tornaram-se fortes e brutais nos jogos
prprios da sua idade, primeiro caando lagartixas para
cortar-lhes a cauda, ratos para os fazer dar corridas 
e borboletas para lhes tirar o p das asas e, mais tarde,
dando murros e patadas de acordo com as instrues do mesmo
chins da tinturaria, que era um avanado para 
a sua poca e que foi o primeiro a levar ao pais o
conhecimento milenrio das artes marciais, mas ningum fez
caso quando demonstrou que podia partir tijolos com 
a mo e quis montar a sua prpria academia, por isso acabou
lavando roupa alheia. Anos mais tarde, os gmeos acabaram de
fazer-se homens, escapando do colgio para 
se meterem no sitio baldio da lixeira, onde trocavam os
talheres de prata da me por uns minutos de amor proibido com
uma mulherona imensa que os podia embalar aos 
dois nos seus peitos de vaca holandesa, afog-los aos dois na
pulposa humidade das axilas, esmag-los nos msculos de
elefante e levar os dois  glria com a cavidade 
escura, sumarenta, quente do seu sexo. Mas isso no durou
muito e Clara nunca o soube, de modo que no o pde anotar nos
cadernos para que eu o lesse algum dia. 
Vim a saber por outras vias.

Os assuntos domsticos no interessavam a Clara. Vagueava
pelos quartos sem estranhar que tudo estivesse em perfeito
estado de ordem e limpeza. Sentava-se  mesa 
sem perguntar quem preparava a comida e onde compravam os
alimentos, tanto lhe fazia que fosse este ou aquele quem a
servisse, esquecia o nome dos empregados e por 
vezes at o dos prprios filhos, no entanto parecia estar
sempre presente, como um esprito benfico e alegre, a cujo
passo acertavam os relgios. Vestia-se de branco, 
porque decidiu que era a nica cor que no alterava a sua
aura, com os vestidos simples que lhe fazia Frula na mquina
de coser e que preferia aos vestidos com 
vus e pedrarias que lhe dava o marido, com o propsito de
deslumbr-la e v-la  moda.

Esteban sofria repentes de desespero porque ela o tratava com
a mesma simpatia com que tratava toda a gente, falava-lhe com
o tom mimoso com que acariciava os gatos, 
era incapaz de ver se ele estava cansado, triste, eufrico ou
com vontade de fazer amor, mas em contrapartida adivinhava,
pela cor das suas radiaes, quando ele 
estava tramando alguma velhacaria e podia desarmar-lhe uma
zanga com duas frases trampolineiras. Exasperava-o que  Clara
nunca parecesse estar realmente agradecida 
por nada e nunca necessitar nada que ele pudesse dar-lhe. Na
cama era distrada e risonha como em tudo o resto,
descontrada e simples, mas ausente. Sabia que tinha 
o corpo para fazer todas as ginsticas aprendidas nos livros
que escondia num compartimento da biblioteca, mas at os
pecados mais abominveis com Clara pareciam 
brincadeiras de recm-nascido, porque era impossvel
salpic-los com o sal de qualquer mau pensamento ou a pimenta
da submisso. Enfurecido, nalgumas ocasies Trueba 
voltou aos antigos pecados e tombava uma camponesa robusta nos
matagais, durante as separaes foradas em que Clara ficava
com os midos na capital e ele tinha 
de tomar cargo do campo, mas o acontecido, longe de alivi-lo,
deixava-lhe um mau sabor na boca e no lhe dava nenhum prazer,
que durasse especialmente, porque se 
o tivesse contado a sua mulher, sabia que se teria
escandalizado por ele ter maltratado outra, mas de maneira
alguma pela sua infidelidade. Os cimes, como muitos 
outros sentimentos propriamente humanos, no tocavam Clara.
Tambm foi ao Farolito Rojo duas ou trs vezes, mas deixou de
o fazer porque j no funcionava com a
prostitutas e tinha de engolir a humilhao com pretextos,
ditos entre dentes, de que tinha bebido muito vinho, de que
lhe tinha cado mal o almoo, de que andava 
constipado h vrios dias. No voltou, todavia, a visitar
Trnsito Soto, porque pressentia que ela tinha em si prpria o
perigo da continuao. Sentia um desejo 
insatisfeito fervendo-lhe nas entranhas, um fogo impossvel de
apagar, uma sede de Clara que nunca, nem mesmo nas noites mais
fogosas e prolongadas, conseguia saciar. 
Dormia extenuado, com o corao a pontos de lhe estalar no
peito, mas at nos sonhos estava consciente de que a mulher
que repousava a seu lado no estava ali, mas 
era apenas uma dimenso desconhecida a que ele jamais poderia
chegar. Por vezes perdia a pacincia e sacudia Clara furioso,
gritando-lhe os piores insultos e terminava 
chorando no seu regao e pedindo depois perdo pela sua
brutalidade. Clara compreendia, mas no podia remedi-lo. O
amor desmedido de Esteban Trueba por Clara foi 
sem dvida o sentimento mais poderoso da sua vida, maior
inclusivamente que a raiva e o orgulho, e meio sculo depois
continuava invocando-o com o mesmo estremecimento 
e a mesma urgncia. No leito de ancio, cham-la-ia at ao fim
dos seus dias.

As intervenes de Frula agravavam o estado de ansiedade em
que se debatia Esteban. Cada obstculo que sua irm
atravessava entre Clara e ele punha-o fora de si. 
Chegou a detestar os prprios filhos porque absorviam a
ateno da me, levou Clara a uma segunda lua-de-mel nos
mesmos stios da primeira, escapavam-se para hotis 
em fins-de-semana, mas tudo era intil. Convenceu-se de que
Frula era quem tinha a culpa de tudo, que tinha semeado na
sua mulher o grmen malfico que a impedia 
de o amar, e que, roubava com carcias proibidas o que lhe
pertencia a ele, como marido.  Punha-se lvido quando
surpreendia Frula dando banho a Clara, tirava-lhe 
a esponja das mos, mandava-a embora com violncia e puxava
Clara da gua praticamente no ar, sacudindo-a, proibia-lhe que
voltasse a deixar-se banhar, porque na 
sua idade isso era um vcio e acabava secando-a ele,
embrulhando-a no seu robe, levando-a para a cama com a
sensao de que estava a ser ridculo. Se Frula servia 
a sua mulher uma chvena de chocolate, tirava-lha das mos com
o pretexto de que a tratava como a uma invlida, se lhe dava
um beijo de boas-noites, afastava-a com 
um safano dizendo que no era bom beijocarem-se, se lhe
escolhia os melhores pedaos da bandeja, afastava-se da mesa
enfurecido. Os dois irmos chegaram a ser rivais 
declarados, mediam-se com olhares de dio, inventavam argcias
para se desclassificarem mutuamente aos olhos de Clara,
espiavam-se, vigiavam-se. Esteban desistiu 
de voltar ao campo e encarregou Pedro Segundo Garcia de tudo,
inclusivamente das vacas importadas, deixou de sair com os
amigos, de ir jogar golfe, de trabalhar, 
para vigiar dia e noite os passos da irm e ficar  frente
dela quando se acercava de Clara. A atmosfera da casa
tornou-se irrespirvel, densa e sombria e at a 
Ama andava como que assombrada. A nica que permanecia alheia
por completo ao que estava sucedendo, era Clara, que na sua
distraco e inocncia no se dava conta 
de nada.

O dio de Esteban e Frula demorou muito tempo a estalar.
Comeou com um mal-estar dissimulado e um desejo de
ofenderem-se nos mais pequenos pormenores, mas foi 
crescendo at que ocupou toda a casa. Nesse Vero Esteban teve
de ir a Las Tres Marias porque, justamente no momento das
colheitas, Pedro Segundo Garcia caiu do 
cavalo e foi parar com a cabea partida ao hospital das
freiras. Logo que o seu administrador recuperou, Esteban
regressou  capital sem avisar. No comboio, ia com 
um pressentimento atroz, como um desejo inconfessado de que
tivesse acontecido algum drama, sem saber que o drama j tinha
comeado quando ele o desejou. Chegou 
 cidade a meio da tarde, mas foi directamente ao Clube, onde
jogou uma partida de bisca e jantou, sem conseguir acalmar a
inquietao e a impacincia, ainda que 
no soubesse o que o estava esperando. Durante o jantar houve
um pequeno tremor de terra, os lustres baloiaram com a
habitual chocalhada de cristal, mas ningum 
levantou a vista, todos continuaram a comer e os msicos a
tocar sem perder uma nota, excepto Esteban Trueba, que se
sobressaltou como se aquilo tivesse sido um 
aviso. Acabou de comer  pressa, pediu a conta e saiu.

Frula, que em geral tinha os nervos sob controlo, nunca tinha
podido habituar-se aos tremores de terra. Chegou a perder o
medo aos fantasmas que Clara invocava 
e aos ratos do campo, mas os tremores de terra comoviam-na at
aos ossos e continuava a tremer muito tempo depois deles terem
passado. Nessa noite, ainda no se 
tinha deitado, foi ao quarto de Clara, que  tinha tomado a
infuso de tlia e estava dormindo sossegadamente.  procura
de um pouco de companhia e calor, encostou-se 
a seu lado procurando no a acordar e murmurando oraes
silenciosas para que aquilo no degenerasse em terramoto. Ali
a encontrou Esteban Trueba. Entrou em casa 
to silencioso como um bandido, subiu ao quarto de Clara sem
acender as luzes e apareceu como um furaco em frente das duas
mulheres adormecidas, que o julgavam 
em Las Tres Marias. Atirou-se a sua irm com a mesma raiva com
que o teria feito se ela fosse o sedutor da esposa e
arrancou-a da cama aos puxes, arrastou-a pelo 
corredor, f-la descer a escada aos empurres e introduziu-a 
viva fora na biblioteca, enquanto Clara, da porta do quarto,
gritava sem compreender o que tinha 
acontecido. A ss com Frula, descarregou a sua fria de
marido insatisfeito e gritou  irm o que devia dizer-lhe,
desde machona at meretriz, acusando-a de lhe 
perverter a mulher, de desvi-la com caricias de solteirona,
de a pr luntica, distrada, muda e espiritista com artes de
lsbica, de brincar com ela na sua ausncia, 
de manchar at o nome dos filhos, a honra da casa e a memria
de sua santa me, que j estava farto de tanta maldade e que
corria com ela de casa, que se fosse embora 
rapidamente, que no queria tornar a v-la nunca mais, e lhe
proibia que se aproximasse da mulher e dos filhos, que no
faltaria dinheiro para subsistir com decncia 
enquanto ele vivesse, tal como lhe tinha prometido uma vez,
mas que se voltasse a v-la a rondar a famlia a mataria, que
metesse isso bem na cabea. Juro-te pela 
nossa me que te mato.

-- Maldito sejas, Esteban! -- gritou-lhe Frula. -- Estars
sempre sozinho, encolher-te- a alma e o corpo e morrers como
um co!

E saiu para sempre da grande casa da esquina, em camisa de
dormir e sem levar nada consigo.

No dia seguinte Esteban Trueba foi ver o padre Antnio e
contou-lhe o que se tinha passado sem dar pormenores. O
sacerdote escutou-o calmamente com o olhar impassvel 
de quem j antes tinha ouvido a histria.

-- Que desejas de mim, meu filho? -- perguntou quando Esteban
acabou de falar.

-- Que faa chegar a minha irm todos os meses um envelope que
eu lhe entregarei. No quero que tenha necessidades
econmicas. E esclareo que no o fao por carinho, 
mas para cumprir uma promessa.

O padre Antnio recebeu o primeiro envelope com um suspiro e
esboou o gesto de dar a bno, mas Esteban j tinha dado
meia volta e saa. No deu nenhuma explicao 
a Clara do que se tinha passado entre ele e sua irm.
Disse-lhe que a tinha corrido de casa, que lhe proibia tornar
a mencion-la na sua presena e sugeriu-lhe que, 
se ela tinha algo de decncia, nem a devia mencionar nas suas
costas. Mandou tirar a sua roupa e todos os objectos que
pudessem record-la e fez de conta que ela 
tinha morrido. 

Clara compreendeu que era intil fazer-lhe perguntas. Foi 
sala de costura buscar o pndulo, que lhe servia para
comunicar com os fantasmas e que usava como instrumento 
de concentrao. Estendeu no cho um mapa da cidade, suspendeu
o pndulo a meio metro e esperou que as oscilaes lhe
indicassem a direco da cunhada, mas depois 
de o tentar durante toda a tarde deu-se conta que o sistema
no resultaria se Frula no tinha um domiclio fixo. Em face
da ineficcia do pndulo para a localizar, 
saiu a vaguear de carro, esperando que o instinto a guiasse,
mas nem isso deu resultado! Consultou a mesa de p-de-galo sem
que nenhum espirito guia aparecesse para 
conduzi-la aonde Frula, atravs das ruelas da cidade, a
chamasse com o pensamento, mas no obteve resposta nem to
pouco as cartas do tarot a iluminaram. Ento 
decidiu recorrer aos mtodos tradicionais e comeou a
procur-la entre as amigas, interrogou os fornecedores e a
todos os que tinham relaes com ela, mas ningum 
a tinha voltado a ver. As averiguaes levaram-na, por fim,
aonde estava o padre Antnio.

-- No a procure mais, senhora -- disse o sacerdote. -- Ela
no quer v-la.

Clara compreendeu que essa era a causa pela qual no tinham
funcionado nenhuns dos seus infalveis sistemas de
adivinhao.

-- As irms Mora tinham razo -- disse para si. -- No se pode
encontrar quem no quer ser encontrado.


Esteban Trueba entrou num perodo muito prspero. Os seus
negcios pareciam tocados por uma varinha mgica. Sentia-se
satisfeito com a vida. Era rico, tal como tinha 
dito um dia que viria a ser. Tinha a concesso de oito minas,
estava exportando fruta para o estrangeiro, formou uma empresa
construtora e Las Tres Marias, que tinha 
crescido muito em tamanho, estava transformada na melhor
propriedade da regio. No o afectou a crise econmica que
convulsionou o resto do pas. Nas provncias 
do Norte a falncia das salitreiras tinha deixado na misria
milhares de trabalhadores. As famlicas tribos de
desempregados, que arrastavam as mulheres, os filhos, 
os velhos, buscando trabalho pelos caminhos, tinham acabado
por aproximar-se da capital e lentamente formaram um cordo de
misria  volta da cidade, instalando-se 
de qualquer maneira, entre tbuas e pedaos de carto, no meio
do lixo e do abandono. Vagueavam pelas ruas em busca de uma
oportunidade para trabalharem, mas no 
havia trabalho para todos e a pouco e pouco os rudes
operrios, adelgaados pela fome, encolhidos pelo frio,
andrajosos, desolados, deixaram de pedir trabalho, pediam 
simplesmente uma esmola. Tudo se encheu de mendigos. E depois
de ladres. Nunca se tinham visto geadas mais terrveis que as
desse ano. Houve neve na capital, um 
espectculo inusitado que se manteve em primeiro plano nos
jornais, celebrado como  uma notcia festiva, enquanto nas
populaes marginais os meninos de manh 
estavam azuis, congelados. Nem a caridade chegava para tantos
desamparados.

Foi o ano do tifo exantemtico. Comeou como outra calamidade
dos pobres e logo adquiriu caractersticas de castigo divino.
Nasceu nos bairros dos indigentes, por 
culpa do Inverno, da desnutrio, da gua suja das regueiras.
Juntou-se ao desemprego e repartiu-se por todo o lado. Os
hospitais no davam vencimento. Os enfermos 
deambulavam pelas ruas com os olhos perdidos, tiravam os
piolhos e lanavam-nos s pessoas ss. Pegou-se a praga,
entrou em todos os lugares, infectou os colgios 
e as fbricas, ningum podia sentir-se seguro. Todos viviam
com medo, interpretando os signos que anunciavam a terrvel
enfermidade. Os contagiados comeavam a tiritar 
com um frio de gelo nos ossos e aos poucos eram tomados pelo
estupor. Ficavam parados como imbecis, consumidos pela febre,
cheios de manchas, cagando sangue, com 
delrios de fogo e de naufrgio, caindo ao cho com os ossos
de l, as pernas de trapo e um gosto de blis na boca, o corpo
em carne viva, uma pstula vermelha ao 
lado de outra azul e outra amarela e outra negra, vomitando
at as tripas e gritando a Deus que tivesse piedade e que os
deixasse morrer de vez, que no aguentavam 
mais, que a cabea se lhes rebentava e a alma se lhes ia em
merda e espanto.

Esteban props levar toda a famlia para o campo, para a
preservar do contgio, mas Clara no quis ouvir falar no
assunto. Estava muito ocupada a socorrer os pobres 
numa tarefa que no tinha princpio nem fim. Sala muito cedo e
s vezes chegava perto da meia-noite. Esvaziou os armrios da
casa, tirou a roupa s crianas, os 
cobertores das camas, os casacos do marido. Tirava a comida da
despensa e estabeleceu um sistema de envio com Pedro Segundo
Garcia, que mandava de Las Tres Maris 
queijos, ovos, carnes secas, frutas, galinhas, que ela
distribua entre os seus necessitados. Adelgaou e sentia-se
magra.  noite voltou a caminhar sonmbula.

A ausncia de Frula sentiu-se na casa como um cataclismo e
at a Ama, que sempre tinha desejado que esse momento chegasse
um dia, se comoveu. Quando comeou a Primavera 
e Clara pde descansar um pouco, aumentou a tendncia para
fugir  realidade e perder-se no sonho. Ainda que no contasse
com a impecvel organizao da cunhada 
para impedir o caos da grande casa da esquina, despreocupou-se
das coisas domsticas. Delegou tudo nas mos da Ama e dos
outros criados e sumiu-se no mundo das aparies 
e das experincias psquicas. Os cadernos de anotar a vida
complicaram-se, a sua caligrafia perdeu a elegncia de
convento que sempre tivera, e degenerou em traos 
calcados que s vezes eram to minsculos que no se podiam
ler e outras to grandes que trs palavras enchiam a pgina.

Nos anos seguintes juntou-se  volta de Clara e das trs irms
Mora um  grupo de estudiosos de Gourdieff, de rosa-cruzes, de
espiritistas e de bomios noctvagos 
que faziam trs refeies dirias em casa e alternavam o seu
tempo entre consultas peremptrias aos espritos da mesa de
p-de-galo e  leitura dos versos do ltimo 
poeta iluminado que aterrava no regao de Clara. Esteban
permitia essa invaso de extravagantes porque h muito tempo
se tinha dado conta que era intil interferir 
na vida da mulher. Decidiu que pelo menos os meninos vares
deviam estar  margem da magia, de modo que Jaime e Nicolau
foram internados num colgio ingls vitoriano, 
onde qualquer pretexto era bom para lhes baixar as calas e
dar-lhes chibatadas no traseiro, especialmente a Jaime, que se
marimbava para a famlia real britnica 
e aos doze anos estava interessado em ler Marx, um judeu que
provocava revolues em todo o mundo. Nicolau herdou o
esprito aventureiro do tio-av Marcos e a propenso 
da me, de fabricar horscopos e decifrar o futuro, mas isso
no constitua um delito grave para a rgida formao do
colgio, mas apenas uma excentricidade, por 
isso o jovem foi muito menos castigado que seu Irmo.

O caso de Blanca era diferente porque o pai no intervinha na
sua educao. Considerava que o destino dela era casar-se e
brilhar em sociedade, da a faculdade de 
comunicar com os mortos, se ela mantinha um tom frvolo, poder
ser uma atraco. Defendia que a magia, como a religio e a
cozinha, era um assunto propriamente feminino 
e, talvez por isso, era capaz de sentir simpatia pelas trs
irms Mora. Em contrapartida, detestava os espirituados do
sexo masculino quase tanto como os padres. 
Por seu lado, Clara andava por toda a parte com a filha
agarrada s saias, convidava-a para as sesses dos membros das
sociedades secretas, com os artistas misrrimos 
de quem era mecenas. Tal como a me o tinha feito com ela em
tempos de mudez, levava agora Blanca para ver os pobres,
carregada de presentes e consolaes.

-- Isto serve para nos tranquilizar a conscincia, minha filha
-- explicava a Blanca. -- Mas no ajuda os pobres. Eles no
necessitam de caridade mas sim de justia.

Era nesse ponto onde tinha as maiores discusses com Esteban,
que tinha outra opinio a esse respeito.

-- Justia!  justo que todos tenham o mesmo? Os mandries o
mesmo que os trabalhadores? Os tontos o mesmo que os
inteligentes? Isso no se passa nem com os animais! 
No  uma questo de ricos e de pobres, mas das mesmas
oportunidades, mas essa gente no faz nenhum esforo.  muito
fcil estender a mo e pedir esmola! Eu s acredito 
no esforo e na recompensa. Graas a esta filosofia cheguei a
ter o que tenho. Nunca pedi um favor a ningum e no cometi
nenhuma desonestidade, o que prova que 
qualquer um  pode faz-lo. Eu estava destinado a ser um pobre
infeliz escriturrio de notrio. Por isso no aceitarei ideias
bolchevistas em minha casa. Vo fazer 
caridade para os asilos, se querem! Isso est muito bem;  bom
para a formao das senhoras. Mas no me venham com as mesmas
cretinices de Pedro Tercero Garcia, 
porque no vou aguentar isso!

Era verdade, Pedro Tercero Garcia estava a falar de justia em
Las Tres Marias. Era o nico que se atrevia a desafiar o
patro, apesar das cargas de porrada que 
lhe tinha dado seu pai, Pedro Segundo Garcia, sempre que o
surpreendia. Desde muito novo que o rapaz fazia viagens sem
autorizao  aldeia para conseguir livros 
emprestados, ler os jornais e conversar com o mestre-escola,
um comunista ardente que anos mais tarde matariam com um
balzio entre os olhos. Tambm se escapava 
de noite para o bar de San Lucas, onde se reunia com
sindicalistas que tinham a mania de endireitar o mundo, entre
dois golos de cerveja, ou com o gigantesco e magnfico 
padre Jos Dulce Maria, um sacerdote espanhol com a cabea
cheia de ideias revolucionrias que lhe valeram ser atirado
pela Companhia de Jesus para aquele canto 
do mundo, mas nem por isso renunciou a transformar as
parbolas bblicas em panfletos socialistas. No dia em que
Esteban Trueba descobriu que o filho do seu administrador 
estava a introduzir literatura subversiva entre os rendeiros,
chamou-o ao escritrio e diante do pai deu-lhe um arraial de
pancada com uma chibata de pele de cobra.

-- Este  o primeiro aviso, ranhoso de merda! -- disse-lhe sem
levantar a voz e olhando-o com olhos de fogo. -- A prxima vez
que te encontrar chateando as pessoas, 
prendo-te. Na minha propriedade no quero revoltosos, porque
aqui mando eu e tenho direito de rodear-me de pessoas de quem
gosto. Eu no gosto de ti, fica sabendo. 
Aguento-te pelo teu pai, que me serviu lealmente durante
muitos anos, mas anda com cuidado, porque podes acabar muito
mal. Retira-te!

Pedro Tercero Garcia era parecido com o pai, moreno, de faces
esculpidas em pedra, com grandes olhos tristes, cabelo negro e
duro, cortado  escovinha. Tinha s 
dois amores, seu pai e a filha do patro, a quem amou desde o
dia em que dormiram debaixo da mesa da sala de jantar, na sua
tenra infncia. E Blanca no se livrou 
da mesma fatalidade. Cada vez que ia de frias ao campo e
chegava a Las Tres Marias, no meio da poeirada provocada pelos
carros carregados com a complicada bagagem, 
sentia o corao a bater-lhe como um tambor africano de
impacincia e ansiedade. Era a primeira a saltar do veiculo e
a largar a correr at casa e encontrava Pedro 
Tercero Garcia no mesmo sitio em que se tinham visto pela
primeira vez, de p  porta da casa, meio oculto pela sombra
da porta, tmido e escuro, com as calas pudas, 
descalo, com  olhos de velho espreitando o caminho para a ver
chegar. Os dois corriam e abraavam-se, beijavam-se, riam,
davam um ao outro encontres carinhosos, 
e rebolavam pelo cho, puxando os cabelos e gritando de
alegria.

-- Pra, mida! Deixa esse maltrapilho! -- gritava a Ama
procurando separ-los.

-- Deixa-os l, Ama, so meninos e gostam um do outro -- dizia
Clara, que sabia mais.

Os meninos escapavam, correndo, escondiam-se para contarem um
ao outro tudo o que tinham acumulado durante esses meses de
separao. Pedro entregava-lhe, envergonhado, 
uns animaizinhos esculpidos que tinha feito para ela, em
pedaos de madeira, e em troca Blanca dava-lhe os presentes
que tinha Juntado para ele: um canivete que 
se abria como uma flor e um pequeno man que atraa por obra
de magia os pregos enferrujados do cho. No Vero em que ela
chegou com parte do contedo do ba dos 
livros mgicos do tio Marcos, tinha  volta de dez anos e
ainda Pedro Tercero lia com dificuldade, mas a curiosidade e a
nsia conseguiram o que no se tinha podido 
obter com chibatadas. Passaram o Vero lendo, deitados entre
as canas do rio, entre os pinheiros do bosque, entre as
espigas dos trigais, discutindo as virtudes 
de Sandokan e Robin dos Bosques, a m sorte do Pirata Negro,
as histrias verdicas e edificantes do Tesouro da Juventude,
o malicioso significado das palavras proibidas 
no dicionrio da Real Academia da Lngua Espanhola, o sistema
cardiovascular em estampas, onde podiam ver um tipo sem pele,
com todas as veias e o corao exposto 
 vista, mas com cales. Em poucas semanas o menino aprendeu
a ler com voracidade. Entraram no mundo amplo e profundo das
histrias impossveis, dos duendes, das 
fadas, dos nufragos que se comem uns aos outros depois de
tirar  sorte, dos tigres que se deixam amestrar por amor, dos
inventos fascinantes, das curiosidades 
geogrficas e zoolgicas, dos pases orientais onde h gnios
dentro de garrafas, drages nas grutas e princesas
prisioneiras nas torres. Iam frequentemente visitar 
Pedro Garcia, o velho, a quem o tempo tinha gasto os sentidos.
Foi ficando cego a pouco e pouco, uma pelcula azul celeste
cobria-lhe as pupilas. So as nuvens 
que me esto entrando pela vista, dizia. Agradecia muito as
visitas de Blanca e Pedro Tercero, que era seu neto, mas que
ele j tinha esquecido. Escutava os contos 
que eles seleccionavam dos livros mgicos e que tinham de lhe
gritar ao ouvido, porque ele tambm dizia que o vento lhe
estava entrando pelas orelhas e por isso 
estava surdo. Em troca, ensinava-lhes a imunizarem-se contra
as picadas dos bichos malignos e demonstrava-lhes a eficcia
do seu antdoto, pondo um lacrau vivo no 
brao. Ensinava-os a procurar gua. Tinham de segurar um pau
seco com as duas mos e caminhar tocando o solo, em silncio,
pensando na gua e na sede que tem o pau, 
at que de repente, ao sentir a humidade, o pau comea a
tremer. Tem de se cavar ali,  dizia-lhes o velho, mas
esclarecia que esse no era o sistema que ele empregava 
para localizar os poos no solo de Las Tres Marias, porque ele
no necessitava do pau. Os seus ossos tinham tanta sede que ao
passar pela gua subterrnea, mesmo 
que fosse profunda, o seu esqueleto avisava-o. Mostrava-lhes
as ervas do campo e fazia-os cheir-las, prov-las,
acarici-las para conhecerem o seu perfume natural, 
o seu sabor e a sua textura e assim poderem identificar cada
uma, segundo as suas propriedades curativas: acalmar o
espirito, expulsar os fluidos diablicos, polir 
os olhos, fortificar o ventre, estimular o sangue. Nesse
terreno a sua sabedoria era to grande que o mdico do
hospital das freiras ia visit-lo para lhe pedir 
conselho. No entanto, toda a sua sabedoria no pde curar uma
cibra da sua Pancha, que a despachou para o outro mundo.
Deu-lhe a comer bosta de vaca e, como isso 
no resultasse, deu-lhe bosta de cavalo, envolveu-a em mantas
e f-la suar o mal at que a deixou nos ossos, deu-lhe
frices de aguardente com plvora por todo 
o corpo, mas foi intil; Pancha foi-se embora numa diarreia
interminvel que lhe esturgiu as carnes e a fez padecer uma
sede insacivel. Vencido, Pedro Garcia pediu 
autorizao ao patro para a levar  aldeia numa carroa. Os
dois meninos acompanharam-no. O mdico do hospital das freiras
examinou Pancha cuidadosamente e disse 
ao velho que estava perdida, que se a tivesse levado antes e
no lhe tivesse provocado aquela suadeira tinha podido fazer
algo por ela, mas que o seu corpo j no 
podia reter nenhum liquido e era como uma planta com as razes
secas. Pedro Garcia ofendeu-se e continuou negando o fracasso
mesmo quando regressou com o cadver 
da filha envolto numa manta, acompanhado pelos meninos
assustados, e o descarregou no ptio de Las Tres Marias
resmungando contra a ignorncia do doutor. Enterraram-na 
num sitio privilegiado no pequeno cemitrio junto  igreja
abandonada ao p do vulco, pois lhe tinha dado o nico filho
que levou o seu nome, embora no tivesse 
levado apelido, e um neto, o estranho Esteban Garcia, que
estava destinado a cumprir um terrvel papel na histria da
famlia.

Um dia o velho Pedro Garcia contou a Blanca e a Pedro Tercero
o conto das galinhas que se puseram de acordo para enfrentar
um raposo que se metia todas as noites 
no galinheiro para roubar os ovos e devorar os pintainhos. As
galinhas decidiram que j estavam fartas de aguentar a
prepotncia do raposo, esperaram-no organizadas 
e, quando entrou no galinheiro, fecharam-lhe a passagem.
Rodearam-no e caram-lhe em cima s bicadas at o deixarem
mais morto que vivo.

-- E ento viu-se que o raposo escapava com o rabo entre as
pernas, perseguido pelas galinhas -- terminou o velho.

Blanca riu-se com a histria e disse que isso era impossvel
porque as galinhas nascem estpidas e dbeis e os raposos
nascem astutos e fortes, mas  Pedro Tercero 
riu-se. Ficou toda a tarde pensativo, ruminando o conto do
raposo e das galinhas, e talvez fosse esse o instante em que o
menino comeou a fazer-se homem.


Captulo V

Os Amantes

A infncia de Blanca passou-se sem grandes sobressaltos,
alternando aqueles Veres quentes em Las Tres Marias, onde
descobrira a fora de um sentimento que crescia 
com ela, e a rotina da capital, semelhante  das outras
meninas da sua idade e meio, apesar de que a presena de Clara
punha uma nota extravagante na sua vida. Todas 
as manhs aparecia a Ama com o pequeno almoo a sacudir-lhe a
modorra e vigiar-lhe o uniforme, esticar-lhe as pegas,
pr-lhe o chapu, as luvas e o leno, arrumar 
os livros na bolsa, enquanto intercalava oraes murmuradas
por alma dos mortos com recomendaes em voz alta para que
Blanca no se deixasse enganar pelas freiras.

-- Essas mulheres so todas umas depravadas -- avisava-a --
que escolhem as alunas mais bonitas, mais inteligentes e de
boas famlias para as meter no convento, 
rapam a cabea s novias, pobrezinhas, e destinam-nas a
perder a vida fazendo tortas para vender e cuidando velhinhos
dos outros.

O motorista levava a menina ao colgio, onde a primeira
actividade do dia era a missa e a comunho obrigatria.
Ajoelhada no seu banco Blanca aspirava o intenso 
perfume do incenso e as aucenas de Maria, e padecia o
suplcio combinado das nuseas, da culpa e do aborrecimento.
Era a nica coisa de que no gostava no colgio. 
Gostava dos altos corredores de pedra, da limpeza imaculada do
pavimento de mrmore, das paredes brancas nuas, do Cristo de
ferro que vigiava a entrada. Era uma 
criana romntica e sentimental, com tendncia para a solido,
de poucas amigas, capaz de emocionar-se at s lgrimas quando
floresciam as rosas no jardim, quando 
aspirava o tnue odor a pano e sabo das freiras que se
inclinavam sobre as tarefas, quando se deixava ficar para trs
para sentir o silncio triste das aulas vazias. 
Passava por tmida e melanclica. S no campo, com a pele
dourada pelo sol e a barriga  cheia de fruta morna, correndo
com Pedro Tercero pelos prados, era risonha 
e alegre. A me dizia que essa era a verdadeira Blanca e que a
outra, a da cidade, era uma Blanca em hibernao.

Devido  agitao constante que reinava na grande casa da
esquina, ningum, excepto a Ama, deu conta de que Blanca
estava a tornar-se uma mulher. Entrou de sbito 
na adolescncia. Tinha herdado dos Trueba o sangue espanhol e
rabe, o porte senhoril, a expresso soberba, a pele
azeitonada e os olhos escuros dos seus genes mediterrnicos, 
mas tingidos pela herana da me, de quem tirou a doura que
jamais tivera algum Trueba. Era uma criana tranquila que se
entretinha sozinha, estudava, brincava 
com as bonecas e no manifestava a menor inclinao natural
pelo espiritismo da me ou pelas iras do pai. A famlia dizia,
em tom de graa, que era a nica pessoa 
normal em vrias geraes e, na verdade, parecia ser um
prodgio de equilbrio e serenidade. Por volta dos treze anos
comeou-se-lhe a desenvolver o peito, a cintura 
a estreitar-se-lhe, adelgaou e esticou como uma planta
adubada. A Ama apanhou-lhe o cabelo num carrapito, levou-a a
comprar o primeiro corpete, o primeiro par de 
meias de seda, o primeiro vestido de mulher, e uma coleco de
toalhas pequeninas para aquilo que ela chamava a demonstrao.
Entretanto, a me continuava a fazer 
danar as cadeiras por toda a casa, tocando Chopin com o piano
fechado e declamando os belssimos versos sem rima, argumento
nem lgica de um poeta jovem que tinha 
sido acolhido em casa, de quem se comeava a falar por todo o
lado, sem notar as mudanas que se produziam na filha, sem ver
o uniforme do colgio com as costuras 
rebentadas, nem se dar conta que a cara de fruta se tinha
subtilmente transformado num rosto de mulher, porque Clara
vivia mais atenta  aura e aos fluidos que aos 
quilos ou centmetros. Um dia viu-a entrar na sala de costura
com o vestido de sair e admirou-se de que aquela rapariga alta
e morena fosse a sua pequena Blanca. 
Abraou-a, encheu-a de beijos e avisou-a de que em breve teria
a menstruao.

-- Sente-se e eu explico-lhe o que isso  -- disse Clara.

-- No me mace, me, j vai fazer um ano que me vem todos os
meses -- riu Blanca.

A relao de ambas no sofreu grandes mudanas com o
desenvolvimento da rapariga, porque estava baseada nos slidos
princpios da total aceitao mtua e na capacidade 
para gozarem juntas quase todas as coisas da vida.

Nesse ano, o Vero fez-se anunciar cedo, com um calor seco e
abafado que cobriu a cidade com uma reverberao de sonho mau,
por isso adiaram um par de semanas a 
viagem a Las Tres Marias. Como acontecia todos os anos, Blanca
esperou ansiosamente o momento de ver Pedro Tercero e, como
todos os anos, ao descer do carro a primeira 
coisa que fez foi procur-lo com o olhar no lugar de sempre.
Descobriu a sua sombra escondida no umbral da porta e  saltou
do veculo, precipitando-se ao seu encontro 
com a nsia de tantos meses a sonhar com ele, mas viu,
surpreendida, que o menino dava meia volta e saa
escapando-se.

Blanca andou toda a tarde percorrendo os lugares onde se
reuniam, perguntou por ele, chamou-o aos gritos, procurou-o em
casa de Pedro Garcia, o velho, e, por ltimo, 
ao cair da noite deitou-se vencida, sem comer. Na enorme cama
de bronze, dorida e admirada, afundou a cara na almofada e
chorou desconsoladamente. A Ama levou-lhe 
um copo de leite com mel e adivinhou logo a causa do seu amuo.

-- Alegro-me! -- disse com um sorriso torcido. -- J no tens
idade para brincar com esse ranhoso cheio de pulgas!

Meia hora mais tarde, Clara entrou para a beijar e encontrou-a
soluando os ltimos estertores de um pranto melanclico. Por
um momento Clara deixou de ser um anjo 
distrado, colocando-se  altura dos simples mortais que aos
catorze anos sofrem o primeiro mal de amor. Quis perguntar,
mas Blanca era muito orgulhosa ou j demasiado 
mulher e no lhe deu explicaes, de modo que Clara se limitou
a sentar-se um pouco na cama e acarici-la at que se acalmou.

Nessa noite, Blanca dormiu mal e despertou ao amanhecer
rodeada pelas sombras do grande quarto. Ficou olhando as
ornamentaes do tecto at que ouviu o canto do 
galo e ento levantou-se, abriu as cortinas e deixou entrar a
luz suave do nascer do Sol e os primeiros rudos do mundo.
Aproximou-se do espelho do armrio e olhou-se 
longamente. Tirou a camisa e observou o corpo pela primeira
vez em pormenor, compreendendo que todas aquelas mudanas eram
a causa do seu amigo ter fugido. Sorriu 
com um novo e delicado sorriso de mulher. Vestiu roupa velha
do Vero passado, que quase no lhe servia, envolveu-se numa
manta e saiu em bicos de ps para no despertar 
a famlia. L fora o campo sacudia-se da modorra da noite e os
primeiros raios de Sol cruzavam como sabres os picos da
cordilheira, aquecendo a terra e evaporando 
o orvalho numa fina espuma branca que apagava os contornos das
coisas e fazia da paisagem uma viso de sonho. Blanca comeou
a andar em direco do rio. Tudo estava 
ainda calmo, os seus passos esmagavam as folhas cadas e os
ramos secos, produzindo um leve crepitar, nico rudo naquele
vasto espao adormecido. Sentiu que as 
alamedas imprecisas, os trigais dourados e os longnquos
cerros arroxeados, perdendo-se no cu translcido da manh,
eram uma recordao antiga na sua memria, algo 
que antes tinha visto exactamente assim e que nesse instante
j o tinha vivido. A finssima chuva da noite tinha empapado a
terra e as rvores, sentiu a roupa ligeiramente 
hmida e os sapatos frios. Respirou o perfume da terra
molhada, das flores apodrecidas, do hmus, que lhe despertava
um prazer desconhecido nos sentidos. 

Blanca chegou ao rio e viu o amigo de infncia sentado no
stio onde tantas vezes se tinham encontrado. Nesse ano, Pedro
Tercero no tinha crescido como ela, pelo 
contrrio, continuou o mesmo menino delgado, panudo e moreno,
com uma sbia expresso de ancio nos olhos negros. Ao v-la,
ps-se de p e ela calculou que media 
meia cabea mais que ele. Olharam-se desconcertados, sentindo
pela primeira vez que eram quase estranhos. Por um tempo que
pareceu infinito, ficaram imveis, acostumando-se 
s mudanas e s novas distncias, mas ento piou um pardal e
tudo voltou a ser como no Vero anterior. Tornaram a ser dois
meninos que correm, se abraam e riem, 
caem no cho, se rebolam contra os calhaus, murmurando os seus
nomes sem se cansar, felizes por estarem juntos uma vez mais.
Por fim acalmaram-se. Ela tinha o cabelo 
cheio de folhas secas, que ele tirou uma por uma.

-- Vem, quero mostrar-te uma coisa -- disse Pedro Tercero.

Levou-a pela mo. Caminharam, saboreando aquele amanhecer do
mundo, arrastando os ps no barro, apanhando talos tenros para
lhes sugar a seiva, olhando-se e sorrindo, 
sem falar, at que chegaram a um prado afastado. O Sol
aparecia por cima do vulco, mas o dia ainda no acabara de se
instalar e a terra bocejava. Pedro disse-lhe 
para se deitar no cho e guardar silncio. Rastejaram
aproximando-se dos matos, deram uma pequena volta e ento
Blanca viu-a. Era uma formosa gua baia, dando  
luz sozinha na colina. Os meninos, imveis, fazendo por que
no se ouvisse nem a sua respirao, viram-na arquejar e
esforar-se at que apareceu a cabea do potrozinho 
e, em seguida, depois de bastante tempo, o resto do corpo. O
animalzinho caiu no cho e me comeou a lamb-lo, deixando-o
limpo e brilhante como madeira encerada, 
animando-o com o focinho para que tentasse erguer-se. O
potrozinho tentou pr-se em p, mas dobraram-se-lhe as frgeis
pernas de recm-nascido e ficou deitado, olhando 
a me com ar desvalido, enquanto ela relinchava saudando o Sol
da manh. Blanca sentiu a felicidade estalando no peito e
brotarem-lhe as lgrimas nos olhos.

-- Quando for grande, vou-me casar contigo e vamos viver aqui,
em Las Tres Marias -- disse num sussurro. Pedro ficou a
olh-la com expresso de velho triste e negou 
com a cabea. Era ainda muito mais pequeno que ela, mas j
conhecia o seu lugar no mundo. Tambm sabia que amaria aquela
menina durante toda a sua existncia, que 
esse amanhecer perduraria na sua recordao e que seria o
ltimo que veria no momento de morrer.

Passaram esse Vero oscilando entre a infncia, que ainda os
retinha, e o despertar do homem e da mulher. Por momentos
corriam como crianas, fazendo esvoaar galinhas 
e tresmalhando vacas, fartavam-se de leite morno acabado de
ordenhar e ficavam com bigodes de espuma, roubavam po sado
do forno, trepavam s rvores para construir 
casinhas com ramos. Outras  vezes escondiam-se nos lugares
mais secretos e densos do bosque, faziam camas de folhas e
brincavam a que estavam casados, acariciando-se 
at ficarem extenuados. No tinham perdido a inocncia para
tirarem a roupa sem curiosidade e banhar-se nus no rio, como o
tinham feito sempre, mergulhando na gua 
fria e deixando que a corrente os arrastasse sobre as pedras
lustrosas do fundo. Mas havia coisas que j no partilhavam
como dantes. Aprenderam a ter vergonha. 
J no faziam competio para ver quem fazia o maior charco de
urina e Blanca no lhe falou daquela matria escura que lhe
manchava as cuecas uma vez por ms. Sem 
que ningum o dissesse, deram-se conta de que no podiam ter
familiaridades diante das outras pessoas. Quando Blanca vestia
a roupa de senhora e se sentava  tarde 
no terrao a beber limonada com a famlia, Pedro Tercero
observava-a de longe, sem se aproximar. Comearam a
esconder-se para as suas brincadeiras. Deixaram de andar 
de mos dadas  vista dos adultos e ignoravam-se para no
atrair a sua ateno. A Ama respirou mais tranquila, mas Clara
comeou a observ-los mais cuidadosamente.

Terminaram as frias e os Trueba regressaram  capital
carregados de frascos de doces, compotas, caixotes de fruta,
queijos, galinhas e coelhos em escabeche, cestos 
com ovos. Enquanto arrumavam tudo nos carros que os levariam
ao comboio, Blanca e Pedro Tercero esconderam-se no celeiro
para se despedirem. Nesses trs meses tinham 
chegado a amar-se com aquela paixo arrebatada que os
transtornou durante o resto das suas vidas. Com o tempo, esse
amor tornou-se mais invulnervel e persistente, 
mas tinha j, ento, a mesma profundidade e certeza que o
caracterizou depois. Sobre um monte de gro, aspirando o
aromtico p do celeiro,  luz dourada e difusa 
da manh que passava por entre as tbuas, beijaram-se por todo
o lado, lamberam-se, morderam-se, chuparam-se, soluaram e
beberam as lgrimas dos dois, juraram-se 
amor eterno e combinaram um cdigo secreto que lhes serviria
para se comunicarem durante os meses de separao.


Todos os que viveram aquele momento dizem que foi por volta
das oito da noite quando apareceu Frula, sem que nada fizesse
prever a sua chegada. Todos puderam v-la 
com a blusa engomada, o molho de chaves  cintura e o
carrapito de solteirona, tal como a tinham visto sempre em
casa. Entrou pela porta da sala de jantar no momento 
em que Esteban estava a trinchar o assado e reconheceram-na
imediatamente, apesar de no a verem fazia seis anos e estar
muito plida e muito mais velha. Era um 
sbado e os gmeos, Jaime e Nicolau, tinham sado do internato
para passar o fim-de-semana com a famlia, de modo que tambm
estavam ali. O seu testemunho  muito 
importante, porque eram os nicos membros da famlia que
viviam afastados  por completo da mesa de p-de-galo,
preservados da magia e do espiritismo pelo rgido 
colgio ingls. Primeiramente, sentiram um frio sbito na sala
de jantar e Clara mandou fechar as janelas, porque pensou que
era uma corrente de ar. Logo a seguir 
ouviram o tilintar das chaves e quase em seguida abriu-se a
porta e apareceu Frula, silenciosa e com uma expresso
distante, ao mesmo tempo que a Ama entrava pela 
porta da cozinha com a travessa da salada. Esteban Trueba
ficou com a faca e o garfo de trinchar no ar, paralisado pela
surpresa, e os trs meninos gritaram tia 
Frula! quase em unssono. Blanca levantou-se para ir ao seu
encontro, mas Clara, que se sentava ao seu lado, estendeu a
mo e segurou-a por um brao. Na realidade, 
Clara foi a nica que se deu conta, ao primeiro olhar, do que
se estava a passar, devido  sua grande familiaridade com os
assuntos sobrenaturais, apesar de que 
nada no aspecto da cunhada denunciasse o seu verdadeiro
estado. Frula deteve-se a um metro da mesa, olhou-os a todos
com olhos vazios e indiferentes e logo avanou 
para Clara, que se ps de p, sem nenhum movimento para se
aproximar, mas fechou os olhos e comeou a respirar
agitadamente, como se estivesse incubando um dos seus 
ataques de asma. Frula aproximou-se dela, ps-lhe uma mo em
cada ombro e deu-lhe um breve beijo na testa. Na sala de
jantar s se ouvia a respirao ofegante de 
Clara e o tilintar metlico das chaves na cintura de Frula.
Depois de beijar a cunhada, Frula passou por ela e saiu por
onde tinha entrado, fechando a porta nas 
costas com suavidade. Na sala de jantar ficou a famlia
imvel, como se fosse um pesadelo. A Ama comeou logo a tremer
tanto que lhe caram as colheres da salada 
e o barulho da prata a bater contra o parquet  (1)
sobressaltou todos. Clara abriu os olhos. Continuava a
respirar com dificuldade e calam-lhe lgrimas pela face 
e pelo pescoo, manchando-lhe a blusa.

(1) Em francs no texto. (N. T.)

-- Frula morreu -- anunciou.

Esteban largou os talheres de trinchar o assado sobre a toalha
e saiu a correr da sala de jantar. Foi at  rua chamando a
irm, mas no encontrou nem rasto dela. 
Entretanto, Clara mandou um criado buscar casacos e quando o
esposo regressou estava a vestir o seu e tinha as chaves do
automvel na mo.

-- Vamos a casa do padre Antnio -- disse.

Fizeram o caminho em silncio. Esteban conduzia com o corao
oprimido, procurando a antiga parquia do padre Antnio nesses
bairros de pobres onde fazia muitos 
anos no punha os ps. O sacerdote estava a pregar um boto na
sotaina puda quando chegaram com a noticia de que Frula
tinha morrido.

-- No pode ser! -- exclamou. -- Estive com ela h dois dias e
estava de boa sade e com boa disposio. 

-- Leve-nos a sua casa, padre, por favor -- suplicou Clara. --
Eu sei porque lho digo. Est morta.

Em face da insistncia de Clara, o padre Antnio
acompanhou-os. Durante aqueles anos de solido, ela tinha
vivido num daqueles bairros de lata onde ia rezar o tero 
contra a vontade dos beneficiados nos tempos da sua juventude.
Tiveram de deixar o carro a vrios quarteires de distancia,
porque as ruas se foram tornando mais 
e mais estreitas, at que compreenderam que estavam feitas s
para andar a p ou de bicicleta. Meteram-se por elas
caminhando, evitando os charcos de gua suja que 
transbordava das regueiras, contornando o lixo empilhado em
montes onde os gatos esgatanhavam como sombras. O bairro era
uma comprida rua de casas arruinadas, todas 
iguais, pequenas e humildes vivendas de cimento, com uma s
porta e duas janelas pintadas de cor parda, desbotadas,
comidas pela humidade, com arames estendidos 
atravs da rua, onde de dia se pendurava roupa ao sol, mas a
essa hora da noite, vazios, mexiam-se imperceptivelmente. Ao
centro da ruela havia um nico chafariz 
para abastecer as famlias que viviam ali e s os faris
iluminaram o corredor entre as casas. O padre Antnio saudou
uma velha que estava junto do chafariz  espera 
que se enchesse um balde com o jorro miservel que sala da
torneira.

-- Viu a senhora Frula? -- perguntou.

-- Deve estar em casa, padre. No a vi nos ltimos dias --
disse a velha.

O padre Antnio apontou uma das vivendas, igual s outras,
triste, descascada e suja, mas a nica que tinha dois vasos,
pendurados junto da porta, onde cresciam 
uns pequenos tufos de cardeais, a flor do pobre. O sacerdote
bateu  porta.

-- Podem entrar! -- gritou a velha do chafariz. -- A senhora
nunca pe a chave na porta. A no h nada que roubar!

Esteban abriu a porta chamando a irm, mas no se atreveu a
entrar. Clara foi a primeira a passar o umbral. Dentro estava
escuro e veio-lhes ao encontro o inconfundvel 
aroma de lavanda e de limo. O padre Antnio acendeu um
fsforo. A dbil chama abriu um crculo de luz na penumbra,
mas antes que pudessem avanar ou dar conta do 
que os rodeava apagou-se.

-- Esperem aqui -- disse o padre. -- Eu conheo a casa.

Avanou s apalpadelas e ao fim de pouco tempo acendeu uma
vela. A sua figura destacou-se grotescamente e viram o seu
rosto deformado pela luz que lhe dava por baixo 
flutuando a meia altura, enquanto a gigantesca sombra bailava
contra as paredes. Clara descreveu esta cena com mincia no
dirio, pormenorizando com cuidado os dois 
quartos escuros, cujas paredes estavam manchadas pela
humidade, a pequena casa de banho suja e sem gua corrente, a
cozinha onde havia sobras de po velho e um tacho 
com um pouco de ch. O resto da vivenda de Frula pareceu a
Clara congruente com o pesadelo que  tinha comeado quando a
sua cunhada apareceu na sala de jantar 
da grande casa da esquina para se despedir. Deu-lhe a
impresso de ser o armazm de um vendedor de roupa usada ou os
bastidores de uma msera companhia de teatro 
em digresso. De pregos nas paredes estavam pendurados trajos
antiquados, bos de penas, esqulidos pedaos de papel,
colares de pedras falsas, chapus que se tinham 
deixado de usar h meio sculo, saiotes desbotados com as
rendas desfeitas, vestidos que tinham sido ostentosos e cujo
brilho j no existia, inexplicveis casacos 
de almirante e casulas de bispo, tudo misturado numa irmandade
grotesca, onde se anichava o p de anos. Pelo cho havia uma
confuso de sapatos de cetim, bolsas 
de debutantes, cintures de bijuteria, suspensrios e at uma
brilhante espada de cadete militar. Viu cabeleiras tristes,
postios com enfeites, frascos vazios e 
um no mais acabar de coisas impossveis, semeadas por todos
os lados. Uma porta estreita separava os dois nicos quartos.
No outro, jazia Frula na sua cama, engalanada 
como rainha austraca, com um vestido de veludo rodo pela
traa, saiotes de tafet amarelo e, na cabea, bem enfiada,
brilhava uma incrvel peruca frizada de cantora 
de pera. Ningum estava com ela, ningum soube da sua agonia
e calcularam que tinha morrido h muitas horas, porque os
ratos comeavam j a mordiscar-lhe os ps 
e a devorar-lhe os dedos. Estava magnifica na sua desolao de
rainha e tinha no rosto a expresso doce e serena que nunca
tivera na sua existncia de pesadelo.

-- Gostava de vestir-se com roupa usada que conseguia em
segunda mo e apanhava nas lixeiras, pintava-se e punha estas
cabeleiras, mas nunca fez mal a ningum, pelo 
contrrio, at ao fim dos seus dias rezava o tero para
salvao dos pecadores -- explicou o padre Antnio.

-- Deixem-me sozinha com ela -- disse Clara com firmeza.

Os dois saram para a viela, onde comeavam j a juntar-se os
vizinhos. Clara tirou o casaco de l branca e arregaou as
mangas, aproximou-se da cunhada, tirou-lhe 
com suavidade a peruca e viu que ela estava quase calva, velha
e desvalida. Beijou-a na testa tal como ela a tinha beijado
poucas horas antes na sala de jantar de 
sua casa e em seguida procedeu com toda a calma, a improvisar
os ritos de morte. Despiu-a, lavou-a, ensaboou-a
meticulosamente, sem esquecer nenhum cantinho, friccionou-a 
com gua-de-colnia, ps-lhe p de talco, escovou a meia dzia
de cabelos amorosamente, vestiu-a com os mais extravagantes e
elegantes andrajos que encontrou, ps-lhe 
a cabeleira de soprano, retribuiu-lhe na morte os infinitos
servios que Frula lhe tinha prestado em vida. Enquanto
trabalhava, lutando contra a asma, falava-lhe 
de Blanca, que j era uma mulherzinha, dos gmeos, da grande
casa da esquina, do campo, e se visses como te sentimos a
menos, cunhada, a falta que me fazes para 
cuidar desta famlia, j sabes que eu no sirvo para as
tarefas da casa, os rapazes esto insuportveis, em
compensao Blanca  uma  menina adorvel, e as hortnsias 
que tu plantaste com a tua prpria mo em Las Tres Marias,
puseram-se maravilhosas, h algumas azuis, porque pus moedas
de cobre na terra adubada, para que rebentassem 
com essa cor,  um segredo da natureza, e todas as vezes que
as ponho nas jarras recordo-me de ti, mas tambm me recordo de
ti quando no h hortnsias, recordo-me 
sempre, Frula, porque a verdade  que desde que saste de ao
p de mim ningum mais me deu tanto amor.

Acabou de a arranjar, ficou um pouco falando com ela e
acariciando-a e depois chamou o marido e o padre Antnio, para
tratarem do enterro. Numa caixa de bolachas 
encontraram intactos os envelopes com o dinheiro que Esteban
tinha enviado mensalmente a sua irm durante aqueles anos.
Clara deu-os ao sacerdote para as suas obras 
piedosas, convicta de que esse era o destino que Frula
pensava dar-lhes de qualquer modo.

O padre ficou ao p da morta para que os ratos no lhe
faltassem ao respeito. Era cerca da meia-noite quando saram.
 porta tinham-se juntado os vizinhos do bairro 
para comentar a notcia. Tiveram de abrir passagem afastando
os curiosos e espantando os ces que farejava n no meio das
pessoas. Esteban afastou-se a grandes passadas 
levando Clara pelo brao quase de rastos, sem dar ateno 
gua suja que salpicava as impecveis calas cinzentas do
alfaiate ingls. Estava furioso porque a irm, 
mesmo depois de morta, conseguia faz-lo sentir-se culpado,
como quando era uma criana. Recordou a sua infncia, quando
ela o rodeava com as suas solicitudes obscuras, 
envolvendo-o em dividas de gratido to grandes que no
conseguiria pag-las em todos os dias da sua vida. Tornou a
sentir o sentimento de indignidade que frequentemente 
o atormentava na sua presena e a detestar o seu esprito de
sacrficio, a sua severidade, a sua vocao para a pobreza e a
sua inabalvel castidade, que ele sentia 
como uma acusao pela sua natureza egosta, sensual e ansiosa
de poder. Que o Diabo te leve, maldita! disse entredentes,
negando-se a admitir, nem no mais ntimo 
do corao, que sua mulher to-pouco chegou a pertencer-lhe
depois de ele ter posto Frula fora de casa.

-- Porque vivia assim, se lhe sobrava dinheiro? -- gritou
Esteban.

-- Porque lhe faltava tudo o resto -- replicou Clara
docemente.


Durante os meses que estiveram separados, Blanca e Pedro
Tercero trocaram por correio missivas inflamadas, que ele
assinava com nome de mulher e ela escondia logo 
que chegavam. A Ama conseguiu interceptar uma ou duas, mas no
sabia ler e, mesmo que soubesse, o cdigo secreto impedia-a de
inteirar-se do contedo, afortunadamente 
para ela, porque o seu corao no teria resistido. Blanca
passou o Inverno tecendo um poncho com l escocesa na aula de
lavores do colgio, pensando nas medidas 
do rapaz. De  noite dormia abraada ao poncho, aspirando o
odor da l e sonhando que era ele quem dormia na sua cama.
Pedro Tercero, por sua vez, passou o Inverno 
compondo canes na guitarra para cantar a Blanca e a esculpir
a sua imagem em quanto bocado de madeira lhe caa nas mos,
sem poder afastar a recordao anglica 
da rapariga, com aqueles tormentos que lhe ferviam no sangue,
lhe abrandavam os ossos, lhe estavam fazendo mudar de voz e a
sair plos na cara. Debatia-se inquieto 
entre as exigncias do corpo, que se transformava no de um
homem, e a doura de um sentimento que ainda estava contido
pelos jogos inocentes da infncia. Ambos esperaram 
a chegada do Vero com uma impacincia dolorosa e, finalmente,
quando este chegou e tornaram a encontrar-se, o poncho que
Clara tinha tecido no entrava a Pedro 
Tercero pela cabea, porque nesses meses tinha deixado para
trs a meninice e alcanado as propores de homem adulto, e
as ternas canes de flores e amanheceres 
que ele tinha composto para ela soaram-lhe ridculas, porque
tinha o porte de uma mulher e as suas urgncias.

Pedro Tercero continuava a ser delgado, com o cabelo teso e os
olhos tristes, mas ao mudar a voz adquiriu uma tonalidade
rouca e apaixonada com a qual seria conhecido 
mais tarde, quando cantasse a revoluo. Falava pouco e era
escuro e rude no trato, mas terno e delicado com as mos,
tinha grandes dedos de artista com que esculpia, 
arrancava lamentos das cordas da guitarra e desenhava com a
mesma facilidade com que segurava as rdeas de um cavalo,
brandia o machado para cortar lenha ou guiava 
o arado. Era o nico em Las Tres Marias que enfrentava o
patro. Seu pai, Pedro Segundo, disse-lhe mil vezes que no
olhasse o patro nos olhos, que no lhe respondesse, 
que no se metesse com ele, e no seu desejo de proteg-lo,
chegou a dar-lhe grandes sovas para lhe baixar a grimpa. Mas o
filho era rebelde. Aos dez anos j sabia 
tanto como a mestra-escola de Las Tres Marias e aos doze
insistia em fazer a viagem ao liceu da povoao, a cavalo ou a
p, saindo da casinha de tijolos s cinco 
da manh, chovesse ou trovejasse. Leu e releu mil vezes os
livros mgicos dos bas encantados do tio Marcos, e continuou
alimentando-se com outros que lhe emprestavam 
os sindicalistas do bar e o padre Jos Dulce Maria, que tambm
o ensinou a cultivar a sua habilidade natural para fazer
versos e para traduzir em canes as suas 
ideias.

-- Meu filho, a Santa Madre Igreja est  direita, mas Jesus
esteve sempre  esquerda -- dizia-lhe enigmaticamente entre
dois golos de vinho de missa com que celebrava 
as visitas de Pedro Tercero.

Assim foi que um dia Esteban Trueba, que estava descansando no
terrao depois do almoo, o ouviu cantar qualquer coisa de
galinhas organizadas que se uniam para 
enfrentar o raposo e o venciam. Chamou-o.

-- Quero ouvir-te. Canta, para ver! -- ordenou-lhe.

Pedro Tercero pegou na guitarra com um gesto apaixonado,
acomodou a  perna numa cadeira e dedilhou as cordas. Ficou-se
a olhar fixamente o patro enquanto a sua 
voz de veludo se elevava apaixonada na calmaria da sesta.
Esteban Trueba no era parvo e compreendeu o desafio.

-- A est! Vejo que a coisa mais estpida se pode dizer
cantando -- grunhiu. -- Aprende a cantar canes de amor!

-- Eu gosto, patro. A unio faz a fora, como diz o padre
Jos Dulce Maria. Se as galinhas podem enfrentar o raposo, o
que  que detm os homens?

Pegou na guitarra e saiu arrastando os ps, sem que o outro
discorresse o que lhe podia dizer, apesar de j ter a raiva 
flor dos lbios e comear-lhe a subir a 
tenso. Desde esse dia, Esteban Trueba teve-o na mira,
observava-o, desconfiava. Tratou de impedir que fosse ao
liceu, inventando tarefas de homem crescido, mas 
o rapaz levantava-se mais cedo e deitava-se mais tarde para as
cumprir. Foi nesse ano que Esteban o aoitou com a chibata
diante do seu pai porque levou aos rendeiros 
as novidades que andavam a circular entre os sindicalistas do
povo, ideias de domingos, de feriados, de salrio mnimo, de
reforma e servios mdicos, de licena 
maternal para as mulheres grvidas, de votar sem presses e, o
mais grave, a ideia de uma organizao camponesa que pudesse
enfrentar os patres.

Nesse Vero, quando Blanca foi passar frias a Las Tres
Marias, esteve a pontos de no o reconhecer, porque media
quinze centmetros mais e tinha deixado muito para 
trs o menino barrigudo que compartilhou com ela todos os
Veres da sua infncia. Ela desceu do carro, esticou a saia e
pela primeira vez no correu a abra-lo, 
fez-lhe apenas uma inclinao de cabea  maneira de saudao,
embora com os olhos dissesse o que os outros no deviam ouvir
e que, por outro lado, j lhe tinha 
dito na sua impudica correspondncia em cdigo. A Ama observou
a cena pelo canto do olho e sorriu em ar de gozo. Ao passar em
frente de Pedro Tercero, fez-lhe uma 
careta:

-- Aprende, ranhoso, a meter-te com os da tua classe e no com
senhoras -- gracejou entredentes.

Nessa noite Blanca jantou com toda a famlia na sala de jantar
o ensopado de galinha com que sempre os recebiam em Las Tres
Marias, sem que se vislumbrasse nela 
nenhuma ansiedade durante a prolongada sobremesa em que o pai
bebia conhaque e falava sobre vacas importadas e minas de
ouro. Esperou que a me fizesse sinal de 
retirar-se, parou calmamente, desejou as boas-noites a cada um
dos presentes e foi para o quarto. Pela primeira vez na sua
vida, fechou a porta  chave. Sentou-se 
na cama sem tirar a roupa e esperou no escuro at que se
calassem as vozes dos gmeos gritando no quarto ao lado, os
passos dos criados, as portas, os ferrolhos 
e a casa se acomodou no sono. Ento abriu uma janela e saltou,
caindo sobre as matas de hortnsias que muito tempo atrs a
tia Frula tinha plantado. A noite estava 
clara, ouviam-se  os grilos e os sapos. Respirou profundamente
e o ar levou o cheiro doce dos pssegos que secavam no ptio
para as conservas. Esperou que os olhos 
se acostumassem  escurido e depois comeou a andar, mas no
pde seguir mais longe porque ouviu o ladrar furioso que os
ces de guarda soltavam na noite. Eram 
quatro mastins que se tinham criado amarrados com correntes e
que passavam o dia encerrados, que ela nunca tinha visto de
perto e sabia que a no podiam reconhecer. 
Por um instante sentiu que o pnico a fazia perder a cabea e
esteve a ponto de comear a gritar, mas ento lembrou-se de
que Pedro Garcia, o velho, lhe tinha dito 
que os ladres andavam nus para no serem atacados pelos ces.
Sem hesitar despiu a roupa com toda a rapidez que os nervos
lhe permitiam, p-la debaixo do brao 
e caminhou com passo tranquilo, rezando para que os animais
no lhe farejassem o medo. Viu-os correr ladrando e continuou
sem perder o ritmo da marcha. Os ces aproximaram-se, 
rosnando desconcertados, mas ela no parou. Um deles, mais
audaz que os outros, aproximou-se a cheir-la. Recebeu o bafo
morno da sua respirao nas costas, mas 
no fez caso. Continuaram a rosnar e a ladrar por algum tempo,
acompanharam-na um bocado e, por fim, fartos, deram meia
volta. Blanca suspirou aliviada e deu-se 
conta que estava a tremer e coberta de suor, teve de apoiar-se
numa rvore e esperou at que passasse a fadiga que tinha
posto os seus joelhos em papas. Depois vestiu-se 
a toda a pressa e deitou a correr em direco ao rio.

Pedro Tercero esperava-a no mesmo sitio onde se tinham
encontrado no Vero anterior e onde muitos anos antes Esteban
Trueba se tinha apoderado da humilde virgindade 
de Pancha Garcia. Ao ver o rapaz, Blanca corou violentamente.
Durante os meses em que tinham estado separados, ele
amadureceu no duro oficio de fazer-se homem e 
ela, por seu lado, esteve recolhida entre as paredes do seu
quarto e do colgio das freiras, preservada das durezas da
vida, alimentando sonhos romnticos com varas 
de tecer e l escocesa, mas a imagem dos seus sonhos no
coincidia com aquele jovem alto que se aproximava murmurando o
seu nome. Pedro Tercero estendeu a mo e 
tocou-lhe o pescoo junto da orelha. Blanca sentiu algo quente
que lhe corria pelos ossos e lhe abanava as pernas, fechou os
olhos e abandonou-se. Ele puxou-a a 
si e rodeou-a com os braos, ela afundou o nariz no peito
daquele homem que no conhecia, to diferente do menino magro
com quem se acariciava at ficar extenuada 
poucos meses antes. Aspirou-lhe o odor novo, esfregou-se
contra a sua pele spera, apalpou aquele corpo enxuto e forte
e sentiu uma paz grandiosa e completa, em 
que nada se parecia com a agitao que se havia apoderado
dele. Procuraram-se com as lnguas, como o faziam antes,
embora parecesse uma caricia acabada de inventar, 
caram ajoelhados beijando-se com desespero e rebolaram sobre
o leito macio da terra hmida. Descobriram-se pela primeira
vez e no tinham nada que dizer um ao outro. 
 A Lua percorreu todo o horizonte, mas eles no a viram,
porque estavam ocupados em explorar a sua mais profunda
intimidade, metendo-se cada um na pele do outro, 
incansavelmente.

A partir dessa noite, Blanca e Pedro Tercero encontravam-se
sempre no mesmo lugar  mesma hora. De dia ela bordava, lia e
pintava inspidas aguarelas nos arredores 
da casa, ante o olhar feliz da Ama, que por fim podia dormir
tranquila. Clara, por sua vez, pressentia que algo de estranho
estava sucedendo, porque podia ver uma 
nova cor na aura da filha e pensava adivinhar a causa. Pedro
Tercero fazia as suas lides habituais no campo e no deixou de
ir  povoao ver os amigos. Ao cair 
da noite estava morto de fadiga, mas a perspectiva de se
encontrar com Blanca devolvia-lhe a fora. No era em vo que
tinha quinze anos. Assim passaram todo o Vero 
e muitos anos mais tarde os dois recordariam essas noites
veementes como a melhor poca das suas vidas.

Entretanto, Jaime e Nicolau aproveitavam as frias fazendo
todas aquelas coisas que estavam proibidas no internato
britnico, gritando at esganiar-se, lutando 
sob qualquer pretexto, transformados em dois imundos ranhosos,
maltrapilhos, com os joelhos cheios de crostas e a cabea
cheia de piolhos, fartos de fruta apanhada 
de fresco, de sol e de liberdade. Saiam de manhzinha e no
voltavam a casa at ao anoitecer, ocupados em caar caelhos 
pedrada, galopar a cavalo at perder o 
flego e espiar as mulheres que ensaboavam a roupa no rio.


Assim passaram trs anos, at que o terramoto mudou as coisas.
No fim dessas frias, os gmeos regressaram  capital antes do
resto da famlia, acompanhados pela 
Ama, os criados da cidade e grande parte da bagagem. Os
rapazes iam directamente para o colgio enquanto a Ama e os
outros empregados preparavam a grande casa da 
esquina para a chegada dos patres.

Blanca ficou com os pais no campo uns dias mais. Foi ento que
Clara comeou a ter pesadelos, a caminhar sonmbula pelos
corredores e a despertar aos gritos. Durante 
o dia andava como que imbecilizada, vendo sinais premonitrios
no comportamento dos animais: que as galinhas no pem o seu
ovo dirio, que as vacas andam espantadas, 
que os ces uivam  morte e as ratazanas, as aranhas e os
vermes saem dos seus esconderijos, que os pssaros abandonam
os ninhos e esto a partir em bandos, enquanto 
as suas crias gritam de fome nas rvores. Olhava
obsessivamente a tnue coluna de fumo branco do vulco,
observando as mudanas na cor do cu. Blanca preparou-lhe 
infuses calmantes e banhos mornos e Esteban recorreu  antiga
caixinha  de plulas homeopticas para tranquilizar, mas os
sonhos continuaram.

-- A terra vai tremer! -- dizia Clara, cada vez mais plida e
agitada.

-- Sempre tremeu, Clara, por Deus -- respondia Esteban.

-- Desta vez ser diferente. Haver dez mil mortos.

-- No h tanta gente em todo o pais-gracejava ele.

Comeou o cataclismo s quatro da madrugada. Clara despertou
pouco tempo antes com um pesadelo apocalptico de cavalos
rebentados, vacas arrebatadas pelo mar, gente 
rastejando debaixo das pedras e cavernas abertas no cho por
onde se afundavam casas inteiras. Levantou-se lvida de terror
e correu ao quarto de Blanca. Mas Blanca, 
como todas as noites, tinha fechado  chave a porta e
deslizado pela janela em direco ao rio. Nos ltimos dias,
antes de voltar  cidade, a paixo do Vero adquiriu 
caractersticas dramticas, porque na iminncia de uma nova
separao, os jovens aproveitavam todos os momentos possveis
para se amarem desenfreadamente. Passavam 
a noite no rio, imunes ao frio e ao cansao, entregando-se com
a fora do desespero, e s ao vislumbrar os primeiros raios do
amanhecer Blanca regressava a casa 
entrando pela janela do quarto, onde chegava justamente a
tempo de ouvir cantar os galos. Clara foi at  porta do
quarto, quis abri-la mas estava trancada. Bateu 
e como ningum respondesse saiu correndo, deu meia volta 
casa e viu ento a janela aberta de par em par e as hortnsias
de Frula todas pisadas. Num instante compreendeu 
a causa da cor da aura de Blanca, as suas olheiras, o fastio,
a sonolncia matinal e as aguarelas vespertinas. Nesse mesmo
momento comeou o terramoto.

Clara sentiu que o solo se sacudia e no pde aguentar-se em
p. Caiu de joelhos. As telhas desprenderam-se e choveram 
sua volta com estrpito ensurdecedor. Viu 
a parede de adobe da casa quebrar-se como se tivesse levado
uma machadada de frente, a terra abrir-se, tal como tinha
visto em sonhos e uma enorme fenda aparecer 
na sua frente, engolindo na passagem os galinheiros, a empena
do lavadouro e parte do estbulo. O tanque de gua escorregou
e caiu ao cho espalhando mil litros 
de gua em cima das galinhas sobreviventes que esvoaavam
desesperadas. Ao longe, o vulco deitava fogo e fumo como um
drago furioso. Os ces soltaram-se das correntes 
e correram enlouquecidos, os cavalos que escaparam ao
desmoronar do estbulo cheiraram o ar e relincharam de terror
antes de fugir assustados pelo campo fora, os 
lamos abanaram como bbados e alguns caram com as razes no
ar, esmagando os ninhos dos pardais. E o mais tremendo foi
aquele rugido do fundo da terra, aquele
resfolgar de gigante que se sentiu durante longo tempo,
enchendo o ar de espanto. Clara fez por se arrastar at casa
chamando Blanca, mas os estertores do solo impediram-na.
Viu os camponeses que saiam espavoridos das casas, gritando ao
cu, abraando-se uns aos outros, aos puxes s crianas, aos
pontaps nos ces, aos empurres aos
velhos, tratando 


Durante os meses que estiveram separados, Blanca e Pedro
Tercero trocaram por correio missivas inflamadas, que ele
assinava com nome de mulher e ela escondia logo
que chegavam. A Ama conseguiu interceptar uma ou duas, mas no
sabia ler e, mesmo que soubesse, o cdigo secreto impedia-a de
inteirar-se do contedo, afortunadamente
para ela, porque o seu corao no teria resistido. Blanca
passou o Inverno tecendo um poncho com l escocesa na aula de
lavores do colgio, pensando nas medidas 
do rapaz. De  noite dormia abraada ao poncho, aspirando o
odor da l e sonhando que era ele quem dormia na sua cama.
Pedro Tercero, por sua vez, passou o Inverno 
compondo canes na guitarra para cantar a Blanca e a esculpir
a sua imagem em quanto bocado de madeira lhe caa nas mos,
sem poder afastar a recordao anglica 
da rapariga, com aqueles tormentos que lhe ferviam no sangue,
lhe abrandavam os ossos, lhe estavam fazendo mudar de voz e a
sair plos na cara. Debatia-se inquieto 
entre as exigncias do corpo, que se transformava no de um
homem, e a doura de um sentimento que ainda estava contido
pelos jogos inocentes da infncia. Ambos esperaram 
a chegada do Vero com uma impacincia dolorosa e, finalmente,
quando este chegou e tornaram a encontrar-se, o poncho que
Clara tinha tecido no entrava a Pedro 
Tercero pela cabea, porque nesses meses tinha deixado para
trs a meninice e alcanado as propores de homem adulto, e
as ternas canes de flores e amanheceres 
que ele tinha composto para ela soaram-lhe ridculas, porque
tinha o porte de uma mulher e as suas urgncias.

Pedro Tercero continuava a ser delgado, com o cabelo teso e os
olhos tristes, mas ao mudar a voz adquiriu uma tonalidade
rouca e apaixonada com a qual seria conhecido 
mais tarde, quando cantasse a revoluo. Falava pouco e era
escuro e rude no trato, mas terno e delicado com as mos,
tinha grandes dedos de artista com que esculpia, 
arrancava lamentos das cordas da guitarra e desenhava com a
mesma facilidade com que segurava as rdeas de um cavalo,
brandia o machado para cortar lenha ou guiava 
o arado. Era o nico em Las Tres Marias que enfrentava o
patro. Seu pai, Pedro Segundo, disse-lhe mil vezes que no
olhasse o patro nos olhos, que no lhe respondesse, 
que no se metesse com ele, e no seu desejo de proteg-lo,
chegou a dar-lhe grandes sovas para lhe baixar a grimpa. Mas o
filho era rebelde. Aos dez anos j sabia 
tanto como a mestra-escola de Las Tres Marias e aos doze
insistia em fazer a viagem ao liceu da povoao, a cavalo ou a
p, saindo da casinha de tijolos s cinco 
da manh, chovesse ou trovejasse. Leu e releu mil vezes os
livros mgicos dos bas encantados do tio Marcos, e continuou
alimentando-se com outros que lhe emprestavam 
os sindicalistas do bar e o padre Jos Dulce Maria, que tambm
o ensinou a cultivar a sua habilidade natural para fazer
versos e para traduzir em canes as suas 
ideias.

-- Meu filho, a Santa Madre Igreja est  direita, mas Jesus
esteve sempre  esquerda -- dizia-lhe enigmaticamente entre
dois golos de vinho de missa com que celebrava 
as visitas de Pedro Tercero.

Assim foi que um dia Esteban Trueba, que estava descansando no
terrao depois do almoo, o ouviu cantar qualquer coisa de
galinhas organizadas que se uniam para 
enfrentar o raposo e o venciam. Chamou-o.

-- Quero ouvir-te. Canta, para ver! -- ordenou-lhe.

Pedro Tercero pegou na guitarra com um gesto apaixonado,
acomodou a  perna numa cadeira e dedilhou as cordas. Ficou-se
a olhar fixamente o patro enquanto a sua 
voz de veludo se elevava apaixonada na calmaria da sesta.
Esteban Trueba no era parvo e compreendeu o desafio.

-- A est! Vejo que a coisa mais estpida se pode dizer
cantando -- grunhiu. -- Aprende a cantar canes de amor!

-- Eu gosto, patro. A unio faz a fora, como diz o padre
Jos Dulce Maria. Se as galinhas podem enfrentar o raposo, o
que  que detm os homens?

Pegou na guitarra e saiu arrastando os ps, sem que o outro
discorresse o que lhe podia dizer, apesar de j ter a raiva 
flor dos lbios e comear-lhe a subir a 
tenso. Desde esse dia, Esteban Trueba teve-o na mira,
observava-o, desconfiava. Tratou de impedir que fosse ao
liceu, inventando tarefas de homem crescido, mas 
o rapaz levantava-se mais cedo e deitava-se mais tarde para as
cumprir. Foi nesse ano que Esteban o aoitou com a chibata
diante do seu pai porque levou aos rendeiros 
as novidades que andavam a circular entre os sindicalistas do
povo, ideias de domingos, de feriados, de salrio mnimo, de
reforma e servios mdicos, de licena 
maternal para as mulheres grvidas, de votar sem presses e, o
mais grave, a ideia de uma organizao camponesa que pudesse
enfrentar os patres.

Nesse Vero, quando Blanca foi passar frias a Las Tres
Marias, esteve a pontos de no o reconhecer, porque media
quinze centmetros mais e tinha deixado muito para 
trs o menino barrigudo que compartilhou com ela todos os
Veres da sua infncia. Ela desceu do carro, esticou a saia e
pela primeira vez no correu a abra-lo, 
fez-lhe apenas uma inclinao de cabea  maneira de saudao,
embora com os olhos dissesse o que os outros no deviam ouvir
e que, por outro lado, j lhe tinha 
dito na sua impudica correspondncia em cdigo. A Ama observou
a cena pelo canto do olho e sorriu em ar de gozo. Ao passar em
frente de Pedro Tercero, fez-lhe uma 
careta:

-- Aprende, ranhoso, a meter-te com os da tua classe e no com
senhoras -- gracejou entredentes.

Nessa noite Blanca jantou com toda a famlia na sala de jantar
o ensopado de galinha com que sempre os recebiam em Las Tres
Marias, sem que se vislumbrasse nela 
nenhuma ansiedade durante a prolongada sobremesa em que o pai
bebia conhaque e falava sobre vacas importadas e minas de
ouro. Esperou que a me fizesse sinal de 
retirar-se, parou calmamente, desejou as boas-noites a cada um
dos presentes e foi para o quarto. Pela primeira vez na sua
vida, fechou a porta  chave. Sentou-se 
na cama sem tirar a roupa e esperou no escuro at que se
calassem as vozes dos gmeos gritando no quarto ao lado, os
passos dos criados, as portas, os ferrolhos 
e a casa se acomodou no sono. Ento abriu uma janela e saltou,
caindo sobre as matas de hortnsias que muito tempo atrs a
tia Frula tinha plantado. A noite estava 
clara, ouviam-se  os grilos e os sapos. Respirou profundamente
e o ar levou o cheiro doce dos pssegos que secavam no ptio
para as conservas. Esperou que os olhos 
se acostumassem  escurido e depois comeou a andar, mas no
pde seguir mais longe porque ouviu o ladrar furioso que os
ces de guarda soltavam na noite. Eram 
quatro mastins que se tinham criado amarrados com correntes e
que passavam o dia encerrados, que ela nunca tinha visto de
perto e sabia que a no podiam reconhecer. 
Por um instante sentiu que o pnico a fazia perder a cabea e
esteve a ponto de comear a gritar, mas ento lembrou-se de
que Pedro Garcia, o velho, lhe tinha dito 
que os ladres andavam nus para no serem atacados pelos ces.
Sem hesitar despiu a roupa com toda a rapidez que os nervos
lhe permitiam, p-la debaixo do brao 
e caminhou com passo tranquilo, rezando para que os animais
no lhe farejassem o medo. Viu-os correr ladrando e continuou
sem perder o ritmo da marcha. Os ces aproximaram-se, 
rosnando desconcertados, mas ela no parou. Um deles, mais
audaz que os outros, aproximou-se a cheir-la. Recebeu o bafo
morno da sua respirao nas costas, mas 
no fez caso. Continuaram a rosnar e a ladrar por algum tempo,
acompanharam-na um bocado e, por fim, fartos, deram meia
volta. Blanca suspirou aliviada e deu-se 
conta que estava a tremer e coberta de suor, teve de apoiar-se
numa rvore e esperou at que passasse a fadiga que tinha
posto os seus joelhos em papas. Depois vestiu-se 
a toda a pressa e deitou a correr em direco ao rio.

Pedro Tercero esperava-a no mesmo sitio onde se tinham
encontrado no Vero anterior e onde muitos anos antes Esteban
Trueba se tinha apoderado da humilde virgindade 
de Pancha Garcia. Ao ver o rapaz, Blanca corou violentamente.
Durante os meses em que tinham estado separados, ele
amadureceu no duro oficio de fazer-se homem e 
ela, por seu lado, esteve recolhida entre as paredes do seu
quarto e do colgio das freiras, preservada das durezas da
vida, alimentando sonhos romnticos com varas 
de tecer e l escocesa, mas a imagem dos seus sonhos no
coincidia com aquele jovem alto que se aproximava murmurando o
seu nome. Pedro Tercero estendeu a mo e 
tocou-lhe o pescoo junto da orelha. Blanca sentiu algo quente
que lhe corria pelos ossos e lhe abanava as pernas, fechou os
olhos e abandonou-se. Ele puxou-a a 
si e rodeou-a com os braos, ela afundou o nariz no peito
daquele homem que no conhecia, to diferente do menino magro
com quem se acariciava at ficar extenuada 
poucos meses antes. Aspirou-lhe o odor novo, esfregou-se
contra a sua pele spera, apalpou aquele corpo enxuto e forte
e sentiu uma paz grandiosa e completa, em 
que nada se parecia com a agitao que se havia apoderado
dele. Procuraram-se com as lnguas, como o faziam antes,
embora parecesse uma caricia acabada de inventar, 
caram ajoelhados beijando-se com desespero e rebolaram sobre
o leito macio da terra hmida. Descobriram-se pela primeira
vez e no tinham nada que dizer um ao outro. 
 A Lua percorreu todo o horizonte, mas eles no a viram,
porque estavam ocupados em explorar a sua mais profunda
intimidade, metendo-se cada um na pele do outro, 
incansavelmente.

A partir dessa noite, Blanca e Pedro Tercero encontravam-se
sempre no mesmo lugar  mesma hora. De dia ela bordava, lia e
pintava inspidas aguarelas nos arredores 
da casa, ante o olhar feliz da Ama, que por fim podia dormir
tranquila. Clara, por sua vez, pressentia que algo de estranho
estava sucedendo, porque podia ver uma 
nova cor na aura da filha e pensava adivinhar a causa. Pedro
Tercero fazia as suas lides habituais no campo e no deixou de
ir  povoao ver os amigos. Ao cair 
da noite estava morto de fadiga, mas a perspectiva de se
encontrar com Blanca devolvia-lhe a fora. No era em vo que
tinha quinze anos. Assim passaram todo o Vero 
e muitos anos mais tarde os dois recordariam essas noites
veementes como a melhor poca das suas vidas.

Entretanto, Jaime e Nicolau aproveitavam as frias fazendo
todas aquelas coisas que estavam proibidas no internato
britnico, gritando at esganiar-se, lutando 
sob qualquer pretexto, transformados em dois imundos ranhosos,
maltrapilhos, com os joelhos cheios de crostas e a cabea
cheia de piolhos, fartos de fruta apanhada 
de fresco, de sol e de liberdade. Saiam de manhzinha e no
voltavam a casa at ao anoitecer, ocupados em caar coelhos 
pedrada, galopar a cavalo at perder o 
flego e espiar as mulheres que ensaboavam a roupa no rio.


Assim passaram trs anos, at que o terramoto mudou as coisas.
No fim dessas frias, os gmeos regressaram  capital antes do
resto da famlia, acompanhados pela 
Ama, os criados da cidade e grande parte da bagagem. Os
rapazes iam directamente para o colgio enquanto a Ama e os
outros empregados preparavam a grande casa da 
esquina para a chegada dos patres.

Blanca ficou com os pais no campo uns dias mais. Foi ento que
Clara comeou a ter pesadelos, a caminhar sonmbula pelos
corredores e a despertar aos gritos. Durante 
o dia andava como que imbecilizada, vendo sinais premonitrios
no comportamento dos animais: que as galinhas no pem o seu
ovo dirio, que as vacas andam espantadas, 
que os ces uivam  morte e as ratazanas, as aranhas e os
vermes saem dos seus esconderijos, que os pssaros abandonam
os ninhos e esto a partir em bandos, enquanto 
as suas crias gritam de fome nas rvores. Olhava
obsessivamente a tnue coluna de fumo branco do vulco,
observando as mudanas na cor do cu. Blanca preparou-lhe 
infuses calmantes e banhos mornos e Esteban recorreu  antiga
caixinha  de plulas homeopticas para tranquilizar, mas os
sonhos continuaram.

-- A terra vai tremer! -- dizia Clara, cada vez mais plida e
agitada.

-- Sempre tremeu, Clara, por Deus -- respondia Esteban.

-- Desta vez ser diferente. Haver dez mil mortos.

-- No h tanta gente em todo o pas - gracejava ele.

Comeou o cataclismo s quatro da madrugada. Clara despertou
pouco tempo antes com um pesadelo apocalptico de cavalos
rebentados, vacas arrebatadas pelo mar, gente 
rastejando debaixo das pedras e cavernas abertas no cho por
onde se afundavam casas inteiras. Levantou-se lvida de terror
e correu ao quarto de Blanca. Mas Blanca, 
como todas as noites, tinha fechado  chave a porta e
deslizado pela janela em direco ao rio. Nos ltimos dias,
antes de voltar  cidade, a paixo do Vero adquiriu 
caractersticas dramticas, porque na iminncia de uma nova
separao, os jovens aproveitavam todos os momentos possveis
para se amarem desenfreadamente. Passavam 
a noite no rio, imunes ao frio e ao cansao, entregando-se com
a fora do desespero, e s ao vislumbrar os primeiros raios do
amanhecer Blanca regressava a casa 
entrando pela janela do quarto, onde chegava justamente a
tempo de ouvir cantar os galos. Clara foi at  porta do
quarto, quis abri-la mas estava trancada. Bateu 
e como ningum respondesse saiu correndo, deu meia volta 
casa e viu ento a janela aberta de par em par e as hortnsias
de Frula todas pisadas. Num instante compreendeu 
a causa da cor da aura de Blanca, as suas olheiras, o fastio,
a sonolncia matinal e as aguarelas vespertinas. Nesse mesmo
momento comeou o terramoto.

Clara sentiu que o solo se sacudia e no pde aguentar-se em
p. Caiu de joelhos. As telhas desprenderam-se e choveram 
sua volta com estrpito ensurdecedor. Viu 
a parede de adobe da casa quebrar-se como se tivesse levado
uma machadada de frente, a terra abrir-se, tal como tinha
visto em sonhos e uma enorme fenda aparecer 
na sua frente, engolindo na passagem os galinheiros, a empena
do lavadouro e parte do estbulo. O tanque de gua escorregou
e caiu ao cho espalhando mil litros 
de gua em cima das galinhas sobreviventes que esvoaavam
desesperadas. Ao longe, o vulco deitava fogo e fumo como um
drago furioso. Os ces soltaram-se das correntes 
e correram enlouquecidos, os cavalos que escaparam ao
desmoronar do estbulo cheiraram o ar e relincharam de terror
antes de fugir assustados pelo campo fora, os 
lamos abanaram como bbados e alguns caram com as razes no
ar, esmagando os ninhos dos pardais. E o mais tremendo foi
aquele rugido do fundo da terra, aquele 
resfolgar de gigante que se sentiu durante longo tempo,
enchendo o ar de espanto. Clara fez por se arrastar at casa
chamando Blanca, mas os estertores do solo impediram-na. 
Viu os camponeses que saiam espavoridos das casas, gritando ao
cu, abraando-se uns aos outros, aos puxes s crianas, aos
pontaps nos ces, aos empurres aos 
velhos, tratando  de pr a salvo os pobres haveres naquele
estrondo de tijolos e telhas que saiam das prprias entranhas
da terra, como um interminvel rumor de 
fim do mundo.

Esteban Trueba apareceu no umbral da porta no preciso momento
em que a casa se partiu como uma casca de ovo e se desmoronou
numa nuvem de p, esmagando-o debaixo 
de uma montanha de escombros. Clara rastejou at l chamando-o
aos gritos, mas ningum respondeu.

A primeira sacudidela do terramoto durou quase um minuto e foi
a mais forte que se tinha registado at  data naquele pais de
catstrofes. Atirou ao cho quase tudo 
o que estava em p e o resto acabou por se desmoronar com o
rosrio de tremores menores que se seguiu estremecendo o mundo
at ao amanhecer. Em Las Tres Marias, 
esperaram que nascesse o Sol para contar os mortos e
desenterrar os soterrados que ainda gemiam debaixo da
derrocada, entre eles Esteban Trueba, que todos sabiam 
onde estava mas ningum tinha esperana de encontrar com vida.
Foram necessrios quatro homens a mando de Pedro Segundo, para
remover o monte de terra, telhas e 
adobes que o cobria. Clara tinha abandonado a sua distraco
anglica e ajudava a tirar as pedras com fora de homem.

-- Temos de o tirar! Est vivo, ouve-nos! -- assegurava Clara
e isso dava-lhes nimo para continuar.

Com as primeiras luzes apareceram Blanca e Pedro Tercero,
intactos. Clara caiu em cima da filha e deu-lhe um par de
bofetadas, mas logo a abraou chorando aliviada 
por a saber a salvo e por a ter a seu lado.

-- O seu pai est ali! -- apontou Clara.

Os rapazes puseram-se a trabalhar com os demais e ao cabo de
uma hora, quando j tinha nascido o Sol naquele universo de
angstia, tiraram o patro do tmulo. Os 
ossos partidos eram tantos, que no se podiam contar, mas
estava vivo e tinha os olhos abertos.

-- Temos de lev-lo  povoao para ser visto pelos mdicos --
disse Pedro Segundo.

Estavam discutindo a maneira de o transladar sem que os ossos
lhe sassem por todos os lados como de um saco roto, quando
chegou Pedro Garcia, o velho, que graas 
 cegueira e  velhice tinha suportado o terramoto sem se
comover. Agachou-se ao lado do ferido e com grande cautela
percorreu-lhe o corpo, tacteando-o com as mos, 
olhando com os seus dedos antigos, at no deixar nada por
contabilizar nem fractura sem ter em conta.

-- Se lhe mexerem, morre -- avisou.

Esteban Trueba no estava inconsciente e ouviu-o com toda a
clareza, recordou-se da praga das formigas e achou que o velho
era a sua nica esperana.

-- deixem-no, ele sabe o que faz -- balbuciou. 

Pedro Garcia mandou trazer uma manta e, com a ajuda do filho e
do neto, colocaram sobre ela o patro, levantaram-no com
cuidado e acomodaram-no sobre uma mesa improvisada 
que tinham armado no centro daquilo que antes era o ptio, mas
que j no era mais que uma pequena clareira naquele pesadelo
de cascalho, de cadveres de animais, 
de choros de crianas, de gemidos de ces e oraes de
mulheres. Entre as runas recuperaram um odre de vinho, que
Pedro Garcia distribuiu em trs partes, uma para 
lavar o corpo do ferido, outra para lhe dar a tomar e outra
que ele bebeu com parcimnia, antes de comear a compor-lhe os
ossos, um por um, com pacincia e calma, 
esticando aqui, ajustando dali, colocando cada um no seu
sitio, entalando-os, envolvendo-os em tiras de lenol para os
imobilizar, dizendo entredentes ladainhas 
de santos curandeiros, invocando a boa sorte e a Virgem Maria,
e suportando os gritos e blasfmias de Esteban Trueba, sem
mudar em nada a beatifica expresso de 
cego. s tantas, reconstruiu-lhe o corpo to bem, que os
mdicos que o observaram depois no podiam acreditar que isso
fosse possvel.

-- Eu nem sequer o teria tentado -- reconheceu o doutor Cuevas
ao saber do sucedido.

Os destroos do terramoto mergulharam o pas num grande luto.
No bastou a terra sacudir-se at deitar tudo ao cho, mas
tambm o mar se afastou vrias milhas e 
regressou numa nica e gigantesca onda que ps barcos sobre as
colinas, muito longe da costa, levou casebres, caminhos e
animais e submergiu vrias ilhas do Sul 
mais de um metro abaixo do nvel da gua. Houve edifcios que
caram como dinossauros feridos, outros que se desfizeram como
castelos de cartas, os mortos contavam-se 
aos milhares e no ficou famlia que no tivesse algum por
quem chorar. A gua salgada do mar arruinou as colheitas, os
incndios devoraram zonas inteiras da cidade 
e povoaes e, por ltimo, correu lava e caiu cinza como C~
minar do castigo sobre as aldeias prximas dos vulces. As
pessoas deixaram de dormir nas suas casas, 
aterrorizadas com a possibilidade de que o cataclismo se
repetisse, improvisavam acampamentos em lugares desertos,
dormiam nas praas e nas ruas. Os soldados tiveram 
de conter a desordem e fuzilavam sem mais trmites quem
surpreendiam a roubar porque, enquanto os mais cristos
enchiam as igrejas clamando perdo pelos seus pecados 
e rogavam a Deus para que aplacasse a sua ira, os ladres
percorriam os escombros e onde aparecia uma orelha com um
brinco ou um dedo com um anel cortavam-nos com 
uma facada, sem considerar que a vitima estivesse morta ou
apenas aprisionada nos escombros. Desenvolveu-se uma
imensidade de grmenes que provocou diversas pestes 
em todo o pais. O resto do mundo, demasiado ocupado com a
guerra, apenas soube que a natureza se tornara louca nesse
longnquo lugar do planeta, mas mesmo assim 
chegaram carregamentos de  medicamentos, cobertores, alimentos
e materiais de construo, que se perderam nos misteriosos
labirintos da administrao pblica, 
at ao ponto de, muito anos depois, se poderem comprar os
guisados enlatados da Amrica do Norte e o leite em p da
Europa ao preo de requintados manjares nos armazns 
exclusivos.

Esteban Trueba passou quatro meses envolto em ligaduras,
rgido entre talas, pensos e agrafes, num atroz suplcio de
pontadas e imobilidade, devorado pela impacincia. 
O seu carcter piorou at que ningum o pde suportar. Clara
ficou no campo para cuidar dele e, quando se normalizaram as
comunicaes e se restaurou a ordem, mandaram 
Blanca interna para o colgio, porque a me no podia
encarregar-se dela.

Na capital, o terramoto surpreendeu a Ama na cama e, apesar de
ali se ter sentido menos que no Sul, tambm a matou de susto.
A grande casa da esquina estalou como 
uma noz, abriram-se gretas nas paredes, e o grande lustre de
cristal da sala de jantar caiu com um clamor de mil sinos,
fazendo-se em fanicos. Fora isso, a nica 
coisa grave foi a morte da Ama. Quando passou o terror do
primeiro momento, os criados deram conta que a anci no tinha
sado fugindo para a rua como as outras 
pessoas. Entraram para a ir buscar e encontraram-na na cama,
com os olhos desorbitados e o pouco cabelo que lhe restava
eriado de pavor. No caos desses dias, no 
puderam fazer-lhe um enterro digno, como ela tinha esperado,
mas tiveram de a enterrar a toda a pressa sem discursos nem
lgrimas. No assistiu ao seu funeral nenhum 
dos numerosos filhos alheios que ela com tanto amor tinha
criado.

O terramoto marcou uma mudana to importante na vida da
famlia Trueba que a partir de ento dividiram os
acontecimentos em antes e depois dessa data. Em Las Tres 
Marias, Pedro Segundo Garcia voltou a assumir o cargo de
administrador, pela impossibilidade do patro sair da cama.
Tocou-lhe a tarefa de organizar os trabalhadores, 
devolver a calma e reconstruir a runa em que se tinha
transformado a propriedade. Comearam por enterrar os mortos
no cemitrio ao p do vulco, que milagrosamente 
se tinha salvo do rio de lava que desceu pelas ladeiras do
cerro maldito. Os novos tmulos deram um ar festivo ao humilde
campo santo e plantaram fileiras de vidoeiros 
para darem sombra aos que visitavam os seus mortos.
Reconstruram as casinhas de tijolo uma por uma, exactamente
como eram dantes, os estbulos, a leitaria e o celeiro 
e voltaram a preparar a terra para as sementeiras, agradecidos
de que a lava e a cinza tivessem cado para outro lado,
salvando a propriedade. Pedro Tercero teve 
de renunciar aos seus passeios  aldeia, porque o pai queria-o
a seu lado. Acompanhava-o de mau humor, fazendo-lhe notar que
rebentavam as costas para tornar a pr 
de p a riqueza do patro, porque eles continuavam a ser to
pobres como dantes.

-- Sempre foi assim, filho. No se pode mudar a lei de Deus --
respondia-lhe o pai.

-- Sim, pode-se mudar, pai. H gente que o est a fazer, mas
aqui nem  sequer temos notcias. No mundo esto a passar-se
coisas importantes -- replicava Pedro 
Tercero e citava sem pausas o discurso do professor comunista
ou do padre Jos Dulce Maria.

Pedro Segundo no respondia e continuava trabalhando sem
vacilaes. Fazia vista grossa quando o filho, aproveitando-se
da doena do patro ter relaxado a vigilncia, 
rompia o cerco de censura e introduzia em Las Tres Marias os
folhetos dos sindicalistas, os jornais polticos do professor
e as estranhas verses bblicas do padre 
espanhol.

Por ordem de Esteban Trueba, o administrador comeou a
reconstruo da casa senhorial seguindo o mesmo plano que
tinha originalmente. Nem sequer mudaram os adobes 
de palha e barro cozido por modernos tijolos, ou modificaram o
vo das janelas demasiado estreito. O nico melhoramento foi
canalizar gua quente para os banhos 
e mudar o antigo fogo a lenha por uma mquina a petrleo 
qual, no entanto, nenhuma cozinheira chegou a habituar-se,
terminando os seus dias atirada para o ptio 
para uso indiscriminado das galinhas. Enquanto se construa a
casa, improvisaram um refgio de tbuas com tecto de zinco
onde acomodaram Esteban no seu leito de 
invlido e dali, atravs de uma janela, ele podia observar os
progressos da obra e gritar instrues, fervendo de raiva pela
forada imobilidade.

Clara mudou muito nesses meses. Teve de pr-se ao lado de
Pedro Segundo Garcia na tarefa de salvar o que pudesse ser
salvo. Pela primeira vez na sua vida tomou a 
seu cargo, sem nenhuma ajuda, os assuntos materiais, porque j
no contava com o marido, com Frula ou com a Ama. Despertou
ao fim de uma longa infncia em que tinha 
estado sempre protegida, rodeada de cuidados, de comodidades e
sem obrigaes. Esteban Trueba adquiriu a mania de que tudo o
que comia lhe caia mal, excepto o que 
ela cozinhava, de modo que passava uma boa parte do dia metida
na cozinha depenando galinhas para fazer canjas de doente e
amassando po. Teve de fazer de enfermeira, 
lav-lo com uma esponja, mudar-lhe as ligaduras, pr-lhe a
arrastadeira. Ele ficou cada dia mais irritadio e desptico,
exigia-lhe pe-me uma almofada aqui, no, 
mais acima, traz-me vinho, no, disse-te que queria vinho
branco, abre a janela, fecha-a, di-me aqui, tenho fome, tenho
calor, coa-me as costas, mais abaixo. 
Clara chegou a tem-lo muito mais que quando era o homem so e
forte que se introduzia na paz da sua vida com o seu cheiro de
macho ansioso, o seu vozeiro de furaco, 
a sua guerra sem quartel, a sua prepotncia de grande senhor,
impondo a sua vontade e atirando os seus caprichos contra o
delicado equilbrio que ela mantinha entre 
os espritos do Mais-Alm e as almas necessitadas do
Mais-Aqui. Chegou a detest-lo. Logo que os ossos se soldaram
e ele pde mover-se um pouco, voltou a Esteban 
o desejo tormentoso de abra-la e, todas as vezes que ela
passava a seu lado, dava-lhe uma palmada, confundindo-a na sua
perturbao de doente com as robustas  
camponesas que nos seus anos de moo o serviam na cozinha e na
cama. Clara sentia que j no estava para essas cavalgadas. As
desgraas tinham-na espiritualizado 
e a idade e a falta de amor pelo marido tinham-na levado a
considerar o sexo como um passatempo algo brutal, que lhe
deixava as articulaes doridas e produzia desordem 
no mobilirio. Em poucas horas, o terramoto f-la aterrar na
violncia, na morte e na vulgaridade e p-la em contacto com
as necessidades bsicas, que antes tinha 
ignorado. De nada lhe serviram a mesa de p-de-galo ou a
capacidade de adivinhar o futuro nas folhas de ch face 
urgncia de defender os caseiros da peste e da 
desorientao, a terra da seca e do caracol, as vacas da febre
aftosa, as galinhas da gosma, a roupa da traa, os seus filhos
do abandono e o marido da morte e da 
sua ira incontida. Clara estava muito cansada. Sentia-se
sozinha, confundida e nos momentos das decises a nica pessoa
a que podia recorrer em busca de ajuda era 
Pedro Segundo Garcia. Esse homem leal e silencioso estava
sempre presente, ao alcance da sua voz, dando certa
estabilidade  barafunda trgica que tinha entrado 
na sua vida. Frequentemente, ao fim do dia, Clara chamava-o
para lhe oferecer uma chvena de ch. Sentavam-se nas cadeiras
de vime debaixo de um alpendre,  espera 
que chegasse a noite para aliviar a tenso do dia. Olhavam o
escuro que cala suavemente e as primeiras estrelas que
comeavam a brilhar no cu, ouviam coaxar as 
rs e ento ficavam calados. Tinham muito coisa em que falar,
muitos problemas a resolver, muitos acordos pendentes, mas
ambos compreendiam que aquela meia hora 
em silncio era um prmio merecido, sorviam o ch sem pressas,
para faz-lo durar, e cada um pensava na vida do outro.
Conheciam-se h mais de quinze anos, estavam 
perto todos os Veres, mas no total tinham trocado muito
poucas frases. Ele tinha visto a patroa como uma luminosa
apario estival, alheia aos afs brutais da vida, 
de uma espcie diferente das outras mulheres que tinha
conhecido. Mesmo agora, com as mos metidas na massa ou com o
avental ensanguentado pela galinha do almoo, 
parecia-lhe uma miragem na reverberao do dia. S ao
entardecer, na calma desses momentos que partilhavam com as
suas chvenas de ch, podia v-la na sua dimenso 
humana. Secretamente tinha-lhe jurado lealdade e, como um
adolescente, por vezes fantasiava com a ideia de dar a vida
por ela. Apreciava-a tanto como odiava Esteban 
Trueba.

Quando foram colocar o telefone, faltava muito  casa para ser
habitvel. Fazia quatro anos que Esteban Trueba lutava por
consegui-lo e foram-lho pr justamente 
quando no tinha nem um tecto para o proteger da intemprie. O
aparelho no durou muito, mas serviu para chamar os gmeos e
ouvir-lhes a voz como se estivessem noutra 
galxia, no meio de um barulho ensurdecedor e das interrupes
da telefonista da aldeia, que participava na conversa. Por
telefone souberam que Blanca estava doente 
e as freiras no  queriam tomar conta dela. A menina tinha uma
tosse persistente e dava-lhe febre com frequncia. O terror da
tuberculose estava presente em toda 
a parte, porque no havia famlia que no tivesse um tsico a
lamentar, de modo que Clara decidiu ir busc-la. No mesmo dia
em que Clara viajava, Esteban Trueba 
partiu o telefone  bengalada, porque comeou a tocar, e ela
gritou que j ia, que se tinha calado, mas o aparelho
continuou a tocar e ele, num repente de fria 
caiu-lhe em cima s pancadas, deslocando-se com isso, a
clavcula que a Pedro Garcia, o velho, tanto lhe tinha custado
a consertar.


Era a primeira vez que Clara viajava sozinha. Tinha feito o
mesmo trajecto em vrios anos, mas sempre distrada, porque
contava com algum que se encarregasse dos 
pormenores prosaicos, enquanto ela sonhava observando a
paisagem pela janela. Pedro Segundo Garcia levou-a at 
estao e acomodou-a no assento do comboio. Ao despedir-se, 
ela inclinou-se e beijou-o ligeiramente na face e sorriu. Ele
levou a mo  cara para proteger do vento aquele beijo fugaz e
no sorriu, porque a tristeza o tinha 
invadido.

Guiada pela intuio mais que pelo conhecimento das coisas ou
por lgica, Clara conseguiu chegar at ao colgio da filha sem
contratempos. A Madre Superiora recebeu-a 
no escritrio espartano, com um Cristo enorme e sangrento na
parede e um incongruente ramo de rosas vermelhas sobre a mesa.

-- Chammos o mdico, senhora Trueba -- disse-lhe. -- A menina
no tem nada nos pulmes, mas  melhor lev-la, o campo
far-lhe- bem. Ns no podemos assumir a responsabilidade, 
compreenda.

A freira tocou uma sineta e entrou Blanca. Estava mais magra e
plida, com sombras violceas debaixo dos olhos que teriam
impressionado qualquer me, mas Clara compreendeu 
imediatamente que a doena da filha no era do corpo, mas da
alma. O horrendo uniforme cinzento fazia-a muito mais pequena
do que era, apesar das suas formas de 
mulher estalarem as costuras. Blanca ficou surpreendida ao ver
a me, a quem recordava como um anjo vestido de branco, alegre
e distrado, e que em poucos meses 
se tinha tornado numa mulher eficiente, com as mos calejadas
e duas profundas rugas nos cantos da boca.

Foram ver os gmeos ao colgio. Era a primeira vez que se
encontravam depois do terramoto, e tiveram a surpresa de
comprovar que o nico lugar do territrio nacional 
que no tinha sido tocado pelo cataclismo fora o velho
colgio, dai terem-no ignorado por completo. Ali os dez mil
mortos passaram sem pena nem glria, enquanto 
eles continuavam cantando em ingls e jogando o crquete,
comovidos apenas pelas notcias que chegavam da Gr-Bretanha
com trs semanas de atraso. Admiradas, viram 
que aqueles rapazes, que tinham sangue de mouros e espanhis
nas veias e que tinham nascido no  ltimo canto da Amrica,
falavam o castelhano com sotaque de Oxford 
e a nica emoo que eram capazes de manifestar era a
surpresa, levantando a sobrancelha esquerda. No tinham nada
em comum com os dois rapazes exuberantes e piolhosos 
que passavam o Vero no campo. Espero que tanta fleuma
saxnica no mos ponha idiotas, balbuciou Clara ao
despedir-se dos filhos.

A morte da Ama, que apesar dos seus anos era a responsvel
pela grande casa da esquina na ausncia dos patres, originou
o desleixo dos criados. Sem vigilncia, 
abandonaram as suas tarefas e passavam o dia numa orgia de
sesta e anedotas, enquanto as plantas secavam por falta de
rega e as aranhas passeavam pelos cantos. A 
deteriorao era to evidente que Clara decidiu fechar a casa
e despedi-los a todos. Depois entregou-se ao trabalho de
cobrir os mveis com lenis e pr naftalina 
por todos os lados. Abriram as gaiolas de pssaros uma por uma
e o cu encheu-se de caturras, canrios, pintassilgos e
cristofus (1), que deram voltas cegos pela 
liberdade e finalmente voaram em todas as direces. Blanca
notou que em todos esses trabalhos no apareceu nenhum
fantasma por detrs das cortinas, no chegou nenhum 
rosa-cruz atrado pelo seu sexto sentido nem nenhum poeta
faminto chamado pela necessidade. A sua me parecia ter-se
tornado uma senhora comum e rstica.

(1) Pssaro pouco maior do que a calhandra que abunda nos
vales da Venezuela. (N. T.)

-- A mam mudou muito -- observou Blanca.

-- No fui eu, filha, foi o mundo que mudou -- respondeu
Clara.

Antes de se irem embora, foram ao quarto da Ama no ptio dos
criados. Clara abriu os seus caixotes, tirou a mala de carto
que a boa mulher usou durante meio sculo 
e revistou o roupeiro. No havia mais que um pouco de roupa,
umas alpergatas velhas e caixas de todos os tamanhos, atadas
com fitas e elsticos, onde ela guardava 
estampas da Primeira Comunho e do Baptismo, mechas de cabelo,
unhas cortadas, retratos desbotados e alguns sapatinhos de
beb gastos pelo uso. Eram recordaes 
de todos os filhos da famlia del Valle e depois dos Trueba
que lhe tinham passado pelos braos e que ela embalara no
peito. Debaixo da cama encontrou um atado com 
os disfarces que a Ama usava para lhe espantar a mudez.
Sentada na enxerga, com esses tesouros no regao, Clara chorou
longamente aquela mulher que tinha dedicado 
a sua existncia a fazer mais cmoda a dos outros e que
morrera sozinha.

-- Depois de tanto tentar assustar-me, foi ela que morreu de
susto -- observou Clara.

Mandou transladar o corpo para o mausolu dos del Valle, no
Cemitrio Catlico, porque sups que ela no gostaria de estar
enterrada com os evangelistas e os judeus 
e teria preferido seguir na morte aqueles que tinha  servido
em vida. Ps um ramo de flores junto da lpide e foi com
Blanca para a estao, de regresso a Las 
Tres Marias.

Durante a viagem de comboio, Clara ps a sua filha em dia
sobre as novidades da famlia e a sade do pai, esperando que
Blanca lhe fizesse a nica pergunta que sabia 
que ela desejava fazer, mas Blanca no mencionou Pedro Tercero
e Clara no se atreveu a faz-lo. Tinha a ideia que, ao nomear
os problemas, estes materializavam-se 
e j no era possvel ignor-los; por outro lado, se ficam no
limbo das palavras no ditas, podem desaparecer sozinhos, com
o decorrer do tempo. Na estao, Pedro 
Segundo esperava-as com o carro e Blanca surpreendeu-se ao
ouvi-lo assobiar todo o trajecto para Las Tres Marias, pois o
administrador tinha fama de taciturno.

Encontraram Esteban Trueba sentado num cadeiro forrado de
felpa azul, ao qual tinham adaptado rodas de bicicleta, 
espera que chegasse da capital a cadeira de 
rodas que tinha encomendado e que Clara trazia na bagagem.
Dirigia com enrgicas bengaladas e improprios os progressos
da casa, to absorto que as recebeu com um 
beijo distrado e se esqueceu de perguntar pela sade da
filha.

Nessa noite comeram numa rstica mesa de tbuas, iluminados
por um candeeiro de petrleo. Blanca viu a me servir a comida
nos pratos de barro feitos artesanalmente, 
tal como os tijolos, porque no terramoto tinha-se partido toda
a loia. Sem a Ama para dirigir os assuntos da cozinha, tinham
simplificado as coisas at  frugalidade 
e partilhavam apenas uma espessa sopa de lentilhas, po,
queijo e marmelada, que era menos do que ela comia no
internato nas sextas-feiras de jejum. Esteban dizia 
que, mal pudesse aguentar-se nas pernas, iria em pessoa 
capital comprar as coisas mais finas e caras para mobilar a
casa, porque j estava farto de viver como 
um labrego, por culpa da maldita natureza histrica daquele
pas do caralho. De tudo o que se falou  mesa, a nica coisa
que Blanca reteve foi que tinha despedido 
Pedro Tercero Garcia com ordem de no voltar a pr os ps na
propriedade, porque o surpreendeu a levar ideias comunistas
aos camponeses. A rapariga empalideceu ao 
ouvi-lo e deixou cair o contedo da colher no vestido. S
Clara percebeu a alterao, porque Esteban estava embrenhado
no monlogo de sempre sobre os mal-nascidos 
que mordem a mo a quem lhes d de comer, e tudo por causa
desses politiqueiros do diabo! Como esse novo candidato
socialista, um fantoche que se atreve a cruzar 
o pais de Norte a Sul no seu comboio de pacotilha, sublevando
gente de paz com a sua fanfarronice bolchevista, mais vale que
no se aproxime daqui, porque se desce 
do comboio ns fazemo-lo em pur, j estamos preparados, no
h um s patro em toda a regio que no esteja de acordo, no
vamos permitir que venham pregar contra 
o trabalho honrado, o prmio justo para os que se esforam, a
recompensa dos que vingam na vida, no  possvel que os
mandries tenham  o mesmo que ns, que trabalhamos 
de sol a sol e sabemos investir o nosso capital, correr os
riscos, assumir as responsabilidades, porque se vamos 
semente, o conto de que a terra  de quem a trabalha, 
vai dar-lhes a volta, porque aqui o nico que sabe trabalhar
sou eu, sem mim isto era uma runa e continuaria a s-lo, nem
o prprio Cristo disse que temos de dividir 
o fruto do nosso esforo com os mandries e esse ranhoso de
merda, Pedro Tercero, atreve-se a diz-lo na minha
propriedade, se no lhe meti uma bala na cabea  
porque estimo muito o pai e de certa forma devo a vida ao seu
av, mas j o avisei que se o vejo dar voltas por aqui fao-o
em papas a tiros de espingarda.

Clara no tinha participado na conversa. Estava ocupada a pr
e tirar as coisas da mesa e a vigiar a filha pelo rabo do
olho, mas ao tirar a terrina com o resto 
das lentilhas ouviu as ltimas palavras da cantilena de seu
marido.

- No podes impedir que o mundo se transforme, Esteban. Se no
 Pedro Tercero Garcia, ser outro a trazer novas ideias a Las
Tres Marias - disse.

Esteban Trueba deu uma bengalada na terrina que a mulher tinha
nas mos e atirou-a para longe, despejando o contedo pelo
cho. Blanca ps-se de p aterrorizada. 
Era a primeira vez que via o mau humor do pai dirigido contra
Clara e pensou que ela entraria num dos transes lunticos e
que sairia a voar pela janela, mas nada 
disso aconteceu. Clara apanhou os restos da terrina partida
com a calma habitual, sem dar mostras de ouvir os palavres de
marinheiro que Esteban cuspia. Esperou 
que ele acabasse de refilar, deu-lhe as boas-noites com um
beijo na face e saiu levando Blanca pela mo.

Blanca no perdeu a tranquilidade pela ausncia de Pedro
Tercero. Ia todos os dias ao rio e esperava. Sabia que a
notcia do seu regresso ao campo chegaria ao rapaz 
mais cedo ou mais tarde e que o chamamento do amor o
alcanaria onde quer que ele estivesse. Assim foi, de facto.
Ao quinto dia viu chegar um maltrapilho, coberto 
com uma manta de Inverno e um chapu de aba larga, arrastando
um burro carregado com utenslios de cozinha, panelas de
estanho, bules de cobre, grandes marmitas 
de ferro esmaltadas, conchas de todos os tamanhos, com um
chocalhar de latas que anunciava o seu andar com dez minutos
de antecipao. No o reconheceu. Parecia 
um velho miservel, um desses tristes viajantes que vo pela
provncia com a mercadoria de porta em porta. Parou em frente
dela, tirou o chapu e ento ela viu os 
formosos olhos negros a brilhar no meio de uma melena e de uma
barba hirsuta. O burro ficou a mordiscar a erva e a mastigar
as folhas ruidosas aborrecido, enquanto 
Blanca e Pedro Tercero saciavam a fome e a sede acumuladas em
tantos meses de silncio e separao, rebolando sobre pedras e
matos, gemendo como desesperados. Depois 
ficaram abraados entre as canas da margem. No zunzum dos
besouros e coaxar das rs, ela contou-lhe que  tinha posto
cascas de pltano e papel nos sapatos para 
ter febre e comido giz modo at lhe dar tosse de verdade,
para convencer as freiras de que a sua moleza e a sua palidez
eram sintomas seguros da tuberculose.

- Queria estar contigo - disse, beijando-o no pescoo.

Pedro Tercero falou-lhe do que estava acontecendo no mundo e
no pais, da guerra longnqua que mantinha meia humanidade num
estripalhar de metralha, numa agonia de 
campo de concentrao e numa imensido de vivas e rfos,
falou-lhe dos trabalhadores na Europa e Amrica do Norte,
cujos direitos eram respeitados, porque a mortandade 
de sindicalistas e socialistas das dcadas anteriores tinha
produzido leis mais justas e repblicas como Deus manda, onde
os governantes no roubam o leite em p 
dos sinistrados.

- Os ltimos a dar conta das coisas, somos sempre ns, os
camponeses no nos inteiramos do que se passa noutros lados.
Ao teu pai odeiam-no aqui. Mas tm-lhe tanto 
medo que no so capazes de se organizarem para lhe fazer
frente. Percebes Blanca?

Ela entendia, mas nesse momento o seu nico interesse era
aspirar o seu cheiro a gro fresco, lamber-lhe as orelhas,
meter os dedos naquela barba densa, ouvir os 
seus gemidos enamorados. Tambm temia por ele. Sabia que no
s o pai lhe meteria na cabea a bala prometida, como tambm
qualquer dos patres da regio faria o 
mesmo com gosto. Blanca recordou a Pedro Tercero a histria do
dirigente socialista que um par de anos antes percorria a
regio de bicicleta, distribuindo panfletos 
nas herdades e organizando os trabalhadores, at que os irmos
Sanchez o apanharam, o mataram  paulada e o penduraram num
poste do telgrafo no cruzamento de dois 
caminhos, para que todos o pudessem ver. Esteve ali um dia e
uma noite recortando-se no cu, at que chegaram os polcias a
cavalo e o tiraram. Para dissimular deitaram 
as culpas aos ndios da reserva, apesar de toda a gente saber
que eram pacficos e que, se tinham medo de matar uma galinha,
com maior razo tinham medo de matar 
um homem. Mas os irmos Sanchez desenterraram-no do cemitrio,
voltaram a exibir o cadver e isto j era demasiado para
atribuir aos ndios. Mas nem por isso a justia 
se atreveu a intervir e a morte do socialista foi rapidamente
esquecida.

- Podem-te matar - suplicou Blanca abraando-o.

- Tomarei cuidado - tranquilizou-a Pedro Tercero. - No
ficarei muito tempo no mesmo sitio. Por isso no poderei
ver-te todos os dias. Espera-me aqui neste lugar. 
Eu virei todas as vezes que puder.

- Amo-te - disse ela soluando.

- Eu tambm.

Voltaram a abraar-se com o ardor insacivel prprio da sua
idade, enquanto o burro continuava mastigando a erva.


Blanca preparou as coisas para no regressar ao colgio,
provocando a si prpria vmitos com salmoura quente, com
cerejas verdes e fadigas, apertando a cintura com 
uma cilha de cavalo, at que adquiriu fama de m sade, que
era justamente o que ela pretendia. Imitava to bem os
sintomas das mais diversas doenas que poderia 
ter enganado uma junta de mdicos e ela mesma chegou a
convencer-se de que era muito doente. Todas as manhs, ao
acordar, fazia uma reviso mental ao seu organismo 
para ver onde lhe doa e que novo mal a atormentava. Aprendeu
a aproveitar qualquer circunstancia para se sentir doente,
desde uma mudana de temperatura at ao 
plen das flores, e a transformar todo o pequeno mal-estar em
agonia. Clara era da opinio de que o melhor para a sade era
ter as mos ocupadas, e assim manteve 
 distncia os mal-estares da sua filha dando-lhe trabalho. A
rapariga tinha de se levantar cedo, como todos os outros,
tomar banho em gua fria e dedicar-se aos 
seus afazeres, que incluam ensinar na escola, coser na
fbrica e fazer todas as tarefas de enfermaria, desde pr
pensos at suturar feridas com agulhas e fio de 
costureiro, sem que lhe valessem de nada os desmaios ao ver o
sangue nem os suores frios quando tinha de limpar um vmito.
Pedro Garcia, o velho, que j tinha cerca 
de noventa anos e apenas arrastava os ossos, partilhava a
ideia de Clara de que as mos so para se usar. Assim foi que
um dia, quando Blanca se andava a lamentar 
de uma terrvel enxaqueca, a chamou e sem prembulos lhe ps
uma bola de barro no regao. Passou a tarde a ensinar-lhe a
modelar a argila para fazer vasilhas de 
cozinha, sem que a rapariga se lembrasse das suas doenas. O
velho no sabia que estava a dar a Blanca o que mais tarde
seria o seu nico meio de vida e o seu consolo 
nas horas mais tristes. Ensinou-a a mover o torno com o p
enquanto fazia voar as mos sobre o barro brando, para
fabricar vasilhas e cntaros. Mas muito depressa 
Blanca descobriu que os utenslios a aborreciam e que era
muito mais divertido fazer figuras de animais e pessoas. Com o
tempo, dedicou-se a fabricar um mundo em 
miniatura de animais domsticos e personagens dedicados a
todos os ofcios, carpinteiros, lavadeiras, cozinheiras, todos
com as suas pequenas ferramentas e mveis.

- Isso no serve para nada! - disse Esteban Trueba quando viu
a obra da filha.

- Procuremos-lhe a utilidade - sugeriu Clara.

Assim surgiu a ideia dos prespios. Blanca comeou a produzir
figurinhas para o prespio, no s os reis magos e os
pastores, mas tambm uma multido de pessoas 
dos tipos mais diversos e toda a espcie de animais, camelos e
zebras de frica, iguanas da Amrica e tigres da sia, sem ter
em conta para nada a zoologia prpria 
de Belm. Depois comps animais que inventava, pegando meio
elefante com a metade de um crocodilo, sem saber que estava a
fazer com barro o mesmo que sua tia Rosa, 
a quem no conheceu, fazia com os fios de bordar na sua
gigantesca colcha, enquanto Clara especulava  que, se as
loucuras se repetem na famlia, dever ser porque 
existe uma memria gentica que impede que se percam no
esquecimento. Os multitudinrios prespios de Blanca
transformaram-se numa curiosidade. Teve de treinar duas 
raparigas para a ajudarem, porque no dava vazo aos pedidos,
nesse ano toda a gente queria ter um para a noite de Natal,
especialmente porque eram de graa. Esteban 
Trueba determinou que a mania do barro estava bem como
diverso de rapariga, mas que, se se transformasse em negcio,
o nome dos Trueba seria colocado junto aos 
dos comerciantes que vendiam pregos nas casas de ferragens e
peixe frito no mercado.

Os encontros de Blanca e Pedro Tercero eram distanciados e
irregulares, mas por isso mesmo mais intensos. Nesses anos,
ela acostumou-se ao sobressalto e  espera, 
resignou-se com a ideia de que sempre se amariam s escondidas
e deixou de alimentar o sonho de se casar e de viver numa das
casinhas de seu pai. Frequentemente 
passava semanas sem que se soubesse alguma coisa dele, mas de
repente aparecia ao longe um carteiro em bicicleta, um
evangelista pregando com uma Bblia no sovaco, 
ou um cigano falando numa lngua pag, todos eles to
inofensivos, que passavam sem levantar suspeitas ao olho
vigilante do patro. Reconhecia-o pelas suas pupilas 
negras. No era a nica: todos os caseiros de Las Tres Marias
e muitos camponeses de outras herdades tambm o esperavam.
Desde que o jovem era perseguido pelos patres 
ganhou fama de heri. Todos queriam escond-lo por uma noite,
as mulheres teciam-lhe ponchos e pegas para o Inverno e os
homens guardavam-lhe a melhor aguardente 
e o melhor charque (1) da poca. O seu pai, Pedro Segundo
Garcia, suspeitava que o filho violava a proibio de Trueba e
adivinhava os vestgios que deixava na 
sua passagem. Estava dividido entre o amor pelo filho e o seu
papel de guardio da propriedade. Alm disso, tinha medo de o
reconhecer e tambm que Esteban lho lesse 
na cara, mas sentia uma secreta alegria ao atribuir-lhe
algumas das coisas estranhas que estavam sucedendo no campo. A
nica coisa que no lhe passou pela imaginao, 
foi que as visitas do filho tivessem algo a ver com os
passeios de Blanca Trueba ao rio, porque essa possibilidade
no estava na ordem natural do mundo. Nunca falava 
do filho, excepto no seio da famlia, mas sentia-se orgulhoso
dele e preferia v-lo transformado em fugitivo do que ser mais
um do monto, semeando batatas e colhendo 
pobreza como todos os outros. Quando ouvia cantarolar algumas
das canes de galinhas e raposos, sorria pensando que o filho
tinha conseguido mais adeptos com as 
suas baladas subversivas do que com os panfletos do Partido
Socialista que distribua incansavelmente.

(1) Carne salgada e seca ao vento. (N. T)


Captulo VI

A Vingana


Ano e meio depois do terramoto, Las Tres Marias tinha voltado
a ser a herdade modelo de antes. Estava de p a grande casa
senhorial igual  de origem, mas mais slida 
e com uma instalao de gua quente nas casas de banho. A gua
era como chocolate claro e por vezes at limos apareciam, mas
sala alegre e em forte jorro. A bomba 
alem era uma maravilha. Eu circulava por todo o lado sem mais
apoio que um grosso basto de prata, o mesmo que tenho agora e
que a minha neta diz que o no uso 
por ser coxo, mas sim para dar fora s minhas palavras,
brandindo-o como um argumento contundente. A longa doena
amoleceu o meu organismo, piorou o meu caracter. 
Reconheo que, por fim, nem Clara podia travar as minhas
raivas. Outra pessoa teria ficado invlida para sempre por
causa do acidente, mas eu fui ajudado pela fora 
do desespero. Pensava na minha me, sentada na cadeira de
rodas apodrecendo em vida, e por isso dava-me tenacidade para
me conter e pr-me a andar, ainda que fosse 
 custa de maldies. Creio que as pessoas tinham medo de mim.
At a prpria Clara, que nunca tinha temido o meu mau gnio,
em parte porque eu tinha o cuidado de 
no o dirigir contra ela, andava assustada. V-la com medo de
mim punha-me frentico.

Pouco a pouco Clara foi mudando. Via-se que andava cansada e
notei que se afastava de mim. J no tinha simpatia por mim,
as minhas dores no lhe davam compaixo 
mas enfado, dei conta de que evitava a minha presena.
Atrever-me-ia a dizer que nessa poca ela tinha mais prazer em
ordenhar as vacas com Pedro Segundo, do que 
em fazer-me companhia no salo. Quanto mais distante estava
Clara, maior era a necessidade que eu sentia do seu amor. No
tinha diminudo o desejo que tive dela 
ao casar-me, queria possui-la completamente, at ao seu ltimo
pensamento, mas aquela mulher difana  passava ao meu lado
como um sopro e, mesmo que a agarrasse 
com as duas ! mos e a abraasse com brutalidade, no podia
aprision-la. O seu esprito no estava comigo. Quando me teve
medo, a vida tornou-se-nos um purgatrio. 
De dia, cada um de ns andava ocupado com as suas coisas.
Tnhamos os dois muito que fazer. S nos encontrvamos  hora
das refeies e, ento, era eu quem fazia 
toda a conversa porque ela parecia vaguear pelas nuvens.
Falava muito pouco, tinha perdido aquele riso fresco e
atrevido que foi a primeira coisa que gostei nela, 
j no deitava para trs a cabea, rindo-se com todos os
dentes. Sorria apenas. Pensei que a idade e o meu acidente nos
estava separando, que estava aborrecida da 
vida matrimonial, isso acontece a todos os casais e eu no era
um amante delicado, desses que oferecem flores a cada momento
e dizem coisas bonitas. Mas tentei aproximar-me 
dela. Como o tentei, meu Deus! Aparecia no seu quarto quando
estava atarefada com os cadernos de anotar a vida ou na mesa
de p-de-galo. Tratei inclusivamente de 
compartilhar esses aspectos da sua existncia, mas ela no
gostava que lessem nos seus cadernos e a minha presena
cortava-lhe a inspirao quando conversava com 
os espritos, de modo que tive de desistir. Abandonei tambm o
propsito de estabelecer uma boa relao com Blanca. A minha
filha desde pequenina era estranha e 
nunca foi a menina carinhosa e terna que eu teria desejado. Na
realidade parecia um quirquincho (1). Desde que me lembro foi
arisca comigo e no teve de superar 
o complexo de dipo porque nunca o teve. Mas j era uma
senhorita, parecia inteligente e madura para a sua idade,
estava muito ligada  me. Pensei que poderia ajudar-me 
e tratei de a conquistar como aliada, dava-lhe presentes,
tentava gracejar com ela, mas evitava-me tambm. Agora que j
estou muito velho e posso falar disto sem 
perder a cabea com raiva, creio que a culpa de tudo estava no
seu amor por Pedro Tercero Garcia. Blanca era insubornvel.
Nunca pedia nada, falava menos que a me 
e, se eu a obrigava a dar-me um beijo de bons-dias, fazia-o
com to m vontade que ele me doa como uma bofetada. Tudo
mudar quando regressarmos  capital e fizermos 
uma vida civilizada, dizia eu ento, mas nem Clara nem Blanca
demonstravam o menor interesse em deixar Las Tres Marias, pelo
contrrio, cada vez que eu mencionava 
o assunto, Blanca dizia que a vida no campo lhe tinha voltado
a dar a sade, mas que ainda no se sentia forte, e Clara
recordava-me que tinha muito que fazer no 
campo, que as coisas no estavam de modo a deix-las em meio.
A minha mulher no punha de parte os refinamentos a que tinha
estado habituada e, no dia em que chegou 
a Las Tres Marias o carregamento de mveis e artigos
domsticos que encomendei para lhe fazer surpresa, limitou-se
a achar tudo muito bonito. Eu prprio tive de 
decidir onde se poriam as coisas, a ela isso 

(1) Mamfero da Amrica do Sul de cuja carapaa os ndios
fazem um bandolim de doze cordas. (N. T.)

parecia no lhe importar nada. A nova casa vestiu-se com um
luxo que nunca tinha tido, nem sequer nos dias esplendorosos
que antecederam meu pai, que a arruinou. 
Chegaram grandes mveis coloniais em carvalho e nogueira,
trabalhados  mo, pesados tapetes de l, candeeiros de ferro
e cobre martelado. Encomendei na capital 
uma baixela de porcelana pintada  mo, digna de uma
embaixada, cristaleira, quatro caixotes atafulhados de
adornos, lenis e mantas bordadas, uma coleco de discos 
de msica clssica e ligeira com o seu moderno gira-discos.
Qualquer mulher se teria encantado com tudo isso e teria tido
ocupao para vrios meses organizando 
a sua casa, menos Clara, que era impermevel a essas coisas.
Limitou-se a ensinar um par de cozinheiras e treinar algumas
raparigas, filhas dos caseiros, para servirem 
em casa,-e logo que se viu livre dos tachos e das vassouras
regressou aos cadernos de anotar a vida e s cartas de tarot
nos momentos de cio. Passava a maior 
parte do dia ocupada na oficina de costura, na enfermaria e na
escola. Eu deixava-a tranquila, porque esses afazeres
justificavam-lhe a vida. Era uma mulher caridosa 
e generosa, com nsia de fazer felizes os que a rodeavam, a
todos menos a mim. Depois da derrocada construmos a cantina
e, para lhe agradar, suprimi o sistema de 
papelinhos cor-de-rosa e comecei a pagar s pessoas com notas,
porque Clara diria que isso lhes permitia fazer compras na
aldeia e poupar. No era certo. S servia 
para os homens se embebedarem na taberna de San Lucas e as
mulheres e crianas passarem dificuldades. Por causa desse
tipo de coisas lutmos muito entre ns. Os 
caseiros eram a causa de todas as nossas discusses. Bom, nem
de todas. Tambm discutamos por causa da guerra mundial. Eu
seguia o avano das tropas nazis num mapa 
que tinha posto na parede do salo, enquanto Clara fazia
pegas para os soldados aliados. Blanca deitava as mos 
cabea, sem compreender a causa da nossa paixo 
por uma guerra que no tinha nada a ver connosco e que estava
acontecendo do outro lado do oceano. Suponho tambm que
tnhamos mal-entendidos por outros motivos. 
Na realidade, muito poucas vezes estvamos de acordo em alguma
coisa. No creio que a culpa de tudo fosse o meu mau gnio,
porque eu era um bom marido, nem sombra 
do estoira-vergas que tinha sido em solteiro. Ela era a nica
mulher para mim. E ainda o .

Um dia Clara mandou pr um ferrolho na porta do seu quarto e
no voltou a aceitar-me na sua cama, excepto naquelas ocasies
em que eu forava tanto a situao que 
negar-se teria significado uma ruptura definitiva. A princpio
pensei que tinha algumas dessas misteriosas indisposies que
do s mulheres de vez em quando, ou 
seja, a menopausa, mas quando o assunto se prolongou por
vrias semanas, decidi falar com ela. Explicou-me com calma
que a nossa relao matrimonial se tinha deteriorado 
e por isso tinha perdido a sua boa disposio para os
folguedos carnais. Deduziu naturalmente que, se no tnhamos
nada a dizer, tambm no podamos partilhar a 
mesma cama, e  pareceu surpreendida de que eu passasse todo o
dia enraivecendo-me contra ela e  noite quisesse as suas
caricias. Tentei fazer-lhe ver que nesse 
sentido os homens e as mulheres somos um pouco diferentes e
que a adorava apesar de todas as minhas manias, mas foi
intil. Nesse tempo mantinha-me mais so e mais 
forte do que ela, apesar do meu acidente e de Clara ser mais
nova. Com a idade eu tinha adelgaado. No tinha nem um grama
de gordura no corpo e mantinha a mesma 
resistncia e fora da juventude. Podia passar todo o dia
cavalgando, comer fosse o que fosse sem sentir a vescula, o
fgado e outros rgos internos de que as 
pessoas falam constantemente. Doam-me os ossos, isso sim. Nas
tardes frias ou nas noites hmidas a dor dos ossos esmagados
no terramoto era to intensa que mordia 
a almofada para no ouvirem os meus gemidos. Quando no podia
mais, enfiava um bom golo de aguardente e duas aspirinas pela
goela abaixo, mas nem isso me aliviava. 
O estranho  que, se a minha sensualidade se tinha tornado
mais selectiva com a idade, era quase to inflamvel como na
minha juventude. Gostava de olhar as mulheres, 
e ainda hoje gosto.  um prazer esttico quase espiritual. Mas
s Clara despertava em mim um desejo concreto e imediato,
porque na nossa longa vida em comum tnhamos 
aprendido a conhecer-nos e cada um tinha na ponta dos dedos a
geografia precisa do outro. Ela sabia onde estavam os meus
pontos mais sensveis, podia dizer-me exactamente 
o que eu necessitava ouvir. Numa idade em que a maioria dos
homens est aborrecido da sua mulher e necessita do estimulo
de outras para encontrar a chispa do desejo, 
eu estava convencido que apenas com Clara podia fazer amor
como nos tempos da lua-de-mel, incansavelmente. No sentia a
tentao de procurar outras.

Recordo que comeava a assedi-la ao cair da noite. De tarde
ela sentava-se a escrever e eu fingia saborear o cachimbo, mas
na realidade estava a espi-la pelo canto 
do olho. Logo que eu calculava que se ia deitar - porque
comeava a limpar o aparo e a guardar os cadernos -
adiantava-me. Ia a coxear at  casa de banho, arranjava-me, 
vestia um roupo de felpa episcopal que tinha comprado para a
seduzir, mas que ela nunca pareceu dar conta da sua
existncia, ficava de ouvido colado  porta e esperava-a. 
Quando a ouvia avanar pelo corredor, assaltava-a. Tentei
tudo, desde cobri-la de carcias e presentes at amea-la de
deitar a porta abaixo e mo-la com bengaladas, 
mas nenhuma dessas alternativas resolvia o abismo que nos
separava. Suponho que era intil que eu tentasse faz-la
esquecer com as minhas manifestaes amorosas 
 noite o mau humor com que a atacava durante o dia. Clara
evitava-me com aquele ar distrado que acabei por detestar.
No posso compreender o que me atraa tanto 
nela. Era. uma mulher madura, sem nenhum coquetismo, que
arrastava ligeiramente os ps e tinha perdido a alegria
injustificada que a fazia to atraente na sua juventude. 
Clara no era sedutora nem terna comigo. Estou certo de que
no me amava. No havia  razo para a desejar dessa forma
descomedida e brutal que me afundava no desespero 
e no ridculo. Mas no podia evit-lo. Os seus pequenos
gestos, o seu suave odor a roupa limpa e sabo, a luz dos seus
olhos, a graa da sua nuca delgada coroada 
pelos caracis rebeldes, de tudo isso eu gostava nela. A sua
fragilidade produzia em mim uma ternura insuportvel. Queria
proteg-la, abra-la, faz-la rir como 
nos velhos tempos, tornar a dormir com ela ao meu lado, a sua
cabea no meu ombro, as pernas encolhidas debaixo das minhas,
to pequena e quente, a sua mo no meu 
peito, vulnervel e preciosa. Por vezes, tinha intenes de a
castigar com uma fingida indiferena, mas ao cabo de alguns
dias dava-me por vencido, porque parecia 
muito mais tranquila e feliz quando eu a ignorava. Fiz um furo
na parede da casa de banho para a ver nua, mas isso punha-me
em tal estado de perturbao que preferi 
voltar a tap-lo com argamassa. Para a ferir, fiz gala de ir
ao Farolito Roio, mas o seu nico comentrio foi que isso era
melhor que forar as camponesas, o que 
me surpreendeu, porque no imaginava que soubesse disso. Em
face deste comentrio, tornei a tentar as violaes, nada mais
do que para a incomodar. Pude comprovar 
que o tempo e o terramoto tinham feito estragos na minha
virilidade e que j no tinha foras para rodear a cintura de
uma robusta rapariga e al-la sobre a garupa 
do cavalo, e muito menos tirar-lhe a roupa aos puxes e
penetr-la contra a sua vontade. Estava na idade em que se
necessita ajuda e ternura para fazer amor. Tinha 
ficado velho, porra!


Ele foi a nica pessoa que deu conta de que estava a diminuir.
Notou-o pela roupa. No era simplesmente por lhe sobrar nas
costuras, mas por lhe ficarem grandes 
as mangas e as pernas das calas. Pediu a Blanca que se
sentasse  mquina de costura, mas perguntava-se inquieto se
Pedro Garcia, o velho, no lhe teria posto os 
ossos ao contrrio e por isso estava encolhendo. No o disse a
ningum, como no falou nunca das suas dores, por uma questo
de orgulho.

Por esses dias, preparavam-se as eleies presidenciais. Num
jantar de polticos conservadores na povoao, Esteban Trueba
conheceu o conde Jean de Satigny. Usava 
sapatos de pelica e casaco de linho cru, no suava como os
demais mortais e cheirava a colnia inglesa, estava sempre
queimado pelo hbito de meter uma bola com 
um pau atravs dum pequeno arco em plena luz do meio-dia e
falava arrastando as ltimas silabas das palavras, comendo os
erres. Era o nico homem que Esteban conhecia 
que punha verniz brilhante nas unhas e deitava colrio azul
nos olhos. Tinha cartes de visita com o escudo da famlia e
observava todas as regras conhecidas do 
civismo e outras inventadas por ele, como comer as alcachofras
com pinas, o que provocava estupefaco geral. Os homens
gozavam-no pelas costas, mas logo se viu 
que  tratavam de imitar-lhe a sua elegncia, os seus sapatos
de pelica, a sua indiferena e o seu ar civilizado. O ttulo
de conde colocava-o num nvel diferente 
ao dos outros emigrantes que tinham chegado da Europa Central
fugindo s pestes do sculo passado, de Espanha escapando 
guerra, do Mdio Oriente com os seus negcios 
de turcos e armnios da sia a vender a sua comida tpica e as
suas bagatelas. O conde de Satigny no necessitava ganhar a
vida, como fez saber a toda a gente. O 
negcio das chinchilas era s um passatempo para ele.

Esteban Trueba tinha visto as chinchilas vadiando pela
propriedade. Caava-as a tiro, para no lhe devorarem as
sementeiras, mas no lhe tinha ocorrido que esses 
roedores insignificantes pudessem tornar-se em casacos de
senhora. Jean de Satigny procurava um scio que entrasse com o
capital, o trabalho, os criadouros e corresse 
todos os riscos, para dividir os lucros a meias. Esteban
Trueba no era aventureiro em nenhum aspecto da sua vida, mas
o conde francs tinha a graa alada e o engenho 
que podiam cativ-lo, por isso perdeu muitas noites acordado,
estudando a proposta das chinchilas e fazendo contas.
Entretanto, Monsieur de Satigny passava longas 
temporadas em Las Tres Marias, como convidado de honra. Jogava
com a bolinha em pleno sol, bebia quantidades exorbitantes de
sumo de melo sem acar e rondava delicadamente 
as cermicas de Blanca. Chegou, inclusivamente, a propor 
rapariga export-las para outros lugares onde havia um mercado
seguro para os artesanatos indgenas. Blanca 
fez por tir-lo do erro, explicando-lhe que ela no tinha nada
de ndio nem a sua obra, mas a barreira da lngua impediu que
ele compreendesse o seu ponto de vista. 
O conde foi uma aquisio social para a famlia Trueba porque,
desde o momento em que se instalou na propriedade, choveram os
convites das herdades vizinhas, para 
as reunies com as autoridades polticas da povoao e para
todos os acontecimentos culturais e sociais da regio. Todos
queriam estar perto do francs, com a esperana 
de que algo da sua distino se contagiasse, as jovenzinhas
suspiravam ao v-lo e as mes desejavam-no como genro,
disputando entre si a honra de o convidar. Os 
cavalheiros invejavam a sorte de Esteban Trueba, que tinha
sido escolhido para o negcio das chinchilas. A nica pessoa
que no se deslumbrou pelos encantos do francs 
e no se maravilhou pela maneira de descascar uma laranja com
os talheres sem a tocar com os dedos, deixando as cascas em
forma de flor, ou pela habilidade para 
citar poetas e filsofos franceses na lngua natal, foi Clara,
que todas as vezes que o via tinha de lhe perguntar o nome e
se desconcertava quando o encontrava 
de roupo de seda a caminho da casa de banho da sua prpria
casa. Blanca, por seu lado, divertia-se com ele e
agradecia-lhe a oportunidade de mostrar os seus melhores 
 vestidos, pentear-se com esmero e de pr a mesa com a melhor
loia inglesa e os candelabros de prata.

- Pelo menos tira-nos da barbrie - dizia.

Esteban Trueba estava menos impressionado pelo espalhafato do
nobre do que pelas chinchilas. Pensava como diabo no lhe
tinha ocorrido a ideia de curtir-lhes a pele, 
em vez de perder tantos anos criando aquelas malditas galinhas
que morriam de qualquer diarreia sem importncia, e aquelas
vacas que por cada litro de leite que 
lhes ordenhava comiam um hectare de forragem, e uma caixa de
vitaminas e alm disso enchiam tudo de moscas e de merda.
Clara e Pedro Segundo Garcia, em troca, no 
partilhavam o seu entusiasmo pelos roedores, ela por razes
humanitrias, porque lhe parecia atroz cri-los para lhes
arrancar a pele, e ele porque nunca tinha ouvido 
falar de criadores de ratos.

Uma noite o conde saiu para fumar um dos seus cigarros
orientais, especialmente trazidos do Lbano, v l algum
saber onde isso fica! como dizia Trueba, e para 
respirar o perfume das flores que subia em grandes baforadas
do jardim e inundava os quartos. Passeou um pouco pelo terrao
e mediu com a vista a extenso do parque 
que se estendia  volta da casa senhorial. Suspirou, comovido
com aquela natureza prdiga que podia reunir, no mais
esquecido pais da terra, todos os climas da sua 
inveno, a cordilheira e o mar, os vales e os cumes mais
altos, rios de gua cristalina e uma benigna fauna que
permitia passear com toda a confiana, com a certeza 
de que no apareciam vboras venenosas ou feras esfomeadas, e,
para total perfeio, nem havia negros rancorosos ou ndios
selvagens. Estava farto de percorrer pases 
exticos atrs de negcios de barbatanas de tubaro para
afrodisacos, ginseng para todos os males, figuras esculpidas
pelos esquims, piranhas embalsamadas do 
Amazonas e chinchilas para fazer casacos de senhora. Tinha
trinta e oito anos, pelo menos isso confessava, e sentia que
por fim tinha encontrado o paraso na terra, 
onde podia montar empresas tranquilas com scios ingnuos.
Sentou-se num tronco a fumar no escuro. De sbito viu uma
sombra agitar-se e teve a ideia fugaz de que 
podia ser um ladro, mas em seguida p-la de parte, porque os
bandidos naquelas terras estavam longe dali como os animais
malignos. Aproximou-se com prudncia e 
avistou Blanca, que deitava as pernas por uma janela e descia
como um gato pela parede, caindo entre hortnsias sem o menor
rudo. Vestia-se de homem, porque os 
ces j a conheciam e no necessitava de andar em pelota. Jean
de Satigny viu-a afastar-se procurando as sombras do alpendre
da casa e das rvores, pensou segui-la, 
mas teve medo dos mastins e pensou que no tinha necessidade
disso para saber onde ia uma rapariga que salta por uma janela
de noite. Sentiu-se preocupado, porque 
o que acabava de ver punha em perigo os seus planos.

No dia seguinte, o conde pediu Blanca Trueba em casamento.
Esteban,  que no tinha tido tempo para conhecer bem a filha,
confundiu a sua plcida amabilidade e 
entusiasmo em colocar os candelabros de prata na mesa com o
amor. Sentiu-se muito satisfeito de que a filha, to
aborrecida e de m sade, tivesse apanhado o gal 
mais solicitado da regio. Que ter ele visto nela?
perguntou a si prprio, admirado. Disse ao pretendente que
devia consultar Blanca, mas que estava seguro de 
que no haveria nenhum inconveniente e que, por seu lado, se
adiantava a dar-lhe as boas-vindas  famlia. Mandou chamar a
filha, que nesse momento estava ensinando 
geografia na escola, e fechou-se com ela no escritrio. Cinco
minutos depois, abriu-se a porta violentamente e o conde viu
sair a jovem com as faces coradas. Ao 
passar por ele atirou-lhe um olhar assassino e voltou-lhe a
cara. Outro menos teimoso teria pegado nas malas e ido para o
nico hotel da povoao, mas o conde disse 
a Esteban que estava certo de conseguir o amor da jovem, se
lhe dessem tempo para isso. Esteban Trueba ofereceu-lhe
hospedagem em Las Tres Marias enquanto considerasse 
necessrio. Blanca no disse nada, mas desde esse dia deixou
de comer  mesa com eles e no perdeu oportunidade de fazer
sentir ao francs que lhe era indesejvel. 
Guardou os vestidos de festa, os candelabros de prata e
evitou-o cuidadosamente. Disse ao pai que se ele tornava a
mencionar o assunto do casamento regressava  
capital no primeiro comboio que passasse pela estao e
entrava como novia no colgio.

- Hs-de mudar de opinio - rugiu Esteban Trueba.

- Duvido - respondeu ela.

Nesse ano a chegada dos gmeos a Las Tres Marias foi um grande
alvio. Levaram uma lufada de ar fresco e bulcio ao clima
opressivo da casa. Nenhum dos trs irmos 
soube apreciar os encantos do nobre francs, apesar dele fazer
esforos discretos para ganhar a simpatia dos jovens. Jaime e
Nicolau riam-se das suas maneiras, os 
sapatos de maricas e o apelido estrangeiro, mas Jean de
Satigny nunca se ofendeu. O seu bom humor terminou por
desarm-los e conviveram o resto do Vero amigavelmente, 
chegando inclusivamente a aliar-se para arrancar Blanca da
raiva em que se tinha metido.

- J tens vinte e quatro anos, irm. Queres ficar para tia? -
diziam.

Procuravam entusiasm-la para cortar o cabelo e copiar os
vestidos que faziam furor nas revistas, mas ela no tinha
nenhum interesse por essa moda extica que no 
tinha a menor oportunidade de sobreviver na poeirada do campo.

Os gmeos eram to diferentes entre si que no pareciam
irmos. Jaime era alto, forte, tmido e estudioso. Obrigado
pela educao do internato, chegou a desenvolver 
com o desporto uma musculatura de atleta, mas na realidade
considerava que essa era uma actividade esgotante e intil.
No  podia compreender o entusiasmo de Jean 
de Satigny em passar a manh perseguindo uma bola com um pau
para a meter num buraco, quando era mais fcil coloc-la com a
mo. Tinha estranhas manias que se comearam 
a manifestar nessa poca e que se foram acentuando ao longo da
vida. No gostava que respirassem perto, que lhe dessem a mo,
que lhe fizessem perguntas pessoais, 
lhe pedissem livros emprestados ou lhe escrevessem cartas.
Isso dificultava-lhe o trato com as pessoas mas no conseguiu
isol-lo, porque cinco minutos depois de 
o conhecerem, saltava  vista que, apesar da sua atitude
atrabiliria, era generoso, cndido e tinha uma grande
capacidade de ternura, que procurava inutilmente 
dissimular, porque isso o envergonhava. Interessava-se pelos
outros muito mais do que queria admitir, era fcil comov-lo.
Em Las Tres Marias os caseiros chamavam-lhe 
o patrozinho e iam ter com ele sempre que precisavam de
alguma coisa. Jaime escutava-os sem comentrios, respondia com
monosslabos e terminava virando-lhes as 
costas, mas no descansava at solucionar o problema. Era
insocivel e a me dizia que nem mesmo quando era pequeno se
deixava acariciar. Desde menino tinha gestos 
extravagantes, era capaz de tirar a roupa que levava vestida
para a dar a outro, como o fez em vrias ocasies. O afecto e
as emoes pareciam-lhe sinais de inferioridade 
e s com os animais perdia as barreiras do exagerado pudor,
rebolava no cho com eles, acariciava-os, dava-lhes de comer
na boca e dormia abraado aos ces. Podia 
fazer o mesmo com as crianas de tenra idade, sempre que
ningum o estivesse a observar, porque em frente das pessoas
preferia fazer o papel de homem rijo e solitrio. 
A formao britnica de doze anos de colgio no conseguiu
desenvolver nele o spleen que se considerava o melhor atributo
num cavalheiro. Era um sentimental incorrigvel. 
Por isso, interessou-se pela poltica e decidiu que no seria
advogado como o pai lhe exigia, mas mdico para ajudar os
necessitados como lhe sugeriu a me que o 
conhecia melhor. Jaime tinha brincado com Pedro Tercero Garcia
durante toda a infncia, mas foi nesse ano que aprendeu a
admir-lo. Blanca teve de sacrificar um 
par de encontros no rio, para que os dois jovens se reunissem.
Falavam de justia, de igualdade, de movimento campons, de
socialismo, enquanto Blanca os escutava 
com impacincia, desejando que acabassem depressa para ficar
s com o seu amante. Essa amizade uniu os dois rapazes at 
morte, sem que Esteban Trueba o suspeitasse.

Nicolau era formoso como uma donzela. Herdou a delicadeza e a
transparncia da pele da me, era pequeno, delgado, astuto e
rpido como um raposo. De inteligncia 
brilhante, sem fazer nenhum esforo ultrapassava o irmo em
tudo o que empreendiam juntos. Tinha inventado um jogo para
atorment-lo:  punha-se do contra em qualquer 
tema e argumentava com tanta habilidade e certeza que
terminava por convencer Jaime, que estava equivocado,
obrigando-o a admitir o erro.

- Ests certo de que eu tenho razo? - dizia finalmente
Nicolau ao irmo.

- Sim, tens razo - grunhia Jaime, cuja rectido o impedia de
discutir de m-f.

- Ah! Alegro-me - exclamava Nicolau. - Agora vou-te demonstrar
que quem tem razo s tu e que o equivocado sou eu. Vou-te dar
os argumentos que tu me deverias dar 
se fosses inteligente.

Jaime perdia a pacincia e cala-lhe em cima com pancada, mas a
seguir arrependia-se, porque era muito mais forte que o irmo
e a sua prpria fora fazia-o sentir 
culpado. No colgio, Nicolau usava o engenho para chatear os
outros e, quando se via obrigado a enfrentar uma situao de
violncia, chamava o irmo para o defender 
enquanto ele o animava pelas costas. Jaime acostumou-se a dar
a cara por Nicolau e chegou a parecer-lhe natural ser
castigado em seu lugar, fazer as suas tarefas 
e esconder as suas mentiras. O interesse principal de Nicolau
nesse perodo da sua juventude,  parte as mulheres, foi
desenvolver a habilidade de Clara para adivinhar 
o futuro. Comprava livros sobre sociedades secretas, de
horscopos e de tudo o que tivesse caractersticas
sobrenaturais. Nesse ano deu-lhe para desmascarar milagres, 
comprou As Vidas dos Santos em edio popular e passou o Vero
procurando explicaes simples nas mais fantsticas proezas de
ordem espiritual. A me ria-se dele.

- Se no podes perceber como funciona o telefone, meu filho -
dizia Clara - como queres compreender os milagres?

O interesse de Nicolau pelos assuntos sobrenaturais comeou a
manifestar-se um par de anos antes. Nos fins-de-semana, em que
podia sair do internato, ia visitar 
as trs irms Mora ao seu velho moinho, para aprender cincias
ocultas. Mas viu-se logo que no tinha nenhuma disposio
natural para a clarividncia ou a telequinsia, 
de modo que teve de conformar-se com a mecnica das cartas
astrolgicas, o tarot e os pauzinhos chineses. Como uma coisa
traz a outra, conheceu em casa das Mora 
uma formosa jovem chamada Amanda, um pouco mais velha do que
ele, que o inciou na meditao ioga e na acupunctura,
cincias com as quais Nicolau chegou a curar 
o reumatismo e outras doenas menores, mais do que o seu irmo
conseguia com a medicina tradicional, depois de sete anos de
estudo. Mas tudo isso foi muito depois. 
Nesse Vero, tinha vinte e um anos e aborrecia-se no campo. O
irmo vigiava-o estreitamente para que no incomodasse as
raparigas de Las Tres Marias, apesar de Nicolau 
se aproveitar disso para seduzir todas as adolescentes da
zona, com artes de galantaria que nunca se tinham visto por 
aquelas bandas. O resto do tempo passava-o 
a investigar milagres, tratando de aprender os truques da me
para mover o saleiro com a fora da mente, e escrever versos
apaixonados a Amanda, que os devolvia 
pelo correio, corrigidos e melhorados, sem que isso
conseguisse desanimar o jovem.


Pedro Garcia, o velho, morreu pouco antes das eleies
presidenciais. O pais estava perturbado pelas campanhas
polticas, os comboios triunfais iam do Norte para 
o Sul levando os candidatos instalados na cauda, com a sua
corte de proslitos, saudando todos do mesmo modo, prometendo
todos as mesmas coisas, embandeirados e 
com uma chinfrineira de orfeo e altifalantes que espantava a
calma da paisagem e embasbacava o gado. O velho tinha vivido
tanto que j no era nada mais que um 
monto de ossinhos de cristal cobertos por uma pelanga
amarela. O rosto era uma renda de rugas. Falava enquanto
caminhava, com um matraquear de castanholas, no 
tinha dentes e s podia comer papinhas de beb, alm de cego
tinha ficado surdo, mas nunca lhe faltou o conhecimento das
coisas e a memria do passado e do imediato. 
Morreu sentado na cadeira de vime ao entardecer. Gostava de
ficar  porta do rancho sentindo cair a tarde, que ele
adivinhava pela mudana subtil de temperatura, 
pelos rudos do ptio, o trabalho das cozinhas, o silncio das
galinhas. Foi ali que a morte o encontrou. A seus ps, estava
o bisneto Esteban Garcia, que j tinha 
 volta de dezoito anos, ocupado em vazar com um prego os
olhos a um frango. Era filho de Esteban Garcia, o nico
bastardo do patro que levou o seu nome, embora 
no o apelido. Ningum recordava a sua origem nem a razo pelo
qual tinha esse nome, excepto ele mesmo, porque a sua av
Pancha Garcia, antes de morrer conseguiu 
envenenar-lhe a sua infncia com a histria de que, se o seu
pai tivesse nascido no lugar de Blanca, Jaime ou Nicolau,
teria herdado Las Tres Marias e poderia ter 
chegado a Presidente da Repblica, s por o ter querido.
Naquela regio semeada de filhos ilegtimos e de outros
legtimos que no conheciam o pai, ele foi provavelmente 
o nico que cresceu odiando o seu apelido. Viveu castigado
pelo rancor contra o patro, contra a av seduzida, contra o
pai bastardo e contra o prprio destino inexorvel 
de labrego. Esteban Trueba no o distinguia entre os restantes
midos da propriedade, e era mais um no monto de crianas que
cantavam o hino nacional na escola 
e faziam bicha para receber o presente de Natal. No se
recordava de Pancha Garcia nem de ter tido um filho dela, e
muito menos daquele neto malicioso que o odiava 
e que no o observava de longe para lhe imitar os gestos e
copiar a voz. O menino passava as noites imaginando horrveis
doenas ou acidentes que pusessem fim  
existncia do patro e de todos os seus filhos para ele poder
herdar a propriedade. Ento transformava Las Tres Marias no
seu reino. Acarinhou  essas fantasias 
toda a vida, e mesmo depois de saber que jamais teria alguma
coisa por via da herana culpou sempre Trueba da existncia
obscura que tinha forjado contra ele e sentia-se 
castigado, inclusivamente nos dias em que chegou ao cume do
poder e os teve todos na mo.

O menino percebeu que algo tinha mudado no velho.
Aproximou-se, tocou nele e o corpo cambaleou. Pedro Garcia
caiu no cho como um saco de ossos. Tinha as pupilas 
cobertas pela pelcula leitosa que os tinha deixado sem luz ao
longo de um quarto de sculo. Esteban Garcia pegou no prego e
dispunha-se a picar-lhe os olhos, quando 
chegou Blanca e o afastou com um empurro, sem suspeitar que
aquela criana escura e malvada era seu sobrinho e que dentro
de alguns anos seria o instrumento de 
uma tragdia para a sua famlia.

- Deus meu, o velhinho morreu! - soluou inclinando-se sobre o
corpo encarquilhado do ancio que lhe povoara a infncia de
contos e lhe protegera os amores clandestinos.

Enterraram Pedro Garcia, o velho, com um velrio de trs dias
em que Esteban Trueba ordenou que no se regateassem gastos.
Acomodaram-lhe o corpo num caixo de pinho 
rstico, com o traje domingueiro, o mesmo que usou quando se
casou e que vestia para votar e receber os seus cinquenta
pesos no Natal. Vestiram-lhe a nica camisa 
branca, que lhe ficava muito folgada no pescoo, porque a
idade o tinha encolhido, a gravata de luto e um cravo vermelho
na lapela, como fazia sempre que havia festa. 
Seguraram-lhe a mandbula com um leno e puseram-lhe o chapu
negro, porque tinha dito muitas vezes que o queria tirar para
saudar Deus. No tinha sapatos, mas Clara 
roubou uns a Esteban Trueba para que todos vissem que no ia
descalo para o Paraso.

Jean de Satigny entusiasmou-se com o funeral, tirou da sua
bagagem uma mquina fotogrfica com trip e fez tantos
retratos ao morto que os seus familiares pensaram 
que lhe podia roubar a alma e por precauo escavacaram as
chapas. Ao velatrio acudiram camponeses de toda a regio
porque Pedro Garcia, no sculo de vida, tinha-se 
aparentado com muitos habitantes da provncia. Chegou a bruxa,
que era ainda mais velha do que ele, com vrios ndios da
tribo, os quais a uma ordem sua comearam 
a chorar o finado e no deixaram de o fazer at terminar a
pndega, trs dias depois. As pessoas juntaram-se  volta do
rancho do velho, a beber vinho, tocar guitarra 
e vigiar os assados. Tambm chegaram dois padres de bicicleta,
para benzer os restos mortais de Pedro Garcia e a dirigir os
ritos fnebres. Um deles era um gigante 
rubicundo com forte acento espanhol, o padre Jos Dulce Maria,
a quem Esteban Trueba conhecia de nome. Esteve quase a
impedir-lhe a entrada na sua propriedade, mas 
Clara convenceu-o de que no era o momento de antepor os seus
dios polticos ao fervor cristo dos camponeses. Pelo  menos
por alguma ordem nos assuntos da 
alma, disse ela. De maneira que Esteban Trueba acabou por lhe
dar as boas-vindas e convid-lo a ficar em sua casa com o
irmo leigo, que no abria a boca e olhava 
sempre para o cho, com a cabea de lado e as mos juntas. O
patro estava comovido com a morte do velho que lhe tinha
salvo as sementeiras das formigas e a vida 
da invalidez, e queria que todos recordassem esse enterro como
um acontecimento.

Os padres reuniram os caseiros e os visitantes na escola, para
voltar a dar uma passagem nos esquecidos Evangelhos, e dizer
uma missa pelo descanso da alma de Pedro 
Garcia. Depois retiraram-se para o quarto que lhes tinham dado
na casa senhorial, enquanto os outros continuavam na patuscada
que tinha sido interrompida com a sua 
chegada. Essa noite, Blanca esperou que se calassem as
guitarras e o choro dos ndios e que todos fossem para a cama,
para saltar pela janela do quarto e enfiar 
na direco habitual, protegida pelas sombras. Tornou a
faz-lo durante as trs noites seguintes, at que os
sacerdotes se foram embora. Todos menos os seus pais 
souberam que Blanca se encontrava com um deles no rio. Era
Pedro Tercero Garcia, que no quis perder o funeral do av e
aproveitou a sotaina para falar aos trabalhadores 
casa por casa, explicando-lhes que as prximas eleies eram a
sua oportunidade de sacudir o jugo com que sempre tinham
vivido. Escutavam-no surpreendidos e confusos. 
O seu tempo media-se por estaes, os seus pensamentos por
geraes, eram lentos e prudentes. S os mais jovens, os que
tinham rdio e ouviam as notcias, os que 
s vezes iam  povoao e conversavam com os sindicalistas
podiam seguir o fio das suas ideias. Os restantes escutavam-no
porque o rapaz era o heri perseguido pelos 
patres, mas no fundo estavam convencidos de que dizia
loucuras.

- Se o patro descobre que vamos votar nos socialistas,
fodemo-nos - disseram.

- No pode saber! O voto  secreto - alegou o falso padre.

- Isso pensas tu, filho - respondeu Pedro Segundo, seu pai. -
Dizem que  secreto, mas depois sabem sempre em quem votamos.
Alm disso, se ganham os do teu partido, 
vo-nos pr na rua, no teremos trabalho. Eu vivi sempre aqui.
Que faria eu?

- No nos podem correr a todos, porque o patro perde mais que
vocs se vocs se vo embora - argumentou Pedro Tercero.

- No importa por quem vamos votar. Eles ganham sempre.

-  Mudem o voto - disse Pedro Tercero. - Mandaremos gente do
partido para controlar as mesas de voto e para verificar se as
urnas ficam seladas.

Mas os camponeses desconfiavam. A experincia havia-lhes
ensinado que o raposo acaba sempre por comer as galinhas,
apesar das baladas subversivas que andavam de 
boca em boca cantando o contrrio. Por isso, quando passou  o
comboio do novo candidato do Partido Socialista, um doutor
mope e carismtico que movia multides 
com o seu discurso inflamado, eles olharam-no da estao,
vigiados pelos patres que montavam um cerco  sua volta,
armados com caadeiras e cajados. Escutaram respeitosamente 
as palavras do candidato, mas no se atreveram a fazer-lhe nem
um gesto de saudao, excepto alguns braais que acudiram em
bando munidos de paus e picaretas, que 
o vitoriaram at se esganiarem porque eles no tinham nada a
perder, eram nmadas do campo, vagueavam pela regio sem
trabalho fixo nem famlia, sem amo e sem medo.

Pouco depois da morte e do memorvel enterro de Pedro Garcia,
o velho, Blanca comeou a perder as cores de ma e a sofrer
fadigas naturais que no eram produzidas 
por deixar de respirar e vmitos matinais que no eram
provocados por salmoura quente. Pensou que a causa estava no
excesso de comida, era a poca dos pssegos dourados, 
dos damascos, do milho tenro preparado em caarolas de barro e
perfumado com alfavaca, era o tempo de fazer as marmeladas e
as conservas para o Inverno. Mas o jejum, 
a maela, os purgantes e o repouso no a curaram. Perdeu o
entusiasmo pela escola, pela enfermaria e at pelos prespios
de barro, tornou-se mole e sonolenta, podia 
passar horas deitada  sombra olhando o cu, sem se interessar
por nada. A nica actividade que manteve foram as escapadas
nocturnas no rio com Pedro Tercero.

Jean de Satigny, que no se tinha dado por vencido no seu
assalto romntico, observava-a. Por discrio, passava umas
temporadas no hotel da povoao e fazia algumas 
viagens curtas  capital, donde regressava carregado de
literatura sobre as chinchilas, as suas gaiolas, o seu
alimento, as suas doenas, os seus mtodos reprodutivos, 
a forma de curtir-lhes a pele e, em geral, tudo o que dizia
respeito a esses pequenos animais cujo destino era
transformarem-se em estolas. Na maior parte do Vero, 
o conde foi hspede em Las Tres Marias. Era um visitante
encantador, bem educado, tranquilo e alegre. Tinha sempre uma
frase amvel na ponta dos lbios, celebrava 
a comida, divertia-os  tarde tocando piano no salo, onde
competia com Clara nos nocturnos de Chopin, e era uma fonte
inesgotvel de anedotas. Levantava-se tarde 
e passava uma ou duas horas dedicado ao seu arranjo pessoal,
fazia ginstica, trotava  volta da casa sem se importar com a
chacota dos rudes camponeses, remolhava-se 
na banheira de gua quente, e demorava-se muito a escolher a
roupa para cada ocasio. Era um esforo perdido, j que
ningum lhe apreciava a elegncia e, frequentemente, 
a nica coisa que conseguia com os trajes ingleses de montar,
os casacos de veludo e os chapus tiroleses com pena de faiso
era que Clara, com a melhor das intenes 
lhe oferecesse roupa mais apropriada para o campo. Jean no
perdia o bom humor, aceitava os sorrisos irnicos do dono da
casa, as ms caras de Blanca e a perene 
distraco  de Clara, que ao fim de um ano ainda continuava a
perguntar-lhe o nome. Sabia cozinhar algumas receitas
francesas, muito esmeradas e magnificamente 
apresentadas, com as quais contribua quando tinham
convidados. Era a primeira vez que viam um homem interessado
pela cozinha, mas supuseram que eram costumes europeus 
e no se atreveram a dizer-lhe piadas para no passar por
ignorantes. Nas suas viagens  capital, trazia, para alm do
respeitante s chinchilas, revistas de moda, 
os folhetins de guerra que se haviam popularizado para criar o
mito do soldado herico e novelas romnticas para Blanca. Nas
conversas  sobremesa referia-se, por 
vezes, com tom de mortal aborrecimento, aos seus Veres com a
nobreza europeia nos castelos de Liechtenstein ou na Costa
Azul. Nunca deixava de dizer que estava 
feliz por ter trocado tudo isso pelo encanto da Amrica.
Blanca perguntava-lhe por que razo no tinha escolhido as
Carabas, ou pelo menos um pais de mulatas, coqueiros 
e tambores, se o que buscava era o exotismo, mas ele achava
que no havia na terra outro sitio mais agradvel que aquele
pais esquecido do mundo. O francs no falava 
da vida pessoal, excepto para fornecer alguns indcios
imperceptveis que permitiam ao interlocutor astuto dar-se
conta do seu esplendoroso passado, da sua fortuna 
incalculvel e da sua nobre origem. No se conhecia com
certeza o seu estado civil, a sua idade, a sua famlia ou de
que parte da Frana provinha. Clara era da opinio 
que tanto mistrio era perigoso e tratou de desentranh-lo com
as cartas do tarot, mas Jean no permitiu que lhe tirassem a
sorte nem que lhe investigassem as 
linhas da mo. Nem sabia o seu signo do zodaco.

Para Esteban Trueba tudo isso no tinha importncia. Para ele
era suficiente que o conde estivesse disposto a entret-lo com
uma partida de xadrez ou de domin, 
que fosse habilidoso e simptico e nunca pedisse dinheiro
emprestado. Desde que Jean de Satigny visitava a casa, era
muito mais suportvel o aborrecimento do campo, 
onde s cinco da tarde no havia nada mais para fazer. Alm
disso, gostava que os vizinhos o invejassem por ter aquele
hspede distinto em Las Tres Marias.

Corria o boato de que Jean pretendia Blanca Trueba, mas nem
por isso deixou de ser o gal predilecto das mes
casamenteiras. Clara tambm o estimava, ainda que no 
tivesse nenhum clculo matrimonial. Por seu lado, Blanca
acabou por se acostumar  sua presena. Era to discreto e
suave no trato que pouco a pouco Blanca esqueceu 
a proposta matrimonial. Chegou a pensar que tinha sido uma
espcie de brincadeira do conde. Tornou a tirar os candelabros
de prata do armrio, a pr a mesa com a 
loia inglesa e a usar os vestidos da cidade nas tertlias da
tarde. Frequentemente, Jean convidava-a para ir  povoao ou
pedia-lhe que o acompanhasse nos seus 
numerosos convites sociais. Nessas oportunidades Clara tinha
de ir com eles, porque Esteban Trueba era inflexvel nesse
ponto: no queria que vissem a filha  sozinha 
com o francs. Em contrapartida, permitia-lhes passear sem
chaperon pela propriedade, desde que no se afastassem
demasiado e que regressassem antes de anoitecer. 
Clara dizia que se queriam cuidar da virgindade da jovem isso
era muito mais perigoso que ir tomar ch  herdade Uzctegui,
mas Esteban estava seguro de que no 
havia nada a temer de Jean, j que as suas intenes eram
nobres, tinha de precaver-se era das ms lnguas, que podiam
destroar a honra da filha. Os passeios campestres 
de Jean e de Blanca consolidaram uma boa amizade. Davam-se
bem. Gostavam ambos de sair a meio da manh a cavalo, com a
merenda no cesto e vrias malinhas de lona 
e couro com a bagagem de Jean. O conde aproveitava todas as
paragens para pr Blanca contra a paisagem e fotograf-la,
apesar de ela resistir um pouco porque se 
sentia vagamente ridcula. Esse sentimento justificava-se ao
ver os retratos revelados, onde aparecia com um sorriso que
no era o seu, numa postura incmoda e com 
um ar de infelicidade, devido, segundo Jean, a que no era
capaz de posar com naturalidade e, segundo ela, porque ele a
obrigava a pr-se torcida e aguentar a respirao 
durante longos segundos at que se imprimisse a chapa. De uma
maneira geral, escolhiam um lugar sombrio debaixo das rvores,
estendiam uma manta sobre a erva e sentavam-se 
para passar algumas horas. Falavam da Europa, de livros, de
histrias familiares de Blanca ou das viagens de Jean. Ela
ofereceu-lhe um livro do Poeta e ele entusiasmou-se 
tanto que aprendeu longas passagens de memria e podia recitar
os poemas sem vacilar. Dizia que era o melhor que se tinha
escrito em matria de poesia e que nem 
sequer no francs, o idioma das artes, havia alguma coisa que
pudesse comparar-se. No falavam dos seus sentimentos. Jean
era solicito, mas no suplicante ou insistente, 
pelo contrrio fraternal e brincalho. Beijava-lhe a mo para
se despedir, fazia-o com um olhar de escolar que dava todo o
romantismo ao gesto. Se lhe admirava um 
vestido, um guisado ou uma figura do prespio, o seu tom tinha
um sabor irnico que permitia interpretar a frase de muitas
maneiras. Se cortava flores para ela ou 
a ajudava a desmontar do cavalo, fazia-o com tal desenvoltura
que tornava o galanteio uma ateno de amigo. De qualquer
modo, para o prevenir, Blanca fez-lhe saber, 
sempre que se apresentou ocasio, que no casaria com ele nem
morta. Jean de Satigny sorria com o brilhante sorriso de
sedutor, sem dizer nada, e o mnimo que Blanca 
podia notar  que era muito mais gentil que Pedro Tercero.

Blanca no sabia que Jean a espiava. Tinha-a visto saltar pela
janela vestida de homem em muitas ocasies. Seguiu-a algum
tempo, mas voltava para trs, temendo que 
os ces o surpreendessem na escurido. Todavia, pela direco
que ela tomava, tinha concludo que ia sempre rumo ao rio.
Entretanto, Trueba no acabara de se decidir a respeito das
chinchilas. Como experincia, acedeu em instalar uma gaiola
com alguns casais daqueles  roedores, imitando 
em pequena escala a grande indstria modelo. Foi a nica vez
que se viu Jean de Satigny a trabalhar de mangas arregaadas.
No entanto, as chinchilas contraram uma 
doena prpria das ratazanas e foram morrendo em menos de duas
semanas. Nem sequer lhes puderam curtir as peles porque o plo
ps-se-lhes opaco e cala-lhes da pele 
como penas de ave molhada com gua a ferver. Jean viu
horrorizado os cadveres pelados, com as patas tesas e os
olhos brancos, deitando por terras as esperanas 
de convencer Esteban Trueba, que perdeu todo o entusiasmo pela
pelaria ao ver aquela mortandade.

- Se a peste tivesse dado  indstria modelo estaria
totalmente arruinado - concluiu Trueba.

Entre a peste das chinchilas e as escapadelas de Blanca, o
conde passou vrios meses ocupando o tempo. Comeava a estar
cansado daquelas diligncias e pensava que 
Blanca nunca se iria prender aos seus encantos. Vendo que o
criador de roedores nunca mais se decidia, resolveu que era
melhor precipitar as coisas antes que outro 
mais esperto ficasse com a herdeira. Alm disso, comeava a
gostar de Blanca, agora que estava mais robusta e com aquela
languidez que lhe tinha atenuado as maneiras 
de camponesa. Preferia as mulheres plcidas e opulentas, e a
viso de Blanca deitada sobre almofades observando o cu 
hora da sesta recordava-lhe a me. Por vezes, 
conseguia comov-lo. Jean aprendeu a adivinhar, por pequenos
pormenores imperceptveis para os outros, quando Blanca tinha
j planeada uma excurso nocturna ao rio. 
Nessas ocasies, a jovem ficava sem jantar, com o pretexto
duma dor de cabea, despedia-se cedo e tinha um brilho
estranho nas pupilas, uma impacincia e uma nsia 
nos gestos que ele conhecia. Uma noite decidiu segui-la at ao
fim, para terminar com aquela situao que ameaava
prolongar-se indefinidamente. Estava seguro que 
Blanca tinha um amante, mas acreditava que no podia ser nada
de srio. Pessoalmente, Jean de Satigny no tinha nenhum
preconceito em relao  virgindade, nem tinha 
posto a si prprio esse assunto quando decidiu pedi-la em
casamento. O que nele lhe interessava eram outras coisas, que
no se perderiam por um momento de prazer 
na margem do rio.

Depois de Blanca se retirar para o quarto e o resto da famlia
tambm, Jean de Satigny ficou sentado no salo, s escuras,
atento aos rudos da casa, at  hora 
em que calculou que ela saltasse pela janela. Ento saiu para
o ptio e ficou entre as rvores  espera dela. Esteve
escondido na sombra mais de meia hora, sem que 
nada de anormal perturbasse a paz da noite. Aborrecido de
esperar, dispunha-se a retirar-se quando reparou que a janela
de Blanca estava aberta. Viu que ela tinha 
saltado antes que ele se colocasse no jardim a vigi-la.

- Merde - resmungou em francs. 

Fazendo votos por que os ces no alertassem toda a casa com o
seu ladrar e no lhe saltassem em cima, dirigiu-se para o rio
pelo caminho que tinha visto Blanca 
tomar doutras vezes. No estava habituado a andar com o
calado fino pela terra lavrada nem a saltar pedras e ladear
charcos, mas a noite estava muito clara, com 
uma formosa lua cheia iluminando o cu com um resplendor
fantasmagrico e, mal lhe passou o medo de que aparecessem os
ces, pde apreciar a beleza do momento. Andou 
um bom quarto de hora antes de avistar os primeiros canaviais
da margem e ento redobrou de prudncia e aproximou-se mais
silenciosamente, tendo cuidado nos passos 
para no pisar ramos que o pudessem denunciar. A lua
reflectia-se na gua com um brilho de cristal e a brisa
abanava suavemente as canas e as copas das rvores. 
Reinava o mais completo silncio e por breves instantes teve a
iluso de que estava vivendo um sonho de sonmbulo, no qual ia
caminhando sem avanar, sempre no mesmo 
sitio encantado, onde o tempo se tinha detido e onde tentava
tocar as rvores, que pareciam estar ao alcance da mo, e
encontrava o vazio. Teve de fazer um esforo 
para recuperar o habitual estado de esprito, realista e
pragmtico. Num recanto da paisagem, entre grandes pedras
cinzentas iluminadas pela luz da Lua, viu-os, 
to perto que quase os podia tocar. Estavam nus. O homem
estava de costas, com a cara virada para o cu, com os olhos
fechados, mas no teve dificuldade em reconhecer 
o sacerdote jesuta que tinha ajudado  missa do funeral de
Pedro Garcia, o velho. Isso surpreendeu-o. Blanca dormia com a
cabea apoiada no ventre liso e moreno 
do amante. A tnue luz lunar punha reflexos metlicos nos seus
corpos e Jean de Satigny estremeceu ao ver a harmonia de
Blanca, que nesse momento lhe pareceu perfeita.

O elegante francs levou quase um minuto a abandonar o estado
de sonho em que a viso dos enamorados o tinha mergulhado, a
placidez da noite, a Lua e o silncio 
do campo, e ao dar-se conta de que a situao era mais grave
do que tinha imaginado. Na atitude dos amantes reconheceu o
abandono prprio dos que se conhecem h 
muito tempo. Aquilo no tinha um aspecto de aventura ertica
de Vero, como supusera, mas de um casamento da carne e do
esprito. Jean de Satigny no podia saber 
que Blanca e Pedro Tercero tinham dormido assim no primeiro
dia em que se conheceram e que o continuaram a fazer sempre
que puderam, ao longo desses anos, mas apesar 
disso percebeu-o por instinto. Procurando no fazer o mais
pequeno rudo que os pudesse alertar, deu meia volta e
regressou, pensando como encarar o assunto. Ao 
chegar a casa, j tinha tomado a deciso de contar tudo ao pai
de Blanca, porque a ira sempre pronta de Esteban Trueba lhe
pareceu o melhor meio para resolver o 
problema. Eles que se amanhem, pensou.

Jean de Satigny no esperou pela manh. Bateu  porta do
quarto do anfitrio e, antes que este conseguisse sair
completamente do sono, deu-lhe a sua verso. Disse 
que no podia dormir com o calor e que, para tomar ar,  tinha
caminhado distraidamente em direco ao rio e encontrara o
deprimente espectculo da sua futura noiva 
dormindo nos braos do jesuta barbudo, nus  luz da Lua. Por
um instante, isso desorientou Esteban Trueba, que no podia
imaginar sua filha deitada com o padre 
Jos Dulce Maria, mas em seguida percebeu o que se tinha
passado, da burla de que tinha sido vitima durante o enterro
do velho e de que o sedutor no podia ser outro 
seno Pedro Tercero Garcia, aquele maldito filho de uma cadela
que lho haveria de pagar com a vida. Vestiu as calas a toda a
pressa, calou as botas, ps a espingarda 
ao ombro e tirou da parede o cavalo marinho.

- O senhor espera-me aqui - ordenou ao francs, que de
qualquer modo no tinha nenhuma inteno de o acompanhar.

Esteban Trueba correu ao estbulo, montou no cavalo sem o
selar. Ia a espumar de indignao, com os ossos soldados
reclamando pelo esforo e o corao saltando no 
peito. Vou mat-los, aos dois, resmungava como uma ladainha.
Saiu para o caminho, na direco indicada pelo francs, mas
no teve necessidade de chegar ao rio, 
porque a meio encontrou Blanca, que regressava a casa
cantarolando, com o cabelo em desalinho, a roupa suja e o ar
feliz de quem no tinha nada que pedir  vida. 
Ao ver a filha, Esteban Trueba no pde conter o mau caracter
e correu para ela com o cavalo e o chicote no ar,
descarregando-lhe uma chicotada atrs da outra, at 
que a rapariga caiu e ficou estendida, imvel na lama. O pai
saltou do cavalo, sacudiu-a at a fazer voltar a si e
gritou-lhe todos os insultos conhecidos e outros 
inventados no arrebatamento da situao.

- Quem ? Diga-me o seu nome ou mato-a - exigiu-lhe.

- No lhe direi nunca - soluou ela.

Esteban Trueba compreendeu que aquele no era o sistema para
obter alguma coisa da filha, que tinha herdado a sua prpria
teimosia. Viu que se tinha excedido no 
castigo, como sempre. F-la subir para o cavalo e voltaram a
casa. O instinto, ou o alvoroo dos ces, acordaram Clara e os
criados, que esperavam  porta com todas 
as luzes acesas. A nica pessoa que no se viu por nenhum lado
foi o conde, que na confuso aproveitou para fazer as malas,
atrelar os cavalos ao coche e partir 
discretamente para o hotel da povoao.

- Que fizeste Esteban, por Deus! - exclamou Clara ao ver a
filha coberta de barro e sangue.

Clara e Pedro Segundo Garcia levaram Blanca em braos para a
cama. O administrador tinha empalidecido mortalmente, mas no
disse nem uma s palavra. Clara lavou 
a filha, aplicou-lhe compressas frias nas fontes e acarinhou-a
at que conseguiu tranquiliz-la. Depois deixou-a a dormir,
foi encontrar-se com o marido, que se 
tinha fechado no escritrio e passeava dando murros nas
paredes, dizendo maldies e dando pontaps nos mveis. Ao
v-la, Esteban dirigiu toda a fria contra ela, 
culpando-a de ter criado  Blanca sem moral, sem sentido de
classe, porque podia compreender-se se ela o tivesse feito com
algum bem-nascido, mas no com um labrego, 
um boal, um fantico, um ocioso, um intil.

- Devia t-lo morto quando lho prometi! Deitando-se com a
minha prpria filha! Juro que o vou procurar e quando o
agarrar capo-o, corto-lhe os tomates, ainda que 
seja a ltima coisa que faa na minha vida, juro por minha me
que ele se vai arrepender de ter nascido.

- Pedro Tercero Garcia no fez nada que tu prprio no tenhas
feito -  disse Clara, quando pde interromp-lo. - Tu tambm
te deitaste com mulheres solteiras que 
no so da tua classe. A diferena  que ele f-lo por amor, e
Blanca tambm.

Trueba olhou-a, imobilizado pela surpresa. Por um instante a
sua ira pareceu esvaziar-se e no quis acreditar no que ouvia,
mas imediatamente uma onda de sangue 
subiu-lhe  cabea. Perdeu o domnio e desferiu um murro na
cara da mulher, atirando-a contra a parede. Clara caiu sem um
grito. Esteban pareceu despertar de um 
transe, ajoelhou-se a seu lado, balbuciando, chorando, pedindo
desculpas e chamando-a pelos nomes ternos que s usava na
intimidade, sem compreender como tinha podido 
levantar a mo para ela, que era o nico ser que realmente lhe
importava e a quem nunca, nem mesmo nos piores momentos da sua
vida em comum, tinha deixado de respeitar. 
Levantou-a em braos, sentou-a carinhosamente num cadeiro,
molhou um leno para lhe pr na testa e fez-lhe beber um pouco
de gua. Por fim, Clara abriu os olhos. 
Deitava sangue pelo nariz. Quando abriu a boca, cuspiu vrios
dentes, que caram no cho, e um fio de saliva sangrenta
correu-lhe pelo queixo e pelo pescoo.

Clara, logo que pde levantar-se, afastou Esteban com um
empurro, ergueu-se com dificuldade e saiu do escritrio,
fazendo por caminhar de p. Do outro lado da porta 
estava Pedro Segundo Garcia, que conseguiu segur-la no
momento em que cambaleava. Ao senti-lo a seu lado, Clara
abandonou-se. Poisou a cara tumefacta no peito daquele 
homem que tinha estado a seu lado durante os momentos mais
difceis da sua vida e ps-se a chorar. A camisa de Pedro
Segundo Garcia tingiu-se de sangue.

Clara nunca mais na vida voltou a falar ao marido. Deixou de
usar o seu apelido de casada e tirou do dedo a fina aliana de
ouro que ele lhe tinha colocado, h mais 
de vinte anos, naquela noite memorvel em que Barrabs morreu
assassinado por uma faca de carniceiro.

Dois dias depois, Clara e Blanca abandonaram Las Tres Marias e
regressaram  capital. Esteban ficou humilhado e furioso, com
a sensao de que algo tinha partido 
para sempre da sua vida.

Pedro Segundo levou a patroa e a filha  estao. Desde aquela
noite, no tinha tornado a v-las e permanecia silencioso e
intratvel. Instalou-as no  comboio 
e ficou depois com o chapu na mo, de olhos baixos, sem saber
como despedir-se. Clara abraou-o. A princpio, ele manteve-se
ri rido e desconcertado, mas logo foi 
vencido pelos prprios sentimentos e atreveu-se a envolv-la
com os braos e a dar-lhe um beijo imperceptvel no cabelo.
Olharam-se pela ltima vez atravs da janela 
e ambos tinham os olhos cheios de lgrimas. O fiel
administrador chegou  sua casa de tijolos, fez um embrulho
com os escassos pertences, meteu num leno o pouco 
dinheiro que tinha podido poupar em todos aqueles anos de
servio e partiu. Trueba viu-o despedir-se dos caseiros e
montar a cavalo. Tentou det-lo explicando-lhe 
que o que se tinha passado no tinha nada que ver com ele, que
no era justo que por culpa do filho perdesse o trabalho, os
amigos, a segurana.

- No quero estar aqui quando encontrar o meu filho, patro -
foram as ltimas palavras de Pedro Segundo Garcia antes de
partir a trote at  estrada.


Como me sentia sozinho, nessa altura! Ignorava que a solido
no mais me abandonaria e que a nica pessoa que tornaria a
estar perto de mim no resto da minha vida 
seria uma neta bomia e estroina, com o cabelo verde como
Rosa. Mas isso seria vrios anos mais tarde.

Depois da partida de Clara, olhei  volta e vi muitas caras
novas em Las Tres Marias. Os antigos companheiros de caminhada
estavam mortos ou tinham-se afastado. 
J no tinha nem minha mulher nem minha filha. O contacto com
os meus filhos era mnimo. Tinham falecido minha me, minha
irm, a boa Ama, Pedro Garcia, o velho. 
E tambm Rosa me veio  memria como uma dor inesquecvel. J
no podia contar com Pedro Segundo Garcia, que esteve a meu
lado durante trinta e cinco anos. Deu-me 
para chorar. As lgrimas caam-me, sozinhas, eu sacudia-as com
a mo, mas vinham outras. Vo todos para o caralho!, gritava
eu pelos cantos da casa. Passeava-me 
pelos quartos vazios, entrava no quarto de Clara e procurava
no seu roupeiro e na sua cmoda qualquer coisa que ela tivesse
usado para levar ao nariz e recuperar, 
ainda que fosse por um momento passageiro, o seu tnue odor a
limpeza. Estendia-me na sua cama, enfiava a cara na sua
almofada, acariciava os objectos que tinha 
deixado sobre o toucador e sentia-me profundamente desolado.

Pedro Tercero Garcia tinha toda a culpa do que se havia
passado. Por culpa dele Blanca tinha sado de junto de mim,
por causa dele eu tinha discutido com Clara, 
por causa dele Pedro Segundo tinha sado da propriedade, por
causa dele os caseiros olhavam-me com receio e cochichavam nas
minhas costas. Tinha sido sempre um revoltado 
e o que eu devia ter feito desde o princpio era corr-lo a
pontaps. Deixei passar o tempo por respeito ao pai e ao av e
o resultado foi que aquele ranhoso de 
merda me roubou o que eu mais  gostava no mundo. Fui ao posto
da aldeia do povo e subornei os carabineiros para me ajudarem
a procur-lo. Dei-lhes ordens de no 
o prenderem, mas de mo entregarem sem fazer escarcu. No bar,
no barbeiro, no clube e no Farolito Rojo, fiz saber que havia
uma recompensa para quem me entregasse 
o rapaz.

- Cuidado, patro. No se ponha a fazer justia por suas mos,
olhe que as coisas mudaram muito desde o tempo dos irmos
Sanchez - avisaram-me. Mas no quis escut-los. 
Que teria feito a justia nesse caso? Nada.

Passaram perto de quinze dias sem nenhuma novidade. Eu sala
para percorrer a propriedade, entrava nas terras vizinhas,
espiava os caseiros. Estava convencido de 
que me escondiam o rapaz. Aumentei a recompensa e ameacei os
carabineiros de os fazer destituir por incapazes, mas tudo foi
intil. Cada hora que passava aumentava-me 
a raiva. Comecei a beber como nunca o tinha feito, nem nos
meus tempos de solteiro. Dormia mal e tornei a sonhar com
Rosa. Uma noite sonhei que lhe batia como a 
Clara e que os seus dentes tambm calam no cho. Despertei aos
gritos, mas estava sozinho e ningum me podia ouvir. Estava
to deprimido que deixei de fazer a barba, 
no mudava de roupa, julgo que nem tomava banho. A comida
parecia-me amarga, tinha um sabor a blis na boca. Esfolei os
ns dos dedos esmurrando as paredes e rebentei 
um cavalo galopando para espantar a fria que me consumia as
entranhas. Nesses dias ningum se aproximava de mim, as
criadas serviam-me  mesa a tremer, o que me 
punha ainda pior.

Um dia, estava no corredor fumando um cigarro antes da sesta
quando se aproximou um menino moreno que ficou em frente de
mim em silncio. Chamava-se Esteban Garcia. 
Era meu neto, mas eu no o sabia, e s agora, devido s
terrveis coisas que ocorreram por obra sua, acabei por saber
do parentesco que nos une. Era tambm neto 
de Pancha Garcia, uma irm de Pedro Segundo, a quem na
realidade no recordo.

- O que  que queres, ranhoso? - perguntei ao menino.

- Eu sei onde est Pedro Tercero Garcia - respondeu-me.

Dei um salto to brusco que a cadeira de verga onde estava
sentado, se virou. Agarrei o rapaz pelos ombros e sacudi-o:

- Onde? Onde est esse maldito? - gritei-lhe.

- D-me a recompensa, patro? - balbuciou o menino
aterrorizado.

- T-la-s! Mas primeiro quero ter a certeza de que no me
ests a mentir. Vamos, leva-me onde est esse desgraado!

Fui buscar a espingarda e salmos. O menino indicou-me que
tnhamos de ir a cavalo porque Pedro Tercero estava escondido
na serrao dos Lebus, a vrias milhas de 
Las Tres Marias. Como no me passou pela cabea que estivesse
ali? Era um esconderijo perfeito. Nessa poca do ano, a
serrao dos alemes estava fechada e ficava 
longe de todos os caminhos.

- Como soubeste que Pedro Tercero Garcia est l? 

-  Toda a gente o sabe, patro, menos o senhor - respondeu-me. 

Fomos a trote porque naquele terreno no se podia correr. A
serrao estava encravada numa ladeira da montanha e ali no
se podia forar muito os animais. No esforo 
para trepar, os cavalos arrancavam chispas nas pedras com os
cascos. Julgo que as suas pisadas eram o nico rudo da tarde
abafada e quieta. Ao entrar na zona dos 
bosques, mudou a paisagem e o ar refrescou, porque as rvores
erguiam-se em filas apertadas, fechando a entrada  luz do
Sol. O cho era uma almofada avermelhada 
e mole onde as patas dos cavalos se afundavam brandamente.
Ento o silncio rodeou-nos. O menino ia adiante, montado na
sua besta sem albarda, colado ao animal como 
se fossem um s corpo, e eu ia atrs, taciturno, ruminando a
minha raiva. Por momentos a tristeza invadia-me, era mais
forte que a clera que tinha estado incubada 
durante tanto tempo, mais forte que o dio que sentia por
Pedro Tercero Garcia. Deve ter passado um par de horas antes
de avistar os casebres baixos da serrao, 
distribudos em semicrculo numa clareira do bosque. Naquele
lugar, o cheiro da madeira e dos pinheiros era to intenso que
por um momento distrai-me do objectivo 
da viagem. Caram sobre mim a paisagem, o bosque, o silncio.
Mas essa fraqueza no durou mais que uns segundos.

- Espera aqui e cuida dos cavalos. No te movas.

Desmontei. O menino pegou nas rdeas do animal e eu parti
acaapado com a espingarda aperrada nas mos. No sentia os
sessenta anos nem as dores dos velhos ossos 
modos. Ia animado pela ideia de me vingar. De uma das casotas
sala uma pequena coluna de fumo, vi um cavalo amarrado 
porta, conclui que ali devia estar Pedro 
Tercero e dirigi-me para a casa dando uma volta. Os dentes
batiam-me com impacincia, ia pensando que no queria mat-lo
ao primeiro tiro porque isso seria muito 
rpido e o prazer ia-se embora num minuto, tinha esperado
tanto que queria saborear o momento de faz-lo em pedaos, mas
tambm no lhe podia dar uma oportunidade 
de escapar. Era muito mais jovem que eu e se no podia
surpreend-lo estava fodido. Levava a camisa empapada em suor,
pegada ao corpo, um vu cobria-me os olhos, 
mas sentia-me com vinte anos e com a fora de um touro. Entrei
no casebre arrastando-me silenciosamente, o corao a bater-me
como um tambor. Encontrei-me dentro 
de uma grande casa que tinha o cho coberto de serradura.
Havia grandes pilhas de madeira e mquinas tapadas com pedaos
de lona verde para as preservar do p. Avancei 
ocultando-me entre as pilhas de madeira, at que, de sbito, o
vi. Pedro Tercero Garcia estava deitado no cho, com a cabea
sobre uma manta dobrada, dormindo. A 
seu lado havia uma pequena fogueira de brasas sobre umas
pedras e uma panela para ferver gua. Parei sobressaltado e
pude observ-lo  vontade, com todo o dio do 
mundo, fazendo por fixar para sempre na minha memria esse
rosto  moreno, de feies quase infantis, onde a barba parecia
um disfarce, sem compreender que diabo 
tinha visto minha filha naquele cabeludo ordinrio. Tive de
fazer um grande esforo para controlar o tremor das mos e dos
dentes. Levantei a espingarda e avancei 
um par de passos. Estava to perto que podia fazer-lhe voar a
cabea sem apontar, mas decidi esperar uns segundos para que o
pulso se me tranquilizasse. Esse momento 
de vacilao perdeu-me. Creio que o hbito de se esconder
tinha afinado o ouvido a Pedro Tercero Garcia e o instinto
advertiu-o do perigo. Numa fraco de segundo 
deve ter tomado conscincia, mas ficou com os olhos fechados,
preparou todos os msculos contraiu os tendes e ps toda a
sua energia num salto formidvel que de 
um s impulso o deixou parado a um metro do sitio onde se
cravou a minha bala. No consegui apontar de novo, porque se
agachou, apanhou um pedao de madeira e atirou-mo, 
batendo em cheio na espingarda, que voou para longe. Recordo
que senti uma onda de pnico ao ver-me desarmado, mas
imediatamente me dei conta de que ele estava mais 
assustado do que eu. Observmo-nos em silncio, ofegando, cada
um esperava o primeiro movimento do outro para saltar. E ento
vi o machado. Estava to perto, que 
podia alcan-lo esticando apenas o brao, e foi isso que fiz
sem pensar duas vezes. Peguei no machado e com um grito
selvagem que me saiu do fundo das entranhas 
lancei-me contra ele, disposto a rach-lo de alto a baixo com
um s golpe. O machado brilhou no ar e caiu sobre Pedro
Tercero Garcia. Um jorro de sangue saltou-me 
 cara.

No ltimo instante levantou os braos para deter a machadada e
o fio da ferramenta decepou-lhe num pice trs dedos da mo
direita. Com o esforo, ca para a frente 
de joelhos. Ele levou a mo ao peito e saiu correndo, saltou
sobre as pilhas de madeira e os troncos espalhados pelo cho,
alcanou o cavalo, montou de um salto 
e perdeu-se com um grito terrvel entre as sombras dos
pinheiros. Deixou atrs de si um rego de sangue.

Fiquei de gatas no cho, arquejando. Levei vrios minutos a
acalmar-me e a compreender que no o tinha morto. A minha
primeira reaco foi de alvio porque, ao sentir 
o sangue quente que me atingira a cara, o dio despejou-se-me
subitamente, e tive de fazer um esforo para recordar por que
razo o queria matar, para justificar 
a violncia que me estava a afogar, que me fazia estalar o
peito, zumbir os ouvidos, que me turvava a vista. Abri a boca
desesperado, para meter ar nos pulmes, 
consegui pr-me de p, mas comecei a tremer, dei um par de
passos e cai sentado sobre um monto de tbuas, atordoado, sem
poder recuperar o ritmo da respirao. 
Julguei que ia desmaiar, o corao saltava-me no peito como
uma mquina enlouquecida. Deve ter passado muito tempo, no
sei. Por fim levantei os olhos, parei e apanhei 
a espingarda.

O menino Esteban Garcia estava a meu lado, olhando-me em
silncio.  Tinha apanhado os dedos cortados e pegava neles
como num molho de espargos sangrentos. No 
consegui evitar as nuseas, tinha a boca cheia de saliva,
vomitei manchando as botas, enquanto o garoto sorria
impassvel.

- Larga isso, ranhoso de merda! - gritei, batendo-lhe na mo.

Os dedos caram sobre a serradura, tingindo-a de vermelho.

Apanhei a espingarda e avancei cambaleando para a sada. O ar
fresco do entardecer e o perfume pesado dos pinheiros
bateram-me na cara, devolvendo-me o sentido da 
realidade. Respirei com avidez, de boca aberta. Caminhei at
ao cavalo com grande esforo, doa-me todo o corpo e tinha as
mos presas. O menino seguia-me.

Regressmos a Las Tres Marias procurando o caminho na
escurido, que cala rapidamente depois do pr do Sol. As
rvores dificultavam a marcha, os cavalos tropeavam 
nas pedras e nas moitas, os ramos atingiam-nos ao passar. Eu
estava como que no outro mundo, confundido e aterrado pela
minha prpria violncia, agradecido de que 
Pedro Tercero tivesse escapado, porque estava certo de que se
ele tivesse cado teria continuado a dar-lhe com o machado at
o matar, destroar, faz-lo em bocados, 
com a mesma deciso com que estava disposto a meter-lhe um
tiro na cabea.

Eu sei o que dizem de mim. Dizem, entre outras coisas, que
matei um ou vrios homens na minha vida. Culparam-me da morte
de alguns camponeses. No  verdade. Se 
o fosse, no me importaria de o reconhecer, porque na minha
idade essas coisas podem dizer-se impunemente. J me falta
muito pouco tempo para ser enterrado. Nunca 
matei um homem e quando mais perto estive de o fazer foi nesse
dia em que peguei no machado e me atirei a Pedro Tercero
Garcia.

Chegmos a casa  noite. Desci com dificuldade do cavalo e
caminhei at ao terrao. Tinha-me esquecido por completo do
menino que me acompanhava, porque em todo 
o trajecto no abriu a boca, por isso surpreendi-me ao sentir
que me puxava pela manga.

- Vai dar-me a recompensa, patro? - disse.

Despedi-o com um empurro.

- No h recompensa para os traidores que denunciam. Ah! E
probo-te que contes o que se passou! Ouviste-me? - grunhi.

Entrei em casa e fui directamente beber um gole da garrafa. O
conhaque queimou-me a garganta e devolveu-me algum calor.
Estendi-me depois no sof, arquejando. Ainda 
me batia desesperadamente o corao e estava enjoado. Com as
costas da mo limpei as lgrimas que me escorriam pelas faces.

L fora ficou Esteban Garcia, em frente da porta fechada. Como
eu, chorava de raiva.

Pedro Garcia, o velho, morreu pouco antes das eleies
presidenciais. O pais estava perturbado pelas campanhas
polticas, os comboios triunfais iam do Norte para
o Sul levando os candidatos instalados na cauda, com a sua
corte de proslitos, saudando todos do mesmo modo, prometendo
todos as mesmas coisas, embandeirados e
com uma chinfrineira de orfeo e altifalantes que espantava a
calma da paisagem e embasbacava o gado. O velho tinha vivido
tanto que j no era nada mais que um
monto de ossinhos de cristal cobertos por uma pelanga
amarela. O rosto era uma renda de rugas. Falava enquanto
caminhava, com um matraquear de castanholas, no
tinha dentes e s podia comer papinhas de beb, alm de cego
tinha ficado surdo, mas nunca lhe faltou o conhecimento das
coisas e a memria do passado e do imediato. 
Morreu sentado na cadeira de vime ao entardecer. Gostava de
ficar  porta do rancho sentindo cair a tarde, que ele
adivinhava pela mudana subtil de temperatura, 
pelos rudos do ptio, o trabalho das cozinhas, o silncio das
galinhas. Foi ali que a morte o encontrou. A seus ps, estava
o bisneto Esteban Garcia, que j tinha 
 volta de dezoito anos, ocupado em vazar com um prego os
olhos a um frango. Era filho de Esteban Garcia, o nico
bastardo do patro que levou o seu nome, embora 
no o apelido. Ningum recordava a sua origem nem a razo pelo
qual tinha esse nome, excepto ele mesmo, porque a sua av
Pancha Garcia, antes de morrer conseguiu 
envenenar-lhe a sua infncia com a histria de que, se o seu
pai tivesse nascido no lugar de Blanca, Jaime ou Nicolau,
teria herdado Las Tres Marias e poderia ter 
chegado a Presidente da Repblica, s por o ter querido.
Naquela regio semeada de filhos ilegtimos e de outros
legtimos que no conheciam o pai, ele foi provavelmente 
o nico que cresceu odiando o seu apelido. Viveu castigado
pelo rancor contra o patro, contra a av seduzida, contra o
pai bastardo e contra o prprio destino inexorvel 
de labrego. Esteban Trueba no o distinguia entre os restantes
midos da propriedade, e era mais um no monto de crianas que
cantavam o hino nacional na escola 
e faziam bicha para receber o presente de Natal. No se
recordava de Pancha Garcia nem de ter tido um filho dela, e
muito menos daquele neto malicioso que o odiava 
e que no o observava de longe para lhe imitar os gestos e
copiar a voz. O menino passava as noites imaginando horrveis
doenas ou acidentes que pusessem fim  
existncia do patro e de todos os seus filhos para ele poder
herdar a propriedade. Ento transformava Las Tres Marias no
seu reino. Acarinhou  essas fantasias 
toda a vida, e mesmo depois de saber que jamais teria alguma
coisa por via da herana culpou sempre Trueba da existncia
obscura que tinha forjado contra ele e sentia-se 
castigado, inclusivamente nos dias em que chegou ao cume do
poder e os teve todos na mo.

O menino percebeu que algo tinha mudado no velho.
Aproximou-se, tocou nele e o corpo cambaleou. Pedro Garcia
caiu no cho como um saco de ossos. Tinha as pupilas 
cobertas pela pelcula leitosa que os tinha deixado sem luz ao
longo de um quarto de sculo. Esteban Garcia pegou no prego e
dispunha-se a picar-lhe os olhos, quando 
chegou Blanca e o afastou com um empurro, sem suspeitar que
aquela criana escura e malvada era seu sobrinho e que dentro
de alguns anos seria o instrumento de 
uma tragdia para a sua famlia.

- Deus meu, o velhinho morreu! - soluou inclinando-se sobre o
corpo encarquilhado do ancio que lhe povoara a infncia de
contos e lhe protegera os amores clandestinos.

Enterraram Pedro Garcia, o velho, com um velrio de trs dias
em que Esteban Trueba ordenou que no se regateassem gastos.
Acomodaram-lhe o corpo num caixo de pinho 
rstico, com o traje domingueiro, o mesmo que usou quando se
casou e que vestia para votar e receber os seus cinquenta
pesos no Natal. Vestiram-lhe a nica camisa 
branca, que lhe ficava muito folgada no pescoo, porque a
idade o tinha encolhido, a gravata de luto e um cravo vermelho
na lapela, como fazia sempre que havia festa. 
Seguraram-lhe a mandbula com um leno e puseram-lhe o chapu
negro, porque tinha dito muitas vezes que o queria tirar para
saudar Deus. No tinha sapatos, mas Clara 
roubou uns a Esteban Trueba para que todos vissem que no ia
descalo para o Paraso.

Jean de Satigny entusiasmou-se com o funeral, tirou da sua
bagagem uma mquina fotogrfica com trip e fez tantos
retratos ao morto que os seus familiares pensaram 
que lhe podia roubar a alma e por precauo escavacaram as
chapas. Ao velatrio acudiram camponeses de toda a regio
porque Pedro Garcia, no sculo de vida, tinha-se 
aparentado com muitos habitantes da provncia. Chegou a bruxa,
que era ainda mais velha do que ele, com vrios ndios da
tribo, os quais a uma ordem sua comearam 
a chorar o finado e no deixaram de o fazer at terminar a
pndega, trs dias depois. As pessoas juntaram-se  volta do
rancho do velho, a beber vinho, tocar guitarra 
e vigiar os assados. Tambm chegaram dois padres de bicicleta,
para benzer os restos mortais de Pedro Garcia e a dirigir os
ritos fnebres. Um deles era um gigante 
rubicundo com forte acento espanhol, o padre Jos Dulce Maria,
a quem Esteban Trueba conhecia de nome. Esteve quase a
impedir-lhe a entrada na sua propriedade, mas 
Clara convenceu-o de que no era o momento de antepor os seus
dios polticos ao fervor cristo dos camponeses. Pelo  menos
por alguma ordem nos assuntos da 
alma, disse ela. De maneira que Esteban Trueba acabou por lhe
dar as boas-vindas e convid-lo a ficar em sua casa com o
irmo leigo, que no abria a boca e olhava 
sempre para o cho, com a cabea de lado e as mos juntas. O
patro estava comovido com a morte do velho que lhe tinha
salvo as sementeiras das formigas e a vida 
da invalidez, e queria que todos recordassem esse enterro como
um acontecimento.

Os padres reuniram os caseiros e os visitantes na escola, para
voltar a dar uma passagem nos esquecidos Evangelhos, e dizer
uma missa pelo descanso da alma de Pedro 
Garcia. Depois retiraram-se para o quarto que lhes tinham dado
na casa senhorial, enquanto os outros continuavam na patuscada
que tinha sido interrompida com a sua 
chegada. Essa noite, Blanca esperou que se calassem as
guitarras e o choro dos ndios e que todos fossem para a cama,
para saltar pela janela do quarto e enfiar 
na direco habitual, protegida pelas sombras. Tornou a
faz-lo durante as trs noites seguintes, at que os
sacerdotes se foram embora. Todos menos os seus pais 
souberam que Blanca se encontrava com um deles no rio. Era
Pedro Tercero Garcia, que no quis perder o funeral do av e
aproveitou a sotaina para falar aos trabalhadores 
casa por casa, explicando-lhes que as prximas eleies eram a
sua oportunidade de sacudir o jugo com que sempre tinham
vivido. Escutavam-no surpreendidos e confusos. 
O seu tempo media-se por estaes, os seus pensamentos por
geraes, eram lentos e prudentes. S os mais jovens, os que
tinham rdio e ouviam as notcias, os que 
s vezes iam  povoao e conversavam com os sindicalistas
podiam seguir o fio das suas ideias. Os restantes escutavam-no
porque o rapaz era o heri perseguido pelos 
patres, mas no fundo estavam convencidos de que dizia
loucuras.

- Se o patro descobre que vamos votar nos socialistas,
fodemo-nos - disseram.

- No pode saber! O voto  secreto - alegou o falso padre.

- Isso pensas tu, filho - respondeu Pedro Segundo, seu pai. -
Dizem que  secreto, mas depois sabem sempre em quem votamos.
Alm disso, se ganham os do teu partido, 
vo-nos pr na rua, no teremos trabalho. Eu vivi sempre aqui.
Que faria eu?

- No nos podem correr a todos, porque o patro perde mais que
vocs se vocs se vo embora - argumentou Pedro Tercero.

- No importa por quem vamos votar. Eles ganham sempre.

-  Mudem o voto - disse Pedro Tercero. - Mandaremos gente do
partido para controlar as mesas de voto e para verificar se as
urnas ficam seladas.

Mas os camponeses desconfiavam. A experincia havia-lhes
ensinado que o raposo acaba sempre por comer as galinhas,
apesar das baladas subversivas que andavam de 
boca em boca cantando o contrrio. Por isso, quando passou  o
comboio do novo candidato do Partido Socialista, um doutor
mope e carismtico que movia multides 
com o seu discurso inflamado, eles olharam-no da estao,
vigiados pelos patres que montavam um cerco  sua volta,
armados com caadeiras e cajados. Escutaram respeitosamente 
as palavras do candidato, mas no se atreveram a fazer-lhe nem
um gesto de saudao, excepto alguns braais que acudiram em
bando munidos de paus e picaretas, que 
o vitoriaram at se esganiarem porque eles no tinham nada a
perder, eram nmadas do campo, vagueavam pela regio sem
trabalho fixo nem famlia, sem amo e sem medo.

Pouco depois da morte e do memorvel enterro de Pedro Garcia,
o velho, Blanca comeou a perder as cores de ma e a sofrer
fadigas naturais que no eram produzidas 
por deixar de respirar e vmitos matinais que no eram
provocados por salmoura quente. Pensou que a causa estava no
excesso de comida, era a poca dos pssegos dourados, 
dos damascos, do milho tenro preparado em caarolas de barro e
perfumado com alfavaca, era o tempo de fazer as marmeladas e
as conservas para o Inverno. Mas o jejum, 
a maela, os purgantes e o repouso no a curaram. Perdeu o
entusiasmo pela escola, pela enfermaria e at pelos prespios
de barro, tornou-se mole e sonolenta, podia 
passar horas deitada  sombra olhando o cu, sem se interessar
por nada. A nica actividade que manteve foram as escapadas
nocturnas no rio com Pedro Tercero.

Jean de Satigny, que no se tinha dado por vencido no seu
assalto romntico, observava-a. Por discrio, passava umas
temporadas no hotel da povoao e fazia algumas 
viagens curtas  capital, donde regressava carregado de
literatura sobre as chinchilas, as suas gaiolas, o seu
alimento, as suas doenas, os seus mtodos reprodutivos, 
a forma de curtir-lhes a pele e, em geral, tudo o que dizia
respeito a esses pequenos animais cujo destino era
transformarem-se em estolas. Na maior parte do Vero, 
o conde foi hspede em Las Tres Marias. Era um visitante
encantador, bem educado, tranquilo e alegre. Tinha sempre uma
frase amvel na ponta dos lbios, celebrava 
a comida, divertia-os  tarde tocando piano no salo, onde
competia com Clara nos nocturnos de Chopin, e era uma fonte
inesgotvel de anedotas. Levantava-se tarde 
e passava uma ou duas horas dedicado ao seu arranjo pessoal,
fazia ginstica, trotava  volta da casa sem se importar com a
chacota dos rudes camponeses, remolhava-se 
na banheira de gua quente, e demorava-se muito a escolher a
roupa para cada ocasio. Era um esforo perdido, j que
ningum lhe apreciava a elegncia e, frequentemente, 
a nica coisa que conseguia com os trajes ingleses de montar,
os casacos de veludo e os chapus tiroleses com pena de faiso
era que Clara, com a melhor das intenes 
lhe oferecesse roupa mais apropriada para o campo. Jean no
perdia o bom humor, aceitava os sorrisos irnicos do dono da
casa, as ms caras de Blanca e a perene 
distraco  de Clara, que ao fim de um ano ainda continuava a
perguntar-lhe o nome. Sabia cozinhar algumas receitas
francesas, muito esmeradas e magnificamente 
apresentadas, com as quais contribua quando tinham
convidados. Era a primeira vez que viam um homem interessado
pela cozinha, mas supuseram que eram costumes europeus 
e no se atreveram a dizer-lhe piadas para no passar por
ignorantes. Nas suas viagens  capital, trazia, para alm do
respeitante s chinchilas, revistas de moda, 
os folhetins de guerra que se haviam popularizado para criar o
mito do soldado herico e novelas romnticas para Blanca. Nas
conversas  sobremesa referia-se, por 
vezes, com tom de mortal aborrecimento, aos seus Veres com a
nobreza europeia nos castelos de Liechtenstein ou na Costa
Azul. Nunca deixava de dizer que estava 
feliz por ter trocado tudo isso pelo encanto da Amrica.
Blanca perguntava-lhe por que razo no tinha escolhido as
Carabas, ou pelo menos um pais de mulatas, coqueiros 
e tambores, se o que buscava era o exotismo, mas ele achava
que no havia na terra outro sitio mais agradvel que aquele
pais esquecido do mundo. O francs no falava 
da vida pessoal, excepto para fornecer alguns indcios
imperceptveis que permitiam ao interlocutor astuto dar-se
conta do seu esplendoroso passado, da sua fortuna 
incalculvel e da sua nobre origem. No se conhecia com
certeza o seu estado civil, a sua idade, a sua famlia ou de
que parte da Frana provinha. Clara era da opinio 
que tanto mistrio era perigoso e tratou de desentranh-lo com
as cartas do tarot, mas Jean no permitiu que lhe tirassem a
sorte nem que lhe investigassem as 
linhas da mo. Nem sabia o seu signo do zodaco.

Para Esteban Trueba tudo isso no tinha importncia. Para ele
era suficiente que o conde estivesse disposto a entret-lo com
uma partida de xadrez ou de domin, 
que fosse habilidoso e simptico e nunca pedisse dinheiro
emprestado. Desde que Jean de Satigny visitava a casa, era
muito mais suportvel o aborrecimento do campo, 
onde s cinco da tarde no havia nada mais para fazer. Alm
disso, gostava que os vizinhos o invejassem por ter aquele
hspede distinto em Las Tres Marias.

Corria o boato de que Jean pretendia Blanca Trueba, mas nem
por isso deixou de ser o gal predilecto das mes
casamenteiras. Clara tambm o estimava, ainda que no 
tivesse nenhum clculo matrimonial. Por seu lado, Blanca
acabou por se acostumar  sua presena. Era to discreto e
suave no trato que pouco a pouco Blanca esqueceu 
a proposta matrimonial. Chegou a pensar que tinha sido uma
espcie de brincadeira do conde. Tornou a tirar os candelabros
de prata do armrio, a pr a mesa com a 
loia inglesa e a usar os vestidos da cidade nas tertlias da
tarde. Frequentemente, Jean convidava-a para ir  povoao ou
pedia-lhe que o acompanhasse nos seus 
numerosos convites sociais. Nessas oportunidades Clara tinha
de ir com eles, porque Esteban Trueba era inflexvel nesse
ponto: no queria que vissem a filha  sozinha 
com o francs. Em contrapartida, permitia-lhes passear sem
chaperon pela propriedade, desde que no se afastassem
demasiado e que regressassem antes de anoitecer. 
Clara dizia que se queriam cuidar da virgindade da jovem isso
era muito mais perigoso que ir tomar ch  herdade Uzctegui,
mas Esteban estava seguro de que no 
havia nada a temer de Jean, j que as suas intenes eram
nobres, tinha de precaver-se era das ms lnguas, que podiam
destroar a honra da filha. Os passeios campestres 
de Jean e de Blanca consolidaram uma boa amizade. Davam-se
bem. Gostavam ambos de sair a meio da manh a cavalo, com a
merenda no cesto e vrias malinhas de lona 
e couro com a bagagem de Jean. O conde aproveitava todas as
paragens para pr Blanca contra a paisagem e fotograf-la,
apesar de ela resistir um pouco porque se 
sentia vagamente ridcula. Esse sentimento justificava-se ao
ver os retratos revelados, onde aparecia com um sorriso que
no era o seu, numa postura incmoda e com 
um ar de infelicidade, devido, segundo Jean, a que no era
capaz de posar com naturalidade e, segundo ela, porque ele a
obrigava a pr-se torcida e aguentar a respirao 
durante longos segundos at que se imprimisse a chapa. De uma
maneira geral, escolhiam um lugar sombrio debaixo das rvores,
estendiam uma manta sobre a erva e sentavam-se 
para passar algumas horas. Falavam da Europa, de livros, de
histrias familiares de Blanca ou das viagens de Jean. Ela
ofereceu-lhe um livro do Poeta e ele entusiasmou-se 
tanto que aprendeu longas passagens de memria e podia recitar
os poemas sem vacilar. Dizia que era o melhor que se tinha
escrito em matria de poesia e que nem 
sequer no francs, o idioma das artes, havia alguma coisa que
pudesse comparar-se. No falavam dos seus sentimentos. Jean
era solicito, mas no suplicante ou insistente, 
pelo contrrio fraternal e brincalho. Beijava-lhe a mo para
se despedir, fazia-o com um olhar de escolar que dava todo o
romantismo ao gesto. Se lhe admirava um 
vestido, um guisado ou uma figura do prespio, o seu tom tinha
um sabor irnico que permitia interpretar a frase de muitas
maneiras. Se cortava flores para ela ou 
a ajudava a desmontar do cavalo, fazia-o com tal desenvoltura
que tornava o galanteio uma ateno de amigo. De qualquer
modo, para o prevenir, Blanca fez-lhe saber, 
sempre que se apresentou ocasio, que no casaria com ele nem
morta. Jean de Satigny sorria com o brilhante sorriso de
sedutor, sem dizer nada, e o mnimo que Blanca 
podia notar  que era muito mais gentil que Pedro Tercero.

Blanca no sabia que Jean a espiava. Tinha-a visto saltar pela
janela vestida de homem em muitas ocasies. Seguiu-a algum
tempo, mas voltava para trs, temendo que 
os ces o surpreendessem na escurido. Todavia, pela direco
que ela tomava, tinha concludo que ia sempre rumo ao rio.

Entretanto, Trueba no acabara de se decidir a respeito das
chinchilas. Como experincia, acedeu em instalar uma gaiola
com alguns casais daqueles  roedores, imitando 
em pequena escala a grande indstria modelo. Foi a nica vez
que se viu Jean de Satigny a trabalhar de mangas arregaadas.
No entanto, as chinchilas contraram uma 
doena prpria das ratazanas e foram morrendo em menos de duas
semanas. Nem sequer lhes puderam curtir as peles porque o plo
ps-se-lhes opaco e cala-lhes da pele 
como penas de ave molhada com gua a ferver. Jean viu
horrorizado os cadveres pelados, com as patas tesas e os
olhos brancos, deitando por terras as esperanas 
de convencer Esteban Trueba, que perdeu todo o entusiasmo pela
pelaria ao ver aquela mortandade.

- Se a peste tivesse dado  indstria modelo estaria
totalmente arruinado - concluiu Trueba.

Entre a peste das chinchilas e as escapadelas de Blanca, o
conde passou vrios meses ocupando o tempo. Comeava a estar
cansado daquelas diligncias e pensava que 
Blanca nunca se iria prender aos seus encantos. Vendo que o
criador de roedores nunca mais se decidia, resolveu que era
melhor precipitar as coisas antes que outro 
mais esperto ficasse com a herdeira. Alm disso, comeava a
gostar de Blanca, agora que estava mais robusta e com aquela
languidez que lhe tinha atenuado as maneiras 
de camponesa. Preferia as mulheres plcidas e opulentas, e a
viso de Blanca deitada sobre almofades observando o cu 
hora da sesta recordava-lhe a me. Por vezes, 
conseguia comov-lo. Jean aprendeu a adivinhar, por pequenos
pormenores imperceptveis para os outros, quando Blanca tinha
j planeada uma excurso nocturna ao rio. 
Nessas ocasies, a jovem ficava sem jantar, com o pretexto
duma dor de cabea, despedia-se cedo e tinha um brilho
estranho nas pupilas, uma impacincia e uma nsia 
nos gestos que ele conhecia. Uma noite decidiu segui-la at ao
fim, para terminar com aquela situao que ameaava
prolongar-se indefinidamente. Estava seguro que 
Blanca tinha um amante, mas acreditava que no podia ser nada
de srio. Pessoalmente, Jean de Satigny no tinha nenhum
preconceito em relao  virgindade, nem tinha 
posto a si prprio esse assunto quando decidiu pedi-la em
casamento. O que nele lhe interessava eram outras coisas, que
no se perderiam por um momento de prazer 
na margem do rio.

Depois de Blanca se retirar para o quarto e o resto da famlia
tambm, Jean de Satigny ficou sentado no salo, s escuras,
atento aos rudos da casa, at  hora 
em que calculou que ela saltasse pela janela. Ento saiu para
o ptio e ficou entre as rvores  espera dela. Esteve
escondido na sombra mais de meia hora, sem que 
nada de anormal perturbasse a paz da noite. Aborrecido de
esperar, dispunha-se a retirar-se quando reparou que a janela
de Blanca estava aberta. Viu que ela tinha 
saltado antes que ele se colocasse no jardim a vigi-la.

- Merde - resmungou em francs. 

Fazendo votos por que os ces no alertassem toda a casa com o
seu ladrar e no lhe saltassem em cima, dirigiu-se para o rio
pelo caminho que tinha visto Blanca 
tomar doutras vezes. No estava habituado a andar com o
calado fino pela terra lavrada nem a saltar pedras e ladear
charcos, mas a noite estava muito clara, com 
uma formosa lua cheia iluminando o cu com um resplendor
fantasmagrico e, mal lhe passou o medo de que aparecessem os
ces, pde apreciar a beleza do momento. Andou 
um bom quarto de hora antes de avistar os primeiros canaviais
da margem e ento redobrou de prudncia e aproximou-se mais
silenciosamente, tendo cuidado nos passos 
para no pisar ramos que o pudessem denunciar. A lua
reflectia-se na gua com um brilho de cristal e a brisa
abanava suavemente as canas e as copas das rvores. 
Reinava o mais completo silncio e por breves instantes teve a
iluso de que estava vivendo um sonho de sonmbulo, no qual ia
caminhando sem avanar, sempre no mesmo 
sitio encantado, onde o tempo se tinha detido e onde tentava
tocar as rvores, que pareciam estar ao alcance da mo, e
encontrava o vazio. Teve de fazer um esforo 
para recuperar o habitual estado de esprito, realista e
pragmtico. Num recanto da paisagem, entre grandes pedras
cinzentas iluminadas pela luz da Lua, viu-os, 
to perto que quase os podia tocar. Estavam nus. O homem
estava de costas, com a cara virada para o cu, com os olhos
fechados, mas no teve dificuldade em reconhecer 
o sacerdote jesuta que tinha ajudado  missa do funeral de
Pedro Garcia, o velho. Isso surpreendeu-o. Blanca dormia com a
cabea apoiada no ventre liso e moreno 
do amante. A tnue luz lunar punha reflexos metlicos nos seus
corpos e Jean de Satigny estremeceu ao ver a harmonia de
Blanca, que nesse momento lhe pareceu perfeita.

O elegante francs levou quase um minuto a abandonar o estado
de sonho em que a viso dos enamorados o tinha mergulhado, a
placidez da noite, a Lua e o silncio 
do campo, e ao dar-se conta de que a situao era mais grave
do que tinha imaginado. Na atitude dos amantes reconheceu o
abandono prprio dos que se conhecem h 
muito tempo. Aquilo no tinha um aspecto de aventura ertica
de Vero, como supusera, mas de um casamento da carne e do
esprito. Jean de Satigny no podia saber 
que Blanca e Pedro Tercero tinham dormido assim no primeiro
dia em que se conheceram e que o continuaram a fazer sempre
que puderam, ao longo desses anos, mas apesar 
disso percebeu-o por instinto. Procurando no fazer o mais
pequeno rudo que os pudesse alertar, deu meia volta e
regressou, pensando como encarar o assunto. Ao 
chegar a casa, j tinha tomado a deciso de contar tudo ao pai
de Blanca, porque a ira sempre pronta de Esteban Trueba lhe
pareceu o melhor meio para resolver o 
problema. Eles que se amanhem, pensou.

Jean de Satigny no esperou pela manh. Bateu  porta do
quarto do anfitrio e, antes que este conseguisse sair
completamente do sono, deu-lhe a sua verso. Disse 
que no podia dormir com o calor e que, para tomar ar,  tinha
caminhado distraidamente em direco ao rio e encontrara o
deprimente espectculo da sua futura noiva 
dormindo nos braos do jesuta barbudo, nus  luz da Lua. Por
um instante, isso desorientou Esteban Trueba, que no podia
imaginar sua filha deitada com o padre 
Jos Dulce Maria, mas em seguida percebeu o que se tinha
passado, da burla de que tinha sido vitima durante o enterro
do velho e de que o sedutor no podia ser outro 
seno Pedro Tercero Garcia, aquele maldito filho de uma cadela
que lho haveria de pagar com a vida. Vestiu as calas a toda a
pressa, calou as botas, ps a espingarda 
ao ombro e tirou da parede o cavalo marinho.

- O senhor espera-me aqui - ordenou ao francs, que de
qualquer modo no tinha nenhuma inteno de o acompanhar.

Esteban Trueba correu ao estbulo, montou no cavalo sem o
selar. Ia a espumar de indignao, com os ossos soldados
reclamando pelo esforo e o corao saltando no 
peito. Vou mat-los, aos dois, resmungava como uma ladainha.
Saiu para o caminho, na direco indicada pelo francs, mas
no teve necessidade de chegar ao rio, 
porque a meio encontrou Blanca, que regressava a casa
cantarolando, com o cabelo em desalinho, a roupa suja e o ar
feliz de quem no tinha nada que pedir  vida. 
Ao ver a filha, Esteban Trueba no pde conter o mau caracter
e correu para ela com o cavalo e o chicote no ar,
descarregando-lhe uma chicotada atrs da outra, at 
que a rapariga caiu e ficou estendida, imvel na lama. O pai
saltou do cavalo, sacudiu-a at a fazer voltar a si e
gritou-lhe todos os insultos conhecidos e outros 
inventados no arrebatamento da situao.

- Quem ? Diga-me o seu nome ou mato-a - exigiu-lhe.

- No lhe direi nunca - soluou ela.

Esteban Trueba compreendeu que aquele no era o sistema para
obter alguma coisa da filha, que tinha herdado a sua prpria
teimosia. Viu que se tinha excedido no 
castigo, como sempre. F-la subir para o cavalo e voltaram a
casa. O instinto, ou o alvoroo dos ces, acordaram Clara e os
criados, que esperavam  porta com todas 
as luzes acesas. A nica pessoa que no se viu por nenhum lado
foi o conde, que na confuso aproveitou para fazer as malas,
atrelar os cavalos ao coche e partir 
discretamente para o hotel da povoao.

- Que fizeste Esteban, por Deus! - exclamou Clara ao ver a
filha coberta de barro e sangue.

Clara e Pedro Segundo Garcia levaram Blanca em braos para a
cama. O administrador tinha empalidecido mortalmente, mas no
disse nem uma s palavra. Clara lavou 
a filha, aplicou-lhe compressas frias nas fontes e acarinhou-a
at que conseguiu tranquiliz-la. Depois deixou-a a dormir,
foi encontrar-se com o marido, que se 
tinha fechado no escritrio e passeava dando murros nas
paredes, dizendo maldies e dando pontaps nos mveis. Ao
v-la, Esteban dirigiu toda a fria contra ela, 
culpando-a de ter criado  Blanca sem moral, sem sentido de
classe, porque podia compreender-se se ela o tivesse feito com
algum bem-nascido, mas no com um labrego, 
um boal, um fantico, um ocioso, um intil.

- Devia t-lo morto quando lho prometi! Deitando-se com a
minha prpria filha! Juro que o vou procurar e quando o
agarrar capo-o, corto-lhe os tomates, ainda que 
seja a ltima coisa que faa na minha vida, juro por minha me
que ele se vai arrepender de ter nascido.

- Pedro Tercero Garcia no fez nada que tu prprio no tenhas
feito -  disse Clara, quando pde interromp-lo. - Tu tambm
te deitaste com mulheres solteiras que 
no so da tua classe. A diferena  que ele f-lo por amor, e
Blanca tambm.

Trueba olhou-a, imobilizado pela surpresa. Por um instante a
sua ira pareceu esvaziar-se e no quis acreditar no que ouvia,
mas imediatamente uma onda de sangue 
subiu-lhe  cabea. Perdeu o domnio e desferiu um murro na
cara da mulher, atirando-a contra a parede. Clara caiu sem um
grito. Esteban pareceu despertar de um 
transe, ajoelhou-se a seu lado, balbuciando, chorando, pedindo
desculpas e chamando-a pelos nomes ternos que s usava na
intimidade, sem compreender como tinha podido 
levantar a mo para ela, que era o nico ser que realmente lhe
importava e a quem nunca, nem mesmo nos piores momentos da sua
vida em comum, tinha deixado de respeitar. 
Levantou-a em braos, sentou-a carinhosamente num cadeiro,
molhou um leno para lhe pr na testa e fez-lhe beber um pouco
de gua. Por fim, Clara abriu os olhos. 
Deitava sangue pelo nariz. Quando abriu a boca, cuspiu vrios
dentes, que caram no cho, e um fio de saliva sangrenta
correu-lhe pelo queixo e pelo pescoo.

Clara, logo que pde levantar-se, afastou Esteban com um
empurro, ergueu-se com dificuldade e saiu do escritrio,
fazendo por caminhar de p. Do outro lado da porta 
estava Pedro Segundo Garcia, que conseguiu segur-la no
momento em que cambaleava. Ao senti-lo a seu lado, Clara
abandonou-se. Poisou a cara tumefacta no peito daquele 
homem que tinha estado a seu lado durante os momentos mais
difceis da sua vida e ps-se a chorar. A camisa de Pedro
Segundo Garcia tingiu-se de sangue.

Clara nunca mais na vida voltou a falar ao marido. Deixou de
usar o seu apelido de casada e tirou do dedo a fina aliana de
ouro que ele lhe tinha colocado, h mais 
de vinte anos, naquela noite memorvel em que Barrabs morreu
assassinado por uma faca de carniceiro.

Dois dias depois, Clara e Blanca abandonaram Las Tres Marias e
regressaram  capital. Esteban ficou humilhado e furioso, com
a sensao de que algo tinha partido 
para sempre da sua vida.

Pedro Segundo levou a patroa e a filha  estao. Desde aquela
noite, no tinha tornado a v-las e permanecia silencioso e
intratvel. Instalou-as no  comboio 
e ficou depois com o chapu na mo, de olhos baixos, sem saber
como despedir-se. Clara abraou-o. A princpio, ele manteve-se
rgido e desconcertado, mas logo foi 
vencido pelos prprios sentimentos e atreveu-se a envolv-la
com os braos e a dar-lhe um beijo imperceptvel no cabelo.
Olharam-se pela ltima vez atravs da janela 
e ambos tinham os olhos cheios de lgrimas. O fiel
administrador chegou  sua casa de tijolos, fez um embrulho
com os escassos pertences, meteu num leno o pouco 
dinheiro que tinha podido poupar em todos aqueles anos de
servio e partiu. Trueba viu-o despedir-se dos caseiros e
montar a cavalo. Tentou det-lo explicando-lhe 
que o que se tinha passado no tinha nada que ver com ele, que
no era justo que por culpa do filho perdesse o trabalho, os
amigos, a segurana.

- No quero estar aqui quando encontrar o meu filho, patro -
foram as ltimas palavras de Pedro Segundo Garcia antes de
partir a trote at  estrada.


Como me sentia sozinho, nessa altura! Ignorava que a solido
no mais me abandonaria e que a nica pessoa que tornaria a
estar perto de mim no resto da minha vida 
seria uma neta bomia e estroina, com o cabelo verde como
Rosa. Mas isso seria vrios anos mais tarde.

Depois da partida de Clara, olhei  volta e vi muitas caras
novas em Las Tres Marias. Os antigos companheiros de caminhada
estavam mortos ou tinham-se afastado. 
J no tinha nem minha mulher nem minha filha. O contacto com
os meus filhos era mnimo. Tinham falecido minha me, minha
irm, a boa Ama, Pedro Garcia, o velho. 
E tambm Rosa me veio  memria como uma dor inesquecvel. J
no podia contar com Pedro Segundo Garcia, que esteve a meu
lado durante trinta e cinco anos. Deu-me 
para chorar. As lgrimas caam-me, sozinhas, eu sacudia-as com
a mo, mas vinham outras. Vo todos para o caralho!, gritava
eu pelos cantos da casa. Passeava-me 
pelos quartos vazios, entrava no quarto de Clara e procurava
no seu roupeiro e na sua cmoda qualquer coisa que ela tivesse
usado para levar ao nariz e recuperar, 
ainda que fosse por um momento passageiro, o seu tnue odor a
limpeza. Estendia-me na sua cama, enfiava a cara na sua
almofada, acariciava os objectos que tinha 
deixado sobre o toucador e sentia-me profundamente desolado.

Pedro Tercero Garcia tinha toda a culpa do que se havia
passado. Por culpa dele Blanca tinha sado de junto de mim,
por causa dele eu tinha discutido com Clara, 
por causa dele Pedro Segundo tinha sado da propriedade, por
causa dele os caseiros olhavam-me com receio e cochichavam nas
minhas costas. Tinha sido sempre um revoltado 
e o que eu devia ter feito desde o princpio era corr-lo a
pontaps. Deixei passar o tempo por respeito ao pai e ao av e
o resultado foi que aquele ranhoso de 
merda me roubou o que eu mais  gostava no mundo. Fui ao posto
da aldeia do povo e subornei os carabineiros para me ajudarem
a procur-lo. Dei-lhes ordens de no 
o prenderem, mas de mo entregarem sem fazer escarcu. No bar,
no barbeiro, no clube e no Farolito Rojo, fiz saber que havia
uma recompensa para quem me entregasse 
o rapaz.

- Cuidado, patro. No se ponha a fazer justia por suas mos,
olhe que as coisas mudaram muito desde o tempo dos irmos
Sanchez - avisaram-me. Mas no quis escut-los. 
Que teria feito a justia nesse caso? Nada.

Passaram perto de quinze dias sem nenhuma novidade. Eu sala
para percorrer a propriedade, entrava nas terras vizinhas,
espiava os caseiros. Estava convencido de 
que me escondiam o rapaz. Aumentei a recompensa e ameacei os
carabineiros de os fazer destituir por incapazes, mas tudo foi
intil. Cada hora que passava aumentava-me 
a raiva. Comecei a beber como nunca o tinha feito, nem nos
meus tempos de solteiro. Dormia mal e tornei a sonhar com
Rosa. Uma noite sonhei que lhe batia como a 
Clara e que os seus dentes tambm calam no cho. Despertei aos
gritos, mas estava sozinho e ningum me podia ouvir. Estava
to deprimido que deixei de fazer a barba, 
no mudava de roupa, julgo que nem tomava banho. A comida
parecia-me amarga, tinha um sabor a blis na boca. Esfolei os
ns dos dedos esmurrando as paredes e rebentei 
um cavalo galopando para espantar a fria que me consumia as
entranhas. Nesses dias ningum se aproximava de mim, as
criadas serviam-me  mesa a tremer, o que me 
punha ainda pior.

Um dia, estava no corredor fumando um cigarro antes da sesta
quando se aproximou um menino moreno que ficou em frente de
mim em silncio. Chamava-se Esteban Garcia. 
Era meu neto, mas eu no o sabia, e s agora, devido s
terrveis coisas que ocorreram por obra sua, acabei por saber
do parentesco que nos une. Era tambm neto 
de Pancha Garcia, uma irm de Pedro Segundo, a quem na
realidade no recordo.

- O que  que queres, ranhoso? - perguntei ao menino.

- Eu sei onde est Pedro Tercero Garcia - respondeu-me.

Dei um salto to brusco que a cadeira de verga onde estava
sentado, se virou. Agarrei o rapaz pelos ombros e sacudi-o:

- Onde? Onde est esse maldito? - gritei-lhe.

- D-me a recompensa, patro? - balbuciou o menino
aterrorizado.

- T-la-s! Mas primeiro quero ter a certeza de que no me
ests a mentir. Vamos, leva-me onde est esse desgraado!

Fui buscar a espingarda e samos. O menino indicou-me que
tnhamos de ir a cavalo porque Pedro Tercero estava escondido
na serrao dos Lebus, a vrias milhas de 
Las Tres Marias. Como no me passou pela cabea que estivesse
ali? Era um esconderijo perfeito. Nessa poca do ano, a
serrao dos alemes estava fechada e ficava 
longe de todos os caminhos.

- Como soubeste que Pedro Tercero Garcia est l? 

-  Toda a gente o sabe, patro, menos o senhor - respondeu-me. 

Fomos a trote porque naquele terreno no se podia correr. A
serrao estava encravada numa ladeira da montanha e ali no
se podia forar muito os animais. No esforo 
para trepar, os cavalos arrancavam chispas nas pedras com os
cascos. Julgo que as suas pisadas eram o nico rudo da tarde
abafada e quieta. Ao entrar na zona dos 
bosques, mudou a paisagem e o ar refrescou, porque as rvores
erguiam-se em filas apertadas, fechando a entrada  luz do
Sol. O cho era uma almofada avermelhada 
e mole onde as patas dos cavalos se afundavam brandamente.
Ento o silncio rodeou-nos. O menino ia adiante, montado na
sua besta sem albarda, colado ao animal como 
se fossem um s corpo, e eu ia atrs, taciturno, ruminando a
minha raiva. Por momentos a tristeza invadia-me, era mais
forte que a clera que tinha estado incubada 
durante tanto tempo, mais forte que o dio que sentia por
Pedro Tercero Garcia. Deve ter passado um par de horas antes
de avistar os casebres baixos da serrao, 
distribudos em semicrculo numa clareira do bosque. Naquele
lugar, o cheiro da madeira e dos pinheiros era to intenso que
por um momento distrai-me do objectivo 
da viagem. Caram sobre mim a paisagem, o bosque, o silncio.
Mas essa fraqueza no durou mais que uns segundos.

- Espera aqui e cuida dos cavalos. No te movas.

Desmontei. O menino pegou nas rdeas do animal e eu parti
acaapado com a espingarda aperrada nas mos. No sentia os
sessenta anos nem as dores dos velhos ossos 
modos. Ia animado pela ideia de me vingar. De uma das casotas
sala uma pequena coluna de fumo, vi um cavalo amarrado 
porta, conclui que ali devia estar Pedro 
Tercero e dirigi-me para a casa dando uma volta. Os dentes
batiam-me com impacincia, ia pensando que no queria mat-lo
ao primeiro tiro porque isso seria muito 
rpido e o prazer ia-se embora num minuto, tinha esperado
tanto que queria saborear o momento de faz-lo em pedaos, mas
tambm no lhe podia dar uma oportunidade 
de escapar. Era muito mais jovem que eu e se no podia
surpreend-lo estava fodido. Levava a camisa empapada em suor,
pegada ao corpo, um vu cobria-me os olhos, 
mas sentia-me com vinte anos e com a fora de um touro. Entrei
no casebre arrastando-me silenciosamente, o corao a bater-me
como um tambor. Encontrei-me dentro 
de uma grande casa que tinha o cho coberto de serradura.
Havia grandes pilhas de madeira e mquinas tapadas com pedaos
de lona verde para as preservar do p. Avancei 
ocultando-me entre as pilhas de madeira, at que, de sbito, o
vi. Pedro Tercero Garcia estava deitado no cho, com a cabea
sobre uma manta dobrada, dormindo. A 
seu lado havia uma pequena fogueira de brasas sobre umas
pedras e uma panela para ferver gua. Parei sobressaltado e
pude observ-lo  vontade, com todo o dio do 
mundo, fazendo por fixar para sempre na minha memria esse
rosto  moreno, de feies quase infantis, onde a barba parecia
um disfarce, sem compreender que diabo 
tinha visto minha filha naquele cabeludo ordinrio. Tive de
fazer um grande esforo para controlar o tremor das mos e dos
dentes. Levantei a espingarda e avancei 
um par de passos. Estava to perto que podia fazer-lhe voar a
cabea sem apontar, mas decidi esperar uns segundos para que o
pulso se me tranquilizasse. Esse momento 
de vacilao perdeu-me. Creio que o hbito de se esconder
tinha afinado o ouvido a Pedro Tercero Garcia e o instinto
advertiu-o do perigo. Numa fraco de segundo 
deve ter tomado conscincia, mas ficou com os olhos fechados,
preparou todos os msculos contraiu os tendes e ps toda a
sua energia num salto formidvel que de 
um s impulso o deixou parado a um metro do sitio onde se
cravou a minha bala. No consegui apontar de novo, porque se
agachou, apanhou um pedao de madeira e atirou-mo, 
batendo em cheio na espingarda, que voou para longe. Recordo
que senti uma onda de pnico ao ver-me desarmado, mas
imediatamente me dei conta de que ele estava mais 
assustado do que eu. Observmo-nos em silncio, ofegando, cada
um esperava o primeiro movimento do outro para saltar. E ento
vi o machado. Estava to perto, que 
podia alcan-lo esticando apenas o brao, e foi isso que fiz
sem pensar duas vezes. Peguei no machado e com um grito
selvagem que me saiu do fundo das entranhas 
lancei-me contra ele, disposto a rach-lo de alto a baixo com
um s golpe. O machado brilhou no ar e caiu sobre Pedro
Tercero Garcia. Um jorro de sangue saltou-me 
 cara.

No ltimo instante levantou os braos para deter a machadada e
o fio da ferramenta decepou-lhe num pice trs dedos da mo
direita. Com o esforo, ca para a frente 
de joelhos. Ele levou a mo ao peito e saiu correndo, saltou
sobre as pilhas de madeira e os troncos espalhados pelo cho,
alcanou o cavalo, montou de um salto 
e perdeu-se com um grito terrvel entre as sombras dos
pinheiros. Deixou atrs de si um rego de sangue.

Fiquei de gatas no cho, arquejando. Levei vrios minutos a
acalmar-me e a compreender que no o tinha morto. A minha
primeira reaco foi de alvio porque, ao sentir 
o sangue quente que me atingira a cara, o dio despejou-se-me
subitamente, e tive de fazer um esforo para recordar por que
razo o queria matar, para justificar 
a violncia que me estava a afogar, que me fazia estalar o
peito, zumbir os ouvidos, que me turvava a vista. Abri a boca
desesperado, para meter ar nos pulmes, 
consegui pr-me de p, mas comecei a tremer, dei um par de
passos e cai sentado sobre um monto de tbuas, atordoado, sem
poder recuperar o ritmo da respirao. 
Julguei que ia desmaiar, o corao saltava-me no peito como
uma mquina enlouquecida. Deve ter passado muito tempo, no
sei. Por fim levantei os olhos, parei e apanhei 
a espingarda.

O menino Esteban Garcia estava a meu lado, olhando-me em
silncio.  Tinha apanhado os dedos cortados e pegava neles
como num molho de espargos sangrentos. No 
consegui evitar as nuseas, tinha a boca cheia de saliva,
vomitei manchando as botas, enquanto o garoto sorria
impassvel.

- Larga isso, ranhoso de merda! - gritei, batendo-lhe na mo.

Os dedos caram sobre a serradura, tingindo-a de vermelho.

Apanhei a espingarda e avancei cambaleando para a sada. O ar
fresco do entardecer e o perfume pesado dos pinheiros
bateram-me na cara, devolvendo-me o sentido da 
realidade. Respirei com avidez, de boca aberta. Caminhei at
ao cavalo com grande esforo, doa-me todo o corpo e tinha as
mos presas. O menino seguia-me.

Regressmos a Las Tres Marias procurando o caminho na
escurido, que cala rapidamente depois do pr do Sol. As
rvores dificultavam a marcha, os cavalos tropeavam 
nas pedras e nas moitas, os ramos atingiam-nos ao passar. Eu
estava como que no outro mundo, confundido e aterrado pela
minha prpria violncia, agradecido de que 
Pedro Tercero tivesse escapado, porque estava certo de que se
ele tivesse cado teria continuado a dar-lhe com o machado at
o matar, destroar, faz-lo em bocados, 
com a mesma deciso com que estava disposto a meter-lhe um
tiro na cabea.

Eu sei o que dizem de mim. Dizem, entre outras coisas, que
matei um ou vrios homens na minha vida. Culparam-me da morte
de alguns camponeses. No  verdade. Se 
o fosse, no me importaria de o reconhecer, porque na minha
idade essas coisas podem dizer-se impunemente. J me falta
muito pouco tempo para ser enterrado. Nunca 
matei um homem e quando mais perto estive de o fazer foi nesse
dia em que peguei no machado e me atirei a Pedro Tercero
Garcia.

Chegmos a casa  noite. Desci com dificuldade do cavalo e
caminhei at ao terrao. Tinha-me esquecido por completo do
menino que me acompanhava, porque em todo 
o trajecto no abriu a boca, por isso surpreendi-me ao sentir
que me puxava pela manga.

- Vai dar-me a recompensa, patro? - disse.

Despedi-o com um empurro.

- No h recompensa para os traidores que denunciam. Ah! E
probo-te que contes o que se passou! Ouviste-me? - grunhi.

Entrei em casa e fui directamente beber um gole da garrafa. O
conhaque queimou-me a garganta e devolveu-me algum calor.
Estendi-me depois no sof, arquejando. Ainda 
me batia desesperadamente o corao e estava enjoado. Com as
costas da mo limpei as lgrimas que me escorriam pelas faces.

L fora ficou Esteban Garcia, em frente da porta fechada. Como
eu, chorava de raiva.


Captulo VII

Os Irmos

Clara e Blanca chegaram  capital com o lamentvel aspecto de
duas sinistradas. Ambas tinham a cara inchada, os olhos
vermelhos de choro e a roupa amachucada pela 
longa viagem de comboio. Blanca, mais dbil que a me, apesar
de ser muito mais alta, jovem e pesada, suspirava acordada e
soluava a dormir, num lamento ininterrupto 
que se mantinha desde o dia da sova. Mas Clara no tinha
pacincia para a desgraa, de modo que ao chegar  grande casa
da esquina, que estava vazia e lgubre como 
um mausolu, decidiu que bastava de queixumes, que era altura
de alegrar a vida. Obrigou a filha a ajud-la na tarefa de
contratar novos criados, abrir os postigos, 
tirar os lenis que cobriam os mveis, as capas dos
candeeiros, os cadeados das portas, sacudir o p e deixar
entrar a luz e o ar. Estavam nisso quando o inconfundvel 
aroma das violetas silvestres invadiu a casa e assim souberam
que as trs irms Mora, avisadas pela telepatia ou
simplesmente pelo afecto, tinham chegado de visita. 
O falatrio feliz, as compressas de gua fria, os consolos
espirituais e o encanto natural conseguiram que a me e a
filha se recompusessem das contuses do corpo 
e das dores da alma.

-- Temos de comprar outros pssaros -- disse Clara olhando
pela janela as gaiolas vazias e o jardim por tratar, onde as
esttuas do Olimpo se erguiam cagadas pelos 
pombos.

-- No sei como pode pensar nos pssaros se lhe faltam os
dentes, mam -- observou Blanca, que no se acostumava ao novo
rosto desdentado da me.

Clara teve tempo para tudo. Em duas semanas tinha as antigas
gaiolas cheias de novos pssaros, e mandara fazer uma prtese
de porcelana que se fixava no lugar mediante 
um engenhoso mecanismo que a prendia aos molares que restavam,
mas o sistema resultou to incmodo que preferiu  usar a
dentadura postia pendurada no pescoo 
por uma fita. Punha-a s para comer e, s vezes, nas reunies
sociais. Clara voltou a dar vida  casa. Deu ordem 
cozinheira para manter o fogo sempre aceso e 
disse-lhe que deviam estar preparados para alimentar um nmero
variado de hspedes. Sabia por que o dizia. Poucos dias
depois, comearam a chegar os seus amigos 
rosa-cruzes, os espiritistas, os tesofos, os acupuncturistas,
os telepatas, os fabricantes de chuva, os peripatticos, os
adventistas do stimo dia, os artistas 
necessitados ou em desgraa e, por fim, todos os que
habitualmente constituam a sua corte. Clara reinava entre
eles como uma pequena soberana alegre e sem dentes. 
Nessa poca, comearam as suas primeiras tentativas srias
para comunicar com os extraterrestres, e, como ela anotou,
teve as primeiras dvidas relativamente  srie 
de mensagens espirituais que recebia atravs do pndulo ou da
mesa de p-de-galo. Ouviram-na dizer muitas vezes que talvez
no fossem as almas dos mortos que vagueavam 
noutra dimenso, mas simplesmente seres de outros planetas que
tentavam estabelecer uma relao com os terrqueos, mas que,
por serem feitos de uma matria impalpvel, 
facilmente se podiam confundir com as almas. Essa explicao
cientifica encantou Nicolau, mas no teve a mesma aceitao
entre as irms Mora, que eram muito conservadoras.

Blanca vivia alheia a essas dvidas. Os seres de outros
planetas entravam, para ela, na mesma categoria das almas e
no podia, portanto, compreender a paixo da 
me e dos outros em identific-los. Estava muito ocupada na
casa, porque Clara se desligou dos assuntos domsticos com o
pretexto de nunca ter tido aptides para 
eles. A grande casa da esquina requeria um exrcito de criados
para se manter limpa e o squito da me obrigava a ter turnos
na cozinha. Havia que cozinhar gros 
e ervas para uns, verduras e peixe para outros, frutas e leite
azedo para as trs irms Mora e suculentos pratos de carne,
doces e outros venenos para Jaime e Nicolau, 
que ainda no tinham adquirido as suas prprias manias. Com o
tempo ambos passariam fome: Jaime por solidariedade com os
pobres e Nicolau para purificar a alma. 
Mas nessa poca ainda eram dois robustos jovens ansiosos por
gozar os prazeres da vida.

Jaime tinha entrado na Universidade e Nicolau vagueava
procurando o seu destino. Tinham um automvel pr-histrico,
comprado com o produto das bandejas de prata 
que tinham roubado de casa dos pais. Baptizaram-no de
Covadonga, como recordao dos avs del Valle. Cova longa
tinha sido desmontado e tornado a montar tantas vezes 
com outras peas que mal podia andar. Deslocava-se com grande
estrpito do motor barulhento, cuspindo fumo e porcas pelo
tubo de escape. Os irmos partilhavam-no 
salomonicamente: nos dias pares usava-o Jaime e nos mpares
Nicolau.

Clara estava feliz por viver com os filhos e disps-se a
iniciar uma relao  amigvel. Tinha tido pouco contacto com
eles durante a sua infncia e, no af de 
que se fizessem homens, tinha perdido as melhores horas dos
filhos e procurara preservar-se de todas as ternuras. Agora
que estavam com propores adultas, feitos 
homens finalmente, podia dar-se ao gosto de mim-los como
devia ter feito quando eram pequenos, mas j era tarde, porque
os gmeos tinham-se criado sem as suas caricias 
e tinham acabado por no necessitar deles. Clara viu que no
lhe pertenciam. No perdeu a cabea nem a boa disposio.
Aceitou os jovens tal como eram e disps-se 
a gozar a sua presena sem pedir nada em troca.

Blanca, no entanto, refilava porque os irmos tinham
transformado a casa numa esterqueira.  sua passagem ficava um
rasto de desordem, atropelo e alvoroo. A jovem 
engordava a olhos vistos e parecia cada dia mais languida e
mal-humorada. Jaime olhou a barriga da irm e foi ter com a
me:

-- Julgo que Blanca est grvida, mam -- disse sem
prembulos.

-- J o imaginava, filho -- suspirou Clara.

Blanca no negou e, uma vez confirmada a notcia, Clara
escreveu-o com a sua redonda caligrafia no caderno de anotar a
vida. Nicolau levantou os olhos das prticas 
do horscopo chins e sugeriu que tinham de diz-lo ao pai,
porque dentro de um par de semanas o assunto j no poderia
disfarar-se e toda a gente iria saber.

-- Nunca direi quem  o pai! -- disse Blanca com firmeza.

-- No me refiro ao pai da criana, mas ao nosso -- disse o
irmo. -- O pap tem o direito a sab-lo por ns, antes que
lhe conte outra pessoa.

-- Mandem um telegrama para o campo -- sugeriu Clara
tristemente. Tinha a certeza de que, logo que Esteban Trueba
soubesse, o beb de Blanca se tornaria numa tragdia.

Nicolau redigiu a mensagem com o mesmo esprito criptogrfico
com que fazia versos a Amanda, para que a telegrafista do
povoado no pudesse perceber o telegrama 
e propagar o mexerico: Envie instrues em cinta branca.
Ponto. Tal como a telegrafista, Esteban Trueba no conseguiu
decifr-lo e teve de telefonar para a sua 
casa da capital a fim de se inteirar do assunto. Coube a Jaime
explicar o caso e acrescentou que a gravidez estava to
avanada que no podiam pensar em nenhuma 
soluo drstica. Do outro lado da linha houve um longo e
terrvel silncio e depois o pai pendurou o auscultador. Em
Las Tres Marias, Esteban, lvido de surpresa 
e de raiva, pegou na bengala e partiu o telefone pela segunda
vez. Nunca lhe tinha ocorrido a ideia de que uma filha sua
pudesse cometer um disparate to monstruoso. 
Sabendo quem era o pai, levou menos de um segundo a
arrepender-se de no lhe ter metido uma bala na cabea quando
teve a oportunidade. Estava certo  que o escndalo 
seria igual se ela desse  luz um bastardo, ou se se casasse
com o filho de um campons: a sociedade conden-la-ia ao
ostracismo em qualquer dos dois casos.

Esteban Trueba passou vrias horas s voltas pela casa em
grandes passadas, dando bengaladas nos mveis e nas paredes,
murmurando maldies entredentes e forjando 
planos disparatados que iam desde mandar Blanca para um
convento na Estremadura at mat-la com pancada. Finalmente,
quando se acalmou um pouco, veio-lhe uma ideia 
salvadora  cabea. Mandou selar o cavalo e foi a galope at 
povoao.

Encontrou Jean de Satigny, a quem no tinha voltado a ver
desde a infortunada noite em que o despertara para lhe contar
os namoricos de Blanca, bebendo sumo de melo 
sem acar na nica pastelaria da povoao, acompanhado pelo
filho de Indalcio Aguirrazbal, um pedante luzidio que falava
com voz aflautada e recitava Rubn Daro. 
Sem nenhum respeito, Trueba levantou o conde francs pelas
bandas do casaco escocs e retirou-o da pastelaria,
praticamente pendurado, face aos olhares atnitos 
dos outros clientes, pondo-o no meio do passeio.

-- Jovem, voc j me deu bastantes problemas. Primeiro as suas
malditas chinchilas e depois a minha filha. J me cansei.
Traga as suas tralhas porque vai para a 
capital comigo, casar com Blanca.

No lhe deu tempo de se refazer da surpresa. Acompanhou-o ao
hotel da povoao, onde esperou com o chicote numa mo e a
bengala na outra, enquanto Jean de Satigny 
fazia as malas. Depois levou-o directamente  estao e f-lo
subir, sem mais explicaes, para o comboio. Durante a viagem,
o conde quis explicar-lhe que no tinha 
nada que ver com aquele assunto e que nunca tinha posto nem um
dedo em cima de Blanca Trueba, que provavelmente o responsvel
pelo sucedido era o frade barbudo com 
quem Blanca se encontrava de noite na margem do rio. Esteban
Trueba fulminou-o com o olhar mais feroz:

-- No sei de que ests a falar, meu filho. Deves ter sonhado
com isso -- disse-lhe.

Trueba comeou a explicar-lhe as clusulas do contrato
matrimonial, o que tranquilizou bastante o francs. O dote de
Blanca, a sua renda mensal e as perspectivas 
de herdar uma fortuna tornavam-na um bom partido.

-- Como v, este  melhor negcio do que as chinchilas --
concluiu o futuro sogro sem prestar ateno  choradeira
nervosa do jovem.

Foi assim que, no sbado, Esteban Trueba chegou  grande casa
da esquina, com um marido para a filha desflorada e um pai
para o pequeno bastardo. Deitava chispas 
de raiva. Com um murro tombou a jarra com crisntemos da
entrada, deu um bofeto a Nicolau que tentou interceder para
explicar a situao e anunciou aos gritos que 
no queria ver Blanca e que ela devia ficar  fechada at ao
dia do matrimnio. Clara no apareceu para o receber. Ficou no
quarto e no abriu a porta nem mesmo 
quando ele partiu a bengala de prata s pancadas na porta.

A casa entrou num turbilho de actividade e de lutas. O ar
parecia irrespirvel e at os pssaros se calaram nas gaiolas.
Os criados corriam s ordens daquele patro 
ansioso e brusco que no admitia demoras para fazer cumprir os
seus desejos. Clara continuou a fazer a mesma vida, ignorando
o marido e negando-se a dirigir-lhe 
a palavra. O noivo, praticamente prisioneiro do futuro sogro,
foi instalado num dos numerosos quartos de hspedes, onde
passava o dia dando voltas sem nada para 
fazer, sem ver Blanca e sem compreender como tinha ido parar
quele folhetim. No sabia se havia de lamentar-se por ser
vtima daqueles brbaros indgenas ou de 
alegrar-se por poder cumprir o sonho de casar com uma herdeira
sul-americana jovem e formosa. Como era de temperamento
optimista e estava dotado de sentido prtico, 
prprio dos da sua raa, optou pela segunda atitude e no
decorrer da semana foi-se tranquilizando.

Esteban Trueba marcou a data do matrimnio para dali a quinze
dias. Decidiu que a melhor forma de evitar o escndalo era
fazer uma boda espectacular. Queria ver 
a filha casada pelo bispo, com vestido branco e uma cauda de
seis metros levada por pagens e donzelas, fotografada na
crnica social do jornal, queria uma festa 
caligulesca e suficiente espavento e gastos para que ningum
reparasse na barriga da noiva. A nica pessoa que o secundou
nos seus planos foi Jean de Satigny.

No dia em que Esteban chamou a filha para a mandar  modista
provar o vestido de noiva era a primeira vez que a via desde a
noite da sova. Espantou-se de a ver gorda 
e com manchas na cara.

-- No me vou casar, pai -- disse ela.

-- Cale-se! -- rugiu ele. -- Vai-se casar porque eu no quero
bastardos na famlia, est a ouvir-me?

-- Julgava que j tnhamos vrios -- respondeu Blanca.

-- No me responda! Quero que saiba que Pedro Tercero Garcia
est morto. Matei-o com as minhas prprias mos, por isso
esquea-o e trate de ser uma esposa digna 
do homem que a leva ao altar.

Blanca desatou a chorar e continuou chorando incansavelmente
nos dias que se seguiram.

O casamento que Blanca no desejava celebrou-se na catedral,
com a bno do bispo e um vestido de rainha feito pelo melhor
costureiro do pas que fez milagres para 
dissimular o ventre proeminente da noiva com uma guarnio de
flores e pregas greco-romanas. A boda terminou com uma festa
espectacular, com quinhentos convidados 
em traje de gala, que invadiram a casa da esquina, animada por
uma orquestra de msicos contratados, com uma  enormidade de
reses temperadas com ervas finas, mariscos 
frescos, caviar do Bltico, salmo da Noruega, aves trufadas,
um rio de bebidas exticas, um jorro inacabvel de champanhe,
um esbanjamento de doces, suspiros, mil-folhas, 
claires, polvilhados, grandes taas de cristal com fruta
cristalizada, morangos da Argentina, cocos do Brasil, papaias
do Chile, ananases de Cuba e outras delcias 
impossveis de recordar, sobre uma mesa compridssima que dava
volta ao jardim e terminava num bolo descomunal de trs
andares, fabricado por um artfice italiano 
originrio de Npoles, amigo de Jean de Satigny, que
transformou humildes materiais, como ovos, farinha e acar,
numa rplica da Acrpole, coroada por uma nuvem 
de merengue, onde repousavam dois amantes mitolgicos, Vnus e
Adnis, feitos com pasta de amndoa tingida, para imitar o tom
rosado da carne, o louro dos cabelos, 
o azul cobalto dos olhos, acompanhados por um Cupido gorducho,
tambm comestvel, e que foi partido com uma faca de prata
pelo noivo orgulhoso e pela noiva desolada.

Clara, que desde o principio se opusera  ideia de casar
Blanca contra a sua vontade, decidiu no assistir  festa.
Ficou na sala de costura elaborando tristes previses 
para os noivos, que se cumpriram  letra como todos puderam
comprovar mais tarde, at que o marido lhe foi suplicar que
mudasse de roupa e aparecesse no jardim, 
nem que fosse s por dez minutos, para calar os murmrios dos
convidados. Clara f-lo de muito m vontade, mas, por carinho
pela filha, ps os dentes e procurou 
sorrir a todos os presentes.

Jaime chegou no final da festa, porque ficou a trabalhar no
hospital dos pobres, onde iniciava os primeiros estudos de
medicina. Nicolau chegou acompanhado pela 
bela Amanda, que acabava de descobrir Sartre e tinha adoptado
o ar fatal das existencialistas europeias, toda de negro,
plida, com os olhos arroxeados, pintados 
com khol, o cabelo escuro solto at  cintura e uma chocalhada
de colares, pulseiras e brincos que provocavam admirao  sua
passagem. Por seu lado, Nicolau estava 
vestido de branco, como um enfermeiro, com amuletos pendurados
no pescoo. O pai foi ao seu encontro, agarrou-o por um brao
e introduziu-o  viva fora na casa 
de banho, onde lhe arrancou os talisms sem contemplaes.

-- V ao seu quarto e ponha uma gravata decente! Volte  festa
e porte-se como um cavalheiro! No lhe passe pela cabea
pregar alguma religio hereje entre os convidados 
e diga a essa bruxa que o acompanha que feche o decote! --
ordenou Esteban ao filho.

Nicolau obedeceu de pssimo humor. Por princpio era abstmio,
mas de raiva bebeu uns copos, perdeu a cabea e atirou-se
vestido para o tanque do jardim, de onde 
tiveram de pesc-lo com a dignidade ensopada.

Blanca passou toda a noite numa cadeira observando o bolo, com
expresso alheada e chorando, enquanto o seu flamante esposo
circulava entre os convidados explicando 
a ausncia da sogra com um ataque de asma e o pranto  da noiva
com a emoo da boda. Ningum o acreditou. Jean de Satigny
dava beijos no pescoo de Blanca, pegava-lhe 
na mo e procurava consol-la com golos de champanhe e
lagostins escolhidos amorosamente e servidos pela sua prpria
mo, mas tudo foi intil, ela continuava chorando. 
Apesar de tudo, a festa foi um acontecimento, tal como tinha
planeado Esteban Trueba. Comeram e beberam opiparamente e
viram chegar o nascer do Sol bailando ao som 
da orquestra, enquanto no centro da cidade os grupos de
desempregados se aqueciam em pequenas fogueiras feitas com
jornais, bandos de jovens com camisas cinzentas 
desfilavam saudando com o brao estendido, como tinham visto
nos filmes sobre a Alemanha, e nas sedes dos partidos
polticos se davam os ltimos retoques para a 
campanha eleitoral.

-- Vo ganhar os socialistas -- tinha dito Jaime, que, de
tanto conviver com o proletariado no hospital dos pobres,
andava alucinado.

-- No, filho, vo ganhar os de sempre -- respondeu Clara, que
vira tudo nos baralhos e o tinha confirmado pelo senso comum.

Depois da festa, Esteban Trueba levou o genro  biblioteca e
estendeu-lhe um cheque. Era o seu presente de casamento. Tinha
tratado de tudo para que o casal fosse 
para o Norte, onde Jean de Satigny pensava instalar-se
comodamente a viver das rendas da mulher, longe dos
comentrios da gente observadora que no deixaria de reparar 
no ventre prematuro. Tinha em mente um negcio de cntaros
incas e de mmias indgenas.

Antes de abandonar a festa, os recm-casados foram despedir-se
da me. Clara chamou Blanca  parte, que no tinha parado de
chorar e falou-lhe em segredo:

-- Deixa de chorar, filhinha. Tantas lgrimas faro mal 
criana e talvez no venha a ser feliz -- disse Clara.

Blanca respondeu com outro soluo.

-- Pedro Tercero Garcia est vivo, filha -- acrescentou Clara.

Blanca engoliu o soluo e assoou o nariz.

-- Como sabe isso, mam? -- perguntou.

-- Porque o sonhei -- respondeu Clara.

Aquilo foi suficiente para tranquilizar Blanca completamente.
Enxugou as lgrimas, endireitou a cabea e no tornou a chorar
at ao dia em que morreu a me, sete 
anos mais tarde, apesar de no lhe faltarem dores, saudades e
outras razes.


Separada da filha, a quem tinha estado sempre muito unida,
Clara entrou noutro dos seus perodos confusos e depressivos.
Continuou a fazer a mesma vida, com a grande 
casa aberta e sempre cheia de gente, com reunies de
espiritualistas e seres literrios, mas perdeu a capacidade
de se rir com facilidade e  ficava amide a olhar 
fixamente em frente, perdida nos seus pensamentos. Tentou
estabelecer com Blanca um sistema de comunicao directa que
lhe permitisse superar os atrasos do correio, 
mas a telepatia nem sempre funcionava, e no havia a certeza
de uma boa recepo da mensagem. Pude comprovar que as suas
comunicaes se embrulhavam em interferncias 
incontrolveis, ouvindo-se coisas bem diferentes do que ela
tinha querido transmitir. Alm disso, Blanca no era permevel
s experincias psquicas e, apesar de 
ter estado sempre muito perto da me, nunca demonstrou a menor
curiosidade pelos fenmenos da mente. Era uma mulher prtica,
terrena e desconfiada, e a sua natureza 
moderna e pragmtica um grande obstculo para a telepatia.
Clara teve de se resignar a usar mtodos convencionais. Me e
filha escreviam uma  outra quase todos 
os dias e a sua volumosa correspondncia substituiu por vrios
meses os cadernos de anotar a vida. Dessa maneira Blanca sabia
tudo o que sucedia na casa grande da 
esquina e podia brincar com a iluso de que ainda estava com a
famlia e que o casamento era s um mau sonho.

Nesse ano, os caminhos de Jaime e Nicolau distanciaram-se
definitivamente, porque as diferenas entre os irmos eram
irreconciliveis. Nicolau andava por essa altura 
com a novidade do flamenco, que dizia ter aprendido com os
ciganos nas grutas de Granada, ainda que na realidade nunca
tivesse sado do pais, mas a sua convico 
era tal que at no seio da prpria famlia comearam a
duvidar.  menor provocao fazia uma demonstrao. Saltava
para cima da mesa da sala de jantar, para a mesa 
de carvalho que tinha servido para fazer o velrio de Rosa
muitos anos antes e que Clara tinha herdado, e comeava a
bater palmas como um maluco, a sapatear espasmodicamente, 
a dar saltos e gritos agudos, at conseguir atrair todos os
habitantes da casa, alguns vizinhos e numa ocasio at os
carabineiros, que chegaram com os casse-ttes 
na mo, enlameando as alcatifas com as botas, mas que acabaram
como todos os outros, aplaudindo e gritando ol. A mesa
resistiu heroicamente, embora ao fim de uma 
semana tivesse a aparncia de uma banca de talho usada para
esquartejar bezerros. A dana flamenca no tinha nenhuma
utilidade prtica na fechada sociedade da capital 
da altura, mas Nicolau ps um discreto anncio no jornal
oferecendo os seus servios como professor dessa fogosa dana.
No dia seguinte tinha uma aluna e numa semana 
tinha corrido o rumor do seu encanto. As raparigas acudiam em
grupos, a princpio envergonhadas e tmidas, mas ele comeava
a rodopiar  sua volta, a sapatear enlaando-as 
pela cintura, a sorrir-lhes com o seu estilo de sedutor e em
pouco tempo conseguia entusiasm-las. As aulas foram um xito.
A mesa da sala de jantar estava quase 
a desfazer-se em pedaos, Clara comeou a queixar-se de
enxaquecas e Jaime passava o tempo fechado no quarto tentando
estudar com duas bolas de cera nos ouvidos. 
Quando Esteban Trueba soube o que se  passava em casa durante
a sua ausncia, teve uma justa e terrvel clera e proibiu o
filho de usar a casa como academia de 
dana flamenca ou de qualquer outra coisa. Nicolau teve de
desistir das contores, mas a experincia serviu-lhe para se
tornar o jovem mais popular da temporada, 
o rei das festas e de todos os coraes femininos porque,
enquanto os outros estudavam, se vestiam com casacos cinzentos
assertoados e cofiavam o bigode ao ritmo 
dos boleros, ele praticava o amor livre, citava Freud, bebia
Pernod e danava flamenco. O xito social, no entanto, no
conseguiu diminuir-lhe o interesse pelas 
habilidades psquicas da me. Tentava em vo imit-la.
Estudava com veemncia, praticava at pr em perigo a sade e
assistia s reunies das sextas-feiras com as 
trs irms Mora, apesar da proibio expressa da me, que
insistia na ideia de que aquilo no era assunto de homens.
Clara fazia por o consolar dos fracassos:

-- Isto no se aprende nem se herda, meu filho -- dizia,
quando o via concentrar-se at ficar vesgo no esforo
desproporcionado para mover o saleiro sem lhe tocar.

As trs irms Mora gostavam muito do rapaz. Emprestavam-lhe
livros secretos e ajudavam-no a decifrar os cdigos dos
horscopos e das cartas de adivinhar. Sentavam-se 
 volta dele, de mos dadas, para o trespassar de fluidos
benficos, mas nem isso conseguiu dotar Nicolau de poderes
mentais. Ampararam-no nos amores com Amanda. 
No comeo a jovem pareceu fascinada com a mesa de p-de-galo e
com os artistas guedelhudos da casa de Nicolau, mas em breve
se cansou de evocar fantasmas e de recitar 
o Poeta, cujos versos andavam de boca em boca, comeando a
trabalhar como reprter num jornal.

-- Isso  uma profisso de palhao -- disse Esteban Trueba ao
tomar conhecimento.

Trueba no sentia simpatia por ela. No gostava de a ver em
sua casa. Pensava que era uma m influncia para o filho e
tinha a ideia de que o cabelo comprido, os 
olhos pintados e as missangas eram sintomas de algum vcio
oculto, e que a sua tendncia para tirar os sapatos e se
sentar no cho de pernas cruzadas, como uma indgena, 
eram maneiras de machona.

Amanda tinha uma viso muito pessimista do mundo e para
suportar as depresses, fumava haxixe. Nicolau acompanhava-a.
Clara notou que o seu filho passava por maus 
momentos, mas nem sequer a sua prodigiosa intuio lhe
permitiu relacionar os cachimbos orientais que Nicolau fumava
com os seus desvios delirantes, a suas modorras 
ocasionais e os ataques de injustificada alegria, porque nunca
tinha ouvido falar daquela droga nem de nenhuma outra. So
coisas da idade, h-de passar-lhe, dizia 
quando o via actuar como um luntico, sem se lembrar que Jaime
tinha nascido no mesmo dia e no tinha nenhum desses
desvarios. 

As loucuras de Jaime eram de estilo muito diferente. Tinha
vocao para o sacrficio e a austeridade. No seu roupeiro s
tinha trs camisas e duas calas. Clara 
passava o Inverno a tecer  pressa prendas de l grosseira,
para o ter agasalhado, mas ele usava-as s at que outro mais
necessitado lhe aparecesse pela frente. 
Todo o dinheiro que lhe dava o pai ia parar aos bolsos dos
indigentes que atendia no hospital. Sempre que algum co
esqueltico o seguia na rua, asilava-o em casa, 
e quando sabia da existncia de um menino abandonado, de uma
me solteira ou de uma velhinha sozinha que necessitassem da
sua proteco, chegava com eles para a 
me tomar conta do caso. Clara tornou-se uma especialista em
assistncia social, conhecia todos os servios do Estado e da
Igreja onde se podiam instalar os infelizes 
e, quando tudo isso faltava, acabava por aceit-los em casa.
As amigas tinham-lhe medo, porque todas as vezes que aparecia
de visita era porque tinha alguma coisa 
a pedir-lhes. Desta maneira se alargou a rede dos protegidos
de Clara e Jaime, que j tinham perdido o conto da gente que
ajudavam, de tal maneira que era uma surpresa 
que aparecesse algum a agradecer-lhe um favor que no
recordavam ter feito. Jaime comeou os seus estudos de
medicina com uma vocao religiosa. Parecia-lhe que 
qualquer diverso que o afastasse dos livros ou lhe roubasse o
tempo era uma traio  humanidade que tinha jurado servir.
Este menino devia ter ido para padre, 
dizia Clara. Para Jaime, a quem os votos de humildade, pobreza
e castidade do sacerdote nada diziam, a religio era a causa
de metade das desgraas do mundo, por 
isso quando a me manifestava essa opinio punha-se furioso.
Dizia que o cristianismo, como quase todas as supersties,
tornava o homem mais dbil e resignado e 
que no havia que esperar uma recompensa no cu, mas sim lutar
pelos seus direitos na terra. Estas coisas discutia-as a ss
com a me, porque era impossvel faz-lo 
com Esteban Trueba, que perdia rapidamente a pacincia e
acabava aos gritos e a atirar com as portas, porque, como ele
dizia, j estava farto de viver entre doidos 
varridos e a nica coisa que queria era um pouco de
normalidade, mas tinha tido a m sorte de se casar com uma
excntrica e de engendrar trs chanfrados que no 
serviam para nada e que lhe amarguravam a existncia. Jaime
no discutia com o pai. Passava pela casa como uma sombra,
dava um beijo distrado  me quando a via 
e dirigia-se directamente  cozinha, comia de p as sobras dos
outros e fechava-se logo a seguir no quarto a ler ou a
estudar. O quarto era um tnel de livros, todas 
as paredes estavam cobertas desde o cho at ao tecto, com
estantes de madeira cheias de volumes que ningum limpava,
porque ele fechava a porta  chave. Eram ninhos 
ideais para as aranhas e para os ratos. No meio da diviso
estava a cama, uma tarimba de recruta, iluminada por uma
lmpada descoberta pendurada do tecto sobre a 
cabeceira. Durante um tremor de terra que Clara no previu por
esquecimento, sentiu-se um estrpito de comboio descarrilado
e, quando  puderam abrir a porta, viram 
que a cama estava enterrada debaixo de uma montanha de livros.
As estantes tinham tombado, deixando Jaime deitado debaixo
delas. Retiraram-no sem uma beliscadura. 
Enquanto clara tirava os livros, recordava-se do terramoto e
pensava que j tinha vivido esse momento. A ocasio serviu
para sacudir o p ao quarto e espantar GS 
bichos e passares  vassourada.

As nicas vezes que Jaime afinava o olhar para perceber a
realidade era quando via passar Amanda pela mo de Nicolau.
Muito poucas vezes lhe dirigia a palavra e 
corava violentamente se ela o fazia. Desconfiava da sua
aparncia extica e estava convencido de que, se ela se
penteasse como toda a gente e tirasse a pintura dos 
olhos, ficaria como um rato magro e verdoso. No entanto, no
podia deixar de a olhar. A chocalhada das pulseiras que
acompanhava a jovem distraia-o dos seus estudos 
e tinha de fazer um grande esforo para no a seguir pela casa
como uma galinha hipnotizada. Sozinho, na cama, sem poder
concentrar-se na leitura, imaginava Amanda 
nua, envolta no cabelo preto, com todos os seus adornos
ruidosos, como um dolo. Jaime era um solitrio. Foi um menino
intratvel e mais tarde um homem tmido. No 
gostava de si prprio e talvez por isso pensasse que no
merecia o amor dos outros. A menor demonstrao de solicitude
ou agradecimento para com ele envergonhava-o 
e fazia-o sofrer. Amanda representava a essncia de tudo o que
era feminino e, por ser a companheira de Nicolau, de tudo o
que era proibido. A personalidade livre, 
afectuosa e aventureira da rapariga fascinava-o e o seu
aspecto de rato disfarado provocava nele uma nsia
atormentada de a proteger. Desejava-a dolorosamente, 
mas nunca se atreveu a admiti-lo, nem no pas secreto dos seus
pensamentos.

Nessa poca, Amanda frequentava muito a casa dos Trueba: No
jornal tinha um horrio flexvel e, sempre que podia, chegava
 grande casa da esquina com o seu irmo 
Miguel, sem que a presena de ambos chamasse a ateno naquela
grande casa sempre cheia de gente e actividade. Miguel teria
ento  roda de cinco anos, era discreto 
e limpo, no fazia rebolio, passava despercebido,
confundindo-se com o desenho do papel das paredes e com os
mveis, brincava sozinho no jardim e seguia Clara por 
toda a casa chamando-lhe mam. Por isso, e porque chamava pap
a Jaime, supuseram que Amanda e Miguel eram rfos. Amanda
andava sempre com o irmo, levava-o para 
o trabalho, habituou-o a comer de tudo a qualquer hora e a
dormir estendido nos lugares mais incmodos. Rodeava-o de uma
ternura apaixonada e violenta, coava-o 
como se fosse um cozinho, gritava-lhe quando se zangava e
corria depois a abra-lo. No deixava que ningum
repreendesse ou desse uma ordem ao irmo, no aceitava 
comentrios sobre a estranha vida que o fazia levar e
defendia-o como uma leoa, ainda que ningum tivesse intenes
de o atacar. A nica pessoa a quem permitia dar 
opinies sobre a educao de  Miguel era a Clara, que a
conseguiu convencer de que tinha de o mandar para a escola
para no ser um eremita analfabeto. Clara no 
era especialmente partidria da educao regular, mas pensou
que no caso de Miguel era necessrio dar-lhe algumas horas
dirias de disciplina e convivncia com crianas 
da sua idade. Ela prpria se encarregou de o matricular, de
lhe comprar o material escolar e o uniforme, e acompanhou
Amanda quando o foi deixar na escola no primeiro 
dia de aulas.  porta do infantrio, Amanda e Miguel
abraaram-se chorando, sem que a professora conseguisse
separar o menino das saias da irm, a que se agarrou 
com unhas e dentes, berrando e aos pontaps desesperados a
quem se aproximasse. Por fim, ajudada por Clara, a professora
conseguiu arrastar o menino para dentro 
fechando a porta do colgio. Amanda ficou toda a manh sentada
no muro. Clara acompanhou-a porque se sentia culpada de tanta
dor e comeava a duvidar da sabedoria 
da sua iniciativa. Ao meio-dia tocou a sineta e o porto
abriu-se. Viram sair um rebanho de escolares e entre eles, em
ordem, calado e sem lgrimas, com um risco 
de lpis no nariz e as pegas metidas pelos sapatos, ia o
pequeno Miguel, que nessas poucas horas tinha aprendido a
andar na vida sem ser pela mo da irm. Amanda 
apertou-o contra o peito freneticamente e numa inspirao de
momento disse: Daria a vida por ti, Miguelito. No sabia que
um dia teria de faz-lo.


Entretanto, Esteban Trueba sentia-se cada vez mais sozinho e
furioso. Resignou-se  ideia de que a mulher no voltaria a
dirigir-lhe a palavra e, cansado de a perseguir 
pelos cantos, de lhe suplicar com o olhar e de fazer buracos
nas paredes da casa de banho, decidiu dedicar-se  poltica.
Tal como Clara tinha previsto, os mesmos 
de sempre ganharam as eleies, mas por uma margem to escassa
que todo o pas se alertou. Trueba considerou que era o
momento de sair em defesa dos interesses da 
Ptria e do Partido Conservador, j que ningum melhor do que
ele podia encarnar o poltico honesto e incorruptvel, como
ele prprio dizia, acrescentando que tinha 
subido pelo seu prprio esforo, dando trabalho e boas
condies de vida aos empregados, dono da nica propriedade
com casas de tijolo. Respeitava a lei, a Ptria 
e a tradio e ningum podia acus-lo de nenhum delito maior
que a fuga aos impostos. Contratou um administrador para
substituir Pedro Segundo Garcia, p-lo em Las 
Tres Marias encarregado das galinhas poedeiras e das vacas
importadas e instalou-se definitivamente na capital. Passou
vrios meses dedicado  campanha, apoiando 
o Partido Conservador, que necessitava gente para apresentar
nas prximas eleies parlamentares e com fortuna prpria
posta ao servio da causa. A casa encheu-se 
de propaganda poltica e dos seus partidrios, que
praticamente a tomaram de assalto, misturando-se com os 
fantasmas dos corredores, os rosa-cruzes e as trs 
irms Mora. Pouco a pouco, a corte de Clara foi empurrada para
os quartos traseiros da casa. Estabeleceu-se uma fronteira
invisvel entre o sector ocupado por Esteban 
Trueba e o da mulher. Por inspirao de Clara e de acordo com
as necessidades do momento, foram brotando na nobre
arquitectura senhorial quartinhos, escadas, torrezinhas 
e aoteias. Sempre que se tinha de alojar um novo hspede,
chegavam os mesmos pedreiros para acrescentar outro quarto.
Assim, a grande casa da esquina chegou a parecer 
um labirinto.

-- Um dia esta casa vai servir para montar um hotel -- dizia
Nicolau.

-- Ou um pequeno hospital - acrescentava Jaime, que comeou a
alimentar a ideia de levar os seus pobres para o Bairro Alto.

A fachada da casa manteve-se sem alteraes.  frente viam-se
as colunas hericas e o jardim versalhs, mas para trs o
estilo perdia-se. O jardim das traseiras 
era uma selva emaranhada onde proliferavam as variedades de
plantas e flores e onde esvoaavam os pssaros de Clara,
juntamente com vrias geraes de ces e gatos. 
Entre aquela fauna domstica, o nico exemplar que teve alguma
relevncia na recordao da famlia foi um coelho que Miguel
levou, um pobre coelho vulgar que os 
ces lambiam constantemente, at que lhe caiu o plo,
tornando-se o nico calvo da sua espcie, coberto por uma pele
furta-cores que lhe dava a aparncia de um rptil 
orelhudo.

 medida que a data das eleies se aproximava, Esteban Trueba
punha-se cada vez mais nervoso. Arriscara tudo o que tinha na
sua aventura poltica. Uma noite no 
aguentou mais, foi bater  porta do quarto de Clara. Ela
abriu-a. Estava em camisa de dormir e tinha posto os dentes,
porque gostava de mordiscar bolachas enquanto 
escrevia no caderno de anotar a vida. Pareceu a Esteban to
jovem e formosa como no primeiro dia em que a levou pela mo
quele quarto alcatifado de azul e a ps 
sobre a pele de Barrabs. Sorriu com a recordao.

-- Desculpa, Clara -- disse corando como um escolar. --
Sinto-me s e angustiado. Quero estar aqui um pouco, se no te
importas.

Clara sorriu tambm, mas no disse nada. Apontou-lhe o
cadeiro e Esteban sentou-se. Ficaram um bocado de tempo
calados, partilhando o prato de bolachas e olhando-se, 
estranhos, porque havia muito tempo que viviam debaixo do
mesmo tecto sem se verem.

-- Suponho que sabes o que me est a atormentar -- disse
Esteban Trueba finalmente.

Clara disse que sim com a cabea.

-- Acreditas que vou ser eleito?

Clara voltou a dizer que sim e ento Esteban Trueba sentiu-se
totalmente  aliviado, como se ela lhe houvesse dado uma
garantia escrita. Deu uma gargalhada alegre 
e sonora, ps-se de p, agarrou-a pelos ombros e beijou-a na
testa.

-- Era formidvel, Clara! Se tu o dizes, serei senador --
exclamou.

A partir dessa noite diminuiu a hostilidade entre os dois.
Clara continuou sem lhe dirigir a palavra, mas ele fazia caso
omisso do seu silncio e falava-lhe normalmente, 
interpretando os seus menores gestos como respostas. Em caso
de necessidade, Clara usava os criados ou os filhos para
enviar-lhe mensagens. Preocupava-se com o bem-estar 
do marido, ajudava-o no trabalho e acompanhava-o quando ele
lhe pedia. Algumas vezes, sorria-lhe.

Dez dias depois, Esteban Trueba foi eleito senador da
Repblica tal como Clara tinha previsto. Celebrou o
acontecimento com uma festa para os amigos e correligionrios, 
um aumento no salrio dos empregados e dos trabalhadores de
Las Tres Marias e um colar de esmeraldas, que deixou para
Clara sobre a cama ao lado de um ramo de violetas. 
Clara comeou a assistir s recepes sociais e aos actos
polticos, onde a sua presena era necessria para que o
marido projectasse a imagem do homem simples e 
familiar que o pblico e o Partido Conservador desejavam.
Nessas ocasies Clara punha os dentes e algumas jias que
Esteban lhe tinha oferecido. Passava por ser 
a dama mais elegante, discreta e encantadora do seu circulo
social e ningum chegou a suspeitar que aquele par distinto
nunca se falava.

Com a nova posio de Esteban Trueba aumentou o nmero de
pessoas para atender na grande casa da esquina. Clara no
conseguia contar as bocas que alimentava nem 
os gastos da casa. As facturas iam directamente para o
escritrio do senador Trueba, no Congresso, que pagava sem
perguntar, porque tinha descoberto que quanto mais 
gastava mais parecia aumentar a sua fortuna, chegando 
concluso de que no seria Clara, com a sua hospitalidade
indiscriminada e as suas obras de caridade, quem 
conseguiria arruin-lo. A princpio usou o poder poltico como
um brinquedo novo. Tinha chegado  maturidade transformado no
homem rico e respeitado que jurara chegar 
a ser quando era um adolescente pobre, sem padrinhos e sem
outro capital a no ser o orgulho e a ambio. Mas, em pouco
tempo, compreendeu que estava to sozinho 
como sempre. Os dois filhos evitavam-no e com Blanca no tinha
voltado a ter nenhum contacto. Sabia dela pelo que lhe
contavam os irmos e limitava-se a mandar-lhe 
todos os meses um cheque, fiel ao compromisso que tinha tomado
com Jean de Satigny. Estava to afastado dos filhos que era
incapaz de manter um dilogo com eles 
sem acabar aos gritos. Trueba teve conhecimento das loucuras
de Nicolau quando j era demasiado tarde, quer dizer, quando
toda a gente as comentava. Tambm no sabia 
nada da vida de Jaime. Se tivesse suspeitado que se reunia com
Pedro Tercero Garcia, com quem chegou a desenvolver um carinho
de irmo, certamente lhe teria dado 
 uma apoplexia, mas Jaime tinha muito cuidado em no falar
dessas coisas com o pai.

Pedro Tercero Garcia tinha abandonado o campo. Depois do
terrivel encontro com o patro, o padre Jos Dulce Maria
recolheu-o na casa paroquial e curou-lhe a mo. 
Mas o rapaz estava deprimido e repetia incansavelmente que a
vida no tinha nenhum sentido, porque havia perdido Blanca e
no podia tocar guitarra, o seu nico consolo. 
O padre Jos Dulce Maria esperou que a forte compleio do
jovem lhe cicatrizasse os dedos, p-lo numa carroa e levou-o
 reserva indgena, onde o apresentou a 
uma velha centenria que estava cega e tinha as mos
enclavinhadas pelo reumatismo, mas que ainda tinha vontade de
fazer cestaria com os ps. Se ela pode fazer 
cestos com os ps, tu podes tocar guitarra sem dedos,
disse-lhe. E o jesuta contou-lhe a sua histria:

-- Na tua idade tambm eu estava apaixonado, filho. A minha
noiva era a rapariga mais bonita da aldeia. amos casar, ela
comeava a bordar o enxoval e eu a poupar 
para fazermos uma casinha, quando me mandaram para o servio
militar. Quando voltei, tinha casado com o homem do talho e
tornara-se uma senhora gorda. Estive quase 
a atirar-me ao rio com uma pedra nos ps, mas depois decidi ir
para padre. No ano em que tomei o hbito, ela enviuvou e vinha
 igreja olhar-me com olhos lnguidos.

As francas risadas do gigante jesuta levantaram o moral a
Pedro Tercero e fizeram-no sorrir pela primeira vez em trs
semanas.

-- Isto  para que vejas, meu filho -- concluiu o padre Jos
Dulce Maria, -- que no h motivos para desesperar. Tornars a
ver Blanca um dia, quando menos esperares.

Curado do corpo e da alma, Pedro Tercero Garcia foi para a
capital com um embrulho de roupa e umas poucas moedas que o
padre subtraiu das esmolas de domingo. Tambm 
lhe deu a direco de um dirigente socialista da capital, que
o acolheu em casa nos primeiros dias e que depois lhe arranjou
trabalho como cantor numa associao 
recreativa. O jovem foi viver para um bairro operrio, numa
casa de madeira que lhe pareceu um palcio, sem mais
mobilirio que um div, um colcho, uma cadeira 
e dois caixotes que serviam de mesa. Dali divulgava o
socialismo e ruminava o desgosto de que Blanca tivesse casado
com outro, negando-se a aceitar as explicaes 
e as palavras de consolo de Jaime. Em pouco tempo, tinha
dominado a mo direita e multiplicado o uso dos dedos que lhe
restavam e continuou compondo canes de galinhas 
e raposos perseguidores. Um dia convidaram-no para um programa
de rdio e esse foi o comeo de uma vertiginosa popularidade
que nem ele prprio esperava. A sua voz 
comeou a ouvir-se frequentemente na rdio e o seu nome
tornou-se conhecido. O senador Trueba, no entanto, nunca o
ouviu nomear, porque em sua casa no admitia aparelhos 
de rdio. Considerava-os  instrumentos prprios de gente
inculta, portadores de influncias nefastas e de ideias
vulgares. Ningum estava mais afastado da msica 
popular que ele, para quem a nica msica suportvel era a
pera durante a temporada lrica e a companhia de zarzuelas
que vinha de Espanha todos os Invernos.


No dia em que Jaime chegou a casa com a novidade de que queria
mudar de apelido porque, desde que o pai era senador do
Partido Conservador, os companheiros hostilizavam-no 
na Universidade e desconfiavam dele no Bairro da Misericrdia,
Esteban Trueba perdeu a pacincia e esteve quase a
esbofete-lo, mas conteve-se a tempo porque lhe 
viu no olhar que j no lhe toleraria isso.

-- Casei-me para ter filhos legtimos que tivessem o meu
apelido e no bastardos que tenham apenas nome da me! --
atirou-lhe lvido de fria.

Duas semanas mais tarde, ouviu comentar nos corredores do
Congresso e nos sales do Clube que o seu filho Jaime tinha
tirado as calas na Praa Brasil para as dar 
a um pobre e tinha regressado a casa em cuecas, ao longo de
quinze quarteires, seguido por uma chusma de crianas e
curiosos que o vitoriavam. Cansado de defender 
a honra do ridculo e das chacotas, autorizou o filho a usar o
apelido que lhe desse na gana, contanto que no fosse o seu.
Nesse dia, fechado no escritrio, chorou 
de decepo e de raiva. Disse a si prprio que semelhantes
excentricidades passar-lhe-iam quando amadurecesse e, mais
tarde ou mais cedo, se tornaria num homem equilibrado. 
Em contrapartida, com o outro filho tinha perdido as
esperanas. Nicolau passava de um projecto fantstico para
outro. Andava por essa altura com a iluso de cruzar 
a cordilheira, tal como muitos anos antes o tinha tentado o
seu tio-av Marcos, num meio de transporte pouco usual.
Escolhera subir em balo, convencido de que o 
espectculo de um gigantesco globo suspenso nas nuvens seria
um irresistvel elemento publicitrio que qualquer bebida
gasosa podia subsidiar. Copiou o modelo de 
um Zepelin alemo de antes da guerra, que subia por meio de um
sistema de ar quente, levando dentro uma ou mais pessoas de
temperamento audaz. O trabalho de armar 
aquela gigantesca salsicha insuflvel, estudar os mecanismos
secretos, os ventos, os pressgios das cartas e as leis da
aerodinmica mantiveram-no entretido por 
muito tempo. Esqueceu durante semanas as sesses de
espiritismo das sextas-feiras com a me e as irms Mora, e nem
sequer notou que Amanda tinha deixado de ir a 
casa. Logo que terminou a nave voadora, viu-se perante um
obstculo que no tinha calculado: o gerente das gasosas, um
gringo do Arcansas, negou-se a financiar o 
projecto com o pretexto de que, se Nicolau morresse com o seu
aparelho, baixariam as vendas da sua beberagem. Nicolau 
tratou de procurar outros patrocinadores, 
mas ningum se interessou. Isso no foi suficiente para o
fazer desistir dos seus propsitos e decidiu subir por todos
os meios, mesmo que fosse de graa. No dia 
fixado, Clara continuou tecendo, imperturbvel, sem prestar
ateno aos preparativos do filho, apesar de toda a famlia,
os vizinhos e os amigos estarem horrorizados 
com o plano sem ps nem cabea de cruzar as montanhas com
aquela mquina estramblica.

-- Tenho o pressentimento de que no vai subir -- disse Clara
sem parar de tecer.

Assim foi. No ltimo momento, apareceu uma carrinha cheia de
polcias no parque pblico que Nicolau tinha escolhido para
subir. Exigiram uma autorizao municipal 
que, obviamente, no tinha. Nem a pde conseguir. Passou
quatro dias correndo de uma repartio para outra, em esforos
desesperados que esbarravam contra o muro 
da incompreenso burocrtica. Nunca soube que, por trs da
carrinha dos policias e das interminveis papeladas, estava a
influncia do pai, que no estava disposto 
a permitir a aventura. Cansado de lutar contra a timidez do
gringo das gasosas e contra a burocracia area, convenceu-se
de que no podia levantar voo a menos que 
o fizesse clandestinamente, o que era impossvel dadas as
dimenses da nave. Entrou numa crise de ansiedade, da qual o
tirou a me ao sugerir-lhe que, para no perder 
o investimento, usasse os materiais do balo para algum fim
prtico. Ento, Nicolau idealizou a fbrica de sanduches. O
seu plano era fazer sanduches de frango, 
embal-las na tela do balo cortada em pedaos e vend-las aos
escriturrios. A grande cozinha de sua casa pareceu-lhe ideal
para a indstria. Os jardins das traseiras 
foram-se enchendo de aves com as patas atadas, que aguardavam
a sua vez para os dois magarefes especialmente contratados
lhes cortarem a cabea em srie. O ptio 
encheu-se de penas e o sangue salpicou as esttuas do Olimpo,
o cheiro a consomm dava nuseas a toda a gente e o monte de
tripas comeava a encher o bairro de 
moscas, quando Clara ps fim  matana com um ataque de nervos
que por pouco a fazia voltar aos tempos da mudez. Este novo
fracasso comercial no importou tanto 
a Nicolau, que tambm estava com o estmago e a conscincia
revolvidos pela carnificina. Resignou-se a perder o que tinha
investido naqueles negcios e fechou-se 
no quarto a planear novas formas de ganhar dinheiro e de se
divertir.

-- H muito tempo que no vejo Amanda por aqui -- disse Jaime,
que j no podia resistir a impacincia do corao.

Nesse momento, Nicolau recordou-se de Amanda e reparou que no
a via deambular pela casa h umas trs semanas e que no tinha
assistido  tentativa fracassada de 
subir em balo nem  inaugurao da indstria domstica de po
com frango. Foi perguntar a Clara, mas a me tambm no sabia
nada da jovem e estava comeando a esquec-la 
porque tivera de  habituar a memria ao facto iniludvel de
que a casa era um passadio de gente e, como ela dizia, no
lhe chegava a alma para lamentar todos 
os ausentes. Nicolau decidiu ento ir busc-la, quando viu que
lhe estavam a fazer falta a presena de borboleta inquieta de
Amanda e os abraos sufocados e silenciosos 
nos quartos vazios da grande casa da esquina, onde brincavam
como cachorros todas as vezes que Clara afrouxava a vigilncia
e Miguel se distraa a brincar ou cala 
a dormir nalgum canto.

A penso onde vivia Amanda com o irmozinho era uma casa que
meio sculo antes tivera provavelmente algum esplendor, alguma
ostentao, mas que a tinha perdido  
medida que a cidade se foi estendendo pelas encostas da
cordilheira. Ocuparam-na primeiro os comerciantes rabes, que
lhe aplicaram pretensiosos frisos de gesso 
rosado e, mais tarde, quando os rabes mudaram os seus
negcios para o Bairro dos Turcos, o proprietrio
transformou-a em penso, subdividindo-a em quartos mal
iluminados, 
tristes, incmodos, prprios para inquilinos de poucos
recursos. Tinha uma geografia impossvel de corredores
estreitos e hmidos, onde reinava eternamente o vapor 
da sopa de couve-flor e do guisado de repolho. A dona da
penso veio em pessoa a abrir a porta, uma mulherona imensa,
provida de uma majestosa papada tripla e olhinhos 
orientais sumidos em pregas de gordura fossilizada, com anis
em todos os dedos e gestos afectados de novia:

-- No se aceitam visitantes do sexo oposto -- disse a
Nicolau.

Mas Nicolau abriu o irresistvel sorriso de sedutor e
beijou-lhe a mo sem recuar frente ao carmesim estalado das
suas unhas sujas, extasiou-se com os anis e fez-se 
passar por um primo-irmo de Amanda, at que ela, derrotada,
retorcendo-se em risinhos coquetes e reviravoltas
elefantisacas, levou-o pelas escadas empoeiradas 
at ao terceiro piso onde lhe indicou a porta de Amanda.
Nicolau encontrou a jovem na cama, embrulhada num xaile
desbotado, a jogar s damas com o seu irmo Miguel. 
Estava to plida e fraca que ele teve dificuldade em
reconhec-la. Amanda olhou-o sem sorrir e no lhe fez nem o
menor gesto de boas-vindas. Miguel por sua vez, 
ficou na sua frente com as mos na cintura:

-- At que enfim que vens -- disse-lhe o menino.

Nicolau aproximou-se da cama e tentou recordar a coleante e
morena Amanda, a Amanda frutfera e sinuosa dos seus encontros
na escurido dos quartos fechados, mas 
dentro da l compacta do xaile e dos lenis cinzentos havia
uma desconhecida de olhos extraviados, que o observava com
inexplicvel dureza. Amanda, murmurou pegando-lhe 
na mo. Aquela mo sem os anis e as pulseiras de prata
parecia to abandonada como a pata dum pssaro moribundo.
Amanda chamou o irmo. Miguel aproximou-se e ela 
disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O menino foi lentamente
at  porta, de l deu um ltimo olhar furioso a Nicolau e
saiu, fechando a porta sem rudo. 

-- Perdoa-me, Amanda -- balbuciou Nicolau. -- Estive muito
ocupado. Porque no me avisaste que estavas doente?

-- No estou doente -- respondeu ela. -- Estou grvida.

Esta palavra doeu a Nicolau como uma bofetada. Recuou at
sentir o vidro da janela nas costas. Desde o primeiro momento
em que despiu Amanda, tacteando no escuro, 
enredado nos trapos do seu disfarce existencialista, tremendo
de antecipao pelas protuberncias e pelos interstcios que
muitas vezes tinha imaginado sem os chegar 
a conhecer na sua esplndida nudez, sups que ela teria
experincia suficiente para evitar que ele se tornasse pai de
famlia aos vinte e um anos e ela me solteira 
aos vinte e cinco. Amanda tivera amores anteriores e tinha
sido a primeira a falar-lhe de amor livre. Mantinha a sua
irrevogvel determinao de ficarem juntos apenas 
enquanto tivessem simpatia um pelo outro, sem amarras e
promessas para o futuro como Sartre e Beauvoir. Esse acordo,
que a principio pareceu a Nicolau uma prova 
de frieza e despreconceito um pouco chocante, foi depois muito
cmodo. Descontrado e alegre como era para todas as coisas da
vida, encarou a relao amorosa sem 
medir as consequncias.

-- Que vamos fazer agora! -- exclamou.

-- Um aborto, evidentemente -- respondeu ela.

Uma onda de alvio sacudiu Nicolau. Tinha escapado ao abismo
uma vez mais. Como sempre que brincava  beira do precipcio,
outra pessoa mais forte tinha surgido 
a seu lado para se encarregar das coisas, tal como no tempo do
colgio, quando surrava os rapazes no recreio at lhe carem
em cima e ento, no ltimo instante, 
no momento em que o terror o paralisava, chegava Jaime que se
punha na sua frente, transformando o seu pnico em euforia e
permitindo-lhe ocultar-se entre os pilares 
do ptio a gritar insultos do refgio, enquanto o irmo
sangrava do nariz e distribua murros com a silenciosa
teimosia de uma mquina. Agora, era Amanda quem assumia 
a responsabilidade por ele.

-- Podemos casar, Amanda... se tu quiseres -- balbuciou para
salvar a honra.

-- No! -- respondeu ela sem vacilar. -- No gosto de ti o
suficiente para isso, Nicolau.

Imediatamente os seus sentimentos deram uma viragem brusca,
porque essa possibilidade no lhe tinha vindo  ideia. At
ento nunca tinha sido repudiado ou abandonado 
e em cada namorico tivera de recorrer ao seu bom tacto para se
escapar sem ferir demasiado a rapariga da ocasio. Pensou na
difcil situao em que se encontrava 
Amanda, pobre, sozinha, esperando um filho. Pensou que uma
palavra sua poderia mudar o destino da jovem, tornando-se a
respeitvel esposa de um Trueba. Esses clculos 
passaram-lhe pela cabea numa fraco de segundo, mas em
seguida sentiu-se envergonhado  e corou ao surpreender-se
mergulhado nesses pensamentos. Amanda pareceu-lhe 
logo magnfica. Vieram-lhe  memria todos os bons momentos
que tinham vivido a dois, as vezes que se deitavam no cho
fumando o mesmo cachimbo para se embriagarem 
um pouco juntos, rindo daquela droga que sabia a bosta seca e
tinha efeitos muito pouco alucingenos, mas que fazia
funcionar o poder da sugesto; dos exerccios 
de ioga e da meditao, os dois sentados frente a frente, em
completa descontraco, olhando-se nos olhos e murmurando
palavras em snscrito que poderiam transport-los 
ao nirvana, mas que geralmente tinham um efeito contrrio e
acabavam escapulindo-se dos olhares alheios, agachados entre
os matagais do jardim, amando-se como desesperados; 
dos livros lidos  luz de uma vela afogados em paixo e fumo;
das tertlias eternas discutindo os filsofos pessimistas do
ps-guerra, ou concentrando-se para mover 
a mesa p-de-galo, duas pancadas para sim, trs para no,
enquanto Clara gracejava com eles. Caiu de joelhos junto da
cama suplicando a Amanda que no o deixasse, 
que lhe perdoasse, que continuariam juntos como se nada se
tivesse passado, que isso no era mais que um acidente infeliz
que no podia alterar a essncia intocvel 
da sua relao. Mas ela no parecia ouvi-lo. Acariciava-lhe a
cabea com um gesto maternal e distante.

--  intil, Nicolau. No vs que tenho a alma muito velha e
tu s ainda uma criana. Sers sempre uma criana --
disse-lhe.

Continuaram a acariciar-se sem desejo e atormentando-se com as
splicas e as recordaes. Saborearam a amargura de uma
despedida que pressentiam, mas que ainda podiam 
confundir com uma reconciliao. Ela saiu da cama para
preparar uma chvena de ch para os dois e Nicolau viu que
usava um saiote velho como camisa de dormir. Tinha 
emagrecido e os seus tornozelos pareciam patticos. Andava
descala pelo quarto, com o xaile pelos ombros e o cabelo em
desalinho, atarefada com o fogareiro a petrleo 
que havia sobre uma mesa que servia de secretria, mesa de
comer e cozinha. Viu a desordem em que vivia Amanda e que at
esse momento ignorava quase tudo acerca 
dela. Supunha que no tinha mais famlia que o irmo e que
vivia com um magro salrio, mas tinha sido incapaz de imaginar
a sua verdadeira situao. A pobreza parecia-lhe 
um conceito abstracto e longnquo, aplicvel aos caseiros de
Las Tres Marias e aos pobres que o seu irmo Jaime socorria,
mas com os quais ele nunca tinha estado 
em contacto. Amanda, a sua Amanda to prxima e conhecida, era
subitamente uma estranha. Olhava os seus vestidos, que
pareciam trajes de uma rainha quando ela os 
punha, pendurados em pregos na parede, como tristes roupas de
mendiga. Via a sua escova de dentes num copo sobre o lavatrio
oxidado, os sapatos de Miguel tantas 
vezes engraxados e tornados a engraxar que j tinham perdido a
forma original, a velha mquina de escrever ao lado do
fogareiro, os livros no meio das  chvenas, 
o vidro partido de uma janela tapado com um recorte de
revista. Era outro mundo. Um mundo de cuja existncia no
suspeitava. At ento, dum lado da linha divisria 
estavam os pobres e do outro as pessoas como ele, onde tinha
colocado Amanda. No sabia nada dessa silenciosa classe mdia
que se debatia entre a pobreza do colarinho 
e da gravata e o desejo impossvel de imitar a canalha dourada
a que ele pertencia. Sentiu-se confuso e acabrunhado, pensando
nas mltiplas ocasies passadas em 
que ela teve provavelmente de aldrab-los para que no se
notasse a sua misria na casa dos Trueba e ele, em completa
inconscincia, no a tinha ajudado. Recordou 
as histrias do pai, quando lhe falava da sua infncia pobre e
de que na sua idade trabalhava para sustentar a me e a irm,
e pela primeira vez pde encaixar essas 
narrativas didcticas numa realidade. Pensou que era assim a
vida de Amanda.

Partilharam uma chvena de ch sentados sobre a cama, porque
s havia uma cadeira. Amanda contou-lhe o seu passado e o da
sua famlia, de um pai alcolico que era 
professor numa provncia do Norte, de uma me alquebrada e
triste que trabalhava para sustentar seis filhos e como ela,
logo que pde contar consigo, sara de casa. 
Tinha chegado  capital com quinze anos, a casa de uma
madrinha bondosa que a ajudou por algum tempo. Depois, quando
a me morreu, foi enterr-la e buscar Miguel, 
que era ainda uma criana de fraldas. Desde ento tinha-lhe
servido de me. Do pai e do resto dos irmos no tinha tornado
a saber nada. Nicolau sentia crescer dentro 
de si o desejo de a proteger e de cuidar dela, de
compensar-lhe todas as carncias. Nunca a tinha amado tanto.

Ao anoitecer viram chegar Miguel com as faces coradas,
virando-se em segredo e divertido para esconder o presente que
trazia escondido atrs das costas. Era um saco 
com po para a irm. Ps-lho sobre a cama, beijou-a
carinhosamente, alisou-lhe o cabelo com a mo pequenina,
aconchegando-lhe as almofadas. Nicolau estremeceu, porque 
nos gestos do menino havia mais solicitude e ternura que em
todas as carcias que ele tinha dado na sua vida a qualquer
mulher. Compreendeu ento o que Amanda queria 
dizer-lhe. Tenho muito que aprender, murmurou. Apoiou a
testa no vidro engordurado da janela, perguntando a si prprio
se alguma vez seria capaz de dar na mesma 
medida em que esperava receber.

-- Como o vamos fazer? -- perguntou, sem se atrever a dizer a
palavra terrvel.

-- Pede ajuda ao teu irmo Jaime -- sugeriu Amanda.


Jaime recebeu o irmo no seu tnel de livros, recostado na
tarimba de recruta, iluminado pela luz da nica lmpada
pendurada no tecto. Estava a ler sonetos de amor 
do Poeta, que na altura j tinha renome mundial, tal como 
previra Clara a primeira vez que o ouviu recitar com a sua voz
telrica, no salo literrio. Especulava 
que os sonetos talvez tivessem sido inspirados pela presena
de Amanda no jardim dos Trueba, onde o Poeta costumava
sentar-se  hora do ch, a falar de canes desesperadas, 
na poca em que era um hspede habitual da grande casa da
esquina. Ficou surpreendido com a visita do irmo porque,
desde que tinham sado do colgio, cada dia se 
distanciavam mais. Nos ltimos tempos no tinham nada que
falar e saudavam-se com uma inclinao de cabea as raras
vezes que se cruzavam no umbral da porta. Jaime 
tinha desistido da ideia de atrair Nicolau s coisas
transcendentais da existncia.

Ainda sentia que as frvolas diverses eram um insulto
pessoal, porque no podia aceitar que ele gastasse tempo em
viagens pelo mundo e massacres de galos, havendo 
tanto trabalho para fazer no Bairro da Misericrdia. Mas j
no tentava arrast-lo ao hospital, para que visse o
sofrimento de perto, na esperana de que a misria 
alheia conseguisse comover-lhe o corao de ave de arribao e
deixou de o convidar para as reunies com os socialistas na
casa de Pedro Tercero, na ltima rua do 
bairro operrio, onde se reuniam vigiados pela polcia todas
as quintas-feiras. Nicolau ria-se das suas inquietaes
sociais dizendo que s um tonto com vocao 
de apstolo podia sair pelo mundo em busca da desgraa e da
fealdade com um coto de vela. Agora Jaime tinha o irmo na
frente, olhando-o com a expresso culpada 
e suplicante que usara tantas vezes para ter o seu afecto.

-- Amanda est grvida -- disse Nicolau sem prembulos.

Teve de o repetir porque Jaime ficou imvel, na mesma atitude
dura que tinha sempre, sem que um s gesto denunciasse que
tinha ouvido. Mas por dentro a frustrao 
tomava conta dele. Em silncio chamava Amanda pelo seu nome,
agarrando-se, para manter o domnio,  doce ressonncia dessa
palavra. Era to grande a necessidade 
de manter viva a iluso que chegou a convencer-se de que
Amanda tinha por Nicolau um amor infantil, uma relao
limitada a passeios inocentes de mos dadas, a discusses 
 volta de uma garrafa de absinto, aos poucos beijos fugidios
que ele tinha surpreendido.

Tinha-se negado  verdade dolorosa que agora tinha de
enfrentar.

-- No me contes. No tenho nada a ver com isso -- respondeu
logo que pde falar.

Nicolau deixou-se cair sentado aos ps da cama, com a cara
entre as mos.

-- Tens de a ajudar, por favor -- suplicou.

Jaime fechou os olhos e respirou fundo, esforando-se por
controlar sentimentos loucos que lhe davam foras para matar o
irmo, para casar ele prprio com Amanda,
para chorar de impotncia e decepo. Tinha a imagem da jovem
na memria, tal como lhe aparecia sempre que a angstia do
amor o derrotava. Via-a entrando e saindo
da casa, como uma lufada de ar puro, 
No dia em que Jaime chegou a casa com a novidade de que queria
mudar de apelido porque, desde que o pai era senador do
Partido Conservador, os companheiros hostilizavam-no
na Universidade e desconfiavam dele no Bairro da Misericrdia,
Esteban Trueba perdeu a pacincia e esteve quase a
esbofete-lo, mas conteve-se a tempo porque lhe
viu no olhar que j no lhe toleraria isso.

-- Casei-me para ter filhos legtimos que tivessem o meu
apelido e no bastardos que tenham apenas nome da me! --
atirou-lhe lvido de fria.

Duas semanas mais tarde, ouviu comentar nos corredores do
Congresso e nos sales do Clube que o seu filho Jaime tinha
tirado as calas na Praa Brasil para as dar 
a um pobre e tinha regressado a casa em cuecas, ao longo de
quinze quarteires, seguido por uma chusma de crianas e
curiosos que o vitoriavam. Cansado de defender 
a honra do ridculo e das chacotas, autorizou o filho a usar o
apelido que lhe desse na gana, contanto que no fosse o seu.
Nesse dia, fechado no escritrio, chorou 
de decepo e de raiva. Disse a si prprio que semelhantes
excentricidades passar-lhe-iam quando amadurecesse e, mais
tarde ou mais cedo, se tornaria num homem equilibrado. 
Em contrapartida, com o outro filho tinha perdido as
esperanas. Nicolau passava de um projecto fantstico para
outro. Andava por essa altura com a iluso de cruzar 
a cordilheira, tal como muitos anos antes o tinha tentado o
seu tio-av Marcos, num meio de transporte pouco usual.
Escolhera subir em balo, convencido de que o 
espectculo de um gigantesco globo suspenso nas nuvens seria
um irresistvel elemento publicitrio que qualquer bebida
gasosa podia subsidiar. Copiou o modelo de 
um Zepelin alemo de antes da guerra, que subia por meio de um
sistema de ar quente, levando dentro uma ou mais pessoas de
temperamento audaz. O trabalho de armar 
aquela gigantesca salsicha insuflvel, estudar os mecanismos
secretos, os ventos, os pressgios das cartas e as leis da
aerodinmica mantiveram-no entretido por 
muito tempo. Esqueceu durante semanas as sesses de
espiritismo das sextas-feiras com a me e as irms Mora, e nem
sequer notou que Amanda tinha deixado de ir a 
casa. Logo que terminou a nave voadora, viu-se perante um
obstculo que no tinha calculado: o gerente das gasosas, um
gringo do Arcansas, negou-se a financiar o 
projecto com o pretexto de que, se Nicolau morresse com o seu
aparelho, baixariam as vendas da sua beberagem. Nicolau 
tratou de procurar outros patrocinadores, 
mas ningum se interessou. Isso no foi suficiente para o
fazer desistir dos seus propsitos e decidiu subir por todos
os meios, mesmo que fosse de graa. No dia 
fixado, Clara continuou tecendo, imperturbvel, sem prestar
ateno aos preparativos do filho, apesar de toda a famlia,
os vizinhos e os amigos estarem horrorizados 
com o plano sem ps nem cabea de cruzar as montanhas com
aquela mquina estramblica.

-- Tenho o pressentimento de que no vai subir -- disse Clara
sem parar de tecer.

Assim foi. No ltimo momento, apareceu uma carrinha cheia de
polcias no parque pblico que Nicolau tinha escolhido para
subir. Exigiram uma autorizao municipal 
que, obviamente, no tinha. Nem a pde conseguir. Passou
quatro dias correndo de uma repartio para outra, em esforos
desesperados que esbarravam contra o muro 
da incompreenso burocrtica. Nunca soube que, por trs da
carrinha dos policias e das interminveis papeladas, estava a
influncia do pai, que no estava disposto 
a permitir a aventura. Cansado de lutar contra a timidez do
gringo das gasosas e contra a burocracia area, convenceu-se
de que no podia levantar voo a menos que 
o fizesse clandestinamente, o que era impossvel dadas as
dimenses da nave. Entrou numa crise de ansiedade, da qual o
tirou a me ao sugerir-lhe que, para no perder 
o investimento, usasse os materiais do balo para algum fim
prtico. Ento, Nicolau idealizou a fbrica de sanduches. O
seu plano era fazer sanduches de frango, 
embal-las na tela do balo cortada em pedaos e vend-las aos
escriturrios. A grande cozinha de sua casa pareceu-lhe ideal
para a indstria. Os jardins das traseiras 
foram-se enchendo de aves com as patas atadas, que aguardavam
a sua vez para os dois magarefes especialmente contratados
lhes cortarem a cabea em srie. O ptio 
encheu-se de penas e o sangue salpicou as esttuas do Olimpo,
o cheiro a consomm dava nuseas a toda a gente e o monte de
tripas comeava a encher o bairro de 
moscas, quando Clara ps fim  matana com um ataque de nervos
que por pouco a fazia voltar aos tempos da mudez. Este novo
fracasso comercial no importou tanto 
a Nicolau, que tambm estava com o estmago e a conscincia
revolvidos pela carnificina. Resignou-se a perder o que tinha
investido naqueles negcios e fechou-se 
no quarto a planear novas formas de ganhar dinheiro e de se
divertir.

-- H muito tempo que no vejo Amanda por aqui -- disse Jaime,
que j no podia resistir a impacincia do corao.

Nesse momento, Nicolau recordou-se de Amanda e reparou que no
a via deambular pela casa h umas trs semanas e que no tinha
assistido  tentativa fracassada de 
subir em balo nem  inaugurao da indstria domstica de po
com frango. Foi perguntar a Clara, mas a me tambm no sabia
nada da jovem e estava comeando a esquec-la 
porque tivera de  habituar a memria ao facto iniludvel de
que a casa era um passadio de gente e, como ela dizia, no
lhe chegava a alma para lamentar todos 
os ausentes. Nicolau decidiu ento ir busc-la, quando viu que
lhe estavam a fazer falta a presena de borboleta inquieta de
Amanda e os abraos sufocados e silenciosos 
nos quartos vazios da grande casa da esquina, onde brincavam
como cachorros todas as vezes que Clara afrouxava a vigilncia
e Miguel se distraa a brincar ou cala 
a dormir nalgum canto.

A penso onde vivia Amanda com o irmozinho era uma casa que
meio sculo antes tivera provavelmente algum esplendor, alguma
ostentao, mas que a tinha perdido  
medida que a cidade se foi estendendo pelas encostas da
cordilheira. Ocuparam-na primeiro os comerciantes rabes, que
lhe aplicaram pretensiosos frisos de gesso 
rosado e, mais tarde, quando os rabes mudaram os seus
negcios para o Bairro dos Turcos, o proprietrio
transformou-a em penso, subdividindo-a em quartos mal
iluminados, 
tristes, incmodos, prprios para inquilinos de poucos
recursos. Tinha uma geografia impossvel de corredores
estreitos e hmidos, onde reinava eternamente o vapor 
da sopa de couve-flor e do guisado de repolho. A dona da
penso veio em pessoa a abrir a porta, uma mulherona imensa,
provida de uma majestosa papada tripla e olhinhos 
orientais sumidos em pregas de gordura fossilizada, com anis
em todos os dedos e gestos afectados de novia:

-- No se aceitam visitantes do sexo oposto -- disse a
Nicolau.

Mas Nicolau abriu o irresistvel sorriso de sedutor e
beijou-lhe a mo sem recuar frente ao carmesim estalado das
suas unhas sujas, extasiou-se com os anis e fez-se 
passar por um primo-irmo de Amanda, at que ela, derrotada,
retorcendo-se em risinhos coquetes e reviravoltas
elefantisacas, levou-o pelas escadas empoeiradas 
at ao terceiro piso onde lhe indicou a porta de Amanda.
Nicolau encontrou a jovem na cama, embrulhada num xaile
desbotado, a jogar s damas com o seu irmo Miguel. 
Estava to plida e fraca que ele teve dificuldade em
reconhec-la. Amanda olhou-o sem sorrir e no lhe fez nem o
menor gesto de boas-vindas. Miguel por sua vez, 
ficou na sua frente com as mos na cintura:

-- At que enfim que vens -- disse-lhe o menino.

Nicolau aproximou-se da cama e tentou recordar a coleante e
morena Amanda, a Amanda frutfera e sinuosa dos seus encontros
na escurido dos quartos fechados, mas 
dentro da l compacta do xaile e dos lenis cinzentos havia
uma desconhecida de olhos extraviados, que o observava com
inexplicvel dureza. Amanda, murmurou pegando-lhe 
na mo. Aquela mo sem os anis e as pulseiras de prata
parecia to abandonada como a pata dum pssaro moribundo.
Amanda chamou o irmo. Miguel aproximou-se e ela 
disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O menino foi lentamente
at  porta, de l deu um ltimo olhar furioso a Nicolau e
saiu, fechando a porta sem rudo. 

-- Perdoa-me, Amanda -- balbuciou Nicolau. -- Estive muito
ocupado. Porque no me avisaste que estavas doente?

-- No estou doente -- respondeu ela. -- Estou grvida.

Esta palavra doeu a Nicolau como uma bofetada. Recuou at
sentir o vidro da janela nas costas. Desde o primeiro momento
em que despiu Amanda, tacteando no escuro, 
enredado nos trapos do seu disfarce existencialista, tremendo
de antecipao pelas protuberncias e pelos interstcios que
muitas vezes tinha imaginado sem os chegar 
a conhecer na sua esplndida nudez, sups que ela teria
experincia suficiente para evitar que ele se tornasse pai de
famlia aos vinte e um anos e ela me solteira 
aos vinte e cinco. Amanda tivera amores anteriores e tinha
sido a primeira a falar-lhe de amor livre. Mantinha a sua
irrevogvel determinao de ficarem juntos apenas 
enquanto tivessem simpatia um pelo outro, sem amarras e
promessas para o futuro como Sartre e Beauvoir. Esse acordo,
que a principio pareceu a Nicolau uma prova 
de frieza e despreconceito um pouco chocante, foi depois muito
cmodo. Descontrado e alegre como era para todas as coisas da
vida, encarou a relao amorosa sem 
medir as consequncias.

-- Que vamos fazer agora! -- exclamou.

-- Um aborto, evidentemente -- respondeu ela.

Uma onda de alvio sacudiu Nicolau. Tinha escapado ao abismo
uma vez mais. Como sempre que brincava  beira do precipcio,
outra pessoa mais forte tinha surgido 
a seu lado para se encarregar das coisas, tal como no tempo do
colgio, quando surrava os rapazes no recreio at lhe carem
em cima e ento, no ltimo instante, 
no momento em que o terror o paralisava, chegava Jaime que se
punha na sua frente, transformando o seu pnico em euforia e
permitindo-lhe ocultar-se entre os pilares 
do ptio a gritar insultos do refgio, enquanto o irmo
sangrava do nariz e distribua murros com a silenciosa
teimosia de uma mquina. Agora, era Amanda quem assumia 
a responsabilidade por ele.

-- Podemos casar, Amanda... se tu quiseres -- balbuciou para
salvar a honra.

-- No! -- respondeu ela sem vacilar. -- No gosto de ti o
suficiente para isso, Nicolau.

Imediatamente os seus sentimentos deram uma viragem brusca,
porque essa possibilidade no lhe tinha vindo  ideia. At
ento nunca tinha sido repudiado ou abandonado 
e em cada namorico tivera de recorrer ao seu bom tacto para se
escapar sem ferir demasiado a rapariga da ocasio. Pensou na
difcil situao em que se encontrava 
Amanda, pobre, sozinha, esperando um filho. Pensou que uma
palavra sua poderia mudar o destino da jovem, tornando-se a
respeitvel esposa de um Trueba. Esses clculos 
passaram-lhe pela cabea numa fraco de segundo, mas em
seguida sentiu-se envergonhado  e corou ao surpreender-se
mergulhado nesses pensamentos. Amanda pareceu-lhe 
logo magnfica. Vieram-lhe  memria todos os bons momentos
que tinham vivido a dois, as vezes que se deitavam no cho
fumando o mesmo cachimbo para se embriagarem 
um pouco juntos, rindo daquela droga que sabia a bosta seca e
tinha efeitos muito pouco alucingenos, mas que fazia
funcionar o poder da sugesto; dos exerccios 
de ioga e da meditao, os dois sentados frente a frente, em
completa descontraco, olhando-se nos olhos e murmurando
palavras em snscrito que poderiam transport-los 
ao nirvana, mas que geralmente tinham um efeito contrrio e
acabavam escapulindo-se dos olhares alheios, agachados entre
os matagais do jardim, amando-se como desesperados; 
dos livros lidos  luz de uma vela afogados em paixo e fumo;
das tertlias eternas discutindo os filsofos pessimistas do
ps-guerra, ou concentrando-se para mover 
a mesa p-de-galo, duas pancadas para sim, trs para no,
enquanto Clara gracejava com eles. Caiu de joelhos junto da
cama suplicando a Amanda que no o deixasse, 
que lhe perdoasse, que continuariam juntos como se nada se
tivesse passado, que isso no era mais que um acidente infeliz
que no podia alterar a essncia intocvel 
da sua relao. Mas ela no parecia ouvi-lo. Acariciava-lhe a
cabea com um gesto maternal e distante.

--  intil, Nicolau. No vs que tenho a alma muito velha e
tu s ainda uma criana. Sers sempre uma criana --
disse-lhe.

Continuaram a acariciar-se sem desejo e atormentando-se com as
splicas e as recordaes. Saborearam a amargura de uma
despedida que pressentiam, mas que ainda podiam 
confundir com uma reconciliao. Ela saiu da cama para
preparar uma chvena de ch para os dois e Nicolau viu que
usava um saiote velho como camisa de dormir. Tinha 
emagrecido e os seus tornozelos pareciam patticos. Andava
descala pelo quarto, com o xaile pelos ombros e o cabelo em
desalinho, atarefada com o fogareiro a petrleo 
que havia sobre uma mesa que servia de secretria, mesa de
comer e cozinha. Viu a desordem em que vivia Amanda e que at
esse momento ignorava quase tudo acerca 
dela. Supunha que no tinha mais famlia que o irmo e que
vivia com um magro salrio, mas tinha sido incapaz de imaginar
a sua verdadeira situao. A pobreza parecia-lhe 
um conceito abstracto e longnquo, aplicvel aos caseiros de
Las Tres Marias e aos pobres que o seu irmo Jaime socorria,
mas com os quais ele nunca tinha estado 
em contacto. Amanda, a sua Amanda to prxima e conhecida, era
subitamente uma estranha. Olhava os seus vestidos, que
pareciam trajes de uma rainha quando ela os 
punha, pendurados em pregos na parede, como tristes roupas de
mendiga. Via a sua escova de dentes num copo sobre o lavatrio
oxidado, os sapatos de Miguel tantas 
vezes engraxados e tornados a engraxar que j tinham perdido a
forma original, a velha mquina de escrever ao lado do
fogareiro, os livros no meio das  chvenas, 
o vidro partido de uma janela tapado com um recorte de
revista. Era outro mundo. Um mundo de cuja existncia no
suspeitava. At ento, dum lado da linha divisria 
estavam os pobres e do outro as pessoas como ele, onde tinha
colocado Amanda. No sabia nada dessa silenciosa classe mdia
que se debatia entre a pobreza do colarinho 
e da gravata e o desejo impossvel de imitar a canalha dourada
a que ele pertencia. Sentiu-se confuso e acabrunhado, pensando
nas mltiplas ocasies passadas em 
que ela teve provavelmente de aldrab-los para que no se
notasse a sua misria na casa dos Trueba e ele, em completa
inconscincia, no a tinha ajudado. Recordou 
as histrias do pai, quando lhe falava da sua infncia pobre e
de que na sua idade trabalhava para sustentar a me e a irm,
e pela primeira vez pde encaixar essas 
narrativas didcticas numa realidade. Pensou que era assim a
vida de Amanda.

Partilharam uma chvena de ch sentados sobre a cama, porque
s havia uma cadeira. Amanda contou-lhe o seu passado e o da
sua famlia, de um pai alcolico que era 
professor numa provncia do Norte, de uma me alquebrada e
triste que trabalhava para sustentar seis filhos e como ela,
logo que pde contar consigo, sara de casa. 
Tinha chegado  capital com quinze anos, a casa de uma
madrinha bondosa que a ajudou por algum tempo. Depois, quando
a me morreu, foi enterr-la e buscar Miguel, 
que era ainda uma criana de fraldas. Desde ento tinha-lhe
servido de me. Do pai e do resto dos irmos no tinha tornado
a saber nada. Nicolau sentia crescer dentro 
de si o desejo de a proteger e de cuidar dela, de
compensar-lhe todas as carncias. Nunca a tinha amado tanto.

Ao anoitecer viram chegar Miguel com as faces coradas,
virando-se em segredo e divertido para esconder o presente que
trazia escondido atrs das costas. Era um saco 
com po para a irm. Ps-lho sobre a cama, beijou-a
carinhosamente, alisou-lhe o cabelo com a mo pequenina,
aconchegando-lhe as almofadas. Nicolau estremeceu, porque 
nos gestos do menino havia mais solicitude e ternura que em
todas as carcias que ele tinha dado na sua vida a qualquer
mulher. Compreendeu ento o que Amanda queria 
dizer-lhe. Tenho muito que aprender, murmurou. Apoiou a
testa no vidro engordurado da janela, perguntando a si prprio
se alguma vez seria capaz de dar na mesma 
medida em que esperava receber.

-- Como o vamos fazer? -- perguntou, sem se atrever a dizer a
palavra terrvel.

-- Pede ajuda ao teu irmo Jaime -- sugeriu Amanda.


Jaime recebeu o irmo no seu tnel de livros, recostado na
tarimba de recruta, iluminado pela luz da nica lmpada
pendurada no tecto. Estava a ler sonetos de amor 
do Poeta, que na altura j tinha renome mundial, tal como 
previra Clara a primeira vez que o ouviu recitar com a sua voz
telrica, no salo literrio. Especulava 
que os sonetos talvez tivessem sido inspirados pela presena
de Amanda no jardim dos Trueba, onde o Poeta costumava
sentar-se  hora do ch, a falar de canes desesperadas, 
na poca em que era um hspede habitual da grande casa da
esquina. Ficou surpreendido com a visita do irmo porque,
desde que tinham sado do colgio, cada dia se 
distanciavam mais. Nos ltimos tempos no tinham nada que
falar e saudavam-se com uma inclinao de cabea as raras
vezes que se cruzavam no umbral da porta. Jaime 
tinha desistido da ideia de atrair Nicolau s coisas
transcendentais da existncia.

Ainda sentia que as frvolas diverses eram um insulto
pessoal, porque no podia aceitar que ele gastasse tempo em
viagens pelo mundo e massacres de galos, havendo 
tanto trabalho para fazer no Bairro da Misericrdia. Mas j
no tentava arrast-lo ao hospital, para que visse o
sofrimento de perto, na esperana de que a misria 
alheia conseguisse comover-lhe o corao de ave de arribao e
deixou de o convidar para as reunies com os socialistas na
casa de Pedro Tercero, na ltima rua do 
bairro operrio, onde se reuniam vigiados pela polcia todas
as quintas-feiras. Nicolau ria-se das suas inquietaes
sociais dizendo que s um tonto com vocao 
de apstolo podia sair pelo mundo em busca da desgraa e da
fealdade com um coto de vela. Agora Jaime tinha o irmo na
frente, olhando-o com a expresso culpada 
e suplicante que usara tantas vezes para ter o seu afecto.

-- Amanda est grvida -- disse Nicolau sem prembulos.

Teve de o repetir porque Jaime ficou imvel, na mesma atitude
dura que tinha sempre, sem que um s gesto denunciasse que
tinha ouvido. Mas por dentro a frustrao 
tomava conta dele. Em silncio chamava Amanda pelo seu nome,
agarrando-se, para manter o domnio,  doce ressonncia dessa
palavra. Era to grande a necessidade 
de manter viva a iluso que chegou a convencer-se de que
Amanda tinha por Nicolau um amor infantil, uma relao
limitada a passeios inocentes de mos dadas, a discusses 
 volta de uma garrafa de absinto, aos poucos beijos fugidios
que ele tinha surpreendido.

Tinha-se negado  verdade dolorosa que agora tinha de
enfrentar.

-- No me contes. No tenho nada a ver com isso -- respondeu
logo que pde falar.

Nicolau deixou-se cair sentado aos ps da cama, com a cara
entre as mos.

-- Tens de a ajudar, por favor -- suplicou.

Jaime fechou os olhos e respirou fundo, esforando-se por
controlar sentimentos loucos que lhe davam foras para matar o
irmo, para casar ele prprio com Amanda, 
para chorar de impotncia e decepo. Tinha a imagem da jovem
na memria, tal como lhe aparecia sempre que a angstia do
amor o derrotava. Via-a entrando e saindo 
da casa, como uma lufada de ar puro,  levando o irmo pela
mo, ouvia o seu riso no terrao, cheirava-lhe o imperceptvel
e doce aroma da pele e do cabelo quando 
passava a seu lado em pleno sol do meio-dia. Via-a tal como a
imaginava nas horas ociosas em que sonhava com ela. E,
sobretudo, evocava-a nesse momento preciso, 
nico, em que Amanda entrou no seu quarto e estiveram ss na
intimidade do seu santurio. Entrou sem bater, quando ele
estava deitado no catre a ler, encheu o tnel 
com as voltas do longo cabelo e dos braos ondulantes, mexeu
nos livros sem nenhum respeito e at se atreveu a tir-los
daquelas prateleiras sagradas, soprou-lhes 
o p sem o menor respeito e depois atirou-os para cima da
cama, falando sem se cansar, enquanto ele tremia de desejo e
de surpresa, sem encontrar em todo o seu vasto 
vocabulrio enciclopdico nem uma s palavra para a reter, at
que por fim ela se despediu com um beijo que lhe pregou na
face, beijo que lhe ficou a arder como 
uma queimadura, nico e terrvel beijo, que lhe serviu para
construir um labirinto de sonhos em que ambos eram prncipes
enamorados.

-- Tu sabes alguma coisa de medicina, Jaime. Tens de fazer
algo -- pediu Nicolau.

-- Sou estudante, falta-me muito para ser mdico. No sei nada
disso. Mas j vi muitas mulheres morrerem porque um ignorante
fez a interveno -- disse Jaime.

-- Ela confia em ti. Diz que s tu podes ajud-la -- disse
Nicolau. Jaime agarrou o irmo pela roupa e levantou-o no ar,
sacudindo-o como um boneco, gritando todos 
os insultos que lhe passaram pela cabea, at que os seus
prprios soluos o obrigaram a solt-lo. Nicolau chorou
aliviado. Conhecia Jaime e percebeu que, como sempre, 
aceitava o papel de protector.

-- Obrigado, irmo!

Jaime deu-lhe um murro sem vontade e empurrou-o para fora do
quarto. Fechou a porta  chave e atirou-se de bruos para a
cama, sacudido por esse pranto rouco e terrvel 
com que os bonecos choram as penas de amor.

Esperaram at ao domingo seguinte. Jaime recebeu-os no
consultrio do Bairro da Misericrdia onde praticava. Tinha a
chave porque era o ltimo a sair, de modo que 
pde entrar sem dificuldade, mas sentia-se como um ladro,
porque no teria podido explicar a sua presena ali quela
hora tardia. Desde h trs dias, estudava cuidadosamente 
cada passo da interveno que ia efectuar. Podia repetir,
palavra por palavra, o livro por ordem correcta mas nem isso
lhe dava mais segurana. Estava a tremer. 
Procurava no pensar nas mulheres que tinha visto chegar
agonizantes  sala de emergncia do hospital, as que tinha
ajudado a salvar naquele mesmo consultrio e 
as outras, as que tinham morrido, lvidas, naquelas camas, com
um rio de sangue correndo entre as pernas, sem que a cincia
pudesse fazer nada para evitar que a 
vida lhes escapasse por essa torneira aberta. Conhecia o drama
de muito perto,  mas at quele momento nunca tinha tido de
enfrentar o conflito moral de ajudar 
uma mulher desesperada. E muito menos Amanda. Acendeu as
luzes, vestiu a bata do seu oficio, preparou o instrumental
passando em voz alta todos os pormenores que 
tinha decorado. Desejava que acontecesse uma desgraa
material, um cataclismo que sacudisse o planeta nos seus
alicerces, para no ter de fazer o que ia fazer. Mas 
nada aconteceu at  hora marcada.

Entretanto, Nicolau tinha ido buscar Amanda no velho
Covadonga, que s andava aos solavancos com as suas porcas, no
meio de uma fumarada negra de leo queimado, 
mas que tambm servia para as emergncias. Ela esperava-o
sentada na nica cadeira do seu quarto, de mo dada a Miguel,
mergulhados numa mtua cumplicidade da qual, 
como sempre, Nicolau se sentiu excludo. A jovem estava plida
e extenuada devido aos nervos e s ltimas semanas de ms
disposies e incertezas que tinha suportado, 
mas estava mais calma do que Nicolau, que falava aos
atropelos, no podia estar quieto e se esforava por anim-la
com uma alegria fingida e com gracejos inteis. 
Tinha-lhe levado de presente um anel antigo de granadas e
brilhantes que tirara do quarto da me, na certeza de que ela
nunca daria pela falta e, mesmo que o visse 
na mo de Amanda, seria incapaz de o reconhecer, porque Clara
no levava em conta essas coisas. Amanda devolveu-lho com
suavidade:

-- Ests a ver, Nicolau, s uma criana -- disse sem sorrir.

No momento de sair, o pequeno Miguel enfiou um poncho e
agarrou-se  mo da irm. Nicolau teve de recorrer primeiro ao
seu encanto e depois  fora bruta para o 
deixar entregue  patroa da penso, que nos ltimos dias tinha
sido definitivamente seduzida pelo suposto primo da
pensionista e, contra as suas prprias normas, 
aceitara cuidar do menino naquela noite.

Fizeram o trajecto sem falar, cada um metido nos seus temores.
Nicolau percebia a hostilidade de Amanda como uma pestilncia
que se tivesse instalado entre os dois. 
Nos ltimos dias ela tinha chegado a amadurecer a ideia da
morte e temia-a menos que a dor e a humilhao que nessa noite
teria de suportar. Ele guiava o Covadonga 
por uma zona desconhecida da cidade, por vielas estreitas e
fbricas, por um bosque de chamins que no deixavam passar a
cor do cu. Os ces vadios cheiravam a 
imundcie e os mendigos dormiam envoltos em jornais nos vos
das portas. Surpreendeu-o que fosse aquele o cenrio
quotidiano das actividades do irmo.


Jaime estava  espera deles  porta do consultrio. A bata
branca e a sua prpria ansiedade davam-lhe um ar muito grave.
Levou-os atravs de um labirinto de corredores 
gelados at  sala que tinha preparado, procurando distrair
Amanda da fealdade do lugar, para que no visse as toalhas
amareladas  nos baldes esperando a lavagem 
de segunda-feira, os palavres garatujados -nas paredes, os
ladrilhos soltos e as canalizaes oxidadas que gotejavam sem
parar. Amanda parou  porta do pavilho 
com uma expresso de terror: tinha visto os instrumentos e a
mesa ginecolgica e o que at esse momento era uma ideia
abstracta e uma brincadeira com a morte, tomou 
forma nesse instante. Nicolau estava lvido, mas Jaime
pegou-lhe pelo brao e obrigou-os a entrar.

-- No olhes, Amanda! Vou adormecer-te, para no sentires nada
-- disse-lhe.

Nunca fizera nenhuma anestesia nem nenhuma operao. Como
estudante limitava-se a trabalhos administrativos, a fazer
estatsticas, a preencher fichas e a ajudar 
curativos, suturas e tarefas menores. Estava mais assustado do
que a prpria Amanda, mas adoptou a atitude prepotente e
descontrada que tinha visto aos mdicos, 
para ela acreditar que todo aquele assunto no era mais do que
rotina. Quis evitar-lhe o trabalho de despir-se e evitar ele
prprio a perturbao de a observar, 
por isso ajudou-a a estender-se vestida sobre a mesa. Enquanto
se lavava e indicava a Nicolau a maneira de o fazer tambm,
tentava distra-la com a anedota do fantasma 
espanhol que tinha aparecido a Clara numa sesso das
sextas-feiras, com o conto de que havia um tesouro escondido
nas fundaes da casa e falou-lhe na famlia: uma 
data de loucos extravagantes em vrias geraes dos quais at
os fantasmas se riam. Mas Amanda no o ouvia, estava plida
como um sudrio e batiam-lhe os dentes.

-- Para que so essas correias? No quero que me amarres!

-- No te vou amarrar. Nicolau vai dar-te o ter. Respira
tranquila e no te assustes porque quando acordares j
terminmos. - Sorriu Jaime por cima da mscara.

Nicolau aproximou da jovem a mscara da anestesia. A ltima
pessoa que ela viu na escurido foi Jaime a olh-la, com amor,
mas pensou que estava sonhando. Nicolau 
tirou-lhe a roupa e atou-a  mesa consciente de que aquilo era
pior que uma violao, enquanto o irmo aguardava com as mos
enluvadas, tentando ver nela, no a 
mulher que ocupava todos os seus pensamentos, mas apenas um
corpo como tantos que, todos os dias, passavam por essa mesma
mesa, com um grito de dor.

Comeou a trabalhar com lentido e cuidado, repetindo para si
prprio o que tinha de fazer, mastigando o texto do livro que
tinha aprendido de memria, com o suor 
caindo-lhe sobre os olhos, atento  respirao da rapariga, 
cor da sua pele, ao ritmo do corao, para dizer ao irmo que
lhe pusesse mais ter cada vez que gemesse, 
rezando para que no acontecesse nenhuma complicao, enquanto
esgravatava na sua mais profunda intimidade, sem deixar, em
todo esse tempo, de maldizer o irmo em 
pensamento, porque se aquele filho fosse seu e no de Nicolau
teria nascido so e completo, em vez de ir em  pedaos pelo
cano de esgoto daquele miservel consultrio 
e ele t-lo-ia embalado e protegido, em vez de o extrair do
seu nicho s colheradas. Vinte e cinco minutos depois tinha
terminado e ordenou a Nicolau que o ajudasse 
a acomod-la enquanto Lhe passava o efeito do ter, mas viu
que o irmo cambaleava apoiado contra a parede, tomado de
violentos vmitos.

-- Idiota! -- rugiu Jaime. -- Vai  casa de banho. Depois de
vomitares a culpa, aguarda na sala de espera, porque ainda
temos pano para mangas!

Nicolau saiu aos tropees, Jaime tirou as luvas e a mscara e
comeou a tirar as correias de Amanda, a vestir-lhe
delicadamente a roupa, a esconder os vestgios 
ensanguentados da sua obra e a retirar da vista os
instrumentos da sua tortura. Levantou-a em seguida nos braos,
saboreando aquele instante em que podia apert-la 
contra o peito, e levou-a para uma cama onde tinha posto
lenis limpos, que era mais do que tinham as mulheres que iam
ao consultrio pedir socorro. Vestiu-a e 
sentou-se a seu lado. Pela primeira vez na sua vida podia
observ-la  vontade. Era mais pequena e doce do que parecia
quando andava por todo o lado com o disfarce 
de pitonisa e a chocalhada de missangas e, tal como sempre
tinha suspeitado, no seu corpo delgado os ossos eram apenas
uma sugesto entre as pequenas colinas e os 
lisos vales da sua feminilidade. Sem a melena escandalosa e os
olhos de esfinge, parecia ter quinze anos. A sua
vulnerabilidade pareceu a Jaime mais desejvel que 
tudo o que antes nela o tinha seduzido. Sentia-se maior e mais
pesado do que ela duas vezes e mil vezes mais forte, mas
sentia-se antecipadamente derrotado pela 
ternura e pela nsia de proteg-la. Amaldioou o seu
invencIvel sentimentalismo e tentou v-la como a amante do
irmo a quem acabava de praticar um aborto, mas logo 
compreendeu que era uma inteno intil, e abandonou-se ao
prazer e ao sofrimento de a amar. Acariciou-lhe as mos
transparentes, os dedos finos, os lbulos das 
orelhas, percorreu-lhe o pescoo ouvindo o rumor imperceptvel
da vida na suas veias. Aproximou a boca dos seus lbios e
aspirou com avidez o odor da anestesia, 
mas no se atreveu a toc-los.

Amanda regressou do sono lentamente. Sentiu primeiro frio e a
seguir deram-lhe vmitos. Jaime consolou-a falando-lhe na
mesma linguagem secreta que reservava para 
os animais e para as crianas mais pequenas do hospital dos
pobres, at que se foi acalmando. Ela comeou a chorar e ele
continuou a acarici-la. Ficaram em silncio, 
ela oscilando entre a modorra, as nuseas, a angstia e a dor
que comeava a arrepanhar-lhe o ventre, ele desejando que essa
noite no terminasse nunca.

-- Crs que eu poderei ter filhos? -- perguntou ela por fim.

-- Suponho que sim -- respondeu ele. -- Mas procura para eles
um pai responsvel.

Os dois sorriram aliviados. Amanda procurou no rosto moreno de
Jaime,  inclinado to prximo do seu, alguma semelhana com o
de Nicolau e no a pde encontrar. 
Pela primeira vez na sua existncia de nmada sentiu-se
protegida e segura, suspirou contente e esqueceu a sordidez
que a rodeava, as paredes descascadas, os frios 
armrios metlicos, os pavorosos instrumentos, o cheiro a
desinfectante e tambm a dor rouca que se tinha instalado nas
suas entranhas.

-- Por favor, deita-te a meu lado e abraa-me -- disse.

Ele estendeu-se timidamente na cama estreita rodeando-a com os
braos. Procurava manter-se quieto para no a incomodar e no
cair. Tinha a ternura desajeitada de 
quem nunca foi amado e deve improvisar. Amanda fechou os olhos
e sorriu. Estiveram assim, respirando juntos em completa
calma, como dois irmos, at que comeou 
a clarear e a luz da janela foi mais forte que a da lmpada.
Ento Jaime ajudou-a a pr-se em p, vestindo-lhe o casaco e
levou-a pelo brao at  antecmara onde 
Nicolau tinha adormecido numa cadeira.

-- Acorda! Vamos lev-la a casa, para que a me cuide dela. 
melhor no a deixar s por estes dias -- disse Jaime.

-- Sabia que podia contar contigo, irmo -- agradeceu Nicolau,
emocionado.

-- No o fiz por ti, desgraado, mas por ela - grunhiu Jaime
virando-lhe as costas.

Na casa grande da esquina Clara recebeu-os sem fazer
perguntas, ou talvez as fizesse directamente s cartas ou aos
espritos. Tiveram de acord-la porque estava 
a amanhecer e ainda ningum se tinha levantado.

-- Mam, ajuda Amanda -- pediu Jaime com a segurana que dava
a grande cumplicidade que tinham nesses assuntos. -- Est
doente. Vai ficar por uns dias.

-- E o Miguelito?-perguntou Amanda.

-- Eu irei busc-lo-disse Nicolau e saiu.

Prepararam um dos quartos de hspedes e Amanda deitou-se.
Jaime tirou-lhe a temperatura e disse que devia descansar. Fez
meno de se retirar, mas ficou parado no 
umbral da porta, indeciso. Nesse instante Clara voltou com uma
bandeja com caf para os trs.

-- Suponho que lhe devemos uma explicao, mam - murmurou
Jaime.

-- No, filho -- respondeu Clara alegremente. -- Se  pecado,
prefiro que no mo contem. Vamos aproveitar para acarinhar
Amanda um pouco, que bem falta lhe faz.

Saiu seguida pelo filho. Jaime viu a me avanar pelo corredor
descala, com o cabelo solto pelas costas, vestida com o
roupo branco e notou que no era alta e 
forte como a tinha visto na infncia. Estendeu a mo e
reteve-a por um ombro. Ela voltou a cabea e sorriu, e Jaime
abraou-a de sbito, estreitando-a contra o peito, 
raspando-lhe a testa com o queixo onde a barba  crescida j
reclamava navalha. Era a primeira vez que lhe fazia uma
carcia espontnea desde que era uma criana 
presa por necessidade aos seus seios e Clara surpreendeu-se ao
ver como o seu filho era grande, com um trax de levantador de
pesos e braos como martelos que a 
esmagavam num gesto temeroso. Emocionada e feliz perguntou a
si prpria como era possvel que aquele homenzarro peludo,
com a fora de um urso e a candura de uma 
novia, tivesse estado alguma vez na sua barriga e alm disso
na companhia de outro.

Nos dias seguintes Amanda teve febre. Jaime, assustado,
vigiava-a a todo o momento e administrava-lhe sulfamidas.
Clara cuidava dela. No deixou de observar que 
Nicolau perguntava por Amanda discretamente, mas no fazia
nenhuma tentativa de a visitar, e que por seu lado Jaime
fechava-se com ela, emprestava-lhe os seus livros 
mais queridos e andava como que iluminado, dizendo
incoerncias e rondando pela casa como nunca o tinha feito,
at ao ponto de esquecer a reunio dos socialistas 
das quintas-feiras.

Foi assim que Amanda passou a fazer parte da famlia durante
algum tempo e que Miguelito, por uma circunstncia especial,
esteve presente, escondido no armrio, 
no dia em que nasceu Alba na casa dos Trueba, nunca mais
esquecendo o grandioso e terrvel espectculo da criana vinda
ao mundo envolvida nas mucosidades ensanguentadas, 
entre os gritos da me e o alvoroo das mulheres que
circulavam  sua volta.

Entretanto, Esteban Trueba tinha partido de viagem para a
Amrica do Norte. Cansado com a dor dos ossos e com aquela
secreta doena que s. ele percebia, tomou a 
deciso de se fazer examinar pelos mdicos estrangeiros,
porque tinha chegado  concluso apressada de que os mdicos
latinos eram todos uns charlates mais prximos 
do bruxo indgena que do cientista. O seu encolhimento era to
subtil, to lento e disfarado, que ningum mais tinha notado.
Tinha de comprar os sapatos um nmero 
mais pequeno, tinha de fazer encurtar as calas e de mandar
fazer pregas nas mangas das camisas. Um dia ps o bon que no
tinha usado em todo o Vero e viu que 
lhe cobria completamente as orelhas, donde deduziu horrorizado
que estava encolhendo o tamanho do seu crebro provavelmente
tambm minguavam as suas ideias. Os mdicos 
gringos mediram-lhe o corpo, viram-lhe os dentes um por um,
interrogaram-no em ingls, injectaram-lhe lquidos com uma
agulha e extraram-lhos com outra, radiografaram-no, 
viraram-no do avesso como uma luva e at lhe meteram uma
lmpada no nus. Por fim, concluram que eram puras ideias
suas, que no pensasse que estava a encolher, 
que tinha tido sempre o mesmo tamanho e que certamente tinha
sonhado que alguma vez medira um metro e oitenta e calava
quarenta e dois. Esteban Trueba acabou  
por perder a pacincia e regressou  ptria disposto a no
prestar ateno ao problema da estatura, visto que todos os
grandes polticos da histria tinham sido 
pequenos, desde Napoleo at Hitler.

Quando chegou a casa, viu Miguel brincando no jardim, Amanda
mais magra e olheirenta, sem colares nem pulseiras, sentada
com Jaime no terrao. No fez perguntas, 
porque estava acostumado a ver gente estranha  famlia
vivendo debaixo do seu prprio tecto.


Captulo VIII

O Conde

Esse perodo teria desaparecido na confuso das recordaes
antigas e apagadas pelo tempo se no fossem as cartas que
Clara e Blanca trocaram. Essa vasta correspondncia 
preservou os acontecimentos, salvando-os da nebulosa dos
factos improvveis. A partir da primeira carta que recebeu da
filha, depois do casamento, Clara pde adivinhar 
que a sua separao de Blanca no seria por muito tempo. Sem
dizer a ningum, preparou um dos mais soalheiros e amplos
quartos da casa, para a esperar. Instalou 
ali o bero de bronze onde tinha criado os trs filhos.

Blanca nunca pde explicar  me as razes pelas quais tinha
aceitado casar, porque nem ela prpria as sabia. Analisando o
passado, quando j era uma mulher madura, 
chegou  concluso de que a causa principal foi o medo que
sentia pelo pai. Desde criana de peito tinha conhecido a
fora irracional da sua ira e estava habituada 
a obedecer-lhe. A gravidez e a noticia de que Pedro Tercero
tinha morrido acabaram por faz-la decidir; no entanto, props
a si prpria, no momento em que aceitou 
o enlace com Jean de Satigny, que nunca consumaria o
casamento. Ia inventar toda a espcie de argumentos para
atrasar a unio, a princpio sob o pretexto das indisposies 
prprias do seu estado e depois procuraria outros, certa de
que seria muito mais fcil manejar um marido como o conde, que
usava calado de pelica, punha verniz 
nas unhas e estava disposto a casar com uma mulher grvida de
outro, do que opor-se a um pai como Esteban Trueba. De dois
males, escolheu o que lhe pareceu menor. 
Deu conta que entre o pai e o conde francs havia um acordo
comercial em que ela no tinha nada a dizer. Em troca de um
apelido para o neto, Trueba deu a Jean de 
Satigny um dote suculento e a promessa de que um dia receberia
uma herana. Blanca prestou-se para o negcio, mas no estava 
disposta a entregar ao marido nem 
amor nem a intimidade, porque continuava a amar Pedro Tercero
Garcia, mais por fora do hbito, do que pela esperana de o
tornar a ver.

Blanca e o seu flamante marido passaram a primeira noite de
casados no quarto nupcial do melhor hotel da capital, que
Trueba mandou encher de flores para a filha 
lhe perdoar o rosrio de violncias com que a tinha castigado
nos ltimos meses. Para sua surpresa, Blanca no teve
necessidade de fingir uma enxaqueca, porque logo 
que ficaram ss, Jean abandonou o papel de noivo que lhe dava
beijos no pescoo e escolhia os melhores lagostins para lhos
dar na boca, e pareceu esquecer por completo 
os modos sedutores de gal de cinema mudo, para se transformar
no irmo que havia sido para ela nos passeios do campo, quando
iam merendar sobre a relva com a mquina 
fotogrfica e os livros em francs. Jean entrou na casa de
banho, onde se demorou tanto que, quando reapareceu no quarto,
Blanca estava meio adormecida. Julgou estar 
sonhando ao ver que o marido tinha trocado o fato de casamento
por um pijama de seda negra e um roupo de veludo estilo
Pompeia, tinha posto uma rede para segurar 
as impecveis ondas do penteado e cheirava intensamente a
colnia inglesa. No parecia ter nenhuma impacincia ertica.
Sentou-se ao seu lado na cama, acariciou-lhe 
a face com o mesmo gesto um pouco brincalho que ela tinha
visto noutras ocasies, e comeou a explicar no afectado
espanhol sem erres que no tinha nenhuma inclinao 
especial para o casamento, porque era um homem apaixonado s
pelas artes, pelas letras e pelas curiosidades cientificas, e
que por isso no queria incomod-la com 
exigncias de marido, de maneira que podiam viver juntos, mas
no revoltados, em perfeita harmonia e boa educao. Aliviada
estendeu-lhe os braos ao pescoo e beijou-o 
em ambas as faces.

-- Obrigado, Jean! -- exclamou.

-- No tem de qu -- respondeu cortesmente.

Acomodaram-se na grande cama de falso estilo Imprio,
comentando os pormenores da festa e fazendo planos para a sua
vida futura.

-- No te interessa saber quem  o pai do meu filho? --
perguntou Blanca.

-- Sou eu -- respondeu Jean, beijando-a na testa.

Dormiram cada um para seu lado, de costas viradas. s cinco da
manh Blanca despertou com o estmago s voltas devido ao
cheiro adocicado das flores com que Esteban 
Trueba tinha decorado o quarto nupcial. Jean de Satigny
acompanhou-a  casa de banho, segurou-lhe a testa enquanto se
dobrava sobre a sanita, ajudou-a a deitar-se 
e atirou as flores para o corredor. Depois ficou acordado o
resto da noite a ler A Filosofia da Alcova, do Marqus de
Sade, enquanto Blanca suspirava entre sonhos 
que era estupendo estar casada com um intelectual.

No dia seguinte Jean foi ao Banco levantar um cheque do sogro
e passou  quase todo o dia percorrendo as lojas do centro para
comprar o enxoval de noivo que considerou 
apropriado para a sua nova posio econmica. Entretanto,
Blanca, aborrecida de esperar por ele no hall do hotel
resolveu ir visitar a me. Ps o melhor chapu 
da manh e partiu num fiacre para a grande casa da esquina,
onde o resto da famlia estava a almoar em silncio, ainda
rancorosos e cansados pelos sobressaltos 
do casamento e pela ressaca das ltimas lutas. Ao v-la entrar
na sala de jantar, o pai deu um grito de horror:

-- Que fazes aqui, filha! -- rugiu.

-- Nada... venho v-los -- murmurou Blanca aterrada.

-- Est louca! No v que se algum a v vo dizer que o seu
marido a devolveu em plena lua-de-mel? Vo dizer que no era
virgem!

-- E no era, pap.

Esteban esteve a pontos de lhe estampar um bofeto na cara,
mas Jaime meteu-se na frente com tanta determinao que se
limitou a insult-la pela sua estupidez. Clara, 
sem se impressionar, levou Blanca at uma cadeira e serviu-lhe
um prato de peixe frito com molho de alcaparras. Enquanto
Esteban continuava a gritar e Nicolau ia 
buscar o carro para a levar ao marido, as duas cochicharam
como nos velhos tempos.

Nessa mesma tarde, Blanca e Jean tomaram o comboio que os
levou ao porto. A embarcaram num transatlntico ingls. Ele
vestia calas de linho branco e um casaco 
azul de corte  marinheira, que combinava na perfeio com a
saia azul e o casaco branco do tailleur da mulher. Quatro dias
mais tarde, o barco largou-os na mais 
esquecida provncia do Norte, onde as elegantes roupas e as
malas de crocodilo passaram despercebidas no calor seco da
hora da sesta. Jean de Satigny instalou provisoriamente 
a esposa num hotel e deu-se ao trabalho de procurar um
alojamento digno dos seus novos rendimentos. Vinte e quatro
horas depois, a pequena sociedade provinciana 
sabia que havia um conde autntico entre eles. Isso facilitou
muito as coisas a Jean. Pde alugar uma antiga manso que
tinha pertencido a uma das grandes fortunas 
dos tempos do salitre, antes de se ter inventado o substituto
sinttico que arruinou toda a regio. A casa estava um pouco
triste e abandonada como tudo o resto, 
necessitava de algumas reparaes, mas conservava intacta a
dignidade de antigamente e o encanto do fim do sculo. O conde
decorou-a com gosto, com um refinamento 
equvoco e decadente que surpreendeu Blanca, acostumada  vida
do campo e  sobriedade clssica do seu pai. Jean colocou
suspeitos jarres de porcelana chinesa que 
em vez de flores tinham plumas de avestruz coloridas, cortinas
de damasco com drapejados e borlas, almofades com franjas e
pompons, mveis de todos os estilos, 
bengalas douradas, biombos e uns incrveis candeeiros de p,
sustidos por esttuas de loia representando negros abissnios
em tamanho natural, seminus, mas com 
babuchas e turbantes. A casa estava sempre com as cortinas
corridas, numa  tnue penumbra que conseguia deter a luz
implacvel do deserto. Ns cantos, Jean ps 
turbulos onde queimava ervas perfumadas e paus de incenso,
que a princpio deram volta ao estmago de Blanca, mas a que
ela logo se habituou. Contratou vrios ndios 
para o seu servio, alm de uma gorda monumental que fazia o
trabalho da cozinha, a quem treinou para preparar os molhos
muito apurados como ele gostava, e uma aia 
coxa e analfabeta para cuidar de Blanca. Vestiu a todos
vistosos uniformes de opereta, mas no conseguiu pr-lhes
sapatos, porque estavam habituados a andar descalos 
e no os aguentavam. Blanca sentia-se incomodada naquela casa
e desconfiava dos ndios de rosto inaltervel, que a serviam
sem vontade e pareciam rir-se dela nas 
suas costas. Circulavam  sua volta como espritos, deslizando
sem rudo pelos quartos, quase sempre sem nada que fazer e
aborrecidos. No respondiam quando ela 
lhes falava, como se no compreendessem o castelhano, e entre
si falavam num sussurro ou em dialectos do planalto. Sempre
que Blanca comentava com o marido as estranhas 
coisas que via nos serviais, ele dizia que eram costumes de
ndios e que o melhor era no fazer caso. O mesmo respondeu
Clara por carta quando ela lhe contou que 
um dia viu um dos ndios equilibrando-se nuns surpreendentes
sapatos antigos de taco torcido e lao de veludo, onde os
largos ps calosos do homem se mantinham 
encolhidos. O calor do deserto, a gravidez e o teu desejo
inconfessado de viver como uma condessa, de acordo com a
linhagem do teu marido, fazem-te ter vises, 
filhinha, escreveu Clara em tom de graa e acrescentou que o
melhor remdio contra os sapatos Lus XV era um duche frio e
um ch de macela. De outra vez Blanca 
encontrou no seu prato uma pequena lagartixa morta que esteve
quase a levar  boca. Logo que se refez do susto e conseguiu
falar, chamou aos gritos a cozinheira 
e apontou-lhe o prato com o dedo a tremer. A cozinheira
aproximou-se bamboleando a imensido de gordura e as tranas
negras, e pegou no prato sem comentrios. Mas, 
no momento de voltar-se, Blanca julgou surpreender um gesto de
cumplicidade entre o marido e a ndia. Nessa noite ficou
acordada at muito tarde, pensando no que 
tinha visto, at que ao amanhecer chegou  concluso de que
tinha imaginado tudo. A me tinha razo: o calor e a gravidez
estavam a transtorn-la.

Os quartos mais afastados da casa foram destinados  mania de
Jean pela fotografia. Instalou l as mquinas. Pediu a Blanca
que no entrasse nunca sem autorizao 
naquilo que baptizou de laboratrio, porque, segundo
explicou, podiam-se velar as chapas com a luz natural. Ps
fechadura na porta e andava com a chave pendurada 
de uma corrente de ouro, precauo completamente intil,
porque a mulher no tinha praticamente nenhum interesse pelo
que a rodeava e muito menos pela arte da fotografia.

 medida que engordava, Blanca ia adquirindo uma placidez
oriental contra a qual esbarravam as tentativas do marido para
incorpor-la na  sociedade, lev-la a 
festas, passe-la de carro ou entusiasm-la pela decorao do
seu novo lar. Pesada, sem graa, solitria e com um cansao
permanente, Blanca refugiou-se na tecelagem 
e no bordado. Passava grande parte do dia a dormir e nas horas
de viglia fazia minsculas peas de roupa para um enxoval
cor-de-rosa, porque estava segura de que 
daria  luz uma menina. Tal como a me fizera com ela,
desenvolveu um sistema de comunicao com a criana que estava
a gerar, voltando-se para o seu interior num 
dilogo silencioso e ininterrupto. Nas cartas descrevia a vida
retirada e melanclica e referia-se ao marido com cega
simpatia, como um homem fino, discreto e considerado. 
Assim foi-se estabelecendo, sem ser proposta por si, a lenda
de que Jean de Satigny era quase um prncipe, sem mencionar o
facto de que aspirava cocana pelo nariz 
e fumava pio  tarde, porque tinha a certeza de que os pais
no saberiam compreend-lo. Dispunha de toda uma ala da manso
s para ela. Ali tinha assentado arraiais 
e ali amontoava tudo o que estava preparando para a chegada da
filha. Jean dizia que nem em cinquenta anos conseguiria vestir
toda aquela roupa e brincar com aquela 
quantidade de brinquedos, mas a nica diverso de Blanca era
sair para percorrer o reduzido comrcio da cidade e comprar
tudo o que via em cor-de-rosa para o beb. 
O dia passava-o a bordar mantinhas, fazer sapatinhos de l,
decorar aafates, ordenar pilhas de camisas, de babeiros, de
fraldas, passar a ferro os lenis bordados. 
Depois da sesta escrevia  me e s vezes ao irmo Jaime e,
quando o Sol se punha e refrescava um pouco, caminhava pelos
arredores da casa para desentorpecer as 
pernas.  noite reunia-se com o marido na grande sala de
jantar onde os. negros de loia, postos nos seus cantos,
iluminavam o jantar com luz de prostbulo. Sentavam-se 
um em cada extremo da mesa posta com toalha grande, cristais e
baixela completa e ornamentada com flores artificiais, porque
naquela regio inspita no as havia 
naturais. Servia-os sempre o mesmo ndio impassvel e
silencioso, que mantinha na boca girando permanentemente a
bola verde de folhas de coca com que se sustentava. 
No era um servial vulgar e no cumpria nenhuma funo
especfica dentro da organizao domstica. Nem servir  mesa
era o seu forte, porque no dominava nem as 
travessas nem os talheres e acabava por servir-lhes a comida
de qualquer maneira. Blanca teve de dizer-lhe certa ocasio
que por favor no agarrasse as batatas com 
a mo para as pr no prato. Mas Jean de Satigny estimava-o por
alguma razo e treinava-o para ser o seu ajudante de
laboratrio.

-- Se no pode falar como um cristo, menos poder tirar
retratos -- observou Blanca quando soube.

Foi aquele ndio que Blanca julgou ver enfeitado com sapatos
Lus XV.

Os primeiros meses da sua vida de casada passaram-se
tranquilos e aborrecidos. A tendncia natural de Blanca para o
isolamento e a solido acentuou-se. Negou-se 
 vida social e Jean de Satigny acabou por ir sozinho  aos
numerosos convites que recebiam. Depois, quando chegava a
casa, comentava para Blanca o pedantismo daquelas 
famlias antigas e velhas em que as senhoras andavam com
acompanhante e os cavalheiros usavam escapulrios. Blanca pde
fazer a vida ociosa para a qual tinha vocao, 
enquanto o marido se dedicava queles pequenos prazeres que s
o dinheiro pode pagar e queles a que tinha renunciado por to
longo tempo. Sala todas as noites para 
jogar no casino e a mulher calculou que devia perder grandes
somas de dinheiro, porque no fim do ms havia invariavelmente
uma fila de credores  porta. Jean tinha 
uma ideia muito peculiar sobre a economia domstica. Comprou
um automvel do ltimo modelo, com assentos forrados de pele
de leopardo e buzinas douradas, digno de 
um prncipe rabe, o maior e o mais espaventoso que alguma vez
se vira por aqueles lados. Estabeleceu uma rede de contactos
misteriosos que lhe permitiam comprar 
antiguidades, especialmente porcelana francesa de estilo
barroco, pela qual tinha um grande fraco. Tambm meteu no pais
caixotes de bebidas finas que passavam pela 
alfndega sem problemas. Os seus contrabandos entravam em casa
pela porta de servio e saam intactos pela porta principal
rumo a outros stios, onde Jean os consumia 
em pandegas secretas ou os vendia por um preo exorbitante. Em
casa no recebiam visitas e em poucas semanas as senhoras da
localidade deixaram de convidar Blanca. 
Tinha corrido o rumor de que era orgulhosa, altiva e doente, o
que aumentou a simpatia geral pelo conde francs que granjeou
fama de marido paciente e sofredor.

Blanca dava-se bem com o marido. As nicas ocasies em que
discutiam era quando ela tentava averiguar as finanas
familiares. No conseguia compreender que Jean 
se desse ao luxo de comprar porcelanas e passear naquele
veculo tigrado, se no tinha dinheiro suficiente para pagar a
conta do chins do armazm nem os salrios 
dos numerosos serviais. Jean negava-se a falar do assunto,
com o pretexto de que isso eram responsabilidades propriamente
masculinas e que ela no tinha necessidade 
de encher a cabecinha de pardal com problemas que no tinha
capacidade para compreender. Blanca sups que a conta de Jean
de Satigny com Esteban Trueba tinha fundos 
ilimitados e, ante a impossibilidade de chegar a um acordo com
ele, acabou por se desinteressar desse problema. Vegetava como
uma flor de outro clima, dentro daquela 
casa encravada nos areais, rodeada de ndios inslitos que
pareciam existir noutra dimenso, surpreendendo amide
pequenos pormenores que a induziam a duvidar do 
seu prprio juzo. A realidade parecia-lhe indefinida como se
aquele sol implacvel que apagava as cores tambm tivesse
deformado as coisas que a rodeavam e tivesse 
convertido os seres humanos em sombras silenciosas.

No torpor daqueles meses, Blanca protegida pela criana que
crescia dentro de si, esqueceu a grandeza da sua desgraa.
Deixou de pensar em Pedro  Tercero Garcia 
com a oprimida urgncia com que o fazia antes e refugiou-se em
recordaes doces e distantes que podia evocar a todo o
momento. A sua sensualidade estava adormecida 
e, nas raras ocasies em que meditava sobre o seu destino
infeliz, tinha prazer em se imaginar a si mesma flutuando numa
nebulosa, sem tristezas e alegrias, alheada 
das coisas brutais da vida, isolada com a sua filha por nica
companheira. Chegou a pensar que tinha perdido para sempre a
capacidade de amar e que o ardor da sua 
carne se apagara definitivamente. Passava interminveis horas
contemplando a paisagem plida que se estendia diante da
janela. A casa ficava no limite da cidade, 
rodeada por algumas rvores raquticas que resistiam ao ataque
implacvel do deserto. Para o lado norte, o vento destrua
toda a espcie de vegetao e podia ver-se 
a imensa plancie de dunas e cerros longnquos tremendo na
reverberao da luz. De dia, o corpo vergava-se-lhe com o
sufocar daquele sol de chumbo e de noite tremia 
de frio entre os lenis da cama, defendendo-se das geadas com
sacos de gua quente e xailes de l. Olhava o cu despido e
lmpido procurando o vestgio de uma nuvem 
com a esperana de que alguma vez casse uma gota de chuva que
viesse aliviar a aspereza opressiva daquele vale lunar. Os
meses decorriam imutveis sem mais diverso 
do que as cartas da me, em que lhe contava a campanha
poltica do pai, as loucuras de Nicolau, as extravagancias de
Jaime, que vivia como um padre, mas andava com 
os olhos enamorados. Clara sugeriu-lhe numa das cartas que,
para ter as mos ocupadas, devia voltar a fazer prespios. Ela
tentou. Encomendou a argila especial que 
estava acostumada a usar em Las Tres Marias, montou a oficina
na parte posterior da cozinha e ps dois ndios a construir um
forno para cozer as figuras de barro. 
Mas Jean de Satigny ria-se do seu af artstico, dizendo que
se era para manter as mos ocupadas melhor seria tricotar
botinhas e aprender a fazer pastelinhos folhados. 
Ela terminou por abandonar o trabalho, no tanto pelos
sarcasmos do marido, mas porque se lhe tornou impossvel
competir com a olaria antiga dos ndios.

Jean tinha organizado o seu negcio com a mesma tenacidade que
antes empregara no assunto das chinchilas, mas com mais xito.
A no ser um padre alemo que havia 
trinta anos percorria a regio para desenterrar o passado dos
Incas, ningum mais se preocupava com aquelas relquias por as
considerarem sem valor comercial. O 
governo proibia o trfego de antiguidades indgenas e tinha
dado uma concesso geral ao padre, que estava autorizado a
requisitar peas e lev-las para o museu. 
Passou dois dias com o alemo, que, feliz por encontrar depois
de tantos anos uma pessoa interessada no seu trabalho, no
teve reticncias em revelar os seus vastos 
conhecimentos. Assim soube a forma de determinar quanto tempo
tinham estado enterradas, aprendeu a diferenar as pocas dos
estilos, descobriu o modo de localizar 
os cemitrios no deserto por meio de sinais invisveis aos
olhos civilizados e  chegou finalmente  concluso de que, se
aquelas bilhas no tinham o esplendor 
dourado dos tmulos egpcios, tinham pelo menos valor
histrico. Logo que obteve toda a informao de que
necessitava, organizou grupos de ndios para desenterrar 
tudo o que tivesse escapado ao zelo arqueolgico do padre.

Os magnficos guacos (1), verdes pela ptina do tempo,
comearam a chegar a casa disfarados em embrulhos de ndios e
alforges de lamas, enchendo rapidamente os 
lugares secretos a eles destinados. Blanca via-os
amontoarem-se nos quartos e ficava maravilhada pelas suas
formas. Segurava-os nas mos, acariciando-os como que 
hipnotizada e quando os embalava em palha e papel para os
enviar para destinos longnquos e desconhecidos sentia-se
angustiada. Aquela olaria parecia-lhe demasiado 
formosa. Sentia que os monstros dos seus prespios no podiam
estar debaixo do mesmo tecto com os guacos e assim, mais por
essa do que por outra razo, abandonou 
a oficina.

(1) Objectos cermicos procedentes dos antigos tmulos
amerndios. (N. T.)

O negcio das gredas indgenas era secreto porque eram
patrimnio histrico da nao. Trabalhavam para Jean de
Satigny vrios grupos de ndios que tinham chegado 
ali deslizando clandestinamente pelas intrincadas passagens da
fronteira. No tinham documentos que os acreditassem como
seres humanos, eram silenciosos, rudes e 
impenetrveis. Todas as vezes que Blanca perguntava de onde
saiam aqueles seres que apareciam subitamente no ptio,
respondiam-lhe que eram primos do que servia 
 mesa, e com efeito eram parecidos uns com os outros. No
demoravam muito tempo em casa. A maior parte do tempo estavam
no deserto, sem mais bagagem que uma p 
para escavar a areia e uma bola de coca na boca para se
manterem vivos. Por vezes, tinham a sorte de encontrar runas
semienterradas numa aldeia inca e em pouco 
tempo enchiam as caves da casa com o que roubavam nas
escavaes. A busca, transporte e comercializao dessa
mercadoria fazia-se de maneira to cautelosa que Blanca 
no teve a menor dvida de que havia algo ilegal por detrs
das actividades do marido. Jean explicou-lhe que o Governo era
muito susceptvel a respeito daqueles 
cntaros sujos e dos mseros colares de pedrinhas do deserto e
que, para evitar os labirintos eternos da burocracia oficial,
preferia negoci-los  sua maneira. 
Fazia-os sair do pas em caixas seladas com etiquetas de
mas, graas  cumplicidade interessada de alguns inspectores
da alfndega.

Tudo isso trazia Blanca em cuidados. S a preocupava o assunto
das mmias. Estava familiarizada com os mortos, porque tinha
passado toda a vida em estreito contacto 
com eles atravs da mesa de p-de-galo, com que a me os
chamava. Estava acostumada a ver-lhe as silhuetas
transparentes passeando pelos corredores da casa dos pais, 
fazendo barulho nos roupeiros e  aparecendo nos sonhos para
prognosticar desgraas ou os prmios da lotaria. Mas as mmias
eram diferentes. Aqueles seres encolhidos, 
envoltos em trapos que se desfaziam em tiras empoeiradas, com
as cabeas descarnadas e amarelas, as mozinhas enrugadas, as
plpebras cosidas, os cabelos ralos na 
nuca, os eternos e terrveis sorrisos nos lbios, o cheiro a
rano e o ar triste e pobre dos cadveres antigos
revolviam-lhe a alma. Havia poucas. Raras vezes os 
ndios chegavam com alguma. Lentos, impassveis, apareciam em
casa carregando uma grande vasilha de barro cozido selada.
Jean abria-a cuidadosamente num quarto com 
todas as portas e janelas fechadas, para que o primeiro sopro
do ar a no transformasse em cinza. No interior da vasilha
aparecia a mmia como o caroo de um fruto 
estranho, encolhida na posio fetal, envolvida em farrapos,
acompanhada pelos miserveis tesouros de colares de dentes e
bonecos de trapo. Eram muito mais apreciadas 
que os restantes objectos que tiravam dos tmulos, porque os
coleccionadores privados e alguns museus estrangeiros
pagavam-nas muito bem. Blanca perguntava que tipo 
de pessoas podia coleccionar mortos e onde os poriam. No
podia imaginar uma mmia fazendo parte da decorao de um
salo, mas Jean de Satigny dizia-lhe que dentro 
de uma urna de cristal podiam ser mais valiosas que qualquer
obra de arte para um milionrio europeu. As mmias eram
difceis de colocar no mercado, transportar 
e passar pela alfndega, de maneira que s vezes permaneciam
vrias semanas nas caves da casa, esperando a sua vez de
fazerem a grande viagem ao estrangeiro. Blanca 
sonhava com elas, tinha alucinaes, julgava v-las andar
pelos corredores na ponta dos ps, pequenas como gnomos
disfarados e furtivos. Fechava a porta do quarto, 
metia a cabea debaixo dos lenis e passava horas assim, a
tremer, a rezar, a chamar a me com a fora do pensamento.
Contou-o a Clara nas cartas e esta respondeu-lhe 
que no devia ter medo dos mortos, mas dos vivos, porque
apesar da m fama no constava que as mmias atacassem algum;
pelo contrrio, eram de natureza bem tmida. 
Fortalecida pelos conselhos da me, Blanca resolveu espi-las.
Esperava-as em silncio, vigiando a porta entreaberta do
quarto. Teve imediatamente a certeza de que 
passeavam pela casa, arrastando os pezinhos infantis pelas
alcatifas, cochichando como escolares, empurrando-se,
passeando todas as noites em pequenos grupos de 
duas ou trs, sempre em direco do laboratrio fotogrfico de
Jean de Satigny. Por vezes, julgava ouvir uns gemidos
longnquos do outro mundo e sofria arrebatamentos 
incontrolveis de terror, chamava o marido aos gritos, mas
ningum acudia e ela tinha demasiado medo para atravessar toda
a casa para o ir procurar. Com os primeiros 
raios de Sol, Blanca recuperava a lucidez e o domnio dos
nervos atormentados, via que as angstias nocturnas eram fruto
da imaginao febril que tinha herdado da 
me e tranquilizava-se at voltarem a cair as sombras da noite
e comear de novo o seu ciclo de temor. Um dia  no suportou
mais a tenso que sentia  medida que 
se aproximava a noite e decidiu falar com Jean sobre as
mmias. Estavam a jantar. Quando ela lhe contou os passeios,
os sussurros e os gritos sufocados, Jean de 
Satigny ficou petrificado, com o garfo na mo e a boca aberta.
O ndio que ia a entrar na sala com a bandeja escorregou e o
frango assado rebolou para debaixo da 
cadeira. Jean empregou todo o seu encanto, firmeza e sentido
de lgica para a convencer de que os nervos lhe estavam a
falhar e que nada disso ocorria na realidade, 
mas que era produto da sua fantasia sobressaltada. Blanca
fingiu aceitar o raciocnio, mas pareceu-lhe muito suspeita a
veemncia do marido, que habitualmente no 
prestava ateno aos seus problemas, assim como a cara do
servial, que por um momento perdeu a expresso imutvel de
dolo e se lhe desorbitaram os olhos. Considerou 
intimamente que tinha chegado a hora de investigar a fundo o
assunto das mmias transumantes. Nessa noite despediu-se cedo,
depois de dizer ao marido que pensava 
tomar um tranquilizante para dormir. Em vez disso, bebeu uma
chvena grande de caf negro e ps-se junto  porta, disposta
a passar muitas horas de viglia.

Sentiu os primeiros passinhos por volta da meia-noite. Abriu a
porta com muita cautela e assomou a cabea, no preciso
instante em que uma pequena figura agachada 
passava ao fundo do corredor. Desta vez tinha a certeza de no
ter sonhado, mas devido ao peso do ventre, necessitou de quase
um minuto para alcanar o corredor. 
A noite estava fria e soprava a brisa do deserto, que fazia
ranger os velhos madeiramentos da casa e enfunava as cortinas
como velas negras no alto mar. Desde pequena, 
quando escutava contos de cucos da Ama na cozinha, temia a
escurido, mas no se atreveu a acender as luzes para no
espantar as pequenas mmias nos seus passeios 
vagabundos.

Em breve rompeu o espesso silncio da noite um grito rouco,
amortecido, como se sasse do fundo de um atade, pelo menos
foi o que Blanca pensou. Comeava a ser 
vtima de uma fascinao mrbida pelas coisas do alm-tmulo.
Ficou imvel, com o corao quase a saltar-lhe da boca, mas um
segundo gemido tirou-a da cisma dando-lhe 
foras para avanar at  porta do laboratrio de Jean de
Satigny. Quis abri-la, mas estava fechada  chave. Encostou a
cara  porta e ento sentiu claramente murmrios, 
gritos sufocados e risos e perdeu todas as dvidas de que
alguma coisa se estava a passar com as mmias. Regressou ao
quarto, confortada com a convico de que no 
eram os nervos que lhe estavam a falhar, mas que algo de atroz
acontecia no antro secreto do marido.

No dia seguinte, Blanca esperou que Jean de Satigny terminasse
o pequeno almoo com a frugalidade do costume, lesse o jornal
at  ltima pgina e sasse para o 
passeio de todas as manhs, sem que nada da plcida
indiferena de futura me denunciasse a sua feroz
determinao. Quando Jean  saiu, ela chamou o ndio dos saltos 
altos e pela primeira vez deu-lhe uma ordem:

-- Vai  cidade e compra-me papaias cristalizadas.

O ndio foi com o andar lento dos da sua raa e ela ficou em
casa com os outros serviais, de quem tinha muito menos medo
que desse estranho indivduo de tendncias 
cortess. Pensou que dispunha de um par de horas antes dele
regressar, de maneira que resolveu no se apressar e actuar
com serenidade. Estava decidida a esclarecer 
o mistrio das mmias furtivas. Dirigiu-se ao laboratrio,
certa de que, com a luz da manh, as mmias no teriam vontade
de fazer passeatas e desejando que a porta 
no estivesse fechada  chave, mas encontrou-a trancada como
sempre. Experimentou todas as chaves que tinha, mas nenhuma
serviu. Ento pegou na maior faca da cozinha, 
meteu-a no gonzo da porta e comeou a forar at que a madeira
seca da guarnio saltou em pedaos e pde soltar assim a
chapa e abrir a porta. O estrago que fez 
na porta no se podia disfarar e compreendeu que, quando o
marido o visse, teria de dar alguma explicao razovel, mas
contentou-se com o argumento de que como 
dona de casa tinha o direito de saber o que se estava a passar
debaixo do seu tecto. Apesar do seu sentido prtico, que tinha
resistido inaltervel mais de vinte 
anos ao baile da mesa de p-de-galo e a ouvir a me prever o
imprevisvel, ao passar a porta do laboratrio Blanca estava a
tremer.

Procurou a tactear o interruptor e acendeu a luz. Encontrou-se
num quarto espaoso, com as paredes pintadas de preto e
pesadas cortinas da mesma cor nas janelas, 
por onde no passava nem o mais pequeno raio de luz. O cho
estava coberto de espessas alcatifas escuras e por todos os
lados viu os focos, as lmpadas e os quebra-luzes 
que tinha visto Jean usar pela primeira vez durante o funeral
de Pedro Garcia, o velho, quando lhe deu para tirar retratos
aos mortos e aos vivos, at que ps toda 
a gente to irritada que os camponeses acabaram por pisar as
chapas no cho. Olhou  sua volta desconcertada: estava dentro
de um cenrio fantstico. Avanou pelo 
meio de bas abertos que tinham roupagens emplumadas de todas
as pocas, perucas frisadas e chapus pomposos, deteve-se em
frente de um trapzio dourado suspenso 
do tecto, onde se pendurava um boneco desarticulado de
propores humanas, viu num canto um lama embalsamado,
garrafas com licores ambarinos e no cho peles de animais 
exticos. Mas o que mais a surpreendeu foram as fotografias.
Ao v-las parou estupefacta. As paredes do estdio de Jean de
Satigny estavam cobertas de angustiantes 
cenas erticas que revelavam a natureza oculta do marido.

Blanca era de reaces lentas e por isso demorou um certo
tempo a assimilar o que via, at porque no tinha experincia
desses assuntos. Conhecia o prazer como uma 
ltima e preciosa etapa no longo caminho que tinha  percorrido
com Pedro Tercero, por onde tinha passado sem pressa, com bom
humor no meio dos bosques, dos trigais, 
do rio, debaixo de um cu imenso, no silncio do campo. No
teve as inquietaes prprias da adolescncia. Enquanto as
suas companheiras no colgio liam s escondidas 
novelas proibidas com gals imaginrios apaixonados e virgens
ansiosas por deixar de o ser, ela sentava-se  sombra das
cerejeiras no ptio das freiras, fechava 
os olhos e evocava com total preciso a magnifica realidade de
Pedro Tercero Garcia abraando-a, percorrendo-a com carcias e
arrancando-lhe do mais profundo os 
mesmos acordes que podia tirar da guitarra. Os seus instintos
viram-se satisfeitos mal despertaram e no lhe tinha passado
pela cabea que a paixo pudesse ter outras 
formas Aquelas cenas desordenadas e atormentadas eram uma
realidade mil vezes mais desconcertante que as mmias
escandalosas que esperara encontrar.

Reconheceu os rostos dos serviais da casa. Ali estava toda a
corte dos incas nua como Deus a ps no mundo, ou mal coberta
por roupagens de teatro. Viu o abismo 
insondvel entre as coxas da cozinheira, o lama embalsamado
montando a aia manca e o ndio impvido que servia  mesa, em
plo como um recm-nascido, sem barba e 
perna curta, com o rosto de pedra inaltervel, e o
desproporcionado pnis em ereco.

Por um instante interminvel, Blanca ficou suspensa na sua
prpria incerteza, at que o horror a venceu. Procurou pensar
com lucidez. Compreendeu o que Jean de Satigny 
tinha querido dizer na noite de casamento, quando lhe explicou
que no se sentia inclinado para a vida de casado. Vislumbrou
tambm o sinistro poder do ndio, a 
zombaria disfarada dos serviais e sentiu-se prisioneira na
antecmara do inferno. Nesse momento, a menina mexeu-se dentro
de si e ela estremeceu como se uma campainha 
de alerta tivesse tocado.

-- Minha filha! Tenho de a tirar daqui! -- exclamou abraando
o ventre.

Saiu a correr do laboratrio, atravessou a casa como um raio 
chegou  rua, onde o calor de chumbo e a luz impiedosa do
meio-dia lhe devolveram o sentido da realidade. 
Compreendeu que no podia chegar muito longe a p com a
barriga de nove meses. Regressou ao quarto, pegou em todo o
dinheiro que pde encontrar, fez um atado com 
algumas roupas do sumptuoso enxoval que tinha preparado e
dirigiu-se para a estao.

Sentada na gare, num tosco banco de madeira, com o embrulho no
regao e os olhos espantados, Blanca esperou durante horas a
chegada do comboio, rezando entredentes 
para que o conde, ao voltar a casa e ver os estragos na porta
do laboratrio, no a procurasse at dar com ela e a obrigasse
a regressar ao reino malfico dos incas, 
rezou para que o comboio se apressasse e cumprisse o horrio
uma vez na vida, para poder chegar a casa dos pais antes que a
criana que lhe apertava as entranhas 
e lhe dava pontaps nas costelas  anunciasse a sua vinda ao
mundo, para ter foras para essa viagem de dois dias sem
descanso e para que o desejo de viver fosse 
mais poderoso que aquela terrvel desolao que comeava a
paralis-la. Apertou os dentes e esperou.


Captulo IX

A Menina Alba

Alba nasceu parada, o que  sinal de boa sorte. A sua av
Clara procurou nas suas costas e encontrou uma mancha em forma
de estrela que caracteriza os seres que 
nascem capacitados para encontrar a felicidade. No h que
preocupar-se com esta menina. Ter boa sorte e ser feliz.
Alm disso ter boa pele, porque isso herda-se 
e, na minha idade, no tenho rugas e nunca me rebentou uma
borbulha, sentenciou Clara no segundo dia do nascimento. Por
essas razes no se preocuparam em prepar-la 
para a vida, j que os astros se tinham combinado para a dotar
de tantos dons. O seu signo era Leo. A sua av estudou a sua
carta astral e anotou o seu destino 
com tinta branca num lbum de papel negro, onde colou tambm
algumas mechas esverdeadas do seu primeiro cabelo, as unhas
que lhe cortou pouco tempo depois de nascer 
e vrios retratos que permitem apreci-la tal como era: um ser
extraordinariamente pequeno, quase calvo, enrugado e plido,
sem outro indcio de inteligncia humana 
que os negros olhos reluzentes, com uma sbia expresso de
velhice desde o bero. O seu verdadeiro pai era assim que os
tinha. A me queria chamar-lhe Clara, mas 
a av no era partidria de repetir os nomes da famlia,
porque isso cria confuso nos cadernos de anotar a vida.
Procuraram um nome num dicionrio de sinnimos 
e descobriram o seu, que  o ltimo de uma cadeia de palavras
luminosas que querem dizer o mesmo. Anos depois Alba
atormentava-se pensando que, quando ela tivesse 
uma filha, no haveria outra palavra com o mesmo significado
que pudesse servir-lhe de nome, mas Blanca deu-lhe a ideia de
usar lnguas estrangeiras, o que oferece 
uma ampla variedade.

Alba esteve quase a nascer num comboio de via reduzida, s
trs da tarde, no meio do deserto. Isso teria sido fatal para
a sua carta astrolgica. Por sorte,  pde 
aguentar-se dentro da me vrias horas mais e conseguiu nascer
na casa dos avs, no dia, na hora e no lugar exactos que mais
convinham ao seu horscopo. A me chegou 
 grande casa da esquina sem aviso prvio, desgrenhada,
coberta de p, olheirenta e dobrada em duas pela dor das
contraces com que Alba puxava para sair, tocou 
 porta com desespero e, quando a abriram, passou como um
furaco, sem parar, at  sala de costura, onde Clara estava a
acabar o ltimo vestido primoroso para a 
sua futura neta. Foi ali que Blanca se deixou cair, depois da
sua longa viagem, sem conseguir dar nenhuma explicao, porque
o ventre rebentou-se-lhe com um profundo 
suspiro e sentiu que toda a gua do mundo lhe corria por entre
as pernas num gorgolejo furioso. Aos gritos de Clara acudiram
os criados e Jaime, que nesses dias 
estava sempre em casa  volta de Amanda. Levaram-na para o
quarto de Clara e, enquanto a instalavam sobre a cama e lhe
arrancavam a roupa do corpo aos puxes, Alba 
comeou a mostrar a sua minscula humanidade. O tio Jaime, que
tinha assistido a alguns partos no hospital, ajudou-a a
nascer, agarrando-a firmemente pelas ndegas 
com a mo direita, enquanto com os dedos da mo esquerda
tacteava na escurido  procura do pescoo da criana, para
separar o cordo umbilical que a estrangulava. 
Entretanto Amanda, que chegou a correr, atrada pelo alvoroo,
apertava o ventre de Blanca com todo o peso do seu corpo e
Clara, inclinada sobre o rosto sofredor 
da filha, aproximava-lhe do nariz um coador de ch coberto com
um trapo, onde se destilavam umas gotas de ter. Alba nasceu
com rapidez. Jaime tirou-lhe o cordo 
do pescoo, segurou-a no ar de boca para baixo e com duas
sonoras palmadas iniciou-a no sofrimento da vida e na mecnica
da respirao, mas Amanda, que tinha lido 
sobre os costumes das tribos africanas e pregava o retorno 
natureza, tirou-lhe a recm-nascida das mos e colocou-a
carinhosamente sobre o ventre morno da me, 
onde encontrou algum consolo na tristeza de nascer. Me e
filha permaneceram descansando, nuas e abraadas, enquanto as
outras pessoas limpavam os vestgios do parto 
e se atarefavam com os lenis novos e as primeiras fraldas.
Na emoo desses momentos, ningum reparou na porta
entreaberta do armrio, onde o pequeno Miguel observava 
a cena paralisado de medo, gravando para sempre na sua memria
a viso do gigantesco globo atravessado de veias e coroado por
um umbigo saliente, donde saiu aquele 
ser arroxeado, enrolado numa horrenda tripa azul.

Registaram Alba no Registo Civil e nos livros da parquia, com
o apelido francs do pai, mas ela no chegou a us-lo porque o
da me era mais fcil de soletrar. 
O av, Esteban Trueba, nunca esteve de acordo com esse mau
hbito, porque, tal como dizia sempre que lhe davam a
oportunidade, tinha tido muito trabalho para que 
a menina tivesse um pai conhecido e um apelido respeitvel e
no tivesse de usar o da me, como se fosse filha da vergonha
e do pecado. Tambm no permitiu que se 
duvidasse da legitima paternidade  do conde e continuou
esperando, contra toda a lgica, que mais tarde ou mais cedo
se notasse a elegncia de modos e o fino encanto 
do francs na silenciosa e desajeitada neta que deambulava
pela sua casa. Clara tambm no mencionou o assunto at muito
tempo depois, numa ocasio em que viu a 
menina brincando entre as destrudas esttuas do jardim e
verificou que no se parecia com ningum da famlia e muito
menos com Jean de Satigny. 

-- A quem ter ido buscar esses olhos de velho? -- perguntou a
av. 

-- Os olhos so do pai -- respondeu Blanca distraidamente.

-- Pedro Tercero Garcia, suponho -- disse Clara.

-- Isso mesmo -- concordou Blanca.

Foi a nica vez que se falou na origem de Alba no seio da
famlia, porque tal como Clara anotou, o assunto no tinha
importncia nenhuma, j que, de qualquer maneira, 
Jean de Satigny tinha desaparecido das suas vidas. No
tornaram a saber dele e ningum se deu ao trabalho de
averiguar o seu paradeiro, nem sequer para legalizar 
a situao de Blanca, a quem faltavam as liberdades de uma
solteira e tinha todas as limitaes de uma mulher casada, mas
que no tinha marido. Alba nunca viu um 
retrato do conde, porque a sua me no deixou nenhum canto da
casa por revistar, at os destruir todos, mesmo aqueles em que
aparecia pelo seu brao no dia do casamento. 
Tinha tomado a deciso de esquecer o homem com quem se casou e
fazer de conta que nunca existira. No tornou a falar dele nem
deu uma explicao para a sua fuga 
do domiclio conjugal. Clara, que tinha passado nove anos
muda, conhecia as vantagens do silncio, de modo que no fez
perguntas  filha e colaborou na tarefa de 
apagar Jean de Satigny das suas recordaes. Disseram a Alba
que o pai tinha sido um nobre cavalheiro, inteligente e
distinto, que tivera a desgraa de morrer de 
febre no deserto do Norte. Foi uma das poucas mentiras que
teve de suportar na infncia, porque em tudo o mais esteve em
intimo contacto com as prosaicas verdades 
da existncia. O tio Jaime encarregou-se de destruir o mito
dos meninos que nascem nas couves ou so transportados de
Paris pelas cegonhas e o tio Nicolau o dos 
Reis Magos, das fadas e dos papes. Alba tinha pesadelos em
que via a morte do seu pai. Sonhava com um homem jovem,
formoso e inteiramente vestido de branco, com 
sapatos de verniz da mesma cor e um chapu de palhinha,
caminhando pelo deserto debaixo de sol. No sonho, o caminhante
abrandava o passo, vacilava, ia cada vez mais 
lento, tropeava e cala, levantava-se e tornava a cair,
abrasado pelo calor, pela febre e pela sede. Arrastava-se de
joelhos um bocado sobre as ardentes areias, 
mas finalmente ficava estendido na imensido daquelas dunas
lvidas, com as aves de rapina voando em crculos sobre o seu
corpo inerte. Tantas vezes o sonhou, que 
foi uma surpresa quando muitos anos depois teve de ir
reconhecer o cadver do que julgava seu pai, num depsito da
Morgue Municipal. Nessa altura Alba era uma jovem 
valorosa, de  temperamento audaz e acostumada s adversidades,
por isso foi sozinha. Recebeu-a um praticante de avental
branco, que  conduziu pelos longos corredores 
do antigo edifcio at uma sala grande e fria, com paredes
pintadas de cinzento. O homem do avental branco abriu a porta
de uma gigantesca geleira e tirou um tabuleiro 
onde jazia um corpo inchado, velho e de cor azulada. Alba
olhou-o com ateno sem encontrar nenhuma parecena com a
imagem que tantas vezes tinha sonhado. Pareceu-lhe 
um tipo comum e corrente, com aspecto de empregado dos
correios. Olhou-lhe as mos: no eram as de um nobre
cavalheiro, fino e inteligente, mas as de um homem que 
no tinha nada de interessante para contar. Mas os seus
documentos eram. uma prova irrefutvel de que aquele cadver
azul e triste era Jean de Satigny que no morrera 
de febre nas dunas douradas de um pesadelo de infncia, mas
simplesmente de uma apoplexia ao atravessar a rua na sua
velhice. Mas tudo isso aconteceu muito depois. 
Nos tempos em que Clara estava viva, quando Alba era ainda uma
criana, a grande casa da esquina era um mundo fechado, onde
ela cresceu protegida at dos seus prprios 
pesadelos.

Alba no tinha ainda duas semanas, quando Amanda se foi da
grande casa da esquina. Tinha recuperado as foras e no teve
dificuldade em adivinhar o desejo intenso 
no corao de Jaime. Pegou no irmozinho pela mo e partiu
como tinha chegado, sem rudo e sem promessas. Perderam-na de
vista e o nico que a podia procurar no 
o quis faz-lo para no ferir o irmo. S por casualidade
Jaime voltou a v-la muitos anos depois, mas ento j era
tarde para ambos. Depois que ela se foi, Jaime 
afogou o desespero nos estudos e no trabalho. Regressou aos
seus antigos hbitos de anacoreta e no aparecia quase nunca
pela casa. No tornou a mencionar o nome 
da jovem e afastou-se para sempre do seu irmo.

A presena da neta em casa amaciou o caracter de Esteban
Trueba. A mudana foi imperceptvel, mas Clara notou-o.
Denunciavam-no pequenos sintomas: o brilho do seu 
olhar quando via a menina, os presentes caros que lhe trazia,
a angstia se a ouvia chorar. Isso, no entanto, no o
aproximou de Blanca. As relaes com a filha 
nunca foram boas e desde o funesto casamento estavam to
deterioradas que s a cortesia obrigatria imposta por Clara
lhes permitia viver debaixo do mesmo tecto.

Nessa poca a casa dos Trueba tinha quase todos os quartos
ocupados e punha-se diariamente a mesa para a famlia, para os
convidados e um lugar a mais para quem 
chegasse sem se anunciar. A porta principal estava sempre
aberta, para que entrassem e sassem os que se aproveitavam do
parentesco e as visitas. Enquanto o senador 
Trueba procurava emendar os destinos do seu pas, a mulher
navegava habilmente nas agitadas guas da vida social e nas
outras, surpreendentes, do seu caminho espiritual. 
A idade e a prtica acentuaram a capacidade de Clara para
adivinhar o oculto e mover as coisas   distncia. Os estados
de animo exaltados conduziam-na com facilidade 
a transes em que podia deslocar-se sentada na cadeira por todo
o quarto, como se houvesse um motor escondido debaixo do
assento. Nesses dias, um jovem artista famlico, 
acolhido na casa por misericrdia, pagou a hospedagem pintando
o nico retrato que existe de Clara. Muito tempo depois, o
misrrimo artista tornou-se um mestre e 
hoje o quadro est num museu de Londres, como tantas outras
obras de arte que saram do pais na poca em que se teve de
vender a moblia para alimentar os perseguidos. 
Na tela pode ver-se uma mulher madura, vestida de branco, com
o cabelo prateado e uma doce expresso de trapezista no rosto,
descansando numa cadeira de balano 
que est suspensa acima do nvel do cho, flutuando entre
cortinas de flores, uma jarra que voa de pernas para o ar e um
gato gordo e negro que observa sentado como 
um grande senhor. Influncia de Chagall, diz o catlogo do
museu, mas no  assim. Corresponde exactamente  realidade
que o artista viveu na casa de Clara. Essa 
foi a poca em que as foras ocultas da natureza humana e o
bom humor divino actuavam com impunidade, provocando um estado
de emergncia e sobressalto nas leis da 
fsica e da lgica. As comunicaes de Clara com as almas
vagabundas e com os extraterrestres davam-se atravs da
telepatia, dos sonhos e de um pndulo que ela usava 
para tal fim, sustendo-o no ar sobre um alfabeto que colocava
ordenadamente na mesa. Os movimentos autnomos do pndulo
assinalavam as letras e formavam as mensagens 
em espanhol e esperanto, demonstrando assim que so os nicos
idiomas que interessavam aos seres de outras dimenses, e no
o ingls, como diria Clara nas suas cartas 
aos embaixadores das potncias anglfonas, sem que eles alguma
vez lhe respondessem, assim como tambm o no fizeram os
sucessivos ministros da Educao aos quais 
se dirigiu para lhes expor a sua teoria de que em vez de
ensinar o ingls e francs nas escolas, lnguas de
marinheiros, negociantes e usurrios, devia ser obrigatrio 
as crianas estudarem esperanto.


Alba passou a sua infncia entre dietas vegetarianas, artes
marciais japonesas, danas do Tibete e respirao ioga,
relaxamento e concentrao com o professor Hausser 
e muitas outras tcnicas interessantes, sem contar as
contribuies que deram  sua educao os dois tios e as trs
encantadoras senhoritas Mora. A sua av Clara 
arranjava as coisas de maneira a manter a rodar aquele imenso
carromato cheio de alucinados em que se tinha transformado o
seu lar, embora ela prpria no tivesse 
nenhuma habilidade domstica e detestasse as quatro operaes
at ao ponto de se esquecer de somar, de modo que a
organizao da casa e as contas caram de forma 
natural nas mos de Blanca, que repartia o seu tempo entre os
trabalhos de mordomo daquele  reino em miniatura e a sua
oficina de cermica no fundo do ptio, ltimo 
refgio para os seus pesares, onde dava aulas tanto para
mongolides como para meninas, e fabricava os seus incrveis
prespios de monstros que, contra toda a lgica, 
se vendiam como po sado do forno.

Desde muito pequena, Alba teve a responsabilidade de pr
flores frescas nos jarres. Abria as janelas para que
entrassem a jorros a luz e o ar, mas as flores no 
conseguiam durar at  noite, porque o vozeiro de Esteban
Trueba e as suas bengaladas tinham o poder de espantar a
natureza.  sua passagem fugiam os animais domsticos 
e as plantas murchavam. Blanca criava uma rvore da borracha
trazida do Brasil, uma mata esqulida e tmida cuja nica
graa era o seu preo: comprava-se s folhas. 
Quando ouviam chegar o av, o que estava mais perto corria a
pr a seringueira a salvo no terrao, porque mal o velho
entrava na sala, a planta baixava as folhas 
e comeava a exumar pelo tronco um pranto esbranquiado como
lgrimas de leite. Alba no ia ao colgio porque a sua av
dizia que algum to favorecido pelos astros 
como ela no necessitava mais que saber ler e escrever e isso
podia ela aprender em casa. Dedicou-se tanto a alfabetiz-la
que aos cinco anos a menina lia o jornal 
 hora do pequeno almoo para comentar as notcias com o seu
av, aos seis tinha descoberto os livros mgicos dos bas
encantados do lendrio tio-bisav Marcos e 
tinha entrado em cheio no mundo sem regresso da fantasia.
Tambm no se preocuparam com a sua sade, porque no
acreditavam em benefcios de vitaminas e diziam que 
as vacinas eram para as galinhas. Alm disso, a sua av
estudou-lhe as linhas da mo e disse que teria sade de ferro
e uma longa vida. O nico cuidado frvolo que 
lhe prodigalizaram foi pente-la com Bayrum para mitigar o tom
verde-escuro que o seu cabelo tinha ao nascer, apesar do
senador Trueba dizer que deviam deix-lo 
assim, porque ela era a nica que tinha herdado alguma coisa
da bela Rosa, embora infelizmente s fosse a cor martima do
cabelo. Para lhe agradar Alba abandonou 
na adolescncia os subterfgios do Bayrum e enxaguava a cabea
com infuso de salsa, o que permitiu ao verde reaparecer em
toda a sua frondosidade. O resto da sua 
pessoa era pequeno e andino, ao contrrio da maioria das
mulheres da sua famlia que, quase sem excepo, foram
esplndidas.

Nos poucos momentos de cio que Blanca tinha para pensar em si
mesma e na sua filha, lamentava que ela fosse uma menina
solitria e silenciosa, sem companheiros 
da sua idade para brincar. Na realidade, Alba no se sentia
sozinha, pelo contrrio, por vezes teria sido muito feliz se
tivesse conseguido iludir a clarividncia 
da av, a intuio da me e o alvoroo das pessoas
extravagantes que constantemente apareciam, desapareciam e
reapareciam na grande casa da esquina. Blanca tambm 
se preocupava por a filha no brincar com bonecas, mas Clara
apoiava a neta com o argumento de que esses 

Alba passou a sua infncia entre dietas vegetarianas, artes
marciais japonesas, danas do Tibete e respirao ioga,
relaxamento e concentrao com o professor Hausser
e muitas outras tcnicas interessantes, sem contar as
contribuies que deram  sua educao os dois tios e as trs
encantadoras senhoritas Mora. A sua av Clara
arranjava as coisas de maneira a manter a rodar aquele imenso
carromato cheio de alucinados em que se tinha transformado o
seu lar, embora ela prpria no tivesse 
nenhuma habilidade domstica e detestasse as quatro operaes
at ao ponto de se esquecer de somar, de modo que a
organizao da casa e as contas caram de forma 
natural nas mos de Blanca, que repartia o seu tempo entre os
trabalhos de mordomo daquele  reino em miniatura e a sua
oficina de cermica no fundo do ptio, ltimo 
refgio para os seus pesares, onde dava aulas tanto para
mongolides como para meninas, e fabricava os seus incrveis
prespios de monstros que, contra toda a lgica, 
se vendiam como po sado do forno.

Desde muito pequena, Alba teve a responsabilidade de pr
flores frescas nos jarres. Abria as janelas para que
entrassem a jorros a luz e o ar, mas as flores no 
conseguiam durar at  noite, porque o vozeiro de Esteban
Trueba e as suas bengaladas tinham o poder de espantar a
natureza.  sua passagem fugiam os animais domsticos 
e as plantas murchavam. Blanca criava uma rvore da borracha
trazida do Brasil, uma mata esqulida e tmida cuja nica
graa era o seu preo: comprava-se s folhas. 
Quando ouviam chegar o av, o que estava mais perto corria a
pr a seringueira a salvo no terrao, porque mal o velho
entrava na sala, a planta baixava as folhas 
e comeava a exumar pelo tronco um pranto esbranquiado como
lgrimas de leite. Alba no ia ao colgio porque a sua av
dizia que algum to favorecido pelos astros 
como ela no necessitava mais que saber ler e escrever e isso
podia ela aprender em casa. Dedicou-se tanto a alfabetiz-la
que aos cinco anos a menina lia o jornal 
 hora do pequeno almoo para comentar as notcias com o seu
av, aos seis tinha descoberto os livros mgicos dos bas
encantados do lendrio tio-bisav Marcos e 
tinha entrado em cheio no mundo sem regresso da fantasia.
Tambm no se preocuparam com a sua sade, porque no
acreditavam em benefcios de vitaminas e diziam que 
as vacinas eram para as galinhas. Alm disso, a sua av
estudou-lhe as linhas da mo e disse que teria sade de ferro
e uma longa vida. O nico cuidado frvolo que 
lhe prodigalizaram foi pente-la com Bayrum para mitigar o tom
verde-escuro que o seu cabelo tinha ao nascer, apesar do
senador Trueba dizer que deviam deix-lo 
assim, porque ela era a nica que tinha herdado alguma coisa
da bela Rosa, embora infelizmente s fosse a cor martima do
cabelo. Para lhe agradar Alba abandonou 
na adolescncia os subterfgios do Bayrum e enxaguava a cabea
com infuso de salsa, o que permitiu ao verde reaparecer em
toda a sua frondosidade. O resto da sua 
pessoa era pequeno e andino, ao contrrio da maioria das
mulheres da sua famlia que, quase sem excepo, foram
esplndidas.

Nos poucos momentos de cio que Blanca tinha para pensar em si
mesma e na sua filha, lamentava que ela fosse uma menina
solitria e silenciosa, sem companheiros 
da sua idade para brincar. Na realidade, Alba no se sentia
sozinha, pelo contrrio, por vezes teria sido muito feliz se
tivesse conseguido iludir a clarividncia 
da av, a intuio da me e o alvoroo das pessoas
extravagantes que constantemente apareciam, desapareciam e
reapareciam na grande casa da esquina. Blanca tambm 
se preocupava por a filha no brincar com bonecas, mas Clara
apoiava a neta com o argumento de que esses  pequenos
cadveres de loia, com os seus olhinhos de 
abre e fecha e a sua perversa boca franzida, eram repugnantes.
Ela prpria fabricava uns seres informes com sobras da l que
empregava para tricotar para os pobres. 
Eram criaturas que no tinham nada de humano e que por isso
mesmo era mais fcil embal-las e atir-las depois para o
lixo. A brincadeira predilecta da menina era 
a cave. Por causa das ratazanas, Esteban Trueba mandou pr uma
tranca na porta, mas Alba deslizava de cabea por uma
clarabia e aterrava sem rudo naquele paraso 
dos objectos esquecidos. Aquele lugar estava sempre na
penumbra, preservado do uso do tempo, como uma pirmide
selada. Ali se amontoavam os mveis postos de lado, 
ferramentas de utilidade incompreensvel, mquinas
desconjuntadas, pedaos do Covadonga, o automvel
pr-histrico que os seus tios desarmaram para transformar em 
carro de corrida e acabou os seus dias convertido em sucata.
Tudo servia a Alba para construir casinhas nos cantos. Havia
bas e malas com roupa antiga, que usou 
para montar os seus solitrios espectculos teatrais e um
capacho triste, negro, comido pelas traas, com cabea de co,
que posto no cho parecia um lamentvel 
animal de patas abertas. Era o ltimo vestgio vergonhoso do
fiel Barrabs.

Uma noite de Natal, Clara deu  sua neta um fabuloso presente
que chegou a substituir em certas ocasies a fascinante
atraco da cave: uma caixa com frascos de 
tinta, pincis, um escadote e autorizao para usar  vontade
a maior parede do seu quarto.

-- Isto vai servir-lhe para se desoprimir -- disse Clara
quando viu Alba equilibrando-se no escadote para pintar junto
ao tecto um comboio cheio de animais.

Ao longo dos anos, Alba foi enchendo essa e as outras paredes
do quarto com um imenso fresco, onde, no meio de uma flora
venusiana e de uma fauna impossvel de animais 
inventados, como os que Rosa bordava na sua toalha e Blanca
cozia no seu forno de cermica, apareceram os desejos, as
recordaes, as tristezas e as alegrias da 
sua meninice.

Os dois tios eram muito chegados a ela. Jaime era o seu
preferido. Era um homenzarro peludo que tinha de se barbear
duas vezes por dia e, mesmo assim, parecia ter 
sempre uma barba de tera-feira, tinha sobrancelhas negras e
malvolas que penteava para cima para fazer crer  sobrinha
que era aparentado com o diabo, e o cabelo 
duro como uma escova, inutilmente bezuntado e sempre hmido.
Entrava e sala com os seus livros debaixo do brao e uma
maleta de soldador na mo. Tinha dito a Alba 
que trabalhava como ladro de jias e que dentro da horrvel
maleta levava gazuas e luvas. A menina fingia espantar-se, mas
sabia que o seu tio era mdico e que 
a maleta tinha os instrumentos  do seu ofcio. Tinham
inventado jogos de iluso para se entreterem nas tardes de
chuva.

-- Traz o elefante! -- ordenava o tio Jaime.

Alba saa e regressava arrastando com uma corda invisvel um
paquiderme imaginrio. Podiam passar uma boa meia hora
dando-lhe a comer ervas prprias da sua espcie, 
banhando-o com terra para lhe preservar a pele das
inclemncias do tempo e a dar-lhe brilho ao marfim dos dentes,
enquanto discutiam acaloradamente sobre as vantagens 
e os inconvenientes de viver na selva.

-- Esta menina vai acabar doida varrida! -- dizia o senador
Trueba, quando via a pequena Alba sentada na varanda a ler os
tratados de medicina que o tio Jaime lhe 
emprestava.

Era a nica pessoa de toda a casa que tinha chave para entrar
no tnel de livros do tio e autorizao para pegar neles e
ler. Blanca achava que se devia dosear a 
leitura, porque havia coisas no apropriadas para a sua idade,
mas o tio Jaime era da opinio que a gente s l o que lhe
interessa e se lhe interessa  porque j 
tem maturidade para o fazer. Tinha a mesma teoria para o banho
e para a comida. Dizia que se a menina no tinha vontade de
tomar banho era porque no necessitava 
e que deviam dar-lhe de comer o que ela quisesse s horas em
que tivesse fome, porque o organismo conhece melhor que
ningum as suas prprias necessidades. Nesse 
ponto Blanca era inflexvel e obrigava a filha a cumprir
horrios rgidos e normas de higiene. O resultado era que alm
das comidas e dos banhos normais Alba comia 
as guloseimas que o tio lhe oferecia e tomava banho de
mangueira sempre que tinha calor, sem que nenhuma destas
coisas alterasse a sua saudvel natureza. Alba teria 
gostado que o tio Jaime casasse com a me, porque era mais
seguro t-lo como pai do que como tio, mas explicaram-lhe que
dessas unies incestuosas nascem meninos 
mongolides. Ficou com a ideia de que os alunos de
quinta-feira na oficina da sua me eram filhos dos seus tios.

Nicolau tambm estava perto do corao da menina, mas tinha
qualquer coisa de efmero, de voltil, apressado, sempre de
passagem, como se saltasse de uma ideia para 
a outra, o que criava inquietao em Alba. Tinha cinco anos
quando o tio Nicolau regressou da ndia. Cansado de invocar
Deus na mesa de p-de-galo e no fumo do 
haxixe, decidiu ir procur-lo a uma regio menos rude que a
sua terra natal. Passou dois meses a incomodar Clara,
perseguindo-a pelos cantos e sussurrando-lhe ao 
ouvido quando estava a dormir, at que a convenceu a vender um
anel de brilhantes para lhe pagar a passagem at  terra do
Mahatma Gandhi. Dessa vez Esteban Trueba 
no se ops, porque pensou que um passeio por aquela longnqua
nao de famintos e vacas transumantes faria muito bem ao seu
filho.

-- Se no morrer picado por uma cobra ou de alguma peste
estrangeira,  espero que venha transformado num homem, porque
j estou farto das suas extravagncias -- 
disse-lhe o pai ao despedir-se no cais.

Nicolau passou um ano como mendigo, percorrendo a p os
caminhos dos iogas, a p pelo Himalaia, a p por Katmandu, a
p pelo Ganges e a p por Benares. No fim dessa 
peregrinao tinha a certeza da existncia de Deus e tinha
aprendido a atravessar alfinetes de chapu nas faces e na pele
do peito e a viver quase sem comer. Viram-no 
um dia qualquer, chegar a casa, sem prvio aviso com uma
fralda de criana cobrindo-lhe as partes pudendas, a pele
pegada aos ossos e esse ar extraviado que se nota 
nas pessoas que se alimentam s de verduras. Chegou
acompanhado por dois carabineiros incrdulos, dispostos a
lev-lo preso a no ser que pudesse demonstrar que 
era na realidade o filho do senador Trueba e por uma comitiva
de crianas que o seguiam atirando-lhe lixo e fazendo pouco
dele. Clara foi a nica que no teve dificuldade 
em reconhec-lo. O pai tranquilizou os carabineiros e deu
ordem a Nicolau para tomar banho e vestir roupa de cristo se
queria viver em sua casa, mas Nicolau olhou-o 
como se no o visse e no lhe respondeu. Tinha-se tornado
vegetariano. No provava carne nem ovos ou leite, a sua dieta
era a de um coelho e pouco a pouco o seu 
rosto ansioso foi-se parecendo com o desse animal. Mastigava
cada bocado dos seus escassos alimentos cinquenta vezes. As
refeies converteram-se num ritual eterno 
no qual Alba ficava adormecida sobre o prato vazio e os
criados sobre as bandejas na cozinha, enquanto ele ruminava
cerimoniosamente, por isso Esteban Trueba deixou 
de ir a casa e fazia todas as suas refeies no Clube. Nicolau
garantia que podia caminhar descalo sobre brasas, mas cada
vez que se disps a demonstr-lo, foi 
obrigado a desistir, porque Clara tinha um ataque de asma.
Falava por parbolas asiticas nem sempre compreensveis. Os
seus nicos interesses eram de ordem espiritual. 
O materialismo da vida domstica enfadava-o tanto como os
excessivos cuidados da sua me e da sua irm, que insistiam em
aliment-lo e vesti-lo, e a perseguio 
fascinada de Alba, que o seguia por toda a casa como um
cachorro, pedindo-lhe que a ensinasse a dominar a mente e a
atravessar-se com alfinetes. Permaneceu assim 
mesmo quando o Inverno chegou com todo o seu rigor. Podia
manter-se quase trs minutos sem respirar e estava disposto a
realizar essa faanha sempre que algum lhe 
pedia, o que sucedia com frequncia. Jaime dizia que era uma
pena que o ar fosse grtis, porque tirou a prova de que
Nicolau respirava metade do de uma pessoa normal, 
ainda que isso no parecesse afect-lo de todo. Passou o
Inverno a comer cenouras, sem se queixar do frio, fechado no
quarto, enchendo pginas e pginas com a sua 
minscula letra em tinta preta. Ao surgirem os primeiros
sintomas da Primavera, anunciou que o seu livro estava pronto.
Tinha mil e quinhentas pginas e conseguiu 
convencer o pai e o irmo que o financiassem, por conta dos
lucros que se obtivessem com a venda. Depois de corrigidas e 
impressas, as mil e tantas laudas manuscritas 
reduziram-se a seiscentas pginas de um volumoso tratado sobre
os noventa e nove nomes de Deus e a forma de chegar ao nirvana
atravs de exerccios respiratrios. 
No teve o xito esperado e os caixotes com a edio acabaram
os seus dias na cave, onde Alba os usava como tijolos para
construir trincheiras, at que muitos anos 
depois serviram para alimentar uma fogueira ignbil.

Mal o livro saiu da tipografia, Nicolau segurou-o 
carinhosamente nas mos, recuperou o seu perdido sorriso de
hiena, vestiu roupa decente e anunciou que tinha chegado o
momento de entregar a Verdade aos seus contemporneos 
que permaneciam nas trevas da ignorncia. Esteban Trueba
recordou-lhe a sua proibio de usar a casa como academia e
avisou-o de que no ia tolerar que metesse ideias 
pagas na cabea de Alba e muito menos que lhe ensinasse
truques de faquir. Nicolau foi pregar para o bar da
universidade, onde conseguiu um impressionante nmero 
de adeptos para os seus cursos de exerccios espirituais e
respiratrios. Nos momentos livres passeava de mato e ensinava
a sobrinh4 a vencer a dor e outras fraquezas 
da carne. O seu mtodo consistia em identificar as coisas que
lhe causavam temor. A menina, que tinha certa inclinao para
o macabro, concentrava-se de acordo com 
as instrues do tio e conseguia visualizar, como se a
estivesse a viver, a morte da me. Via-a lvida, fria, com os
seus formosos olhos mouros fechados, estendida 
num caixo. Ouvia o pranto da familia. Via a procisso de
amigos que entravam em silncio, deixavam os cartes de visita
numa bandeja e saam cabisbaixos. Sentia 
o cheiro das flores, o relincho dos cavalos emplumados da
carreta funerria. Sofria a dor com os pcs dentro dos seus
sapatos novos de luto. Imaginava a sua solido, 
o seu abandono, a sua orfandade. O tio ajudava-a a pensar em
tudo isso sem chorar, relaxando-se sem opor resistncia  dor,
para que esta a atravessasse sem permanecer 
nela. Outras vezes Alba entalava um dedo na porta e aprendia a
suportar a dor sem se queixar. Se conseguia passar toda a
semana sem chorar, superando as provas a 
que Nicolau a obrigava, ganhava um prmio, que consistia quase
sempre num passeio a toda a velocidade na moto, o que era uma
experincia inesquecvel. Numa ocasio 
meteram-se no meio de uma manada de vacas que ia para o
estbulo, num caminho dos arredores da cidade onde levou a
sobrinha para lhe pagar o prmio. Ela recordaria 
sempre os corpos pesados dos animais, a sua lentido, as
caudas enlameadas golpeando-lhe a cara, o cheiro a bosta, os
cornos que a roavam e a sua prpria sensao 
de vazio no estmago, de vertigem maravilhosa, de incrvel
excitao, mistura de apaixonada curiosidade e de terror, que
s voltou a sentir em instantes fugazes 
da sua vida.

Esteban Trueba, que tivera sempre dificuldade em exprimir a
sua necessidade de afecto e que desde que se deterioraram as
suas relaes matrimoniais com Clara no 
tinha acesso  ternura, derramou em Alba os seus melhores 
sentimentos. Importava-se mais com a menina do que alguma vez
se tinha importado com os seus prprios 
filhos. Todas as manhs ela ia em pijama ao quarto do av,
entrava sem bater e metia-se na sua cama. Ele fingia despertar
sobressaltado, ainda que na realidade estivesse 
 espera dela e resmungava que no o incomodasse, que fosse
para o seu quarto e o deixasse dormir. Alba fazia-lhe ccegas
at que, aparentemente vencido, ele a autorizava 
a ir buscar o chocolate que escondia para ela. Alba conhecia
todos os esconderijos e o seu av usava-os sempre pela mesma
ordem, mas para no o decepcionar procurava 
durante um bom bocado, e dava gritos de alegria ao
encontr-lo. Esteban nunca soube que a sua neta odiava o
chocolate e que o comia por amor a ele. Com essas brincadeiras 
matinais, o Senador satisfazia a sua necessidade de contacto
humano. O resto do dia estava ocupado no Congresso, no Clube,
no golfe, nos negcios e nos concilibulos 
polticos. Duas vezes por ano ia a Las Tres Marias com a neta
por duas ou trs semanas. Ambos regressavam bronzeados, mais
gordos e felizes. Ali destilavam uma aguardente 
caseira que servia para beber, para acender o fogo, para
desinfectar feridas e matar baratas e a que eles chamavam
pomposamente vodka. No final da sua vida, quando 
os noventa anos o tinham transformado numa velha rvore
retorcida e frgil, Esteban Trueba recordaria esses momentos
com a neta como os melhores da sua existncia, 
e ela tambm guardou sempre na memria a cumplicidade dessas
viagens ao campo pela mo do seu av, os passeios na garupa do
seu cavalo, os entardeceres na imensido 
dos prados, as longas noites junto  chamin do salo contando
histrias de aparies e desenhando.

As relaes do senador Trueba com o resto da sua famlia no
fizeram mais que piorar com o tempo. Uma vez por semana, aos
sbados, reuniam-se para jantar  volta 
da grande mesa de carvalho que tinha estado sempre na famlia
e que antes pertencera aos del Valle, quer dizer, vinha da
mais remota antiguidade e tinha servido 
para velar os mortos, para danas flamencas e outros ofcios
impensados. Sentavam Alba entre a sua me e a sua av, com um
almofado na cadeira para que o nariz 
chegasse  altura do prato. A menina observava os adultos com
fascnio, a av radiante, com os dentes postos para a ocasio,
dirigindo mensagens cruzadas ao marido 
atravs dos filhos ou dos criados, Jaime fazendo alarde de m
educao, arrotando depois de cada prato e escarafunchando os
dentes com o dedo mnimo para chatear 
o pai, Nicolau com os olhos semicerrados mastigando cinquenta
vezes cada bocado e Blanca falando de qualquer coisa para
criar a fico de um jantar normal. Trueba 
mantinha-se relativamente silencioso at que o mau carcter o
atraioava e comeava a discutir com o filho Jaime por causa
dos pobres, dos votos, dos socialistas 
e dos princpios, ou a insultar Nicolau pelas iniciativas de
se elevar em balo e praticar acupunctura com Alba, ou
castigar Blanca com as suas rplicas brutais, 
a sua indiferena e as suas advertncias inteis de que tinha 
arruinado a sua vida e no herdaria dele nem um peso. A nica
a que no fazia frente era Clara, 
mas com ela quase no falava. Certas ocasies Alba surpreendia
os olhos do av presos em Clara, ele ficava a olhar para ela
pondo-se branco e doce at parecer um 
ancio desconhecido. Mas isso no ocorria com frequncia, o
normal era que os esposos se ignorassem. Algumas vezes o
senador Trueba perdia o controlo e gritava tanto 
que se punha vermelho e tinham de atirar-lhe um jarro de gua
fria  cara, para que a clera lhe passasse e recuperasse o
ritmo da respirao.

Nessa poca, Blanca havia chegado ao apogeu da sua beleza.
Tinha um ar mourisco, lnguido e planturoso, que convidava ao
repouso e  confidncia. Era alta e opulenta, 
de temperamento desamparado e piegas, que despertava nos
homens o ancestral instinto de proteco. O pai no
simpatizava com ela. No lhe perdoava os amores com 
Pedro Tercero Garcia e procurava que ela no esquecesse que
vivia da sua caridade. Trueba no podia perceber que a filha
tivesse tantos apaixonados, porque Blanca 
no tinha nada da inquietante alegria e da jovialidade que o
atraam nas mulheres e alm disso pensava que nenhum homem
normal podia sentir desejos de casar com 
uma mulher doente, de estado civil incerto e que carregava com
uma filha. Por seu lado, Blanca no parecia surpreendida com o
assdio dos homens. Estava consciente 
da sua beleza. No entanto, com os cavalheiros que a visitavam
adoptava uma atitude contraditria, animando-os com o
pestanejar dos seus olhos muulmanos, mas mantendo-os 
a prudente distncia. Logo que via que as intenes eram
srias, cortava a relao com uma negativa feroz. Alguns, de
melhor posio econmica, tentaram chegar at 
ao corao de Blanca seduzindo a filha. Enchiam Alba de
presentes caros, de bonecas dotadas de mecanismos para
caminhar, chorar, comer e executar outras habilidades 
humanas, empanturravam-na de pastis de nata e levavam-na a
passear ao Jardim Zoolgico, onde a menina chorava com pena
dos pobres animais prisioneiros, especialmente 
a foca, que acordava na sua alma funestos pressgios. Essas
visitas ao Jardim Zoolgico pela mo de algum pretendente
vaidoso e mos largas, deixaram-lhe para o 
resto da vida o horror  clausura, aos muros, s grades e ao
isolamento. Entre todos os apaixonados, o que avanou mais no
caminho de conquistar Blanca foi o Rei 
das Panelas de Presso. Apesar da sua imensa fortuna e do seu
caracter tranquilo e reflectido, Esteban Trueba detestava-o
porque era circuncidado, tinha nariz sefardim 
e o cabelo crespo. Com a sua atitude trocista e hostil, Trueba
conseguiu espantar esse homem que tinha sobrevivido num campo
de concentrao, havia vencido a misria 
e o exlio e triunfara na impiedosa luta comercial. Enquanto
durou o romance, o Rei das Panelas de Presso passava a buscar
Blanca para lev-la a jantar aos lugares 
mais requintados, num automvel minsculo, apenas com dois
assentos, com rodas de tractor e um rudo de  turbina no
motor, nico na sua espcie, que provocava 
tumultos de curiosidade  sua passagem e remoques
depreciativos da famlia Trueba. Sem dar-se por achada com o
mal-estar do pai e com a bisbilhotice dos vizinhos, 
Blanca subia para o veiculo com a majestade de um
primeiro-ministro, vestida com o seu nico saia e casaco preto
e a sua blusa de seda branca que usava em todas 
as ocasies especiais. Alba despedia-se dela com um beijo e
ficava parada  porta, com o subtil perfume de jasmim da sua
me colado s narinas e um n de ansiedade 
apertando-lhe o peito. S os treinos do seu tio Nicolau lhe
permitiam suportar as sadas da me sem desatar a chorar,
porque temia que um dia o gal do momento conseguisse 
convencer Blanca a ir com ele e ela ficaria para sempre sem
me. Tinha decidido havia muito tempo que no precisava de um
pai, e muito menos de um padrasto, mas 
que se chegasse a faltar-lhe a me enfiaria a cabea num balde
com gua at morrer afogada, tal como fazia a cozinheira com
os gatinhos que a gata paria todos os 
quatro meses.

Alba perdeu o medo de que sua me a abandonasse quando
conheceu Pedro Tercero e a sua intuio a advertiu de que
enquanto esse homem existisse no haveria ningum 
capaz de ocupar o amor de Blanca. Foi num domingo de Vero.
Blanca penteou-a com canudos, feitos com um ferro quente que
lhe chamuscou as orelhas, ps-lhe luvas 
brancas e sapatos de verniz preto e um chapu de palha com
cerejas artificiais. Ao v-la, a av Clara deu uma gargalhada,
mas a me consolou-a com duas gotas do 
seu perfume que lhe ps no pescoo.

-- Vais conhecer uma pessoa famosa -- disse Blanca
misteriosamente ao sair.

Levou a menina ao Parque Japons, onde lhe comprou
chupa-chupas de acar queimado e um saquinho de milho.
Sentaram-se num banco  sombra, de mos dadas, rodeadas 
de pombas que debicavam o milho.

Viu-o aproximar-se antes que a me lho indicasse. Trazia um
fato-macaco, uma enorme barba negra que lhe chegava a meio do
peito, o cabelo revolto, sandlias de franciscano 
sem meias e um largo, brilhante e maravilhoso sorriso que o
colocou imediatamente na categoria dos seres que mereciam ser
pintados no fresco gigantesco do seu quarto.

O homem e a menina olharam-se e ambos se reconheceram nos
olhos um do outro.

-- Este  Pedro Tercero, o cantor. J o ouviste na rdio --
disse-lhe a me.

Alba estendeu-lhe a mo e ele apertou-lha com a esquerda.
Ento ela notou que lhe faltavam vrios dedos da mo direita,
mas ele explicou-lhe que apesar disso podia 
tocar guitarra, porque h sempre uma forma de se fazer o que
se quer fazer. Passearam os trs pelo Parque Japons. A meio
da tarde foram, numa das ltimas tranvias 
que ainda existiam na cidade a comer peixe numa casa de fritos
do mercado, e quando anoiteceu acompanhou-as at   rua da sua
casa. Ao despedirem-se Blanca e Pedro 
Tercero beijaram-se na boca. Foi a primeira vez que Alba viu
isso na vida, porque  sua volta no havia gente apaixonada.

A partir desse dia, Blanca comeou a sair sozinha ao
fim-de-semana. Dizia que ia visitar umas primas afastadas.
Esteban Trueba entrava em clera e ameaava-a de 
a expulsar de casa, mas Blanca mantinha-se inflexvel na sua
deciso. Deixava a filha com Clara e partia de autocarro com
uma malinha de palhao com flores pintadas.

-- Prometo-te que no me vou casar e que regresso amanh 
noite -- dizia ao despedir-se da filha.

Alba gostava de se sentar com a cozinheira  hora da sesta, a
ouvir na rdio canes populares, especialmente as do homem
que tinha conhecido no Parque Japons. 
Um dia o senador Trueba entrou na copa e ao ouvir a voz da
rdio atirou-se contra o aparelho dando-lhe bengaladas at o
deixar convertido num monte de fios retorcidos 
e botes soltos, ante os olhos espantados da sua neta, que no
podia compreender o sbito arrebatamento do av. No dia
seguinte, Clara comprou outro rdio para que 
Alba escutasse Pedro Tercero quando lhe apetecesse e o velho
Trueba fingiu no saber de nada.

Essa foi a poca do Rei das Panelas de Presso. Pedro Tercero
soube da sua existncia e teve um ataque de cimes
injustificado, se compararmos o ascendente que ele 
tinha sobre Blanca com o tmido cerco do comerciante judeu.
Como tantas outras vezes, suplicou a Blanca que abandonasse a
casa dos Trueba, a tutela feroz do seu 
pai e a solido da sua oficina cheia de mongolides e de
meninas ociosas e partisse com ele, de uma vez para sempre,
para viver aquele amor desenfreado que tinham 
escondido desde a meninice. Mas Blanca no se decidia. Sabia
que se fosse com Pedro Tercero ficaria excluda do seu circulo
social e da posio que sempre tinha 
tido e apercebia-se que ela prpria no tinha a menor
oportunidade de ser bem aceite pelos amigos de Pedro Tercero
ou de se adaptar  modesta existncia numa povoao 
operria. Anos depois, quando Alba teve idade para analisar
esse aspecto da vida da me, chegou  concluso de que no foi
com Pedro Tercero simplesmente porque 
no o amava o suficiente, j que em casa dos pais no tinha
nada que ele no lhe pudesse dar. Blanca era uma mulher muito
pobre, que s dispunha de algum dinheiro 
quando Clara lho dava ou quando vendia algum prespio.
(Ganhava um salrio miservel que gastava quase todo em
remdios, porque a sua capacidade para sofrer doenas 
imaginrias no tinha diminudo com o trabalho e a
necessidade, pelo contrrio, no fazia seno aumentar de ano
para ano. Procurava no pedir nada ao pai, para no 
lhe dar ocasio de a humilhar. De vez em quando, Clara e Jaime
compravam-lhe roupa ou davam-lhe algum dinheiro para as suas
necessidades, mas o normal era no ter 
nem para um par de meias. A sua pobreza contrastava com os
vestidos bordados e o calado  feito por medida com que o
senador Trueba vestia a neta Alba. A sua vida 
era dura. Levantava-se s seis da manh, no Inverno ou no
Vero. A essa hora acendia o forno da oficina, vestida com um
avental de oleado e socos de madeira, preparava 
as mesas de trabalho e amassava a argila para as aulas, com os
braos mergulhados at aos cotovelos no barro spero e frio.
Por isso tinha sempre as unhas partidas 
e a pele gretada e com o tempo foram-se-lhe deformando os
dedos. A essa hora sentia-se inspirada e ningum a
interrompia, de modo que podia comear o dia fabricando 
os seus monstruosos animais para os prespios. Depois tinha de
ocupar-se da casa, dos criados e das compras, at  hora em
que comeavam as aulas. Os alunos eram 
meninas de boas famlias que no tinham nada que fazer e
haviam adoptado a moda do artesanato, que era mais elegante do
que fazer malha para os pobres, como faziam 
as avs.

A ideia de dar aulas para mongolides foi obra do acaso. Um
dia chegou a casa do senador Trueba uma velha amiga de Clara
que trazia o neto com ela. Era um adolescente 
gordo e mole, com uma redonda cara de lua cheia e uma
expresso de ternura imperturbvel nos olhinhos orientais.
Tinha quinze anos, mas Alba notou que era como um 
beb. Clara pediu  neta que fosse brincar com o rapaz para o
jardim e tivesse cuidado para que ele no se sujasse, no se
afogasse na fonte, no comesse terra e 
no mexesse na braguilha. Alba aborreceu-se logo de o vigiar e
no podendo comunicar com ele em nenhuma linguagem coerente,
levou-o  oficina de cermica onde Blanca 
para o manter quieto, lhe ps um avental que o protegia das
manchas e da gua e lhe meteu uma bola de argila nas mos. O
rapaz esteve entretido mais de trs horas, 
sem se babar, sem se urinar e sem dar cabeadas nas paredes,
modelando umas toscas figuras de barro que depois levou de
presente  av. A senhora, que tinha chegado 
a esquecer que estava com ele, ficou encantada e assim nasceu
a ideia de que a cermica era boa para os mongolides. Blanca
acabou dando aulas para um grupo de crianas 
que iam  oficina s quintas-feiras  tarde. Chegavam numa
camioneta, acompanhadas por duas freiras de toucas engomadas
que se sentavam no terrao do jardim a tomar 
chocolate com Clara e a discutir as virtudes do ponto de cruz
e as hierarquias dos pecados, enquanto Blanca e a filha
ensinavam as crianas a fazer lagartas, bolinhas, 
ces espalmados e vasos disformes. No fim do ano as freiras
organizavam uma exposio e uma verbena e aquelas espantosas
obras de arte vendiam-se por caridade. Blanca 
e Alba depressa viram que os meninos trabalhavam muito melhor
quando se sentiam amados e que o afecto era a nica maneira de
comunicar com eles. Aprenderam a abra-los, 
a beij-los e a fazer-lhes mimos, at que ambas acabaram por
am-los de verdade. Alba esperava toda a semana a chegada da
camioneta com os deficientes e saltava 
de alegria quando eles corriam a abra-la. Mas as
quintas-feiras  eram esgotantes. Alba deitava-se arrasada,
davam-lhe voltas na cabea os doces rostos asiticos 
das crianas da oficina e Blanca sofria invariavelmente uma
enxaqueca. Depois das freiras se irem embora com o seu
esvoaar de trapos brancos e a sua leva de deficientes 
de mos dada, Blanca abraava furiosamente a sua filha,
cobria-a de beijos e dizia-lhe que tinha de agradecer a Deus
ela ser normal. Por isso, Alba cresceu com a 
ideia de que a normalidade era um dom divino. Discutiu isso
com a sua av.

-- Em quase todas as familias h um tonto ou um louco,
filhinha -- assegurou Clara enquanto trabalhava no seu tear,
porque em todos esses anos no tinha aprendido 
a tecer sem olhar. -- Por vezes no se vem, porque os
escondem como se fosse uma vergonha. Fecham-nos nos quartos
mais isolados, para que as visitas os no vejam! 
Mas na realidade no h de que ter vergonha, eles tambm so
obra de Deus.

-- Mas na nossa famlia no h nenhum, av -- replicou Alba.

-- No. Aqui a loucura distribuiu-se por todos e no sobrou
nada para termos o nosso louco varrido.

Assim eram as suas conversas com Clara. Por isso, para Alba a
pessoa mais importante da casa e a presena mais forte da sua
vida era a av. Ela era o motor que punha 
em marcha e fazia funcionar aquele universo mgico que eram as
traseiras da grande casa da esquina, onde se passaram os seus
primeiros sete anos em completa liberdade. 
Habituou-se s extravagancias da av. No se surpreendia ao
v-la deslocar-se em estado de transe por todo o salo,
sentada na sua poltrona com as pernas encolhidas, 
arrastada por uma fora invisvel. Seguia-a em todas as suas
peregrinaes aos hospitais e casas de beneficncia onde
procurava seguir a pista da sua caterva de 
necessitados e at aprendeu a fazer com l de quatro fios e
agulhas grossas os coletes que o tio Jaime oferecia depois de
os usar uma vez, s para ver o sorriso 
sem dentes da av quando ela ficava vesga perseguindo as
malhas. Amide Clara usava-a para levar mensagens a Esteban,
por isso a alcunharam de Pomba Mensageira. 
A menina participava nas sesses das sextas-feiras, onde a
mesa de p-de-galo dava saltos em plena luz do dia, sem que
interferisse nenhum truque, energia conhecida 
ou alavanca, e nos seres literrios onde alternava com os
mestres consagrados e com um nmero varivel de tmidos
artistas desconhecidos que Clara amparava. Nessa 
poca na grande casa da esquina comeram e beberam muitos
hspedes. Revezaram-se para viver l, ou pelo menos para
assistir s reunies espirituais, s cavaqueiras 
culturais e s tertlias sociais, quase toda a gente
importante do pais, inclusive o Poeta, que anos mais tarde foi
considerado o maior do sculo e traduzido em 
todos os idiomas conhecidos da terra, em cujos joelhos Alba se
sentou muitas vezes, sem suspeitar que um dia caminharia atrs
do seu fretro com um ramo de cravos 
sangrentos na mo, entre duas filas de metralhadoras. 

Clara era ainda jovem, mas  sua neta parecia-lhe muito velha
porque no tinha dentes. Ainda no tinha rugas e quando estava
com a boca fechada dava a iluso de 
extrema juventude devido  expresso inocente do rosto.
Vestia-se com tnicas de linho cru que pareciam batas de louco
e no Inverno punha meias altas de l e luvas 
sem dedos. Achava graa aos assuntos menos engraados e, em
contrapartida, era incapaz de compreender uma piada, ria-se a
destempo, quando ningum mais o fazia, 
e podia ficar muito triste se via outra pessoa ser ridcula.
Algumas vezes sofria ataques de asma. Ento chamava a neta com
um sininho de prata que trazia sempre 
consigo e Alba acudia a correr, abraava-a e cuidava dela com
sussurros de consolo, pois ambas sabiam, por experincia, que
a nica coisa que tira a asma  o abrao 
prolongado de um ser querido. Tinha olhos risonhos cor de
avel e o cabelo encanecido e brilhante apanhado num carrapito
desordenado do qual se escapavam mechas 
rebeldes, as mos finas e brancas, de unhas amendoadas e
longos dedos sem anis, que s serviam para fazer gestos de
ternura, distribuir as cartas de adivinhar e 
pr a dentadura postia  hora de comer. Alba passava o dia
perseguindo a av, metendo-se-lhe entre as saias, provocando-a
para que contasse histrias ou movesse 
os jarres com a fora do seu pensamento. Nela encontrava um
refgio seguro quando a assediavam os pesadelos ou quando os
treinos do tio Nicolau se tornavam insuportveis. 
Clara ensinou-lhe a cuidar dos pssaros e a falar a cada um no
seu idioma, a conhecer os signos premonitrios da natureza e a
fazer cachecis com ponto corrido para 
os pobres.

Alba sabia que a av era a alma da grande casa da esquina. Os
outros souberam-no mais tarde, quando Clara morreu e a casa
perdeu as flores, os amigos que iam e vinham 
e os espritos brincalhes e entrou em pleno na poca da
desordem.


Alba tinha seis anos quando viu Esteban Garcia pela primeira
vez, mas nunca o esqueceu. Provavelmente tinha-o visto antes,
em Las Tres Marias, em qualquer das suas 
viagens de Vero com o av, quando a levava a percorrer a
propriedade e com um gesto amplo lhe mostrava tudo o que a
vista alcanava, desde as alamedas at ao vulco, 
incluindo as casinhas de tijolo, e dizia-lhe que aprendesse a
amar a terra porque um dia seria sua.

-- Os meus filhos so todos uns mandries. Se herdassem Las
Tres Marias, em menos de um ano isto voltaria a ser a runa
que era nos tempos do meu pai -- dizia  
neta.

-- Tudo isto  teu, av? 

-- Tudo, desde a estrada pan-americana at  ponta daqueles
cerros. Ests a v-los?

-- Porqu, av?

-- Como porqu! Porque sou o dono, claro!

-- Sim, mas porque s o dono?

-- Porque era da minha famlia.

-- Porqu?

-- Porque a compraram aos ndios.

-- E os caseiros, que tambm viveram sempre aqui, por que no
so eles os donos?

-- O teu tio Jaime anda a meter-te ideias bolchevistas na
cabea! -- gritava o senador Trueba congestionado pela fria.
-- Sabes o que se passava se aqui no houvesse 
um patro?

-- No.

-- Ia tudo para o caralho! No haveria ningum que desse as
ordens, que vendesse as colheitas, que se responsabilizasse
pelas coisas, entendes? Tambm no haveria 
ningum que cuidasse das pessoas. Se algum adoecesse, por
exemplo, ou se morresse e deixasse uma viva e muitos filhos
morreriam de fome. Cada um teria um pedacinho 
miservel de terreno e no conseguiria nem para comer em sua
casa. Necessita-se de algum que pense por eles, que tome as
decises, que os ajude. Eu tenho sido o 
melhor patro da regio, Alba. Tenho mau caracter, mas sou
justo. Os meus caseiros vivem melhor do que muita gente na
cidade, no lhes falta nada e, mesmo que o 
ano seja de seca, de inundaes ou de terramoto, eu
preocupo-me por que aqui ningum passe misria. Tu ters de
fazer isso quando tiveres a idade necessria, por 
isso trago-te sempre a Las Tres Marias para que conheas cada
pedra e cada animal e, sobretudo, cada pessoa pelo seu nome e
apelido. Compreendeste-me?

Mas na realidade ela tinha pouco contacto com os camponeses e
estava muito longe de conhecer cada um pelo seu nome e
apelido. Por isso no reconheceu o jovem moreno, 
acanhado e rude, com pequenos olhos cruis de roedor, que uma
tarde tocou  porta da grande casa da esquina na capital.
Vestia um fato escuro muito estreito para 
o seu tamanho. Nos joelhos, nos cotovelos e nos fundilhos, o
tecido estava gasto, reduzido a uma pelcula brilhante. Disse
que queria falar com o senador Trueba 
e apresentou-se como o filho de um dos seus caseiros de Las
Tres Marias. Embora em tempos normais a gente da sua condio
entrasse pela porta de servio e aguardasse 
na copa, conduziram-no  biblioteca, porque nesse dia havia
uma festa na casa  qual assistiriam os membros mais
importantes do Partido Conservador. A cozinha estava 
invadida por um exrcito de cozinheiros e ajudantes que Trueba
tinha trazido do Clube, e havia tal confuso e pressa, que um
visitante s teria vindo incomodar. 
Era uma tarde de Inverno e a biblioteca estava escura  e
silenciosa, iluminada somente pelo fogo que crepitava na
chamin. Cheirava a polimento para madeira e 
a couro.

-- Espera aqui, mas no toques em nada. O Senador j vem --
disse a criada com maus modos, deixando-o sozinho.

O jovem percorreu a sala com os olhos, sem se atrever a fazer
nenhum movimento, ruminando o rancor de que tudo aquilo
poderia ter sido seu, se tivesse nascido de 
origem legtima, como tantas vezes lhe explicou a sua av,
Pancha Garcia, antes de morrer de lipria convulsa e deix-lo
definitivamente rfo na multido de irmos 
e primos onde ele no era ningum. S a sua av o distinguiu
no monto e no lhe permitiu esquecer que era diferente dos
outros, porque pelas suas veias corria o 
sangue do patro. Olhou a biblioteca sentindo-se sufocado.
Todas as paredes estavam cobertas por estantes de acaju
encerado, excepto em ambos os lados da chamin, 
onde havia duas vitrinas abarrotadas de marfins e pedras duras
do Oriente. A diviso tinha o dobro do p-direito, nico
capricho do arquitecto que o seu av consentiu. 
Um balco, a que se tinha acesso por uma escada de caracol de
ferro forjado, fazia as vezes de segundo piso das estantes. Os
melhores quadros da casa estavam ali, 
porque Esteban Trueba tinha transformado essa diviso no seu
santurio no seu escritrio, no seu refgio, e gostava de ter
 sua volta os objectos que mais apreciava. 
As prateleiras estavam cheias de livros e de objectos de arte
desde o cho at ao tecto. Havia uma pesada secretria de
estilo espanhol, grandes poltronas de couro 
negro de costas para a janela, quatro tapetes persas cobrindo
o cho de carvalho e vrios candeeiros de leitura com
quebra-luz de pergaminho distribudos estrategicamente, 
de modo que onde algum se sentasse havia boa luz para ler.
Nesse lugar preferia o Senador celebrar os seus concilibulos,
tecer as suas intrigas, forjar os seus 
negcios e, na horas mais solitrias, fechar-se para desafogar
a raiva, o desejo frustrado ou a tristeza. Mas nada disso
podia saber o campons que estava de p 
sobre o tapete, sem saber onde pr as mos, suando de timidez.
Aquela biblioteca senhorial, pesada e esmagadora, correspondia
exactamente  imagem que tinha do patro. 
Estremeceu de dio e medo. Nunca tinha estado num lugar assim,
e at esse momento pensava que o mais luxuoso que podia
existir em todo o universo era o cinema de 
San Lucas, onde uma vez a professora da escola levara toda a
classe para ver um filme do Tarzan. Tinha-lhe custado muito
tomar a sua deciso, convencer a sua famlia 
e fazer a grande viagem at  capital, s e sem dinheiro, para
falar com o patro. No podia esperar at ao Vero para lhe
dizer o que lhe entupia o peito. De sbito 
sentiu-se observado. Voltou-se e viu-se em frente de uma
menina com tranas e meias bordadas que o olhava da porta.

-- Como te chamas? -- perguntou a menina.

-- Esteban Garcia -- disse ele.

-- Eu chamo-me Alba Trueba. No esqueas o meu nome.

-- No esquecerei. 

Olharam-se bastante tempo, at que ela entrou confiante e se
atreveu a aproximar-se. Explicou-lhe que teria de esperar
porque o seu av ainda no tinha regressado 
do Congresso e contou-lhe que na cozinha ia um p de vento por
causa da festa, prometendo-lhe que mais tarde conseguiria uns
doces para lhe trazer. Esteban Garcia 
sentiu-se melhor. Sentou-se numa das poltronas de couro negro
e pouco a pouco atraiu a si a menina e sentou-a nos seus
joelhos. Alba cheirava a Bayrum, uma fragrncia 
fresca e doce que se misturava com o seu odor natural de
rapariguinha transpirada. O rapaz chegou o nariz ao seu
pescoo e aspirou aquele perfume desconhecido de 
limpeza e bem-estar e, sem saber porqu, encheram-se-lhe os
olhos de lgrimas. Sentiu que odiava aquela criana tanto como
odiava o velho Trueba. Ela encarnava o 
que nunca teria, o que ele nunca seria. Desejava fazer-lhe
mal, destrui-la, mas tambm queria continuar cheirando-a,
escutando-lhe a vozita de beb e tendo ao alcance 
da mo a sua pele suave. Acariciou-lhe os joelhos, mesmo acima
do bordo das pegas, eram mornos e tinham covinhas. Alba
continuou a falar sobre a cozinheira que 
metia nozes pelo cu dos frangos para o jantar da noite. Ele
fechou os olhos, estava a tremer Com uma mo rodeou o pescoo
da menina, sentiu as suas tranas fazendo-lhe 
ccegas no pulso e apertou suavemente, consciente de que era
to pequena, que com um esforo mnimo podia estrangul-la.
Desejou faz-lo, quis senti-la remexendo-se 
e esperneando nos seus joelhos, agitando-se  procura de ar.
Desejou ouvi-la gemer e morrer nos seus braos, desejou
despi-la e sentiu-se violentamente excitado. 
Com a outra mo avanou debaixo do vestido engomado, percorreu
as pernas infantis, encontrou a renda das anguas de baptista
e as bombachas de l com elstico. Ofegava. 
Num canto do seu crebro restava-lhe suficiente cordura para
dar-se conta de que estava parado  beira de um abismo. A
menina tinha deixado de falar e estava quieta, 
olhando-o com os seus grandes olhos negros. Esteban Garcia
pegou na mo da criana e apoiou-a sobre o seu sexo
endurecido.

-- sabes o que  isto? -- perguntou roucamente.

--  o teu pnis -- respondeu ela, que o tinha visto nas
ilustraes dos livros de medicina do tio Jaime e no tio
Nicolau, quando passeava nu fazendo os seus exerccios 
asiticos.

Ele sobressaltou-se. Ps-se bruscamente de p e ela caiu sobre
o tapete. Estava surpreendido e assustado, tremiam-lhe as
mos, sentia os joelhos fracos e as orelhas 
quentes. Nesse momento ouviu os passos do senador Trueba no
corredor e um instante depois, antes que conseguisse recuperar
a respirao, o velho entrou na biblioteca.

-- Isto est to escuro porqu? -- rugiu com o seu vozeiro de
terramoto.

Trueba acendeu as luzes e no reconheceu o jovem que o olhava
com olhos desorbitados. Estendeu os braos  sua neta e ela
refugiou-se neles por um breve instante, 
como um co batido, mas em seguida desprendeu-se e saiu
fechando a porta.

-- Quem s tu, homem? -- pespegou a quem era tambm seu neto. 

-- Esteban Garcia. No se recorda de mim, patro? -- conseguiu
balbuciar o outro.

Ento Trueba reconheceu o menino velhaco que tinha denunciado
Pedro Tercero anos atrs e tinha apanhado do cho os dedos
amputados. Compreendeu que no lhe seria 
fcil despedi-lo sem o ouvir, apesar de ter por norma que os
assuntos dos caseiros quem os devia resolver era o
administrador de Las Tres Marias.

-- O que  que tu queres? -- perguntou-lhe.

Esteban Garcia vacilou, no conseguia encontrar as palavras
que tinha preparado to minuciosamente durante meses, antes de
se atrever a tocar  porta da casa do 
patro.

-- Fala depressa, no tenho muito tempo -- disse Trueba.

A gaguejar Garcia conseguiu expor a sua petio: tinha
conseguido terminar o liceu em San Lucas e queria uma
recomendao para a Escola de Carabineiros e uma bolsa 
do Estado para pagar os seus estudos.

-- Porque no ficas no campo, como o teu pai e o teu av? --
perguntou-lhe o patro.

-- Desculpe, senhor, mas quero ser carabineiro -- pediu
Esteban Garcia.

Trueba recordou que ainda lhe devia a recompensa por denunciar
Pedro Tercero Garcia e achou que aquela era uma boa ocasio
para saldar a divida e de caminho, ter 
um servidor na policia. Nunca se sabe, de repente posso
precisar dele, pensou. Sentou-se  sua pesada secretria,
pegou numa folha de papel com timbre do Senado, 
redigiu a recomendao nos termos habituais e deu-a ao jovem
que aguardava de p.

-- Toma, filho. Alegro-me por teres escolhido essa profisso.
Se o que queres  andar armado, entre ser delinquente ou ser
polcia,  melhor ser polcia, porque 
tens impunidade. Vou telefonar ao comandante Hurtado,  meu
amigo, para te darem a bolsa. Se necessitares de alguma coisa,
avisa-me.

-- Muito obrigado, patro.

-- No me agradeas, filho. Gosto de ajudar a minha gente.

Despediu-o com uma palmadinha amistosa no ombro.

-- Porque te puseram Esteban? -- perguntou-lhe  porta.

-- Por sua causa, senhor -- respondeu o outro corando.

Trueba no pensou mais no assunto. Os caseiros usavam
frequentemente os nomes dos patres para baptizar os filhos,
como sinal de respeito.


Clara morreu no mesmo dia em que Alba fez sete anos. O
primeiro anncio da sua morte foi perceptvel s para ela.
Ento comeou a fazer secretas disposies para 
partir. Com grande discrio distribuiu a sua roupa pelas
criadas e pela chusma de protegidos que sempre tivera,
deixando para si  o indispensvel. Ordenou os 
seus papis, retirando dos cantos perdidos os seus cadernos de
anotar a vida. Atou-os com fitas de cores, separando-os por
acontecimentos e no por ordem cronolgica, 
porque a nica coisa de que se tinha esquecido de pr neles
eram as datas e na pressa da sua ltima hora concluiu que no
podia perder tempo a averigu-las. Ao procurar 
os cadernos foram aparecendo as jias em caixas de sapatos, em
sacos de meias e no fundo dos armrios onde as havia posto
desde a poca em que o marido lhas tinha 
dado pensando que com isso podia alcanar o seu amor.
Colocou-as numa velha meia de l, fechou-a com um alfinete de
ama e entregou-as a Blanca.

-- Guarda isso, filhinha. Um dia podem servir-te para alguma
coisa mais do que mascarares-te -- disse.

Blanca comentou o caso com Jaime e este comeou a vigi-la.
Notou que a me fazia uma vida aparentemente normal, mas quase
no comia. Alimentava-se de leite e algumas 
colheradas de mel. Tambm no dormia muito, passava a noite a
escrever ou vagueando pela casa. Parecia ir-se desprendendo do
mundo, cada vez mais ligeira, mais transparente, 
mais alada.

-- Um dia destes vai comear voar -- disse Jaime, preocupado.

Pouco tempo depois comeou a asfixiar. Sentia no peito o
galope de um cavalo enlouquecido e a ansiedade de um ginete
que vai a toda a pressa contra o vento. Disse 
que era a asma, mas Alba notou que j no a chamava com o
sininho de prata para que a curasse com abraos prolongados.
Uma manh viu a av abrir as gaiolas dos pssaros 
com inexplicvel alegria.

Clara escreveu pequenos cartes para os entes queridos, que
eram muitos, e p-los em segredo numa caixa debaixo da cama.
Na manh seguinte no se levantou e quando 
chegou a criada com o pequeno almoo no a deixou abrir as
cortinas. Tinha comeado a despedir-se tambm da luz, para
entrar lentamente nas sombras.

Avisado, Jaime foi v-la e no se foi embora at ela se deixar
examinar. No lhe encontrou nada de anormal no aspecto, mas
soube sem lugar para dvidas, que ia morrer. 
Saiu do quarto com um sorriso rasgado e hipcrita, mas uma vez
fora da vista da sua me teve de apoiar-se  parede, porque as
pernas fraquejaram-lhe. No disse nada 
a ningum em casa. Chamou um especialista que tinha sido seu
professor na Faculdade de Medicina e que nesse mesmo dia se
apresentou em casa dos Trueba. Depois de 
ver Clara, confirmou o diagnstico de Jaime. Reuniram a
famlia no salo e sem muitos prembulos anunciaram-lhe que
no viveria mais de duas ou trs semanas e que 
a nica coisa que se podia fazer era acompanh-la, para morrer
contente.

-- Creio que decidiu morrer, e a cincia no tem remdio
nenhum contra esse mal -- disse Jaime.

Esteban Trueba agarrou o filho pelo pescoo e esteve quase a
estrangul-lo,  correu com o especialista aos empurres e
depois partiu s bengaladas os candeeiros 
e as porcelanas do salo. Finalmente caiu de joelhos no cho
gemendo como uma criana. Alba entrou nesse momento e viu o
seu av colocado  sua altura, aproximou-se, 
ficou a olh-lo surpreendida e, quando viu as suas lgrimas,
abraou-o. Pelo pranto do velho a menina soube da noticia. A
nica pessoa na casa que no perdeu a calma 
foi ela, devido aos treinos para suportar a dor e o facto da
av lhe ter explicado tantas vezes as circunstancias e os afs
da morte.

-- Tal como no momento de vir ao mundo, ao morrer temos medo
do desconhecido. Mas o medo  algo interior que no tem nada
que ver com a realidade. Morrer  como 
nascer: uma mudana apenas -- tinha dito Clara.

Acrescentou que se ela podia comunicar sem dificuldade com as
almas do Mais-Alm, estava totalmente segura de que depois
poderia faz-lo com as almas do Mais-Aqui, 
de modo que em vez de choramingar quando esse momento
chegasse, queria que estivesse tranquila, porque no seu caso a
morte no seria uma separao, mas uma forma 
de estar mais unidas. Alba compreendeu-o perfeitamente.

Pouco depois Clara pareceu entrar num doce sono e s o visvel
esforo para introduzir ar nos seus pulmes, dava sinal de que
ainda estava viva. No entanto, a asfixia 
no parecia angusti-la, j que no estava a lotar pela vida.
A neta permaneceu a seu lado todo o tempo. Tiveram de
improvisar-lhe uma cama no cho, porque se negou 
a sair do quarto e, quando quiseram tir-la  fora, teve o
seu primeira chilique. Insistia em que a sua av dava conta de
tudo e que precisava dela. Assim era, 
com efeito. Pouco antes do fim, Clara recuperou a conscincia
e pde falar com tranquilidade. A primeira coisa que notou foi
a mo de Alba entre as suas.

-- Vou morrer, no  verdade, filhinha? -- perguntou.

-- Sim, av, mas no importa, porque eu estou contigo --
respondeu a menina.

-- Est bem. Tira uma caixa com cartes que est debaixo da
cama e distribui-os, porque no vou conseguir despedir-me de
todos.

Clara fechou os olhos, deu um suspiro satisfeito e foi para o
outro mundo sem olhar para trs.  sua volta estava toda a
famlia, Jaime e Blanca, desfigurados pelas 
noites de viglia, Nicolau murmurando oraes em snscrito,
Esteban com a boca e os punhos apertados, infinitamente
furioso e desolado, e a pequena Alba, que era 
a nica que se mantinha serena. Tambm estavam os criados, as
irms Mora, um par de artistas pauprrimos que tinha
sobrevivido na casa nos ltimos meses e um sacerdote 
que chegou chamado pela cozinheira, mas no teve nada que
fazer, porque Trueba no permitiu que incomodasse a moribunda
com confisses de ltima hora nem asperses 
de gua benta.  

Jaime inclinou-se sobre o corpo  procura de algum
imperceptvel bater do seu corao, mas no o encontrou.

-- A mam j partiu -- disse num soluo.


Captulo X

A poca da Decadncia

No posso falar disso. Mas tentarei escrev-lo. Passaram vinte
anos e durante muito tempo senti uma dor constante. Julguei
que nunca poderia consolar-me, mas agora, 
perto dos noventa anos, compreendo o que ela quis dizer quando
nos assegurou que no teria dificuldade em comunicar connosco,
porque tinha muita prtica nesses assuntos. 
Antes eu andava como perdido, procurando-a por todo o lado.
Todas as noites, ao deitar-me, imaginava-a comigo, tal como
acontecia quando tinha todos os dentes e 
me amava. Apagava a luz, fechava os olhos e no silncio do meu
quarto procurava imagin-la, chamava-a acordado e dizem que
tambm a chamava quando dormia.

Na noite em que morreu fechei-me com ela. Depois de tantos
anos sem nos falarmos, partilhmos aquelas ltimas horas
repousando no veleiro de gua mansa da seda azul, 
como ela gostava de chamar  sua cama, e aproveitei para lhe
dizer tudo o que no pudera dizer-lhe antes, tudo o que eu
tinha calado desde a noite terrvel em que 
lhe bati. Tirei-lhe a camisa de dormir e revistei-a com
cuidado procurando algum sinal de doena que justificasse a
sua morte e, no o encontrando, soube que simplesmente 
tinha cumprido a sua misso nesta terra e voara para outra
dimenso onde o seu espirito, livre por fim dos lastros
materiais, se sentiria mais a seu gosto. No havia 
nenhuma deformidade nem nada terrvel na sua morte. Examinei-a
demoradamente, porque fazia muitos anos que no tinha ocasio
de a observar  vontade e nesse tempo 
a minha mulher tinha mudado, como nos acontece a todos com o
avanar da idade. Pareceu-me to formosa como sempre. Tinha
adelgaado e julguei que tinha crescido, 
que estava mais alta, mas logo compreendi que era um efeito
ilusrio, resultado do meu prprio mirrar.  Antes sentia-me
como um gigante a seu lado, mas ao deitar-me 
com ela na cama, notei que ramos quase do mesmo tamanho.
Tinha a sua mata de cabelo encaracolado e rebelde que me
encantava quando casmos suavizada por mechas 
brancas que lhe iluminavam o rosto adormecido. Estava muito
plida, com sombras nos olhos e notei pela primeira vez que
tinha pequenas rugas muito finas na comissura 
dos lbios e na testa. Parecia uma menina. Estava fria, mas
era a mulher doce de sempre e pude falar-lhe tranquilamente,
acarici-la, dormir um pouco quando o sono 
venceu a dor, sem que o facto irremedivel da sua morte
alterasse o nosso encontro. Reconcilimo-nos por fim.

Ao amanhecer, comecei a vesti-la para que todos a vissem bem
apresentada. Pus-lhe uma tnica branca que havia no seu
armrio e estranhei que tivesse to pouca roupa, 
porque eu tinha a ideia de que era uma mulher elegante.
Encontrei umas pegas de l e calcei-lhas para que os ps no
se lhe gelassem, porque era muito friorenta. 
Penteei-a com a ideia de armar o carrapito que usava, mas ao
passar a escova alvoroaram-se-lhe os caracis, formando uma
moldura  volta da sua cara e pareceu-me 
que assim ficava mais bonita. Procurei as suas jias, para lhe
pr alguma, mas no as pude encontrar, assim, conformei-me em
pr-lhe apenas no dedo a aliana que 
eu trazia desde o noivado, para substituir a que ela tirou
quando rompeu comigo. Compus as almofadas, endireitei a cama,
pus-lhe algumas gotas de gua-de-colnia 
no pescoo e abri a janela, para entrar a manh. Logo que tudo
ficou pronto, abri a porta e permiti que os meus filhos e a
minha neta se despedissem dela. Encontraram 
Clara sorridente, limpa e formosa como sempre estivera. Eu
tinha diminudo dez centmetros, os ps nadavam-me nos
sapatos, tinha o cabelo definitivamente branco, 
mas j no chorava.

-- Podem enterr-la -- disse. -- Aproveitem para enterrar
tambm a cabea da minha sogra, que anda perdida na cave desde
h algum tempo -- acrescentei e sai a arrastar 
os ps para no me carem os sapatos.

Foi assim que a minha neta soube que o que estava na
chapeleira de pele de porco e que lhe servia para brincar s
missas negras e ornamentar as suas casinhas da 
cave, era a cabea da sua bisav Nvea, que permaneceu por
sepultar durante muito tempo, primeiro para evitar o escndalo
e depois porque, na desordem desta casa, 
nos esquecemos dela. Fizemo-lo com o maior sigilo, para no
dar motivo para falatrios. Depois que os empregados da
funerria acabaram de colocar Clara no seu atade 
e de arranjar o salo como cmara ardente, com cortinados e
crepes negros, crios gotejantes e um altar improvisado sobre
o piano, Jaime e Nicolau meteram no caixo 
a cabea da avo, que j no era mais que um brinquedo amarelo
com expresso espavorida, para que descansasse junto da sua
filha preferida.

O funeral de Clara foi um acontecimento. Nem eu mesmo pude
explicar-me  donde saiu tanta gente dorida com a morte da
minha mulher. No sabia que conhecia toda 
a gente. Desfilaram procisses interminveis estreitando-me a
mo, uma fila de automveis fechou todos os acessos ao
cemitrio e chegaram umas inslitas delegaes 
de indigentes, estudantes, sindicatos operrios, freiras,
crianas mongolides, bomios e espirituados. Quase todos os
caseiros de Las Tres Marias viajaram, alguns 
pela primeira vez nas suas vidas, em camies e de comboio para
se despedirem dela. Na multido vi Pedro Segundo Garcia, a
quem no tinha voltado a ver durante muitos 
anos. Aproximei-me para o cumprimentar mas no respondeu ao
meu gesto. Aproximou-se cabisbaixo do tmulo aberto e atirou
sobre o atade de Clara um ramo meio murcho 
de flores silvestres com aspecto de ter sido roubado num
jardim alheio. Estava a chorar.

Alba, pela minha mo, assistiu aos servios fnebres. Viu
descer o atade  terra, no lugar provisrio que lhe tnhamos
conseguido, ouviu os interminveis discursos 
exaltando as nicas virtudes que a av no teve e, quando
regressou a casa, correu a fechar-se na cave  espera que o
esprito de Clara comunicasse com ela, tal 
como ela lhe tinha prometido. Ali a encontrei sorrindo
adormecida, sobre os restos rodos de Barrabs.

Nessa noite no pude dormir. Na minha mente confundiam-se os
dois amores da minha vida, Rosa, a do cabelo verde, e Clara a
clarividente, as duas irms que tanto 
amei. Ao amanhecer decidi que, se no as tinha tido em vida,
pelo menos acompanhar-me-iam na morte, de modo que tirei da
secretria algumas folhas de papel e pus-me 
a desenhar o mais digno e luxuoso mausolu, de mrmore
italiano cor de salmo, com esttuas do mesmo material que
representariam Rosa e Clara com asas de anjos, 
porque anjos tinham sido e continuariam sendo. Ali, entre as
duas, serei enterrado um dia.

Queria morrer o mais rapidamente possvel, porque a vida sem a
minha mulher no tinha sentido para mim. No sabia que ainda
tinha muito que fazer neste mundo. Felizmente 
Clara regressou, ou talvez nunca se tivesse ido de todo. Por
vezes penso que a velhice me transtornou o crebro e que no
se pode passar por alto o facto de que 
a enterrei h vinte anos. Suspeito que ando a ter vises, como
um velho luntico. Mas essas dvidas dissipam-se quando a vejo
passar a meu lado e oio o seu riso 
no terrao, sei que me acompanha, que me perdoou todas as
minhas violncias do passado e que est mais perto de mim do
que nunca esteve antes. Continua viva e est 
comigo, Clara clarssima...


A morte de Clara transtornou por completo a vida da grande
casa da esquina. Os tempos mudaram. Com ela foram-se os
espritos, os hspedes e aquela luminosa alegria 
que estava sempre presente porque ela no acreditava  que o
mundo fosse um Vale de Lgrimas, mas, pelo contrrio, um
gracejo de Deus, e por isso seria uma estupidez 
tom-lo a srio, se Ele prprio o no fazia. Alba notou a
deteriorao desde os primeiros dias. Viu-a avanar lenta, mas
inexorvel. Percebeu-o antes que ningum 
pelas flores que murcharam nos jarres, impregnando o ar com
um cheiro adocicado e nauseabundo, onde permaneceram at
secarem, desfolhando-se, caindo e ficando apenas 
uns talos tristes que ningum retirou seno muito tempo
depois. Alba no voltou a cortar flores para adornar a casa.
Depois morreram as plantas porque ningum se 
lembrou de as regar nem de lhes falar, como fazia Clara. Os
gatos foram-se silenciosamente, tal como tinham chegado ou
nascido nos buracos do telhado. Esteban Trueba 
vestiu-se de preto e passou, numa noite, da sua vigorosa
maturidade de varo saudvel, a uma incipiente velhice
encolhida e gaguejante, que no teve contudo a virtude 
de lhe acalmar a ira. Vestiu luto rigoroso pelo resto da vida,
mesmo quando isso passou de moda e ningum o punha, excepto os
pobres, que atavam uma fita preta na 
manga em sinal de nojo. Pendurou ao pescoo uma bolsinha de
camura suspensa de um fio de ouro, debaixo da camisa, junto
ao peito. Eram os dentes postios da mulher, 
que para ele significavam ao mesmo tempo boa sorte e expiao.
Todos na famlia sentiram que sem Clara se perdia a razo de
estar juntos: no tinham quase nada a 
dizer entre si. Trueba sentiu que a nica coisa que o retinha
em casa era a presena da neta.

No decurso dos anos seguintes a casa converteu-se numa runa.
Ningum tornou a ocupar-se do jardim, para o regar ou limpar,
at que pareceu tragado pelo esquecimento, 
pelos pssaros ou pelas ervas daninhas. Aquele parque
geomtrico que Trueba mandou plantar, seguindo os desenhos dos
jardins dos palcios franceses, e a zona encantada 
onde reinava Clara na desordem e na abundncia, a luxria das
flores e o caos dos filodendros, foram secando, apodrecendo,
enchendo-se de ervas. As esttuas cegas 
e as fontes cantantes taparam-se de folhas secas, excremento
de pssaro e musgo. As prgolas, partidas e sujas, serviram de
refgio aos bichos e de lixeira aos vizinhos. 
O parque converteu-se num espesso matagal de aldeia
abandonada, onde mal se podia andar sem abrir passagem 
machetada. O caramancho que antes podavam com pretenses 
barrocas, acabou destroado, cado, atacado por caracis e
pestes vegetais. Nos sales, a pouco e pouco, as cortinas
desprenderam-se dos seus ganchos e penderam 
como combinaes de velha, empoeiradas e destingidas. Os
mveis pisados por Alba que brincava s casinhas e s
trincheiras com eles, transformaram-se em cadveres 
com as molas ao ar e o grande gobelim do salo perdeu a sua
pulqurrima impavidez de cena buclica de Versalhes e foi
usado como alvo das flechas de Nicolau e da 
sobrinha. O fogo cobriu-se de gordura e de fuligem, encheu-se
de boies vazios e pilhas de jornais e deixou de produzir as
grandes travessas de leite creme e os 
 guisados perfumados de outros tempos. Os habitantes da casa
resignaram-se a comer quase todos os dias gros e arroz com
leite, porque ningum se atrevia a fazer 
frente ao desfile de cozinheiras aborrecidas, agastadas e
despticas que reinaram por turnos entre as caarolas
enegrecidas pelo mau uso. Os tremores de terra, o 
bater das portas e a bengala de Esteban Trueba abriram fendas
nas paredes e estilhaaram as portas, as persianas saltaram
dos gonzos e ningum tomou a iniciativa 
de as reparar. Comearam a gotejar as torneiras, a filtrar as
canalizaes, as telhas a partirem-se, a aparecer manchas
esverdeadas de humidade nas paredes. S o 
quarto forrado de seda azul de Clara permaneceu intacto. No
seu interior ficaram os mveis de madeira ruiva, dois vestidos
de algodo branco, a gaiola vazia do canrio, 
a cesta com malhas inacabadas, os baralhos mgicos, a mesa de
p-de-galo, e as resmas de cadernos onde anotou a vida durante
cinquenta anos e que, muito tempo depois, 
na solido da casa vazia e no silncio dos mortos e dos
desaparecidos, eu ordenei e li com recolhimento para
reconstituir esta histria.

Jaime e Nicolau perderam o pouco interesse que tinham pela
famlia e no tiveram compaixo pelo pai, que na sua solido
procurou inutilmente construir com eles uma 
amizade que enchesse o vazio deixado por uma vida de ms
relaes. Viviam na casa porque no tinham um lugar mais
conveniente onde comer e dormir, mas passavam como 
sombras indiferentes, sem se deterem para ver a decadncia.
Jaime exercia o seu ofcio com vocao de apstolo, com a
mesma tenacidade com que o pai tirou Las Tres 
Marias do abandono e juntou uma fortuna, ele esgotava as suas
foras trabalhando no hospital e atendendo os pobres
gratuitamente nas horas livres.

-- Voc  um falhado sem remdio, filho -- suspirava Trueba.
-- No tem sentido da realidade. Ainda no viu como  o mundo.
Aposta em valores utpicos que no existem.

-- Ajudar o prximo  um valor que existe, pai.

-- No. A caridade, tal como o seu socialismo,  uma inveno
dos fracos para vergar e utilizar os fortes.

-- No acredito na sua teoria dos fortes e dos fracos --
respondia Jaime.

-- Sempre assim foi na natureza. Vivemos numa selva.

-- Sim, porque os que fazem as leis so os que pensam como o
senhor, mas no ser sempre assim.

-- S-lo-, porque somos triunfadores. Sabemos mover-nos no
mundo e exercer o poder. Tenha juzo, filho, assente cabea e
monte uma clinica privada, eu ajudo-o. 
Mas corte com os seus extravios socialistas! -- pregava
Esteban Trueba sem nenhum resultado.

Depois que Amanda desaparecera da sua vida, Nicolau pareceu
estabilizar-se emocionalmente. As suas experincias na ndia
deixaram-lhe o gosto pelas empresas espirituais. 
Abandonou as fantsticas aventuras comerciais que lhe 
atormentaram a imaginao nos primeiros anos da sua juventude,
assim como o seu desejo de possuir todas 
as mulheres que lhe passavam pela frente, e voltou-lhe a nsia
que sempre tivera de encontrar Deus por caminhos pouco
convencionais. O mesmo encanto que antes empregara 
para conseguir alunas para suas danas flamencas, serviu-lhe
para reunir  sua volta um nmero crescente de adeptos. Eram
na sua maioria jovens enfastiados da boa 
vida, que deambulavam como ele em busca de um filosofia que
lhos permitisse existir sem participar nas agitaes terrenas.
Formou-se um grupo disposto a receber 
os milenrios conhecimentos que Nicolau tinha adquirido no
Oriente. A seu tempo, reuniram-se nos quartos traseiros da
parte abandonada da casa, onde Alba lhes distribua 
nozes e lhes servia infuses de ervas, enquanto eles meditavam
com as pernas cruzadas. Quando Esteban Trueba descobriu que
nas suas costas circulavam os coetneos 
e os epnimos respirando pelo umbigo e tirando a roupa ao
menor convite, perdeu a pacincia e correu com eles
ameaando-os com a bengala e com a polcia. Ento Nicolau 
compreendeu que sem dinheiro no poderia continuar a ensinar a
Verdade, de maneira que comeou a cobrar modestos honorrios
pelos seus ensinamentos. Com isso pde 
alugar uma casa onde montou a sua academia de iluminados.
Devido s exigncias legais e  necessidade de ter um nome
jurdico, chamou-lhe Instituto de Unio com 
o Nada, IDUN. Mas o pai no estava disposto a deix-lo em paz,
porque os seguidores de Nicolau comearam a aparecer
fotografados nos jornais, com a cabea tosquiada, 
com tangas indecentes e expresso beatfica, metendo a
ridculo o nome dos Trueba. Mal se soube que o profeta do IDUN
era filho do senador Trueba, a oposio explorou 
o assunto para o ridicularizar, usando a procura espiritual do
filho como uma arma poltica contra o pai. Trueba suportou
tudo estoicamente at ao dia em que encontrou 
a neta Alba com a cabea rapada como uma bola de bilhar
repetindo incansavelmente a palavra sagrada Om. Teve um dos
seus mais terrveis ataques de raiva. Apareceu 
de surpresa no Instituto do filho, com dois rufias contratados
para tal fim, que partiram  cacetada o escasso mobilirio e
estiveram quase a fazer o mesmo com os 
pacficos coetneos, at que o velho compreendendo que uma vez
mais se tinha excedido, mandou-lhes parar com a destruio e
que o esperassem l fora. A ss com o 
filho, conseguiu dominar o tremor furibundo que se tinha
apoderado dele, para lhe resmungar com voz contida que j
estava farto das suas palhaadas.

-- No quero voltar a v-lo at crescer o cabelo  minha neta!
-- acrescentou antes de sair atirando com a porta.

No dia seguinte Nicolau reagiu. Comeou por deitar fora os
escombros deixados pelos rufias do pai e limpar o local,
enquanto respirava ritmicamente para esvaziar 
do seu interior todo o rasto de clera e purificar o seu
esprito. Depois, com os discpulos vestidos de tanga e
levando cartazes em  que exigiam liberdade de 
culto e respeito pelos seus direitos de cidados, marcharam
at ao gradeamento do Congresso. Ali puxaram de apitos de
madeira, de sinetas e de pequenos gongos improvisados, 
com os quais armaram uma chinfrineira que fez parar o
transito. Logo que se juntou bastante pblico, Nicolau comeou
a tirar toda a roupa e, completamente nu como 
um beb, deitou-se no meio da rua com os braos abertos em
cruz. Produziu-se tal confuso de travagens, buzinas,
chiadeiras e assobiadelas, que o alarme chegou ao 
interior do edifcio. No Senado interrompeu-se a sesso em que
se discutia o direito dos latifundirios a cercar com arame
farpado os caminhos vicinais, e os congressistas 
vieram  varanda gozar o inusitado espectculo de um filho do
senador Trueba cantando salmos asiticos totalmente em pelota.
Esteban Trueba desceu a correr a larga 
escadaria do Congresso e lanou-se  rua disposto a matar o
seu filho, mas no chegou a passar do gradeamento, porque
sentiu que o corao lhe explodia de ira no 
peito e um vu vermelho lhe turvava a vista. Caiu ao cho.

Levaram Nicolau na ramona dos carabineiros e o Senador numa
ambulancia da Cruz Vermelha. O fanico de Trueba durou trs
semanas e por pouco despachava-o para o outro 
mundo. Quando pde sair da cama agarrou o filho Nicolau pelo
pescoo, meteu-o num avio e mandou-o para o estrangeiro, com
ordem de no voltar a aparecer-lhe  frente 
pelo resto da vida. Deu-lhe, apesar de tudo, dinheiro
suficiente para poder instalar-se e sobreviver por largo
tempo, porque, tal como lhe explicou Jaime, essa era 
uma maneira de evitar que fizesse mais loucuras que pudessem
desprestigi-lo tambm no estrangeiro.

Nos anos seguintes Esteban Trueba soube da ovelha ronhosa da
sua famlia pela espordica correspondncia que Blanca
mantinha com ele. Assim se inteirou de que Nicolau 
formara na Amrica do Norte outra academia para se unir com o
nada, com tanto xito que chegou a ter a riqueza que no
conseguiu subindo de balo ou fabricando sanduches. 
Acabou remolhando-se com os seus discpulos na sua prpria
piscina de porcelana rosada, respeitado pelos cidados,
combinando, sem fazer por isso, a procura de Deus 
com a boa sorte nos negcios. Esteban Trueba naturalmente
nunca acreditou nisso.


O Senador esperou que crescesse um pouco o cabelo da neta,
para que no pensassem que apanhara tinha, e foi pessoalmente
matricul-la num colgio ingls para meninas, 
porque continuava a pensar que essa era a melhor educao,
apesar dos resultados contraditrios que obteve com os seus
dois filhos. Blanca concordou, por compreender 
que no bastava uma boa conjuno de planetas na sua carta
astral para Alba ir para a frente na vida. No colgio, Alba
aprendeu a comer verduras cozidas e arroz 
queimado, a suportar  o frio do ptio, a cantar hinos e a
abjurar de todas as vaidades do mundo, excepto as de ordem
desportiva. Ensinaram-lhe a ler a Bblia, 
a jogar tnis e a escrever  mquina. Esta ltima foi a nica
coisa til que lhe deixaram aqueles longos anos em idioma
estrangeiro. Para Alba, que tinha vivido 
at ento sem ouvir falar de pecados nem de modos de senhora,
desconhecendo o limite entre o humano e o divino, o possvel e
o impossvel, vendo passar um tio nu 
pelos corredores aos saltos de karateca e outro enterrado
debaixo de uma montanha de livros, o av partindo  bengalada
os telefones e as floreiras do terrao, a 
me escapulindo-se com a maleta de palhao e a av movendo a
mesa de p-de-galo e tocando Chopin sem abrir o piano, a
rotina do colgio pareceu-lhe insuportvel. 
Aborrecia-se nas aulas. Nos recreios sentava-se no canto mais
afastado e discreto do ptio, para no ser vista, tremendo de
desejo de que a convidassem para brincar 
e pedindo ao mesmo tempo que ningum reparasse nela. A me
advertiu-a de que no tentasse explicar s companheiras o que
vira sobre a natureza humana nos livros 
de medicina do seu tio Jaime, nem falasse s professoras das
vantagens do esperanto sobre a lngua inglesa. Apesar destas
precaues, a directora do estabelecimento 
no teve dificuldade em detectar, desde os primeiros dias, as
extravagncias da sua nova aluna. Observou-a durante umas duas
semanas e quando ficou segura do diagnstico, 
chamou Blanca Trueba ao escritrio e explicou-lhe da forma
mais corts que pde, que a menina fugia por completo aos
limites habituais da formao britnica e sugeriu-lhe 
que a metesse num colgio de freiras espanholas, onde talvez
lhe pudessem dominar a imaginao luntica e corrigir-lhe o
pssimo civismo. Mas o senador Trueba no 
estava disposto a deixar-se esmagar por uma Miss Saint John
qualquer, e fez valer todo o peso da sua influncia para que
no expulsassem a neta. Queria a todo o 
custo que ela aprendesse ingls. Estava convencido da
superioridade do ingls sobre o espanhol, que considerava um
idioma de segunda categoria, prprio para assuntos 
domsticos e para a magia, para as paixes incontrolveis e
empreendimentos inteis, mas inadequado para o mundo da
cincia e da tcnica, onde esperava ver Alba 
triunfar. Tinha acabado por aceitar -- vencido pela vaga dos
novos tempos -- que algumas mulheres no eram de todo idiotas
e pensava que Alba, demasiado insignificante 
para atrair um marido de boa situao, podia ter uma profisso
e acabar por ganhar a vida como um homem. Nesse ponto Blanca
apoiou o seu pai, porque tinha sentido 
na prpria carne os resultados de uma m preparao acadmica
para enfrentar a vida.

-- No quero que sejas pobre como eu, nem que tenhas de
depender de um homem que te sustente -- dizia  filha sempre
que a via a chorar por no querer ir para as 
aulas.

No a tiraram do colgio e teve de suport-lo durante dez anos
ininterruptos.

Para Alba, a nica pessoa estvel naquele barco  deriva em
que se converteu  a grande casa da esquina depois da morte de
Clara, era a me. Blanca lutava contra 
o desastre e a decadncia com a ferocidade de uma leoa, mas
era evidente que perderia a batalha contra o avano da
deteriorao. S ela tentava dar ao casaro uma 
aparncia de lar. O senador Trueba continuou vivendo ali, mas
deixou de convidar os seus amigos e relaes polticas, fechou
os sales e ocupou s a biblioteca e 
o quarto. Estava cego e surdo s necessidades da casa. Muito
atarefado com a poltica e os negcios, viajava
constantemente, pagava novas campanhas eleitorais, comprava 
terras e tractores, criava cavalos de corrida, especulava com
o preo do ouro, do acar e do papel. No via que as paredes
de casa estavam vidas de uma camada 
de pintura, os mveis desengonados e a cozinha transformada
numa esterqueira. Nem via os coletes de l apertados da sua
neta, nem a roupa antiquada da filha ou 
as suas mos destruidas pelo trabalho domstico e pela argila.
No agia assim por avareza: a famlia tinha deixado
simplesmente de Ihe interessar. Sala algumas vezes 
da distraco e chegava com algum presente desproporcionado e
maravilhoso para a neta, que no fazia mais que aumentar o
contraste entre a riqueza invisvel das 
contas nos bancos e a austeridade da casa. Entregava a Blanca
somas variveis, mas nunca suficientes, destinadas a manter em
andamento aquele casaro destrambelhado 
e escuro, quase vazio e cruzado pelas correntes de ar, em que
tinha degenerado a manso de outros tempos. A Blanca o
dinheiro nunca chegava para as despesas, vivia 
pedindo emprestado a Jaime e por mais que cortasse o oramento
por aqui e o remendasse ali, ao fim do ms tinha uma
quantidade de contas por pagar que se iam acumulando, 
at que decidia ir ao bairro dos joalheiros judeus vender
algumas das jias que um quarto de sculo antes tinham sido
compradas ali mesmo e que Clara Ihe dera dentro 
de uma meia de l.

Em casa, Blanca andava de avental e alpergatas, confundindo-se
com a escassa criadagem que restava, e para sair usava o mesmo
fato preto engomado e tornado a engomar, 
com a blusa de seda branca. Depois que o av enviuvou e deixou
de preocupar-se com ela, Alba vestia-se com o que herdava de
algumas primas afastadas, que eram maiores 
ou mais pequenas do que ela, de modo que em geral os casacos
ficavam-lhe como capotes militares e os vestidos curtos e
apertados. Jaime teria querido fazer alguma 
coisa por elas, mas a sua conscincia indicava-lhe que era
melhor gastar as suas receitas dando comida aos famintos, do
que luxos  sua irm e  sua sobrinha.

Depois da morte da av, Alba comeou a sofrer pesadelos que a
faziam despertar gritando e afogueada. Sonhava que morriam
todos os membros da famlia e ela ficava 
vagueando sozinha pela grande casa, sem outra companhia que os
tnues fantasmas desluzidos que deambulavam pelos corredores.
Jaime sugeriu que a mudassem para o 
quarto de Blanca para ficar mais tranquila. Desde que comeou
a compartilhar o quarto com a me, esperava com secreta 
impacincia o momento de se deitar. Encolhida 
entre os lenis, seguia-a com os olhos na rotina de acabar o
dia e meter-se na cama. Blanca limpava a cara com creme do
harm, uma gordura rosada com perfume de 
rosas, que tinha fama de fazer milagres na pele feminina, e
escovava cem vezes o seu longo cabelo castanho que comeava a
tingir-se com algumas cs invisveis para 
todos, menos para ela. Era propensa ao resfriado, por isso no
Inverno e no Vero dormia com saiotes de l que ela mesma
fazia nos momentos livres. Quando chovia 
cobria as mos com luvas, para mitigar o frio polar que lhe
tinha entrado nos ossos devido  humidade da argila e que
todas as injeces de Jaime e a acupunctura 
chinesa de Nicolau foram inteis para curar. Alba observava-a
no ir e vir pelo quarto, com a camisa de novia flutuando em
redor do corpo, o cabelo liberto do carrapito, 
envolta na suave fragrncia da roupa limpa e do creme do
harm, perdida num monlogo incoerente no qual se misturavam
as queixas pelo preo das hortalias, o inventrio 
dos seus mltiplos achaques, o cansao de trazer s costas o
peso da casa, e as suas fantasias poticas com Pedro Tercero
Garcia, a quem imaginava entre as nuvens 
do entardecer ou recordava entre os dourados trigais de Las
Tres Marias. Acabado o ritual, Blanca enfiava-se no leito e
apagava a luz. Atravs do estreito espao 
que as separava, pegava na mo da filha e contava-lhe as
histrias dos livros mgicos dos bas encantados do bisav
Marcos, mas que a sua m memria transformava 
em contos novos. Foi assim que Alba soube de um prncipe que
dormiu cem anos, de donzelas que lotavam corpo a corpo com os
drages, de um lobo perdido no bosque 
a quem uma menina destripou sem razo alguma. Quando Alba
queria voltar a ouvir essas truculncias, Blanca no podia
repeti-las, porque as tinha esquecido, pelo 
que a pequena tomou o hbito de as escrever. Depois anotava
tambm as coisas que lhe pareciam importantes, como fazia a
av Clara.


Os trabalhos do mausolu comearam pouco tempo depois da morte
de Clara, mas demoraram quase dois anos, porque fui
acrescentando novos e dispendiosos pormenores: 
lpides com letras gticas douradas, uma cpula de cristal
para entrar o sol e um engenhoso mecanismo copiado das fontes
romanas, que permitia irrigar de forma constante 
e regrada um minsculo jardim interior, onde mandei plantar
rosas e camlias, as flores preferidas das irms que tinham
ocupado o meu corao. As esttuas foram 
um problema. Rejeitei vrios desenhos, porque no queria anjos
cretinos, mas sim os retratos de Rosa e Clara, com os seus
rostos, as suas mos, o seu tamanho real. 
Um escultor uruguaio acertou com o meu gosto e as esttuas
ficaram por fim como eu as queria. Depois de pronto,
encontrei-me face a um obstculo inesperado: no 
pude trasladar Rosa para o novo mausolu, porque a famlia 
del Valle se ops. Tentei convenc-los com toda a espcie de
argumentos, com presentes e presses, 
fazendo valer at o poder poltico, mas tudo foi intil. Os
meus cunhados mantiveram-se inflexveis. Julgo que souberam do
assunto da cabea de Nvea e estavam ofendidos 
comigo por t-la tido na cave todo esse tempo. Face  sua
casmurrice, chamei Jaime e disse-lhe que se preparasse para me
acompanhar ao cemitrio para irmos roubar 
o cadver de Rosa. No demonstrou nenhuma surpresa.

-- Se isto no vai a bem, vai a mal -- expliquei a meu filho.

Como  habitual nestes casos, fomos de noite e subornmos o
guarda, tal como fiz muito tempo atrs, para ficar com Rosa na
primeira noite que ela passou ali. Entrmos 
com as nossas ferramentas pela avenida dos ciprestes,
procuramos a tumba da famlia del Valle e demo-nos ao lgubre
trabalho de a abrir. Tirmos cuidadosamente a 
lpide que guardava o repouso de Rosa e sacamos do nicho o
atade branco, que era muito mais pesado do que supnhamos, de
modo que tivemos de pedir ao guarda que 
nos ajudasse. Trabalhmos dificilmente no estreito recinto,
estorvando-nos mutuamente com as ferramentas, mal iluminados
por uma lanterna de carboneto. Depois voltmos 
a colocar a lpide no nicho, para que ningum suspeitasse que
estava vazio. Terminmos a suar. Jaime tivera a precauo de
levar um cantil com aguardente e pudemos 
beber um trago para nos dar animo. Apesar de nenhum de ns ser
supersticioso aquela necrpole de cruzes, cpulas e lpides
punha-nos nervosos. Sentei-me nos degraus 
do jazigo a recuperar o alento e pensei que j no estava nada
jovem, se mover um caixo me fazia perder o ritmo do corao e
ver pontinhos brilhantes na escurido. 
Fechei os olhos e recordei-me de Rosa, do seu rosto perfeito,
da sua pele de leite, do seu cabelo de sereia ocenica, dos
seus olhos de mel provocadores de tumultos, 
das suas mos entrelaadas com o rosrio de ncar, da sua
coroa de noiva. Suspirei evocando essa virgem formosa que se
me tinha escapado das mos e que esteve ali, 
esperando durante todos esses anos, que eu fosse busc-la e a
levasse para o stio onde devia estar.

-- Filho, vamos abrir isto. Quero ver Rosa -- disse a Jaime.

No tentou dissuadir-me, porque conhecia o meu tom quando a
deciso era irrevogvel. Ajeitmos a luz da lanterna, ele
desapertou com pacincia os parafusos de bronze 
que o tempo tinha escurecido e pudemos levantar a tampa, que
pesava como se fosse de chumbo.  luz branca do carboneto vi,
Rosa, a bela, com as suas flores de laranjeira 
de noiva, o seu cabelo verde, a sua imperturbvel beleza, tal
como a vira muitos anos antes, deitada no fretro branco sobre
a mesa da sala de jantar dos meus sogros. 
Fiquei a olh-la fascinado, sem estranhar que o tempo a no
tivesse alterado, porque era a mesma dos meus sonhos.
Inclinei-me e dei-lhe atravs do vidro que cobria 
o rosto, um beijo nos lbios plidos da amada infinita. Nesse
momento uma brisa  levantou-se por entre os ciprestes, entrou
 traio por alguma frincha do caixo 
que at ento tinha permanecido hermtico e num instante a
noiva imutvel desfez-se como por encanto, desintegrou-se em
p tnue e cinzento. Quando levantei a cabea 
e abri os olhos, com o beijo frio ainda nos lbios, j no
estava Rosa, a bela. No seu lugar havia uma caveira com as
rbitas vazias, umas tiras de pele cor de marfim 
pegadas aos malares e umas mechas de crina bolorenta na nuca.

Jaime e o guarda fecharam a tampa precipitadamente, colocaram
Rosa numa carreta e levaram-na ao sitio que lhe estava
reservado junto de Clara no mausolu cor de 
salmo. Fiquei sentado sobre uma campa na avenida dos
ciprestes, olhando a Lua.

-- Frula tinha razo -- pensei. -- Fiquei sozinho e o corpo e
a alma esto a mirrar-se-me. S me falta morrer como um co.


O senador Trueba lutava contra os seus inimigos polticos, que
cada dia avanavam mais e mais na conquista do poder. Enquanto
outros dirigentes do Partido Conservador 
engordavam, envelheciam e perdiam o tempo em interminveis
discusses bizantinas, ele dedicava-se a trabalhar, a estudar
e a percorrer o pais de norte a sul, numa 
campanha pessoal que nunca cessava, sem ter em conta os anos
nem o surdo ranger dos ossos. Reelegiam-no senador em cada
eleio parlamentar. Mas no estava interessado 
no poder, na riqueza ou no prestigio. A sua obsesso era
destruir o que ele chamava o cancro marxista, que se
infiltrava pouco a pouco no povo.

-- Levanta-se uma pedra e aparece um comunista! -- dizia.

Ningum acreditava nisso. Nem os prprios comunistas. Gozavam
com ele, pelos seus repentes de mau humor, o ar de corvo
enlutado, a bengala anacrnica e os seus prognsticos 
apocalpticos. Quando lhes brandia diante do nariz as
estatsticas e os resultados reais das ltimas votaes, os
seus correligionrios temiam que fossem coisas 
de velho.

-- No dia em que no pudermos deitar a luva s urnas antes de
contarem os votos, vamos todos para o caralho! -- sustentava
Trueba.

-- Em nenhum lado os marxistas ganharam por votao popular. 
necessrio pelo menos uma revoluo e neste pais no se passam
coisas dessas -- replicavam-lhe.

-- At passarem! -- alegava Trueba frentico.

-- Acalma-te, homem. No vamos permitir que isso se passe --
consolavam-no. -- O marxismo no tem a mais pequena
oportunidade na Amrica Latina. No vs que no
contempla o lado mgico das coisas?  uma doutrina ateia,
prtica e funcional. Aqui no pode ter xito!

Nem o prprio coronel Hurtado, que via inimigos da ptria por
todos os 

O senador Trueba lutava contra os seus inimigos polticos, que
cada dia avanavam mais e mais na conquista do poder. Enquanto
outros dirigentes do Partido Conservador
engordavam, envelheciam e perdiam o tempo em interminveis
discusses bizantinas, ele dedicava-se a trabalhar, a estudar
e a percorrer o pais de norte a sul, numa
campanha pessoal que nunca cessava, sem ter em conta os anos
nem o surdo ranger dos ossos. Reelegiam-no senador em cada
eleio parlamentar. Mas no estava interessado
no poder, na riqueza ou no prestgio. A sua obsesso era
destruir o que ele chamava o cancro marxista, que se
infiltrava pouco a pouco no povo.

-- Levanta-se uma pedra e aparece um comunista! -- dizia.

Ningum acreditava nisso. Nem os prprios comunistas. Gozavam
com ele, pelos seus repentes de mau humor, o ar de corvo
enlutado, a bengala anacrnica e os seus prognsticos
apocalpticos. Quando lhes brandia diante do nariz as
estatsticas e os resultados reais das ltimas votaes, os
seus correligionrios temiam que fossem coisas
de velho.

-- No dia em que no pudermos deitar a luva s urnas antes de
contarem os votos, vamos todos para o caralho! -- sustentava
Trueba.

-- Em nenhum lado os marxistas ganharam por votao popular. 
necessrio pelo menos uma revoluo e neste pais no se passam
coisas dessas -- replicavam-lhe.

-- At passarem! -- alegava Trueba frentico.

-- Acalma-te, homem. No vamos permitir que isso se passe --
consolavam-no. -- O marxismo no tem a mais pequena
oportunidade na Amrica Latina. No vs que no
contempla o lado mgico das coisas?  uma doutrina ateia,
prtica e funcional. Aqui no pode ter xito!

Nem o prprio coronel Hurtado, que via inimigos da ptria por
todos os  lados, considerava os comunistas como um perigo.
Fez-lhe ver mais de uma vez, que o Partido
Comunista era composto por quatro pobres diabos que no
significavam nada estatisticamente e que se regiam pelas
ordens de Moscovo com uma beatice digna de melhor
causa.

-- Moscovo fica onde o diabo perdeu o capote, Esteban. No tm
ideia do que se passa neste pais -- dizia-lhe o coronel
Hurtado. -- No lhes interessam para nada
as condies do nosso pais, a prova  que andam mais perdidos
que o Capuchinho Vermelho. H pouco tempo publicaram um
manifesto chamando os camponeses, os marinheiros
e os indgenas a fazer parte do primeiro soviete nacional, o
que sob todos os pontos de vista  uma palhaada. Os
camponeses sabem l o que  um soviete! E os marinheiros
esto sempre no alto mar e andam mais interessados nos bordis
de outros portos que na poltica. E os ndios! Restam-nos uns
duzentos ao todo. No creio que tenham
sobrevivido mais aos massacres do sculo passado, mas se
querem formar um soviete nas suas reservas,  l com eles --
gracejava o coronel.

-- Sim, mas alm dos comunistas esto os socialistas, os
radicais e outros grupelhos! So todos mais ou menos o mesmo
-- respondia Trueba.

Para o senador Trueba, todos os partidos polticos, excepto o
seu, eram potencialmente marxistas e no podia distinguir
claramente a ideologia de uns e de outros. 
No hesitava em expor a sua posio em pblico sempre que
surgia a oportunidade, por isso para todos menos para os seus
partidrios o senador Trueba passou a ser 
uma espcie de louco reaccionrio e oligarca, muito pitoresco.
O Partido Conservador tinha de o travar, para que no desse 
lngua e no os pusesse a todos em xeque. 
Era o paladino furioso, disposto a dar luta nos tribunais, nas
conferncias de imprensa, nas universidades, onde ningum mais
se atrevia a dar a cara, l estava 
ele sem se perturbar, no seu fato negro, com a sua melena de
leo e a sua bengala de prata. Era o alvo dos caricaturistas,
que de tanto o porem a ridculo conseguiram 
torn-lo popular, e em todas as eleies fazia encher a
votao conservadora. Era fantico, violento e antiquado, mas
representava melhor que ningum os valores 
da famlia, da tradio, da propriedade e da ordem. Toda a
gente o reconhecia na rua, inventavam piadas  sua custa e
corriam de boca em boca as anedotas que se 
lhe atribuam. Diziam que, na ocasio do seu ataque de
corao, quando o seu filho se despiu s portas do Congresso,
o Presidente da Repblica chamou-o ao seu gabinete 
para lhe oferecer a Embaixada da Sua, onde poderia ter um
cargo apropriado para a sua idade, que lhe permitisse
restabelecer a sua sade. Diziam que o senador 
Trueba respondeu com um murro na secretria do primeiro
mandatrio, deitando abaixo a bandeira nacional e o busto do
Pai da Ptria.

-- Daqui no saio nem morto, Excelncia! -- rugiu. -- Porque
basta eu descuidar-me, os marxistas tiram-no dessa cadeira
onde est sentado. 

Teve a habilidade de ser o primeiro que chamou  esquerda
inimiga da democracia, sem suspeitar que anos depois esse
seria o lema da ditadura. Na luta poltica 
ocupava quase todo o seu tempo e uma boa parte da sua fortuna.
Notou que, apesar de estar sempre a tramar novos negcios,
esta parecia ir minguando desde a morte 
de Clara, mas no se alarmou, porque sups que na ordem
natural das coisas estava o facto irrefutvel de que na sua
vida ela tinha sido um sopro de boa sorte, mas 
que no podia continuar beneficiando dele depois da sua morte.
Alm disso, calculou que com o que tinha podia manter-se como
um homem rico, pelo tempo que lhe restava 
neste mundo. Sentia-se velho, tinha a ideia de que nenhum dos
seus trs filhos merecia herd-lo e que  sua neta deix-la-ia
assegurada com Las Tres Marias, apesar 
de que o campo j no era to prspero como dantes. Graas s
novas estradas e aos automveis, o que antes era uma expedio
de comboio, tinha-se reduzido a seis 
horas apenas desde a capital a Las Tres Marias, mas ele estava
sempre ocupado e no encontrava ocasio para fazer a viagem.
Chamava o administrador de vez em quando, 
para que lhe prestasse contas, mas essas visitas deixavam-no
com a ressaca do mau humor por vrios dias. O administrador
era um homem derrotado pelo seu prprio 
pessimismo. As noticias eram uma srie de circunstancias
infelizes: as geadas tinham queimado os morangos, as galinhas
apanharam gosma, a uva secara com a peste. 
Assim o campo, que tinha sido a fonte da sua riqueza, chegou a
ser uma carga e amide o senador Trueba teve de tirar dinheiro
de outros negcios para sustentar essa 
terra insacivel que parecia ter ganas de voltar aos tempos do
abandono, antes de ele a resgatar da misria.

-- Tenho de ir pr ordem naquilo. Faz l falta o olho do dono
-- murmurava.

-- As coisas esto muito agitadas no campo, patro -- avisou-o
muitas vezes o administrador. -- Os camponeses esto
levantados. Todos os dias fazem novas exigncias. 
Parece que querem viver como os patres. O melhor  vender a
propriedade.

Mas Trueba no queria ouvir falar em vender.  A terra  a
nica coisa que fica quando tudo o resto se acaba, repetia
ele tal como o fazia quando tinha vinte e 
cinco anos e a me e a irm o pressionavam nesse sentido. Mas,
com o peso da idade e do trabalho poltico, Las Tres Marias,
como muitas outras coisas que antes lhe 
pareciam fundamentais, tinha deixado de lhe interessar. S
tinha um valor simblico para ele.

O administrador tinha razo: as coisas estavam muito agitadas
naqueles anos. Assim o apregoava a voz de veludo de Pedro
Tercero Garcia, que graas ao milagre da 
rdio chegava aos cantos mais afastados do pais. Aos trinta e
tantos anos continuava a ter o aspecto de um rude campons,
por uma questo de estilo, j que o conhecimento 
da vida e o xito lhe tinham suavizado as  asperezas e afinado
as ideias. Usava uma barba de montanhs e uma melena de
profeta que ele mesmo aparava sem espelho 
com uma navalha que fora do pai, adiantando-se em vrios anos
 moda que mais tarde fez furor entre os cantores de protesto.
Vestia-se com calas de pano grosseiro, 
alpergatas artesanais e no Inverno cobria-se com um poncho de
tecido de l crua. Era a sua pose de batalha. Assim se
apresentava nos palcos e assim aparecia retratado 
nas capas dos discos. Desiludido das organizaes polticas,
acabou por destilar trs ou quatro ideias primrias com as
quais armou a sua filosofia. Era um anarquista. 
Das galinhas e raposos evoluiu para cantar a vida, a amizade,
o amor e tambm a revoluo. A sua msica era muito popular e
s algum to casmurro como o senador 
Trueba pde ignorar a sua existncia. O velho tinha proibido a
rdio em casa, para evitar que a neta ouvisse as comdias e
folhetins em que as mes perdem os filhos 
e os recuperam anos depois, assim como para evitar a
possibilidade de que as canes subversivas do seu inimigo lhe
fizessem parar a digesto. Ele tinha um rdio 
moderno no quarto, mas s ouvia as noticias. No suspeitava
que Pedro Tercero Garcia era o melhor amigo do seu filho
Jaime, nem que se encontrava com Blanca sempre 
que ela sala com a sua maleta de palhao, gaguejando
pretextos. Nem sabia que em alguns domingos de sol, ele subia
aos cerros com Alba, se sentava com ela l em 
cima a ver a cidade e a comer po com queijo antes de se
deixarem cair a rebolar pelas ladeiras, rebentados de riso
como cachorros felizes, falava-lhe dos pobres, 
dos oprimidos, dos desesperados e de outros assuntos que
Trueba preferia que a neta ignorasse.

Pedro Tercero via crescer Alba e procurou estar perto dela,
mas no chegou a consider-la realmente sua filha, porque
nesse ponto Blanca foi inflexvel. Dizia que 
Alba tivera que suportar muitos sobres altos e que s por
milagre era uma criana relativamente normal, por isso no
havia necessidade de lhe dar outro motivo de 
confuso a respeito da sua origem. Era melhor que continuasse
a acreditar na verso oficial e, por outro lado, no queria
correr o risco de ela falar do assunto 
com o av, provocando uma catstrofe. De qualquer maneira, o
esprito livre e contestatrio da menina agradava a Pedro
Tercero.

-- Se no  minha filha, merece s-lo -- dizia, orgulhoso.

Em todos esses anos, Pedro Tercero nunca chegou a habituar-se
 sua vida de solteiro, apesar do seu xito com as mulheres,
especialmente as adolescentes esplendorosas 
a quem os queixumes da sua guitarra incendiavam de amor.
Algumas introduziam-se  viva fora na sua vida. Ele
necessitava da frescura desses amores. Procurava faz-las 
felizes um tempo brevssimo, mas desde o primeiro instante de
iluso comeava a despedir-se, at que por ltimo as
abandonava com delicadeza. Amide, quando tinha 
uma delas na cama suspirando adormecida a seu lado, fechava os
olhos e pensava em  Blanca, no seu amplo corpo maduro, nos
seus seios abundantes e mornos, nas finas 
rugas da sua boca, nas sombras dos seus olhos rabes e sentia
um grito oprimindo-lhe o peito. Tentou permanecer junto de
outras mulheres, percorreu muitos caminhos 
e muitos corpos para se afastar dela, mas no momento mais
ntimo, no ponto preciso da solido e do pressgio da morte,
Blanca era sempre a nica. Na manh seguinte 
comeava o suave processo de se desprender da nova enamorada
e, mal se encontrava livre, regressava para Blanca, mais
magro, mais olheirento, mais culpado, com uma 
nova cano na guitarra e outras inesgotveis carcias para
ela.

Blanca, por seu lado, tinha-se acostumado a viver s. Acabou
por encontrar paz nos afazeres da grande casa, na sua oficina
de cermica e nos seus prespios de animais 
inventados, onde a nica coisa que correspondia s leis da
biologia era a Sagrada Famlia perdida numa multido de
monstros. O nico homem da sua vida era Pedro 
Tercero, porque tinha vocao para um s amor. A fora desse
imutvel sentimento salvou-a da mediocridade e da tristeza do
seu destino. Permanecia fiel mesmo nos 
momentos em que ele se perdia atrs de algumas ninfas de
cabelo escorrido e osso. grandes, sem o amar menos por isso. A
principio julgava morrer cada vez que se 
afastava, mas logo se deu conta que as suas ausncias duravam
o tempo de um suspiro e que invariavelmente regressava mais
enamorado e mais doce. Blanca preferia 
esses encontros furtivos com o seu amante em hotis de
passagem,  rotina de uma vida em comum, ao cansao de um
casamento e ao pesadume de envelhecerem juntos compartilhando 
as penrias do fim do ms, o mau cheiro da boca ao acordar, o
tdio dos domingos e os achaques da idade. Era uma romntica
incurvel. Algumas vezes teve a tentao 
de pegar na sua maleta de palhao e o que restava das jias da
pega, e abalar com a sua filha para viver com ele, mas
acobardava-se sempre. Talvez temesse que aquele 
grandioso amor, que tinha resistido a tantas provaes, no
pudesse sobreviver  mais terrvel de todas: a convivncia.
Alba estava a crescer muito rapidamente e 
compreendia que no ia durar muito o bom pretexto de velar
pela filha para retardar as exigncias do amante, mas preferia
sempre deixar a deciso para mais tarde. 
Na realidade, tanto como temia a rotina, horrorizava-a o
estilo de vida de Pedro Tercero, o seu modesto casebre de
tbuas e folhas de zinco numa povoao operria, 
entre centenas de outras to pobres como a sua, com piso de
terra batida, sem gua e com uma s lmpada pendurada do
tecto. Por causa dela, ele saiu da povoao 
e mudou-se para um apartamento no centro, ascendendo assim,
sem querer, a uma classe mdia a que nunca teve aspiraes de
pertencer. Mas nem isso foi suficiente 
para Blanca. O apartamento pareceu-lhe srdido, escuro,
estreito e o edifcio promiscuo. Dizia que no podia permitir
que Alba crescesse ali, brincando com outros 
meninos na rua e nas escadas, educando-se na escola pblica.
Assim passou a sua juventude e entrou  na idade madura,
resignada a que os nicos momentos de prazer 
eram quando sala dissimuladamente com a sua melhor roupa, o
seu perfume e as anguas de adolescente que cativavam Pedro
Tercero e que ela escondia, corada de vergonha, 
no mais secreto do roupeiro, pensando nas explicaes que
teria de dar se algum as descobrisse. Aquela mulher prtica e
terrena em todos os aspectos da existncia, 
sublimou a sua paixo de infncia, vivendo-a tragicamente.
Alimentou-a de fantasias, idealizou-a, defendeu-a com fereza,
depurou-a das verdades prosaicas e pde 
convert-la num amor de novela.

Por seu lado, Alba aprendeu a no mencionar Pedro Tercero
Garcia, porque conhecia o efeito que esse nome causava na
famlia. Intua que algo de grave se tinha passado 
entre o homem dos dedos cortados que beijava a me na boca e o
av, mas todos, at o prprio Pedro Tercero, respondiam s
suas perguntas com evasivas. Na intimidade 
do quarto, Blanca contava-lhe histrias dele e ensinava-lhe as
suas canes com a recomendao de que no fosse traute-las
em casa. Mas no lhe contou que era seu 
pai e ela mesma parecia t-lo esquecido. Recordava o passado
como uma sucesso de violncias, abandonos e tristezas e no
estava segura de que as coisas tivessem 
sido como pensava. Tinha apagado da memria o episdio das
mmias, os retratos e o ndio imberbe com sapatos Lus XV, que
provocaram a sua fuga da casa do seu marido. 
Tantas vezes repetiu a histria de que o conde morrera de
febre no deserto que chegou a acreditar nela. Anos depois, no
dia em que a filha chegou a anunciar-lhe 
que o cadver de Jean de Satigny jazia na geleira da morgue,
no se alegrou, porque havia muito tempo se sentia viva. Nem
tentou justificar a sua mentira. Tirou 
do armrio o seu antigo fato de saia e casaco preto, ajeitou
os ganchos do cabelo e acompanhou Alba a sepultar o francs no
Cemitrio Geral, numa sepultura do Municpio, 
onde iam parar os indigentes, porque o senador Trueba negou-se
a ceder-lhe um lugar no seu mausolu cor de salmo. Me e
filha caminharam ss atrs do caixo negro 
que puderam comprar graas  generosidade de Jaime. Sentiam-se
um pouco ridculas naquele abafado meio-dia estival com um
ramo de flores murchas na mo e nenhuma 
lgrima para o cadver solitrio que iam enterrar.

-- Vejo que o meu pai nem sequer tinha amigos -- comentou
Alba.

Nem nessa ocasio Blanca disse a verdade  filha.


Depois que tive Clara e Rosa instaladas no meu mausolu,
senti-me um pouco mais tranquilo, porque sabia que mais tarde
ou mais cedo estaramos os trs reunidos ali, 
junto a outros seres queridos como a minha me, a Ama e a
prpria Frula, que espero me tenha perdoado. No imaginei na
altura que ia viver tanto como tenho vivido 
e que teriam de esperar por mim tanto tempo.

O quarto de Clara permaneceu fechado  chave. No queria que
ningum  l entrasse, para que no mexessem em nada e eu
pudesse encontrar o seu espirito ali presente 
sempre que o desejasse. Comecei a ter insnias, o mal de todos
os velhos. De noite, deambulava pela casa sem poder pegar no
sono, arrastando as sapatilhas que me 
ficavam grandes, embrulhado na antiga tnica episcopal, que
ainda guardo por razes sentimentais, resmungando contra o
destino como um velho acabado. No entanto, 
com a luz do Sol, recuperava o desejo de viver. Aparecia 
hora do pequeno almoo com a camisa engomada e o meu fato de
luto, barbeado e tranquilo, lia o jornal 
com a minha neta, punha em dia os meus negcios, e a
correspondncia e depois sala pelo resto do dia. Deixei de
comer em casa, mesmo aos sbados e domingos, porque 
sem a presena catalisadora de Clara, no havia nenhuma razo
para suportar as discusses com os meus filhos.

Os meus nicos dois amigos procuravam tirar-me o luto da alma.
Almoavam comigo, jogvamos golfe, desafiavam-me para o
domin. Com eles discutia os meus negcios, 
falava de poltica e por vezes da famlia. Uma tarde em que me
viram mais animado, convidaram-me para ir ao Cristbal Coln,
com a esperana de que uma mulher complacente 
me fizesse recuperar o bom humor. Nenhum dos trs tinha idade
para essas aventuras, mas bebemos uns copos e partimos.

Tinha estado no Cristbal Coln fazia alguns anos, mas quase o
tinha esquecido. Nos ltimos tempos, o bordel tinha adquirido
prestigio turstico e os provincianos 
viajavam at  capital s para o visitar e depois contar aos
amigos. Chegmos ao antiquado casaro, que por fora se
mantinha igual desde h muitssimos anos. Recebeu-nos 
um porteiro que nos levou ao salo principal, onde recordava
ter estado antes, na poca da matrona francesa ou, melhor
dito, com sotaque francs. Uma rapariguita, 
vestida como uma estudante, ofereceu-nos um copo de vinho por
conta da casa. Um dos meus amigos tentou agarr-la pela
cintura, mas ela avisou-o de que pertencia 
ao pessoal de servio e que devamos esperar pelas
profissionais. Momentos depois abriu-se uma cortina e apareceu
uma viso das antigas cortes rabes: um negro enorme, 
to negro que parecia azul, com os msculos oleados, vestido
com umas bombachas de seda cor de cenoura, um colete sem
mangas, turbante de lam roxo, babuchas de 
turco e um anel de ouro atravessado no nariz. Ao sorrir, vimos
que tinha todos os dentes de chumbo. Apresentou-se como
Mustaf e passou-nos um lbum de retratos, 
para escolhermos a mercadoria. Pela primeira vez em muito
tempo ri com vontade, porque a ideia de um catlogo de
prostitutas pareceu-me muito divertida. Folhemos 
o lbum, onde havia mulheres gordas, magras, de cabelo
comprido, de cabelo curto, vestidas como ninfas, como
amazonas, como novias, como cortess, sem que fosse 
possvel para mim escolher uma, porque todas tinham a
expresso pisada das flores de banquete. As ltimas trs
pginas do lbum  eram destinadas a rapazes com 
tnicas gregas, com coroas de louro, brincando entre falsas
runas helnicas, com as ndegas gorduchas e as plpebras
pestanudas, repugnantes. Eu no tinha visto 
de perto nenhum maricas confesso, excepto Carmelo, o que se
vestia de japonesa no Farolito Rojo, por isso surpreendeu-me
que um dos meus amigos, pai de famlia e 
corretor da Bolsa do Comrcio, escolhesse um daqueles
adolescentes rabudos dos retratos. O rapaz surgiu como por
arte de magia detrs das cortinas e levou o meu 
amigo pela mo, entre risinhos e saracoteios femininos. O meu
outro amigo preferiu uma gordssima odalisca, com quem duvido
que tenha podido realizar alguma proeza, 
devido  sua idade avanada e ao seu frgil esqueleto, mas, em
todo o caso, saiu com ela, tambm engolidos pela cortina.

-- Vejo que o senhor custa a decidir-se -- disse Mustaf
cordialmente. -- Permita-me oferecer-lhe o melhor da casa.
Vou-lhe apresentar Afrodite.

E entrou Afrodite no salo, com trs andares de caracis na
cabea, mal coberta por tules drapejados e gotejando uvas
artificiais desde o ombro at aos joelhos. 
Era Trnsito Soto, que tinha adquirido um definitivo aspecto
mitolgico, apesar das uvas de mau gosto e dos tules de circo.

-- Alegra-me v-lo, patro -- saudou.

Levou-me atravs da cortina e desembocmos num pequeno ptio
interior, o corao daquela labirntica construo. O
Cristbal Coln era formado por duas ou trs casas 
antigas, unidas estrategicamente por ptios traseiros,
corredores e pontes feitos para tal fim. Trnsito Soto
levou-me para um quarto andino, mas limpo, cuja nica 
extravagncia eram uns frescos erticos mal copiados dos de
Pompeia, que um pintor medocre tinha reproduzido nas paredes,
e uma banheira grande, antiga, um pouco 
oxidada, com gua corrente. Assobiei de admirao.

-- Fizemos algumas mudanas na decorao -- disse ela.

Trnsito tirou as uvas e os tules e voltou a ser a mulher que
eu recordava, s que mais apetecvel e menos vulnervel, mas
com a mesma expresso ambiciosa dos olhos 
que me cativara quando a conheci. Contou-me da cooperativa de
prostitutas e maricas, que tinha resultado formidvel. Entre
todos levantaram o Cristbal Coln da 
runa em que o deixou a falsa madame francesa de antigamente,
e trabalharam para o transformar num acontecimento social e
num monumento histrico, que andava na 
boca de marinheiros pelos mais remotos mares. Os disfarces
eram a maior contribuio para o xito, porque remexiam a
fantasia ertica dos clientes, assim como o 
catlogo de putas, que tinham podido reproduzir e distribuir
por algumas provncias, para despertar nos homens o desejo de
chegar a conhecer um dia o famoso bordel.

--  uma chatice andar com estes trapos e estas uvas fingidas,
patro, mas os homens gostam. Vo contar l para fora e isso
atrai outros. Vamos muito  bem,  um 
bom negcio e ningum aqui se sente explorado. Todos somos
scios. Esta  a nica casa de putas do pas que tem o seu
prprio negro autntico. Outros que voc v 
por ai so pintados, ao passo que Mustaf, mesmo que o
esfregue com lixa, fica sempre negro. Aqui at pode beber gua
na retrete porque deitamos lixvia at onde 
voc no imagina e estamos todos controlados pela Sanidade.
No h doenas venreas.

Trnsito tirou o ltimo vu e a sua magnifica nudez esmagou-me
tanto que senti logo um mortal cansao. Tinha o corao
oprimido pela tristeza e o sexo flcido como 
uma flor murcha e sem destino entre as pernas.

-- Ai, Trnsito! Creio que j estou muito velho para
isto-balbuciei.

Mas Trnsito Soto comeou a ondular a serpente tatuada  volta
do umbigo, hipnotizando-me com o suave contorcionar do ventre,
enquanto me arrulhava com a sua voz 
de pssaro rouco, falando dos benefcios da cooperativa e das
vantagens do catlogo. Tive de rir-me, apesar de tudo, e pouco
a pouco senti que o meu prprio riso 
era como um blsamo. Com o dedo tentei seguir o contorno da
serpente, mas deslizou-me ziguezagueando. Maravilhei-me de que
aquela mulher, que no estava na sua primeira 
nem na sua segunda juventude, tivesse a pele to firme e os
msculos to duros, capazes de mover aquele rptil como se
tivesse vida prpria. Inclinei-me para beijar 
a tatuagem e comprovei, satisfeito, que no estava perfumada.
O odor clido e seguro do seu ventre entrou-me pelas narinas e
invadiu-me por completo, alertando-me 
no sangue um fervor que julgava esfriado. Sem deixar de falar,
Trnsito abriu as pernas, separando as suaves colunas das suas
coxas, num gesto casual, como se acomodasse 
a posio. Comecei a percorr-la com os lbios, aspirando,
explorando, lambendo, at que esqueci o luto e o peso dos anos
e o desejo voltou-me com a fora de outros 
tempos e sem deixar de acarici-la e de beij-la fui
tirando-lhe a roupa aos saces, com desespero, comprovando
feliz a firmeza da minha masculinidade, ao mesmo 
tempo que me afundava no animal morno e misericordioso que se
me oferecia, arrulhado pela voz de pssaro rouco, enlaado
pelos braos da deusa, cirandado pela fora 
daquelas ancas, at perder a noo das coisas e rebentar em
gozo.

Depois demormo-nos os dois na banheira com gua morna, at
que a alma me voltou ao corpo e me senti quase curado. Por um
instante brinquei imaginando que Trnsito 
Soto era a mulher de que sempre tinha necessitado e que a seu
lado poderia voltar  poca em que era capaz de levantar em
peso uma robusta camponesa, p-la na garupa 
do cavalo e lev-la para os matagais contra a sua vontade.

-- Clara... -- murmurei sem pensar, e ento senti que cala uma
lgrima pela minha face e depois outra e outra mais, at que
foi uma torrente de pranto, um tumulto 
de soluos, uma sufocao de nostalgias e de tristezas, que
Trnsito Soto reconheceu sem dificuldade, porque tinha uma
grande experincia  com as penas dos homens. 
Deixou-me chorar todas as misrias e as solides dos ltimos
anos e depois tirou-me da banheira com cuidados de me,
secou-me, fez-me massagens at deixar-me mole 
como um po demolhado e tapou-me quando fechei os olhos na
cama. Beijou-me na testa e saiu em bicos de ps.

-- Quem ser Clara? -- ouvi-a murmurar ao sair.


Captulo XI
O Despertar

Por volta dos dezoito anos, Alba abandonou definitivamente a
infncia. No momento preciso em que se sentiu mulher,
fechou-se no seu antigo quarto, onde ainda estava 
o mural que tinha comeado muitos anos antes. Procurou nos
velhos boies de tinta at que encontrou um pouco de vermelho
e de branco que ainda estavam frescos, misturou-os 
com cuidado e comeou a pintar um grande corao rosado no
ltimo espao livre das paredes. Estava apaixonada. Depois
atirou para o lixo os boies e os pincis e 
sentou-se um bom bocado a contemplar os desenhos, para rever a
histria das suas tristezas e alegrias. Concluiu que tinha
sido feliz e, com um suspiro, despediu-se 
da meninice.

Nesse ano mudaram muitas coisas na sua vida. Acabou o colgio
e decidiu estudar filosofia, por gosto pessoal, e msica, para
ir contra o av, que considerava a arte 
como uma forma de perder tempo e pregava incansavelmente as
vantagens das profisses liberais ou cientificas. Tambm a
prevenia contra o amor e o casamento com as 
mesmas tolices com que insistia para que Jaime procurasse uma
noiva decente e se casasse, porque estava a ficar solteiro.
Dizia que para os homens  bom ter uma 
esposa, mas, em troca, as mulheres como Alba ficavam sempre a
perder com o casamento. As prdicas do av volatilizaram-se
quando Alba viu pela primeira vez Miguel, 
numa tarde memorvel de chuviscos e frio, na cafetaria da
Universidade.

Miguel era um estudante plido, de olhos febris, calas
desbotadas e botas de mineiro, no ltimo ano de Direito. Era
dirigente esquerdista. Estava inflamado pela 
mais incontrolvel paixo: procurar a justia. Isso no o
impediu de notar que Alba o observava. Levantou a vista e os
seus olhos encontraram-se. Olharam-se deslumbrados 
e desde esse momento procuraram todas as ocasies para se
juntarem nas alamedas do parque, por onde passeavam carregados
de livros ou arrastando o pesado violoncelo 
de Alba. Desde o primeiro encontro ela notou que ele trazia
uma pequena insgnia na manga: uma mo levantada com o punho
cerrado. Decidiu no lhe dizer que era neta 
de Esteban Trueba e, pela primeira vez na sua vida, usou o
apelido que tinha no seu bilhete de identidade: Satigny. Cedo
se deu conta que era melhor no o dizer 
aos outros companheiros. Pelo contrrio, pde gabar-se de ser
amiga de Pedro Tercero Garcia, que era muito popular entre os
estudantes, e do Poeta, em cujos joelhos 
se sentava em menina e que na altura era conhecido em todos os
idiomas e cujos versos andavam na boca dos jovens e nos
graffiti das paredes.

Miguel falava da revoluo. Dizia que  violncia do sistema
havia que opor a violncia da revoluo. Alba, no entanto, no
tinha nenhum interesse pela poltica 
e s queria falar de amor. Estava farta de ouvir os discursos
do av, de assistir s suas discusses com o tio Jaime, de
viver as campanhas eleitorais. A nica participao 
poltica da sua vida tinha sido sair com outros estudantes
para apedrejar a Embaixada dos Estados Unidos, sem ter motivos
muito claros para isso, devido ao que a 
suspenderam do colgio por uma semana e ao seu av quase lhe
deu outro enfarte. Mas na Universidade a poltica era
iniludvel. Como todos os jovens que entraram 
nesse ano, descobriu o atractivo das noites insones num caf,
falando das mudanas que o mundo necessitava e contagiando-se
uns aos outros com a paixo das ideias. 
Voltava a casa j tarde na noite, com a boca amarga e a roupa
impregnada de cheiro a tabaco ranoso, com a cabea quente de
herosmos, segura de que, chegado o momento, 
poderia dar a sua vida por uma causa justa. Por amor a Miguel,
e no por convico ideolgica, Alba entrincheirou-se na
Universidade ao lado dos estudantes que ocuparam 
o edifcio em apoio a uma greve de trabalhadores. Foram dias
de acampamento, de discursos inflamados, de gritar insultos 
polcia das janelas at ficarem afnicos. 
Fizeram barricadas com sacos de terra e paralelippedos que
arrancaram do ptio principal, taparam as portas e janelas com
intenes de tornar o edifcio uma fortaleza 
e o resultado foi uma masmorra da qual era muito mais difcil
para os estudantes sair, que para a polcia entrar. Foi a
primeira vez que Alba passou a noite fora 
de casa, aconchegada nos braos de Miguel, entre montes de
jornais e garrafas vazias de cerveja, na morna promiscuidade
dos companheiros, todos jovens, suados, 
com os olhos avermelhados pelo sono atrasado e pelo fumo, um
pouco esfomeados e sem nenhum medo, porque aquilo se parecia
mais com uma brincadeira do que com uma 
guerra. O primeiro dia passaram-no to ocupados fazendo
barricadas e mobilizando as suas cndidas defesas, pintando
cartazes e falando pelo telefone, que no tiveram 
tempo para se preocupar quando a polcia lhes cortou a gua e
a electricidade. 

Desde o primeiro instante, Miguel converteu-se na alma da
ocupao, secundado pelo professor Sebastin Gmez, o qual
apesar das suas pernas paralticas os acompanhou 
at ao fim. Nessa noite cantaram para se animarem e, quando se
cansaram dos discursos, das discusses e dos cantos,
acomodaram-se em grupos para passar a noite o 
melhor possvel. O ltimo a descansar foi Miguel, que parecia
ser o nico que sabia como actuar. Encarregou-se da
distribuio da gua, juntando em recipientes at 
a que estava armazenada nos autoclismos, improvisou uma
cozinha e trouxe, ningum sabe de onde, caf instantneo,
bolachas e algumas latas de cerveja. No dia seguinte, 
o fedor dos sanitrios sem gua era terrvel, mas Miguel
organizou a limpeza e ordenou que no os ocupassem: havia que
fazer as necessidades no ptio, numa fossa 
cavada junto  esttua de pedra do fundador da Universidade.
Miguel dividiu os rapazes em grupos e manteve-os todo o dia
ocupados, com tanta habilidade que no se 
notava a sua autoridade. As decises pareciam surgir
espontaneamente dos grupos.

--  como se fssemos ficar aqui vrios meses! -- comentou
Alba, encantada com a ideia de estarem sitiados.

Na rua, rodeando o antigo edifcio, colocaram-se
estrategicamente os carros blindados da polcia. Comeou uma
tensa espera que iria prolongar-se por vrios dias.

-- Vo aderir os estudantes de todo o pas, os sindicatos, os
colgios profissionais. Talvez caia o governo -- opinou
Sebastin Gmez.

-- No o creio -- replicou Miguel. -- Mas o que importa 
estabelecer o protesto e no deixar o edifcio at que se
assine o caderno reivindicativo dos trabalhadores.

Comeou a chover suavemente e muito cedo fez-se noite dentro
do edifcio sem luz. Acenderam alguns improvisados candeeiros
com gasolina e uma mecha fumegante em 
boies. Alba pensou que tambm tinham cortado o telefone, mas
verificou que a linha funcionava. Miguel explicou que a
polcia tinha interesse em saber o que eles 
diziam e preveniu-os a respeito das conversas. De qualquer
modo, Alba ligou para casa para avisar que ficaria junto dos
companheiros at  vitria final ou  morte, 
o que lhe soou falso logo que o disse. O seu av arrebatou o
aparelho da mo de Blanca e com a entoao iracunda que a sua
neta conhecia muito bem, disse-lhe que 
tinha uma hora para chegar a casa com uma explicao razovel
por ter passado toda a noite fora. Alba respondeu-lhe que no
podia sair e mesmo que pudesse, tambm 
no pensava faz-lo.

-- No tens nada que estar ai com esses comunistas! -- gritou
Esteban Trueba. Mas em seguida amaciou a voz e pediu-lhe que
sasse antes que entrasse a polcia, porque 
ele estava em posio de saber que o governo no ia toler-los
indefinidamente. -- Se no saem s boas, entra o Grupo Mvel e
vo tir-los  cacetada -- concluiu 
o Senador.

Alba olhou por uma fresta da janela, tapada com tbuas e sacos
de terra e  viu os tanques alinhados na rua e uma dupla fila
de homens em p de guerra, com capacetes, 
matracas e mscaras. Compreendeu que o av no exagerava. Os
outros tambm os tinham visto e alguns vacilavam. Algum disse
que havia umas novas bombas, piores que 
as lacrimogneas, que provocavam uma incontrolvel diarreia,
capaz de dissuadir o mais valente com a pestilncia e o
ridculo. A Alba pareceu-lhe a ideia aterradora. 
Teve de fazer um grande esforo para no chorar. Sentia
pontadas no ventre e sups que eram de medo. Miguel abraou-a,
mas isso no lhe serviu de consolo. Estavam 
os dois cansados e comeavam a sentir a m noite nos ossos e
na alma.

-- No creio que se atrevam a entrar -- disse Sebastin Gmez.
-- O governo j tem bastantes problemas. No vai meter-se
connosco.

-- No seria a primeira vez que carrega contra os estudantes
-- observou algum.

-- A opinio pblica no o permitir -- respondeu Gmez. --
Isto  uma democracia. No  uma ditadura e nunca o ser.

-- Pensamos sempre que essas coisas s acontecem aos outros --
disse Miguel. -- At que se passem tambm connosco.

O resto da tarde passou sem incidentes e  noite todos estavam
mais tranquilos, apesar da prolongada incomodidade e da fome.
Os tanques continuavam parados nos seus 
postos. Nos longos corredores e nas salas os jovens jogavam ao
galo ou s cartas, descansavam estendidos no cho e preparavam
armas defensivas com paus e pedras. 
A fadiga notava-se em todos os rostos. Alba sentia cada vez
mais fortes as clicas no ventre e pensou que, se as coisas
no se resolvessem no dia seguinte, no teria 
outro remdio seno utilizar a fossa do ptio. Na rua
continuava chovendo e a rotina da cidade prosseguia
imperturbvel. Ningum parecia importar-se com outra greve 
dos estudantes e as pessoas passavam diante dos tanques sem
parar para ler os cartazes pendurados da fachada da
Universidade. Os vizinhos habituaram-se rapidamente 
 presena dos carabineiros armados e quando a chuva parou, as
crianas saram para jogar  bola no estacionamento vazio que
separava o edifcio dos destacamentos 
policiais. Por momentos, Alba tinha a sensao de estar num
barco  vela num mar calmo, sem uma brisa, numa espera eterna
e silenciosa, imvel, explorando o horizonte 
durante horas. A alegre camaradagem do primeiro dia
transformou-se em irritao e em constantes discusses 
medida que o tempo transcorreu e aumentou a incomodidade. 
Miguel inventariou todo o edificio e confiscou os viveres da
cafetaria.

-- Quando isto terminar, pagaremos ao concessionrio.  um
trabalhador como qualquer outro -- disse.

Fazia frio. O nico que no se queixava de nada, nem sequer da
sede, era Sebastin Gmez. Parecia to incansvel como Miguel,
apesar de ter o dobro da idade e do 
seu aspecto de tuberculoso. Era o nico professor que ficou
com  os estudantes quando ocuparam o edifcio. Diziam que as
suas pernas paralticas eram a consequncia 
de uma rajada de metralhadora na Bolvia. Era um idelogo que
fazia arder nos alunos a chama que a maioria viu apagar-se
quando abandonaram a Universidade e entraram 
no mundo que na sua primeira juventude julgaram poder mudar.
Era um homem pequeno, magro de nariz aquilino e cabelo ralo,
animado por um fogo interior que no lhe 
dava trguas. Alba devia-lhe a alcunha de condessa, porque
no primeiro dia o seu av teve a m ideia de mand-la s aulas
no automvel com motorista e o professor 
viu-a. A alcunha era, por coincidncia, certa, porque Gmez
no podia saber que, no caso improvvel de ela o querer fazer
um dia, podia desenterrar o titulo de nobreza 
de Jean de Satigny que era uma das poucas coisas autnticas
que tinha o conde francs que lhe deu o apelido. Alba no lhe
tinha rancor pela alcunha brincalhona, 
pelo contrrio, algumas vezes tinha fantasiado com a ideia de
seduzir o esforado professor. Mas Sebastin Gmez tinha visto
muitas meninas como Alba e sabia distinguir 
essa mescla de compaixo e curiosidade que provocavam as suas
muletas sustentando as suas pobres pernas de trapo.

Assim se passou todo o dia, sem que o Grupo Mvel movesse os
seus tanques e sem que o governo cedesse s reivindicaes dos
trabalhadores. Alba comeou a perguntar-se 
que diabo estava a fazer naquele lugar, porque a dor de
barriga estava-se a tornar insuportvel e a necessidade de
tomar um banho com gua corrente comeava a obcec-la. 
Cada vez que olhava para a rua e via os carabineiros
enchia-se-lhe a boca de saliva. Nessa altura j se tinha dado
conta que os treinos do tio Nicolau no eram to 
eficazes no momento da aco como na fico dos sofrimentos
imaginrios. Duas horas depois, Alba sentiu entre as pernas
uma viscosidade morna e viu as calas manchadas 
de vermelho. Invadiu-a uma sensao de pnico. Durante aqueles
dias o temor de que isso acontecesse atormentou-a quase tanto
como a fome. A mancha nas calas era 
como uma bandeira. No tentou disfar-la. Encolheu-se num
canto sentindo-se perdida. Quando era pequena, a av tinha-lhe
ensinado que as coisas prprias da funo 
humana so naturais e que podia falar da menstruao como da
poesia, mas mais tarde, no colgio, viu que todas as secrees
do corpo, menos as lgrimas, eram indecentes. 
Miguel notando-lhe a vergonha e a angstia, foi  improvisada
enfermaria buscar um pacote de algodo, conseguindo alguns
lenos, mas logo viram que isso no era 
suficiente e ao anoitecer Alba chorava de humilhao e de dor,
assustada pelas tenazes nas suas entranhas e por esse
gorgolejar sangrento que no se parecia em nada 
com o dos outros meses. Parecia-lhe que algo estava rebentando
dentro de si. Ana Daz, uma estudante que, como Miguel, usava
a insgnia do punho erguido, fez a observao 
de que isso s di s mulheres ricas, porque as proletrias
no se queixam nem quando esto parindo, mas ao ver que as 
calas de Alba eram um charco e que estava 
plida como um moribundo, foi falar com Sebastin Gmez. Este
declarou-se incapaz de resolver o problema.

-- Isto passa-se por meter as mulheres em coisas de homens --
gracejou.

-- No! Isto passa-se por meter os burgueses nas coisas do
povo -- respondeu a jovem indignada.

Sebastin Gmez foi at ao canto onde Miguel tinha instalado
Alba e deslizou para o seu lado com dificuldade, por causa das
muletas.

-- Condessa, tens de ir para a tua casa. Aqui no contribuis
em nada, pelo contrrio, s um empecilho -- disse-lhe.

Alba sentiu uma onda de alvio. Estava demasiado assustada e
aquela era uma sada honrosa que lhe permitiria voltar a sua
casa sem que parecesse covardia. Discutiu 
um pouco com Sebastin Gmez para salvar a cara, mas aceitou
quase em seguida que Miguel sasse com uma bandeira branca a
parlamentar com os carabineiros. Todos 
o observaram das vigias enquanto atravessava o estacionamento
vazio. Os carabineiros tinham estreitado filas e ordenaram-lhe
pelo altifalante, que parasse, que deitasse 
a bandeira para o cho e avanasse com as mos na nuca.

-- Isto parece uma guerra! -- comentou Gmez.

Pouco depois regressou Miguel que ajudou Alba a pr-se em p.
A mesma jovem que antes tinha criticado os queixumes de Alba,
pegou-lhe num brao e os trs saram 
do edifcio saltando as barricadas e os sacos de terra,
iluminados pelos potentes projectores da polcia. Alba mal
podia caminhar, sentia-se envergonhada e com a 
cabea s voltas. A meio caminho, uma patrulha saiu-lhes ao
encontro e Alba viu-se a poucos centmetros de um uniforme
verde e viu uma pistola que lhe era apontada 
 altura do nariz. Levantou os olhos e enfrentou um rosto
moreno com olhos de roedor. Soube logo quem era: Esteban
Garcia.

-- Vejo que s a neta do senador Trueba!-exclamou Garcia
ironicamente.

Miguel soube assim que ela no lhe tinha dito toda a verdade.
Sentindo-se trado, entregou-a nas mos do outro, deu meia
volta e regressou arrastando a bandeira 
branca pelo cho, sem lhe dar nem um olhar de despedida,
acompanhado por Ana Daz, que ia to surpreendida e furiosa
como ele.

-- O que tens tu? -- perguntou Garcia apontando com a pistola
as calas de Alba. -- Parece um aborto!

Alba endireitou a cabea e olhou-o nos olhos.

-- Isso no lhe importa. Leve-me a minha casa! -- ordenou
copiando o tom autoritrio que empregava o seu av com todos
os que no considerava da sua classe social.

Garcia vacilou. H muito tempo que no ouvia uma ordem da boca
de um civil e teve a tentao de lev-la para a priso e
deix-la apodrecer numa cela, banhada no 
seu prprio sangue, at que lhe pedisse de joelhos, mas na sua 
profisso tinha aprendido que havia outros muito mais
poderosos do que ele e que no podia dar-se 
ao luxo de actuar com impunidade. Alm disso, a recordao de
Alba com os seus vestidos engomados tomando limonadas no
terrao de Las Tres Marias, enquanto ele arrastava 
os ps nus no ptio das galinhas e sorvia o ranho e o temor
que ainda tinha ao velho Trueba, foram mais fortes que o seu
desejo de humilh-la. No pde aguentar 
o olhar da rapariga e baixou imperceptivelmente a cabea. Deu
meia volta, ladrou uma breve frase e dois carabineiros levaram
Alba pelos braos at um carro da polcia. 
Assim chegou a casa. Ao v-la, Blanca pensou que se tinham
cumprido as previses do av e que a polcia tinha arremetido
 bastonada contra os estudantes. Comeou 
a guinchar e no parou at que Jaime examinou Alba e lhe
assegurou que no estava ferida e que no tinha nada que no
se pudesse curar com um par de injeces e 
repouso.

Alba passou dois dias na cama, durante os quais se dissolveu
pacificamente a greve dos estudantes. O ministro da Educao
foi retirado do seu posto e transferido 
para o Ministrio da Agricultura.

-- Se pde ser ministro da Educao sem ter terminado a
escola, tambm pode ser ministro da Agricultura sem ter visto
uma vaca inteira em toda a sua vida -- comentou 
o senador Trueba.

Enquanto esteve na cama, Alba teve tempo para lembrar as
circunstancias em que tinha conhecido Esteban Garcia.
Procurando muito atrs nas imagens da infncia, recordou 
um jovem moreno, a biblioteca da casa, a lareira acesa com
grandes troncos de pinheiro perfumando o ar,  tarde ou 
noite, e ela sentada sobre os seus joelhos. 
Mas a viso entrava e sala fugazmente da sua memria e chegou
a duvidar se no a teria sonhado. A primeira recordao que
tinha dele era posterior. Sabia a data 
exacta porque foi no dia em que completou catorze anos e a me
anotou no lbum negro que a sua av iniciou quando ela nasceu.
Para a ocasio tinha encaracolado o 
cabelo e estava no terrao, com o casaco vestido, esperando
que chegasse o tio Jaime para a levar a comprar o seu
presente. Fazia muito frio, mas ela gostava do 
jardim no Inverno. Soprou nas mos e subiu a gola do casaco
para proteger as orelhas. Dali podia ver a janela da
biblioteca, onde o av falava com um homem. O vidro 
estava embaciado, mas pde reconhecer o uniforme dos
carabineiros e perguntou a si prpria que podia estar o av a
fazer com um deles no seu escritrio. O homem 
estava de costas para a janela sentado rigidamente na ponta da
cadeira, com as costas direitas e um ar pattico de soldadinho
de chumbo. Alba esteve olhando-os um 
bocado, at que calculou que o tio estava a chegar, ento
caminhou pelo jardim at um caramancho meio destrudo,
esfregando as mos para as aquecer, tirou as folhas 
hmidas que havia sobre o banco de pedra e sentou-se  espera.
Pouco depois, Esteban Garcia encontrou-a ali mesmo, quando
saiu de casa e teve de atravessar o jardim 
para se dirigir  ao porto. Ao v-la parou bruscamente. Olhou
para todos os lados, hesitou e aproximou-se.

-- Recordas-te de mim? -- perguntou Garcia.

-- No... -- duvidou ela.

-- Sou Esteban Garcia. Conhecemo-nos em Las Tres Marias.

Alba sorriu mecanicamente. Trazia-lhe uma m recordao 
memria. Havia qualquer coisa nos seus olhos que a inquietava,
mas no conseguiu precisar o qu. Garcia 
varreu com a mo as folhas e sentou-se a seu lado no banco,
to perto, que as suas pernas se tocavam.

-- Este jardim parece uma selva -- disse, respirando muito
perto dela.

Tirou o barrete do uniforme e ela viu que tinha o cabelo muito
curto e duro, penteado com fixador. A mo de Garcia poisou-lhe
no ombro. A familiaridade do gesto 
desconcertou o rapariga, que por um momento ficou paralisada,
mas em seguida recuou, tentando libertar-se. A mo do
carabineiro apertou-lhe o ombro, enterrando-lhe 
os dedos atravs do tecido espesso do seu casaco. Alba sentiu
que o corao lhe latejava como uma mquina e o rubor lhe
cobria as faces.

-- Cresceste, Alba, pareces quase uma mulher -- sussurrou o
homem ao seu ouvido.

-- Tenho catorze anos, fao-os hoje -- balbuciou ela.

-- Ento tenho um presente para ti -- disse Esteban Garcia
sorrindo com a boca torcida.

Alba tentou desviar a cara, mas ele agarrou-a firmemente com
as mos, obrigando-a a enfrent-lo. Foi o seu primeiro beijo.
Sentiu uma sensao quente, brutal, a 
pele spera e mal barbeada raspou-lhe a cara, sentiu o seu
odor a tabaco ranoso e cebola, a sua violncia. A lngua de
Garcia tentou abrir-lhe os lbios enquanto 
com uma mo lhe apertava as faces at obrig-la a abrir os
maxilares. Ela viu aquela lngua como um molusco baboso e
morno, invadiu-a a nusea e subiu-lhe um vmito 
do estmago, mas manteve os olhos abertos. Viu o duro tecido
do uniforme e sentiu as mos ferozes que lhe rodeavam o
pescoo e, sem deixar de beij-la, os seus dedos 
comearam a apertar. Alba julgou que se afogava e empurrou-o
com tal violncia que conseguiu afast-lo. Garcia levantou-se
do banco e sorriu com zombaria. Tinha 
manchas vermelhas nas faces e respirava agitadamente.

-- Gostaste do meu presente? -- riu-se.

Alba viu-o afastar-se a grandes passadas pelo jardim e
sentou-se a chorar. Sentia-se suja e humilhada. Depois correu
para casa lavar a boca com sabo e escovar os 
dentes como se isso pudesse tirar a mancha da sua memria.
Quando chegou o tio Jaime para a buscar, pendurou-se do seu
pescoo, escondeu a cara na sua camisa e disse-lhe 
que no queria nenhum presente, porque tinha decidido ir para
freira. Jaime desatou a rir com um riso sonoro e fundo  que
lhe nascia das entranhas e que ela s 
lhe ouvira em muito poucas ocasies, porque o tio era um homem
taciturno.

-- Juro-te que  verdade! Vou para freira! -- soluou Alba.

-- Terias de nascer de novo -- respondeu Jaime. -- E alm
disso terias de passar por cima do meu cadver.

Alba no voltou a ver Esteban Garcia at que o teve a seu lado
no estacionamento da Universidade, mas nunca pde esquec-lo.
No contou a ningum aquele beijo repugnante 
nem os sonhos que teve depois, em que ele aparecia como uma
besta verde disposta a estrangul-la com as patas e a
asfixi-la introduzindo-lhe um tentculo baboso 
na boca.

Recordando tudo isso, Alba descobriu que o pesadelo tinha
estado oculto dentro de si anos e que Garcia continuava a ser
a besta que a espreitava nas sombras para 
lhe saltar em cima em qualquer momento da sua vida. No podia
saber que era uma premonio.


A Miguel esfumou-se-lhe a decepo e a raiva de que Alba fosse
neta do senador Trueba, quando pela segunda vez a viu
deambular como alma perdida pelos corredores 
prximos da cafetaria onde se tinham conhecido. Decidiu que
era injusto culpar a neta pelas ideias do av e voltaram a
passear abraados. Em pouco tempo os beijos 
interminveis tornaram-se insuficientes e comearam a
encontrar-se no quarto onde vivia Miguel. Era uma penso
medocre para estudantes pobres, dirigida por um casal 
de meia-idade com vocao para a espionagem. Observavam Alba
com mal disfarada hostilidade quando subia de mo dada com
Miguel ao seu quarto e para ela era um suplcio 
vencer a timidez e enfrentar a crtica desses olhares que lhe
estragavam a felicidade do encontro. Para os evitar preferia
outras alternativas, mas tambm no aceitava 
a ideia de irem juntos a um hotel, pela mesma razo que no
queria ser vista na penso de Miguel.

-- s a pior burguesa que conheo! -- ria-se Miguel.

s vezes ele conseguia uma moto emprestada e escapavam-se umas
horas, viajando a uma velocidade suicida, cavalgando a
mquina, com as orelhas geladas e o corao 
ansioso. Gostavam de ir no Inverno s praias solitrias, andar
sobre a areia molhada deixando as pegadas que a gua lambia,
espantar as gaivotas e respirar s golfadas 
o ar do mar. No Vero preferiam os bosques mais densos, onde
podiam amar-se impunemente depois de iludirem as crianas
exploradoras e os excursionistas. Alba depressa 
descobriu que o lugar mais seguro era a sua prpria casa,
porque no labirinto e no abandono dos quartos traseiros, onde
ningum entrava, podiam amar-se sem perturbaes. 


-- Se as criadas ouvem rudos, pensaro que voltaram os
fantasmas -- disse Alba e contou-lhe o glorioso passado dos
espritos visitantes e das mesas voadoras da 
grande casa da esquina.

A primeira vez que o conduziu atravs da porta traseira do
jardim, abrindo passagem no matagal e desviando-se das
esttuas manchadas de musgo e cagadelas de pssaro, 
o jovem teve um sobressalto ao ver o triste casaro. Eu
estive aqui antes, murmurou, mas no pde recordar, porque
aquela selva de pesadelo e a lgubre manso 
s vagamente se assemelhavam com a imagem luminosa que
guardara desde a infncia.

Os apaixonados experimentaram um por um os quartos abandonados
e terminaram improvisando um ninho para os seus amores
furtivos nas profundidades da cave. Havia vrios 
anos que Alba no entrava ali e chegou a esquecer a sua
existncia, mas no momento em que abriu a porta e respirou o
inconfundvel odor tornou a sentir a mgica 
atraco de antes. Usaram os trastes, os caixotes, a edio do
livro do tio Nicolau, os mveis e os cortinados de outros
tempos para arranjar um surpreendente quarto 
nupcial. No centro, improvisaram uma cama com vrios colches
que cobriram com pedaos de veludo rodo pela traa. Dos bas
extraram incontveis tesouros. Fizeram 
lenis com velhas cortinas de damasco cor de topzio,
descoseram um sumptuoso vestido de renda de Chantilly que usou
Clara no dia em que morreu Barrabs, para fazer 
um mosquiteiro cor do tempo que os protegesse das aranhas que
desciam do tecto. Alumiavam-se com velas e ignoravam os
pequenos roedores, o frio e aquele cheiro de 
alm-tmulo. Andavam nus no crepsculo eterno da cave,
desafiando a humidade e as correntes de ar. Bebiam vinho
branco em taas de cristal que Alba subtraiu da sala 
de jantar e faziam um minucioso inventrio dos seus corpos e
das mltiplas possibilidades do prazer. Brincavam como
crianas. Ela tinha dificuldade em reconhecer 
nesse jovem enamorado e doce que ria e brincava numa
incansvel bacanal, o revolucionrio vido de justia que
aprendia, em segredo, o uso das armas de fogo e as 
estratgias revolucionrias. Alba inventava irresistveis
truques de seduo e Miguel criava novas e maravilhosas formas
de am-la. Estavam deslumbrados pela fora 
da sua paixo, que era como feitio de sede insacivel. No
chegavam as horas nem as palavras para dizerem um ao outro os
mais ntimos pensamentos e as mais remotas 
recordaes, numa ambiciosa tentativa de se possurem
mutuamente at  ltima estrofe. Alba descuidou o violoncelo,
excepto para o tocar nua sobre o leito de topzio, 
e assistia s aulas na Universidade com ar alucinado. Miguel
tambm ps a tese de lado e as suas reunies polticas, porque
necessitavam estar juntos a toda a hora 
e aproveitavam a menor distraco dos habitantes da casa para
deslizarem para a cave. Alba aprendeu a mentir e a dissimular.
Com o pretexto de estudar de noite deixou 
o quarto que compartilhava com a me desde a morte da av e 
instalou-se num quarto do primeiro andar que dava para o
jardim, para poder abrir a janela a Miguel 
e lev-lo em bicos de ps atravs da casa adormecida at 
guarida encantada. Mas no se juntavam s  noite. A
impacincia do amor era por vezes to intolervel, 
que Miguel se arriscava a entrar de dia, arrastando-se por
entre o mato, como um ladro, at  porta da cave, onde o
esperava Alba com o corao preso por um fio. 
Abraavam-se com o desespero de uma despedida e escapuliam-se
para o seu refgio sufocados de cumplicidade.

Pela primeira vez na sua vida, Alba sentiu a necessidade de
ser formosa e lamentou que nenhuma das esplndidas mulheres da
sua famlia lhe tivesse legado os seus 
atributos, e a nica que o fez, a bela Rosa, s lhe deu o tom
de algas marinhas ao seu cabelo, o qual, se no ia acompanhado
por tudo o resto, parecia mais um erro 
de cabeleireiro. Quando Miguel adivinhou a sua inquietao,
levou-a pela mo at ao grande espelho veneziano que adornava
um canto da sua cmara secreta, sacudiu 
o p do cristal quebrado, e depois acendeu todas as velas que
tinha e p-las  sua volta. Ela olhou-se nos mil pedaos
partidos do espelho. A sua pele, iluminada 
pelas velas, tinha a cor irreal das figuras de cera. Miguel
comeou a acarici-la e ela viu transformar-se o seu rosto no
caleidoscpio do espelho e aceitou finalmente 
que era a mais bela de todo o universo, porque pde ver-se com
os olhos com que Miguel a olhava.

Aquela orgia interminvel durou mais de um ano. Por fim,
Miguel terminou a sua tese, licenciou-se e comeou a procurar
trabalho. Quando passou a premente necessidade 
do amor insatisfeito, puderam recuperar a compostura e
normalizar as suas vidas. Ela fez um esforo para se
interessar outra vez pelos estudos e ele voltou-se novamente 
para a sua aco poltica, porque os acontecimentos estavam a
precipitar-se e o pas estava dividido pelas lutas
ideolgicas. Miguel alugou um pequeno apartamento 
perto do seu trabalho, onde se juntavam para se amar, porque
no ano que passaram nus brincando na cave contraram ambos uma
bronquite crnica que retirava uma boa 
parte do encanto ao seu paraso subterrneo. Alba ajudou a
decor-lo, pondo almofades e cartazes polticos por todos os
lados e at chegou a sugerir que poderia 
ir viver com ele, mas nesse ponto Miguel foi inflexvel.

-- Avizinham-se tempos muito maus, meu amor -- explicou. --
No posso ter-te comigo, porque quando for necessrio entrarei
na guerrilha.

-- Irei contigo para onde quer que vs -- prometeu ela.

-- Para a no se vai por amor, mas por convico poltica e
tu no a tens -- replicou Miguel. -- No podemos dar-nos ao
luxo de aceitar diletantes.

A Alba aquilo pareceu-lhe brutal e tiveram de passar alguns
anos para que pudesse compreend-lo em toda a sua magnitude.

O senador Trueba j estava em idade de se retirar, mas essa
ideia no lhe passava pela cabea. Lia o jornal do dia e
resmungava entre dentes. As coisas  tinham 
mudado muito nesses anos e sentia que os acontecimentos o
ultrapassavam, porque no pensou que fosse viver tanto que os
tivesse de enfrentar. Tinha nascido quando 
no existia a luz elctrica na cidade e tinha-lhe sido dado
ver pela televiso um homem passeando na Lua, mas nenhum dos
sobressaltos da sua longa vida o tinham 
preparado para enfrentar a revoluo que estava nascer no seu
pas, nas suas barbas, e que trazia toda a gente perturbada.

Jaime era o nico que no falava do que se estava a passar.
Para evitar discusses com o pai adquirira o hbito do
silncio e depressa descobriu que era mais cmodo 
no falar. As poucas vezes que abandonava o seu laconismo
trapista era quando Alba ia visit-lo no seu tnel de livros.
A sua sobrinha chegava em camisa de dormir, 
com o cabelo molhado depois do duche, e sentava-se aos ps da
sua cama a contar-lhe assuntos felizes, porque, tal como ela
dizia, ele era um man para atrair os 
problemas alheios e as misrias irremediveis, e era
necessrio que algum o pusesse em dia sobre a Primavera e o
amor. As suas boas intenes desfaziam-se com a 
urgncia de discutir com o seu tio tudo o que a preocupava.
Nunca estavam de acordo. Partilhavam os mesmos livros, mas na
hora de analisar o que haviam lido, tinham 
opinies totalmente contrrias. Jaime ria-se das suas ideias
polticas, dos seus amigos barbudos e repreendia-a por se ter
enamorado por um terrorista de caf. Era 
o nico em casa que conhecia a existncia de Miguel.

-- Diz a esse ranhoso que venha um dia trabalhar comigo no
hospital, para ver se fica com vontade de andar a perder tempo
com panfletos e discursos -- dizia a Alba.

--  advogado, tio, no  mdico -- respondia ela.

-- No importa. L precisamos de qualquer coisa. At um
canalizador nos serve.

Jaime estava seguro de que os socialistas triunfariam
finalmente, depois de tantos anos de luta. Atribua-o a que o
povo tinha tomado conscincia das suas necessidades 
e da sua prpria fora. Alba repetia as palavras de Miguel,
que s atravs da guerra se podia vencer a burguesia. Jaime
tinha horror a qualquer forma de extremismo 
e sustentava que os guerrilheiros s se justificavam nas
tiranias, onde no h outro remdio seno batel se a tiro, mas
que so uma aberrao num pais onde as mudanas 
se podem obter por votao popular.

-- Isso nunca aconteceu, tio, no sejas ingnuo -- respondia
Alba. -- Jamais deixaro que ganhem os teus socialistas!

Ela tentava explicar o ponto de vista de Miguel: que no se
podia continuar  espera do passo lento da histria, do
laborioso processo de educar o povo e organiz-lo, 
porque o mundo avanava por saltos e eles ficavam para trs,
que as mudanas radicais nunca se implantavam a bem e sem
violncias.  A histria demonstrava-o. A 
discusso prolongava-se e ambos se perdiam numa oratria
confusa que os deixava esgotados, acusando-se mutuamente de
ser mais teimosos que um burro mas no fim davam 
as boas noites com um beijo e ficavam ambos com a sensao de
que o outro era um ser maravilhoso.

Um dia  hora do jantar, Jaime anunciou que ganhariam os
socialistas, mas como h vinte anos previa o mesmo, ningum o
acreditou.

-- Se a tua me estivesse viva, diria que vo ganhar os de
sempre -- respondeu-lhe o senador Trueba desdenhosamente.

Jaime sabia por que o dizia. Tinha-lho dito o Candidato. Havia
muitos anos que eram amigos e Jaime ia frequentemente jogar
xadrez com ele  noite. Era o mesmo socialista 
que pretendia a Presidncia da Repblica desde h dezoito
anos. Jaime tinha-o visto pela primeira vez s cavalitas do
seu pai, quando passava no meio de uma nuvem 
de fumo nos comboios do triunfo, durante as campanhas
eleitorais da sua adolescncia. Naqueles tempos, o Candidato
era um homem jovem e robusto, com faces de perdigueiro, 
que gritava exaltados discursos entre os apupos e os assobios
dos patres e o silncio raivoso dos camponeses. Era a poca
em que os irmos Snchez penduraram na 
cruz dos caminhos o dirigente socialista e que Esteban Trueba
chicoteou Pedro Tercero Garcia diante do pai, por repetir aos
caseiros as perturbadoras verses bblicas 
do padre Jos Dulce Maria. A sua amizade com o Candidato
nasceu por casualidade, um domingo  noite em que o mandaram
do hospital atender uma emergncia ao domicilio. 
Chegou  direco indicada numa ambulncia de servio, tocou a
campainha e o Candidato em pessoa abriu a porta. Jaime no
teve dificuldade em reconhec-lo, porque 
tinha visto o seu retrato muitas vezes e porque no tinha
mudado desde que o vira passar no comboio.

-- Passe, doutor, estamos  sua espera -- saudou o Candidato.

Levou-o a um quarto de servio, onde as filhas tentavam ajudar
uma mulher que parecia asfixiar-se, tinha a cara arroxeada, os
olhos esbugalhados e uma lngua monstruosamente 
inchada que lhe saa para fora da boca.

-- Comeu peixe -- explicaram-lhe.

-- Tragam o oxignio que est na ambulncia -- disse Jaime
enquanto preparava uma seringa.

Ficou com o Candidato, os dois sentados ao lado da cama at
que a mulher comeou a respirar normalmente e conseguiu meter
a lngua dentro da sua boca. Falaram do 
socialismo e de xadrez e esse foi o comeo de uma boa amizade.
Jaime apresentou-se com o apelido da me, que sempre usava,
sem pensar que no dia seguinte os servios 
de segurana do Partido entregariam ao outro a informao de
que era filho do senador Trueba, o seu maior inimigo poltico.
O Candidato, no entanto, nunca o mencionou, 
e at  hora final, quando ambos apertaram a mo pela ltima
vez no fragor do incndio e  das balas, Jaime perguntava-se se
alguma vez teria a coragem de lhe dizer 
a verdade.

A sua longa experincia da derrota e o seu conhecimento do
povo permitiram ao Candidato ver antes de ningum que dessa
vez ia ganhar. Disse-o a Jaime e acrescentou 
que a palavra de ordem era no o divulgar, para que a direita
se apresentasse s eleies segura do triunfo, arrogante e
dividida. Jaime respondeu que, mesmo que 
o dissessem a toda a gente, ningum o ia acreditar, nem os
prprios socialistas, e para ter a prova disse-o ao pai.

Jaime continuou a trabalhar catorze horas por dia, inclusive
aos domingos, sem participar na contenda poltica. Estava
acobardado pelo rumo violento daquela luta, 
que polarizava as foras em dois extremos, deixando ao centro
s um grupo indeciso e volvel, que esperava ver perfilar-se o
vencedor para votar por ele. No se 
deixou provocar pelo pai, que aproveitava todas as ocasies em
que estavam juntos para o advertir das manobras do comunismo
internacional e do caos que cairia sobre 
a ptria no caso improvvel em que triunfasse a esquerda. A
nica vez que Jaime perdeu a pacincia foi quando uma manh
encontrou a cidade forrada de cartazes truculentos 
onde aparecia uma me barriguda e desolada, que tentava
inutilmente arrebatar o seu filho a um soldado comunista que o
levava para Moscovo. Era a campanha de terror 
organizada pelo senador Trueba e pelos seus correligionrios,
com ajuda de especialistas estrangeiros importados
especialmente para esse fim. Aquilo foi demasiado 
para Jaime. Decidiu que no podia viver debaixo do mesmo tecto
que o pai, fechou o seu tnel, levou a sua roupa e foi dormir
para o hospital.

Os acontecimentos precipitaram-se nos ltimos meses antes das
eleies. Em todas as paredes havia retratos dos candidatos,
atiraram panfletos do ar com avies e 
taparam as ruas com um lixo impresso que caa como neve do
cu, os rdios uivavam palavras de ordem e faziam-se as
apostas mais descabeladas entre os partidrios 
de cada bando. De noite os jovens saiam em grupos para tomar
de assalto os seus inimigos ideolgicos. Organizaram-se
concentraes multipartidrias para medir a 
popularidade de cada partido, e com cada uma atochava-se a
cidade e apinhavam-se as pessoas em igual nmero. Alba estava
eufrica, mas Miguel explicou-lhe que as 
eleies eram uma palhaada e fosse qual fosse o vencedor
vinha a dar no mesmo, porque se tratava da mesma seringa com
cnula diferente e que a revoluo no se 
podia fazer nas urnas eleitorais, mas com o sangue do povo. A
ideia de uma revoluo pacfica em democracia e com plena
liberdade era um contra-senso.

-- Esse pobre rapaz est louco! -- exclamou Jaime quando Alba
lho contou. -- Vamos ganhar e ter de engolir o que disse.

At esse momento, Jaime tinha conseguido evitar Miguel. No
queria conhec-lo. Secretos e inconfessveis cimes
atormentavam-no. Tinha ajudado Alba a nascer e tinha-a 
tido mil vezes sentada nos joelhos, tinha-lhe  ensinado a ler,
tinha-lhe pago o colgio e festejado todos os seus
aniversrios, sentia-se como seu pai e no podia 
evitar a inquietao que lhe causava v-la uma mulher.
Tinha-lhe notado a mudana nos ltimos anos e enganava-se com
falsos argumentos, apesar de que a sua experincia 
cuidando de outros seres lhe tinha ensinado que s o
conhecimento do amor pode dar esse esplendor a uma mulher. Da
noite para o dia tinha visto Alba amadurecer, 
abandonando as formas imprecisas da adolescncia, para se
acomodar no seu novo corpo de mulher satisfeita e aprazvel.
Esperava com absurda veemncia que a paixo 
da sobrinha fosse um sentimento passageiro porque no fundo no
queria aceitar que precisasse de outro homem alm dele. No
entanto, no pde continuar a ignorar Miguel. 
Por esses dias, Alba contou-lhe que a irm dele estava doente.

-- Quero que fales com Miguel, tio. Ele vai-te contar o que se
passa com a irm. Farias isso por mim? -- pediu Alba.

Quando Jaime conheceu Miguel, num caf do bairro, todas as
suas suspeitas no puderam impedir que uma onda de simpatia
lhe fizesse esquecer o seu antagonismo, porque 
o homem que tinha na frente mexendo nervosamente o caf no
era o extremista petulante e brigo que esperava, mas um jovem
comovido e trmulo, que enquanto explicava 
os sintomas da doena da irm, lutava contra as lgrimas que
lhe enevoavam os olhos.

-- Leva-me a v-la -- disse Jaime.

Miguel e Alba levaram-no ao bairro bomio. Em pleno centro, a
escassos metros dos edifcios modernos de ao e vidro, tinham
surgido na encosta de uma colina as ruas 
ngremes dos pintores, ceramistas, escultores. Tinham feito
ali as suas tertlias dividindo as antigas casas em minsculos
estdios. As oficinas dos artesos abriam-se 
ao cu pelos tectos de vidro e nas obscuras pocilgas
sobreviviam os artistas num paraso de grandezas e misrias.
Nas ruelas brincavam crianas satisfeitas, mulheres 
formosas de grandes tnicas carregavam os filhos s costas ou
escarranchadas nas ancas e os homens barbudos, sonolentos,
indiferentes, viam passar a vida sentados 
nas esquinas e nos umbrais das portas. Pararam em frente de
uma casa estilo francs decorada como uma torta de creme com
anjinhos nos frisos. Subiram uma escada 
estreita, construda como sada de emergncia em caso de
incndio, e que as numerosas divises do edifcio tinha
transformado no nico acesso.  medida que subiam, 
a escada dobrava-se sobre si mesma e envolvia-os um penetrante
odor a alho, marijuana e terebintina. Miguel parou no ltimo
piso, em frente de uma porta estreita 
pintada de cor de laranja, tirou uma chave e abriu-a. Jaime e
Alba julgaram entrar numa gaiola de pssaros. O quarto era
redondo, coroado por uma absurda cpula 
bizantina e rodeado de vidros, atravs dos quais se podia
passear a vista pelos telhados da cidade e sentir-se muito
perto das nuvens. Os pombos tinham feito o ninho 
no peitoril  das janelas e contribudo com os seus excrementos
e as suas penas para o jaspeado dos vidros. Sentada numa
cadeira  frente da nica mesa, havia uma 
mulher de roupo adornado com um triste drago em fiapos
bordado sobre o peito. Jaime necessitou de alguns segundos
para reconhec-la.

-- Amanda... Amanda... -- balbuciou.

No tinha voltado a v-la h mais de vinte anos, quando o amor
que ambos sentiam por Nicolau pde mais que o que tinham um
pelo outro. Nesse tempo o jovem atltico, 
moreno, com o cabelo cheio de brilhantina e sempre hmido, que
se passeava lendo em alta voz os seus tratados de medicina,
tinha-se transformado num homem ligeiramente 
curvado pelo hbito de se inclinar sobre as camas dos doentes,
com o cabelo grisalho, um rosto grave e pesado, lentes com
aros metlicos, mas basicamente era a mesma 
pessoa. No entanto, para reconhecer Amanda, era preciso t-la
amado muito. Parecia mais velha do que era, estava muito
magra, quase esqueltica, a sua pele macilenta 
e amarela, as mos muito descuidadas, com os dedos enegrecidos
de nicotina. Os seus olhos estavam inchados, sem brilho,
avermelhados, com as pupilas dilatadas, o 
que lhe dava um aspecto desamparado e aterrorizado. No viu
Jaime nem Alba, s teve olhos para Miguel. Tentou levantar-se,
tropeou e cambaleou. O irmo aproximou-se 
e segurou-a, apertando-a contra o peito.

-- Conheciam-se? -- perguntou Miguel admirado.

-- Sim, h muito tempo -- disse Jaime.

Pensou que era intil falar do passado e que Miguel e Alba
eram muito jovens para compreender a sensao de perda
irremedivel que ele sentia nesse momento. De uma 
penada tinha-se apagado a imagem da cigana que tinha guardado
todos aqueles anos no corao, nico amor na solido do seu
destino. Ajudou Miguel a estender a mulher 
no div que lhe servia de cama e ajeitou-lhe a almofada.
Amanda segurou o roupo com as mos, defendendo-se debilmente
e balbuciando incoerncias. Estava sacudida 
por tremores convulsivos e ofegava como co cansado. Alba
observou-a horrorizada e s quando Amanda ficou deitada,
quieta e de olhos fechados,  que reconheceu a 
mulher que sorria na pequena fotografia que Miguel trazia
sempre na sua carteira. Jaime falou-lhe com uma voz
desconhecida e a pouco e pouco conseguiu tranquiliz-la, 
acariciou-a com gestos ternos e paternais, como os que fazia
s vezes aos animais at que a doente se descontraiu e
permitiu que lhe subissem as mangas do velho 
roupo chins. Apareceram os braos esquelticos, e Alba viu
que tinha milhares de minsculas cicatrizes, ndoas negras,
picadelas, algumas infectadas e deitando 
pus. Destapou depois as pernas, as coxas estavam tambm
torturadas. Jaime observou-a com tristeza, compreendendo nesse
instante o abandono, os anos de misria, os 
amores frustrados e o terrvel caminho que aquela mulher tinha
percorrido at chegar  ao ponto de desespero em que se
encontrava. Recordou-a como era na sua juventude, 
quando o deslumbrava com o esvoaar do seu cabelo, o tilintar
das missangas, o seu riso de sino e a sua candura para abraar
ideias disparatadas e perseguir iluses. 
Amaldioou-se por t-la deixado ir e por todo esse tempo
perdido para ambos.

-- Temos de intern-la. S uma cura de desintoxicao poder
salv-la -- disse. -- Vai sofrer muito -- acrescentou.


Captulo XII
A Conspirao

Tal como o Candidato tinha previsto, os socialistas, aliados
com o resto dos partidos de esquerda, ganharam as eleies
presidenciais. O dia da votao decorreu 
sem incidentes numa luminosa manh de Setembro. Os de sempre,
acostumados ao poder desde tempos imemoriais, ainda que nos
ltimos anos tivessem visto as suas foras 
debilitar-se muito, prepararam-se para celebrar o triunfo com
semanas de antecipao. Nas lojas acabaram-se as bebidas, nos
mercados esgotaram-se os mariscos frescos 
e as pastelarias trabalharam em dois turnos para satisfazer a
procura de tortas e pastis. No Bairro Alto no se alarmaram
ao ouvir os resultados dos escrutnios 
parciais nas provncias, que favoreciam a esquerda, porque
toda a gente sabia que os votos da capital eram decisivos. O
senador Trueba seguiu a votao na sede do 
seu Partido, com perfeita calma e bom humor, rindo-se com
petulncia quando algum dos seus homens se punha nervoso com o
avano indissimulvel do candidato da oposio. 
Antecipando-se ao triunfo, tinha quebrado o seu luto rigoroso
pondo uma rosa vermelha na lapela do casaco. Entrevistaram-no
na televiso e todo o pais pde escut-lo: 
Ganharemos ns, os de sempre, disse com soberba, e logo
convidou a um brinde pelo defensor da democracia.
Na grande casa da esquina, Blanca, Alba e os criados estavam
em frente do televisor, bebendo ch, comendo torradas e
anotando os resultados para seguir de perto 
a corrida final, quando viram aparecer o av no cran, mais
velho e teimoso do que nunca.

-- Vai dar-lhe um fanico -- disse Alba. -- Porque desta vez
vo ganhar os outros.

Depressa se tornou evidente para todos que s um milagre
mudaria o resultado que se ia desenhando ao longo do dia. Nas
residncias senhoriais  brancas, azuis e 
amarelas do Bairro Alto, comearam a fechar as persianas, a
trancar as portas e a retirar apressadamente as bandeiras e os
retratos do seu candidato, que se tinham 
antecipado a pr nas varandas. Entretanto, das povoaes
suburbanas e dos bairros operrios saram para a rua famlias
inteiras, pais, filhos, avs, com a sua roupa 
de domingo, caminhando alegremente na direco do centro.
Levavam rdios portteis para ouvir os ltimos resultados. No
Bairro Alto, alguns estudantes, inflamados 
de idealismo, fizeram troa dos pais reunidos  volta do
televisor com expresso fnebre, e lanaram-se tambm para a
rua. Das cinturas industriais chegaram trabalhadores 
em ordenadas colunas, com os punhos no ar cantando os versos
da campanha. Juntaram-se todos no centro, gritando como um s
homem que o povo unido jamais ser vencido. 
Puxaram-se de lenos brancos e esperaram.  meia-noite
soube-se que tinha ganho a esquerda. Num abrir e fechar de
olhos, os grupos dispersos engrossaram, incharam, 
estenderam-se e as ruas encheram-se de gente eufrica que
saltava, gritava, se abraava e ria. Ataram tochas e a
desordem das vozes e o vaivm da rua transformou-se 
numa alegre e disciplinada comitiva que comeou a avanar at
s bonitas avenidas da burguesia. E ento viu-se o espectculo
indito da gente do povo, homens com 
os sapatorros da fbrica, mulheres com os filhos nos braos,
estudantes em mangas de camisa, passeando tranquilamente pela
zona reservada e preciosa onde muito poucas 
vezes se tinham aventurado e onde eram estrangeiros. O clamor
dos seus cantos, das suas passadas e o resplendor das tochas
penetraram no interior das casas fechadas 
e silenciosas, onde tremiam os que tinham acabado por
acreditar na sua prpria campanha de terror e estavam
convencidos de que a populaa os ia despedaar ou, na 
melhor das hipteses, despoj-los dos bens e mand-los para a
Sibria. Mas a multido ululante no forou nenhuma porta nem
pisou os jardins impecveis. Passou alegremente 
sem tocar nos veculos de luxo estacionados na rua, deu voltas
pelas praas e parques que nunca tinha pisado, deteve-se
maravilhada diante das vitrinas do comrcio, 
que brilhavam como no Natal e onde se ofereciam objectos que
no se sabia sequer que uso tinham, e seguiu a sua rota
aprazivelmente. Quando as colunas passaram  
frente da sua casa, Alba saiu correndo e misturou-se com elas
cantando em voz alta. Nas manses, as garrafas de champagne
ficaram fechadas, as lagostas amoleceram 
nas suas bandejas de prata e as tortas encheram-se de moscas.

Ao amanhecer, Alba viu na multido que j comeava a dispersar
a inconfundvel figura de Miguel, que ia a gritar com uma
bandeira nas mos. Abriu passagem at ele, 
chamando-o inutilmente, porque no podia ouvi-la no meio da
algazarra. Quando chegou  frente dele e Miguel a viu, passou
a  bandeira ao que estava mais perto 
e abraou-a, levantando-a do cho. Os dois estavam no limite
das suas foras e, enquanto se beijavam, choravam de alegria.

-- Disse-te que ganharamos s boas, Miguel! -- riu Alba.

-- Ganhmos, mas agora h que defender o triunfo -- replicou.

No dia seguinte, os mesmos que tinham passado a noite de vela
aterrorizados nas suas casas saram como uma avalancha
enlouquecida e tomaram de assalto os bancos, 
exigindo que lhes entregassem o seu dinheiro. Os que tinham
algo valioso, preferiam guard-lo debaixo do colcho ou
envi-lo para o estrangeiro. Em vinte e quatro 
horas, o valor da propriedade diminuiu para menos de metade e
todas as passagens areas se esgotaram na loucura de sair do
pais antes que chegassem os soviticos 
a pr arame farpado na fronteira. O povo que tinha desfilado
triunfante foi ver a burguesia que fazia bicha e lutava s
portas dos bancos e riu s gargalhadas. Em 
poucas horas o pais dividiu-se em dois grupos irreconciliveis
e a diviso comeou a estender-se a todas as famlias.

O senador Trueba passou a noite na sede do Partido, retido 
fora pelos seus seguidores, que estavam seguros que se sasse
 rua a multido no ia ter dificuldade 
nenhuma em reconhec-lo e pendur-lo-ia num poste. Trueba
estava mais surpreendido que furioso. No podia acreditar no
que tinha acontecido, apesar de ter passado 
muitos anos repetindo a cantilena de que o pais estava cheio
de marxistas. No se sentia deprimido, pelo contrrio. No seu
velho corao de lutador despertava uma 
emoo exaltada que no sentia desde a juventude.

-- Uma coisa  ganhar as eleies e outra muito distinta  ser
presidente -- disse misteriosamente aos seus chorosos
correligionrios.

A ideia de eliminar o novo Presidente, no entanto, no estava
ainda na mente de ningum, porque os seus inimigos estavam
seguros que acabariam com ele pela mesma 
via legal que lhe tinha permitido triunfar. Isso era o que
Trueba estava pensando. No dia seguinte, quando foi evidente
que no havia que temer a multido festiva, 
saiu do seu refgio e dirigiu-se a uma casa de campo nos
arredores da cidade, onde houve um almoo secreto. Ali se
juntou com outros polticos, alguns militares 
e com os gringos enviados pelo servio de inteligncia, para
traar o plano que derrubaria o novo governo: a
desestabilizao econmica, como chamaram  sabotagem.

Era um casaro de estilo colonial rodeado por um ptio de
paralelippedos. Quando o senador Trueba chegou, j havia
vrios carros estacionados. Receberam-no efusivamente, 
porque era um dos chefes indiscutveis da direita e porque
ele, prevendo o que se avizinhava, tinha feito os contactos
necessrios com meses de antecipao. Depois 
da refeio: corvina fria com molho de abacate, leito assado
em brande e musse  de chocolate, despediram  os criados e
trancaram as portas do salo. Ali traaram 
em grandes linhas a sua estratgia e depois, de p, fizeram um
brinde pela ptria. Todos eles, menos os estrangeiros, estavam
dispostos a arriscar metade da sua 
fortuna pessoal na empresa, mas s o velho Trueba estava
disposto a dar tambm a vida.

-- No o deixaremos em paz nem um minuto. Ter de renunciar --
disse com firmeza.

-- E se isso no resultar, Senador, temos isto -- acrescentou
o general Hurtado pondo a arma do regulamento sobre a toalha.

-- No nos interessa um golpe militar, general -- respondeu o
agente da embaixada no seu correcto castelhano. -- Queremos
que o marxismo fracasse estrondosamente 
e caia por si, para tirar essa ideia da cabea de outros
pases do continente. Compreende? Este assunto vamos
resolv-lo com dinheiro. Ainda podemos comprar alguns 
parlamentares para que no o confirmem como presidente. Est
na sua Constituio: no obteve a maioria absoluta e o
Parlamento deve decidir.

-- Tire essa ideia da cabea, mister! -- exclamou o senador
Trueba. -- Aqui no se vai conseguir subornar ningum! O
Congresso e as Foras Armadas so incorruptveis. 
 melhor destinar esse dinheiro para comprar todos os meios de
comunicao. Assim poderemos manejar a opinio pblica, que 
a nica coisa que na realidade conta.

-- Isso  uma loucura! A primeira coisa que os marxistas vo
fazer  acabar com a liberdade de imprensa! -- disseram vrias
vozes em unssono.

-- Acreditem-me cavalheiros -- respondeu o senador Trueba. --
Eu conheo este pas. Nunca acabaro com a liberdade de
imprensa. Alm disso, est no seu programa 
de governo, jurou respeitar as liberdades democrticas.
Apanh-lo-emos na sua prpria armadilha.

O senador Trueba tinha razo. No conseguiram subornar os
parlamentares e no prazo estipulado pela lei a esquerda
assumiu tranquilamente o poder. E ento a direita 
comeou a juntar dios.


Depois das eleies, mudou a vida de toda a gente e os que
pensaram que podiam continuar como sempre, depressa
verificaram que isso era uma iluso. Para Pedro Tercero 
Garcia a mudana foi brutal. Tinha vivido evitando as
armadilhas da rotina, livre e pobre como um trovador errante,
sem ter usado nunca sapatos de cabedal, gravata 
nem relgio, dando-se ao luxo da ternura, da pureza, da bomia
e das sestas, porque no tinha que prestar contas a ningum.
Cada vez lhe dava mais trabalho encontrar 
a inquietao e a dor necessrias para compor uma nova cano,
porque com os anos tinha chegado a ter uma grande paz interior
e a rebeldia que o mobilizava na juventude


Depois das eleies, mudou a vida de toda a gente e os que
pensaram que podiam continuar como sempre, depressa
verificaram que isso era uma iluso. Para Pedro Tercero
Garcia a mudana foi brutal. Tinha vivido evitando as
armadilhas da rotina, livre e pobre como um trovador errante,
sem ter usado nunca sapatos de cabedal, gravata
nem relgio, dando-se ao luxo da ternura, da pureza, da bomia
e das sestas, porque no tinha que prestar contas a ningum.
Cada vez lhe dava mais trabalho encontrar 
a inquietao e a dor necessrias para compor uma nova cano,
porque com os anos tinha chegado a ter uma grande paz interior
e a rebeldia que o mobilizava na juventude 
 tinha-se transformado na mansido do homem satisfeito consigo
mesmo. Era austero como um franciscano. No tinha nenhuma
ambio de dinheiro ou de poder. A nica 
mancha na sua tranquilidade era Blanca. Tinha-lhe deixado de
interessar o amor sem futuro das adolescentes e tinha
adquirido a certeza de que Blanca era a nica 
mulher para ele. Contou os anos que a tinha amado
clandestinamente e no pde recordar nem um momento da vida em
que ela no tivesse estado presente. Depois das 
eleies presidenciais viu o equilbrio da sua existncia
destroado pela urgncia de colaborar com o governo. No pde
negar-se, porque, como lhe explicaram, os 
partidos de esquerda no tinham suficientes homens capacitados
para todas as funes que havia que desempenhar.

-- Eu sou um campons. No tenho nenhuma preparao -- tentou
escusar-se.

-- No importa, companheiro. Voc, pelo menos,  popular.
Mesmo que meta a pata na poa, ns perdoamos-lhe --
responderam.

Foi assim que se viu sentado detrs duma mesa de trabalho pela
primeira vez na sua vida, com uma secretria para seu uso
pessoal e nas suas costas um grandioso retrato 
dos prceres da Ptria nalguma honrosa batalha. Pedro Tercero
Garcia olhava pela janela gradeada do seu luxuoso escritrio e
s podia ver um minsculo quadriltero 
de cu cinzento. No era um cargo honorifico. Trabalhava desde
as sete da manh at  noite e no fim estava to cansado, que
no se sentia capaz de arrancar nem 
um acorde da guitarra e muito menos de amar Blanca com a
paixo do costume. Quando se podiam encontrar, vencendo todos
os obstculos habituais de Blanca, mais os 
novos que o trabalho lhe impunha, encontravam-se entre os
lenis com mais angstia que desejo. Faziam amor fatigados,
interrompidos pelo telefone, perseguidos pelo 
tempo, que nunca lhes chegava. Blanca deixou de usar a sua
roupa interior de jovem, porque lhe parecia uma provocao
intil que os fazia cair no ridculo. Acabaram 
por se juntar para repousar abraados, como um par de avs e
para conversar amigavelmente sobre os seus problemas
quotidianos e sobre os graves assuntos que faziam 
tremer a nao. Um dia, Pedro Tercero concluiu que quase h um
ms no faziam amor e, o que lhe pareceu ainda pior, que
nenhum dos dois sentia desejo de o fazer. 
Teve um sobressalto. Calculou que na sua idade no havia razo
para a impotncia e atribuiu o facto  vida que levava e aos
hbitos de solteiro que tinha adquirido. 
Sups que se fizesse uma vida normal com Blanca, em que ela o
estivesse esperando todos os dias na paz de um lar, as coisas
passar-se-iam de outra maneira. Imps-lhe 
casarem-se de uma vez por todas, porque j estava farto
daqueles amores furtivos e j no tinha idade para viver
assim. Blanca deu-lhe a mesma resposta que Ihe tinha 
dado muitas vezes antes.

-- Tenho de pensar nisso, meu amor. 

Estava nua, sentada na cama estreita de Pedro Tercero. Ele
observou-a sem piedade e viu que o tempo comeava a devast-la
com os seus estragos, estava mais gorda, 
mais triste, tinha as mos deformadas pelo reumatismo e os
maravilhosos seios que noutro tempo lhe tiravam o sono,
estavam a tornar-se um amplo regao de matrona 
instalada em plena maturidade. No entanto, achava-a to bela
como na juventude, quando se amavam entre as canas do rio em
Las Tres Marias, e justamente por isso 
lamentava que a fadiga fosse mais forte que a paixo.

-- Pensaste nisso quase meio sculo. J basta.  agora ou
nunca -- concluiu.

Blanca no se alterou, porque no era a primeira vez que ele a
intimava a tomar uma deciso. Sempre que rompia com uma das
suas jovens amantes e voltava para o seu 
lado, exigia-lhe casamento, numa busca desesperada de reter o
amor e de se fazer perdoar. Quando consentiu em abandonar o
bairro operrio onde tinha sido feliz durante 
vrios anos, para se instalar num apartamento de classe mdia,
tinha-lhe dito o mesmo.

-- Ou te casas comigo agora ou nunca mais nos veremos.

Blanca no compreendeu que nessa ocasio a determinao de
Pedro Tercero era irrevogvel.

Separaram-se zangados. Ela vestiu-se, apanhando apressadamente
a roupa que estava espalhada no cho e enrolou o cabelo na
nuca prendendo-o com alguns ganchos que 
apanhou na desordem da cama. Pedro Tercero acendeu um cigarro
e no lhe tirou os olhos de cima enquanto ela se vestia.
Blanca acabou de calar os sapatos, pegou 
na carteira e da porta fez-lhe um gesto de despedida. Estava
certa de que no dia seguinte ele lhe telefonaria para uma das
suas espectaculares reconciliaes. Pedro 
Tercero virou-se para a parede. Um ricto amargo
transformava-lhe a boca numa linha apertada. No se tornariam
a ver durante dois anos.

Nos dias que se seguiram, Blanca esperou que ele comunicasse
com ela, de acordo com um esquema que se repetia desde sempre.
Nunca lhe tinha falhado, nem sequer quando 
ela se casou e passaram um ano separados. Tambm nessa ocasio
foi ele quem a procurou. Mas ao terceiro dia sem notcias,
comeou a alarmar-se. Dava voltas na cama, 
atormentada por uma insnia constante, duplicou a dose de
tranquilizantes, tornou a refugiar-se nas suas enxaquecas e
nevralgias, atordoando-se na oficina, metendo 
e tirando do forno centenas de monstros para prespios, num
esforo para se manter ocupada e no pensar, mas no conseguiu
sufocar a impacincia. Por fim telefonou-lhe 
para o ministrio. Uma voz feminina respondeu-lhe que o
companheiro Garcia estava numa reunio e que no podia ser
interrompido. No outro dia, Blanca voltou a telefonar 
e continuou a faz-lo durante o resto da semana, at que se
convenceu de que no conseguiria nada por esse processo. Fez
um esforo para vencer o monumental orgulho 
que herdara do  pai, ps o melhor vestido, o cinto de ligas de
renda e foi v-lo ao apartamento. A sua chave no entrou na
fechadura e teve de tocar  campainha. 
Abriu a porta um homenzarro de bigodes com olhos de colegial.

-- O companheiro Garcia no est -- disse sem convid-la a
entrar.

Ento compreendeu que o tinha perdido. Teve a fugaz viso do
seu futuro, viu-se num vasto deserto, entregando-se a
ocupaes sem sentido para consumir o tempo, sem 
o nico homem que tinha amado em toda a sua vida e longe dos
braos em que tinha dormido desde os dias memorveis da sua
primeira infncia. Sentou-se na escada e 
rompeu em pranto. O homem de bigodes fechou a porta sem rudo.

No disse a ningum o que se tinha passado. Alba perguntou por
Pedro Tercero e ela respondeu-lhe por evasivas, dizendo-lhe
que o novo cargo no governo o ocupava 
muito. Continuou dando as suas aulas para meninas ociosas e
crianas mongolides e alm disso comeou a ensinar cermica
nas povoaes suburbanas, onde as mulheres 
se tinham organizado para aprender novos ofcios e participar,
pela primeira vez, na actividade poltica e social do pais. A
organizao era uma necessidade, porque 
ao caminho para o socialismo depressa se converteu num campo
de batalha. Enquanto o povo celebrava a vitria deixando
crescer o cabelo e as barbas, tratando-se 
uns aos outros por companheiros, resgatando o folclore
esquecido e o artesanato popular e exercendo o seu novo poder
em eternas e inteis reunies de trabalhadores 
onde todos falavam ao mesmo tempo e nunca chegavam a nenhum
acordo, a direita realizava uma srie de aces estratgicas
destinadas a destruir a economia e a desprestigiar 
o governo. Tinha nas suas mos os meios de difuso mais
poderosos, contava com recursos econmicos quase ilimitados e
com a ajuda dos gringos, que destinaram fundos 
secretos para o plano de sabotagem. Em poucos meses puderam
apreciar-se os resultados. O povo encontrou-se pela primeira
vez com dinheiro suficiente para cobrir 
as suas necessidades bsicas e comprar algumas coisas que
sempre desejara, mas no o podia fazer, porque os armazns
estavam quase vazios. Tinha comeado o desabastecimento, 
que chegou a ser um pesadelo colectivo. As mulheres
levantavam-se ao amanhecer para ficarem de p nas longas
bichas onde podiam comprar um magro frango, meia dzia 
de fraldas ou papel higinico. A graxa para dar lustro aos
sapatos, as agulhas e o caf passaram a ser artigos de luxo
que se ofereciam envoltos em papel de fantasia 
pelo aniversrio. Produziu-se a angstia da escassez, o pais
estava sacudido por ondas de rumores contraditrios que
alertavam a populao sobre os produtos que 
iam faltar e as pessoas compravam o que houvesse, sem medida,
para prevenir o futuro. Estavam nas bichas sem saberem o que
se estava a vender, s para no deixarem 
passar a oportunidade de comprar qualquer coisa, mesmo que no
necessitassem. Apareceram profissionais das bichas, que por
uma soma razovel  guardavam o lugar 
dos outros, os vendedores de bugigangas que aproveitavam o
tumulto para colocar as suas bagatelas e os que alugavam
mantas para as bichas nocturnas. Alastrou o mercado 
negro. A policia tentou impedi-lo, mas era como uma peste que
se metia por todos os !ados e por muito que revistassem os
carros e detivessem os que transportavam 
volumes suspeitos no o puderam evitar. At as crianas
traficavam nos ptios das escolas. Na pressa de aambarcar
produtos, criavam-se confuses e os que nunca 
tinham fumado acabavam pagando qualquer preo por um mao de
cigarros, e os que no tinham filhos lutavam por um boio de
comida para lactantes. Desapareceram os 
acessrios dos foges, das mquinas industriais, dos
automveis. Racionaram a gasolina e as filas de automveis
podiam durar dois dias e uma noite, bloqueando a 
cidade como uma gigantesca jibia imvel tostando ao sol. No
havia tempo para tantas bichas e os escriturrios tiveram de
deslocar-se a p ou de bicicleta. As ruas 
encheram-se de ciclistas ofegantes, aquilo parecia um delrio
de holandeses. As coisas estavam neste p quando os
camionistas se declararam em greve. Na segunda 
semana foi evidente que no era um assunto laboral, mas
poltico e que no pensavam voltar ao trabalho. O exrcito
quis tomar conta do problema, porque as hortalias 
estavam a apodrecer nos campos e nos mercados no havia nada
para vender s donas de casa, mas verificou-se que os
motoristas tinham estripado os motores e era impossvel 
mover os milhares de camies que ocupavam as estradas como
carcassas fossilizadas. O Presidente apareceu na televiso
pedindo pacincia. Advertiu o pais de que os 
camionistas estavam pagos pelo imperialismo e de que iam
manter-se em greve indefinidamente, por isso o melhor era
cultivar as suas prprias verduras nos ptios 
e varandas, pelo menos at que se descobrisse outra soluo. O
povo, que estava habituado  pobreza e que s comia frango nos
feriados nacionais e no Natal, no 
perdeu a euforia do primeiro dia, pelo contrrio, organizou-se
como para uma guerra, decidido a no permitir que a sabotagem
econmica lhe amargasse o triunfo. Continuou 
a celebrar com esprito festivo, a cantar pelas ruas aquilo de
que o povo unido jamais ser vencido, embora cada vez soasse
mais desafinado, porque a diviso e o 
dio aumentavam inexoravelmente.

A vida do senador Trueba, como a de todos os outros, tambm
mudou. O entusiasmo pela luta que tinha empreendido
devolveu-lhe as foras de antigamente e aliviou um 
pouco a dor dos seus pobres ossos. Trabalhava como nos seus
melhores tempos. Fazia mltiplas viagens de conspirao ao
estrangeiro e percorria infatigavelmente as 
provncias do pas, de norte a sul, de avio, de automvel e
de comboio, onde se tinha acabado o privilgio das carruagens
de primeira classe. Resistia aos truculentos 
jantares com que o acolhiam os seus partidrios em cada
cidade, povoado ou aldeia que visitava, fingindo o apetite de
um preso, apesar das suas tripas de ancio 
j no estarem para esses sobressaltos.  Vivia em
concilibulos. A principio, o amplo exerccio da democracia
limitava-o na sua capacidade para pr armadilhas 
ao governo, mas depressa abandonou a ideia de o atacar dentro
da lei e aceitou o facto de que a nica maneira de o vencer
era empregar recursos proibidos. Foi o 
primeiro que se atreveu a dizer em pblico que para deter o
avano do marxismo s daria resultado um golpe militar, porque
o povo no renunciaria ao poder que tinha 
esperado com ansiedade durante meio sculo, s porque lhe
faltavam os frangos.

-- Deixem-se de mariquices e peguem nas armas! -- dizia quando
ouvia falar de sabotagem.

As suas ideias no eram nenhum segredo, divulgava-as a todos
os ventos e, no contente com isso, ia de vez em quando atirar
milho aos cadetes da Escola Militar e 
gritar-lhes que eram umas galinhas. Tiveram de arranjar um par
de guarda-costas que o vigiassem dos seus prprios excessos e
esquecia que ele prprio os tinha contratado 
e ao sentir-se espiado sofria acessos de mau humor,
insultava-os, ameaava-os com a bengala e terminava geralmente
sufocado pela taquicardia. Estava certo de que, 
se algum se propunha assassin-lo, esses dois imbecis gorilas
no serviriam para o evitar, mas confiava em que a sua
presena pelo menos poderia atemorizar os insolentes 
espontneos. Tentou tambm pr vigilncia  sua neta, porque
pensava que se movia num antro de comunistas onde em qualquer
momento algum poderia faltar-lhe ao respeito 
por culpa do parentesco com ele, mas Alba no quis ouvir falar
do assunto. Um rufia contratado  o mesmo que uma confisso
de culpa. Eu no tenho nada a temer, 
alegou. No se atreveu a insistir porque j estava cansado de
lutar com todos os membros da famlia e no fim de contas, a
sua neta era a nica pessoa no mundo com 
quem partilhava a sua ternura e que o fazia rir.

Entretanto, Blanca tinha organizado uma cadeia de
abastecimento atravs do mercado negro e das suas ligaes nas
povoaes operria, onde ia ensinar cermica s 
mulheres. Passava muitas angstias e trabalhos para dissimular
um pacote de acar ou uma caixa de sabo. Chegou a
desenvolver uma astcia de que no se sabia capaz, 
para armazenar num dos quartos vazios da casa toda a espcie
de coisas, algumas francamente inteis, como dois barris de
molho de soja que comprou a uns chineses. 
Tapou a janela do quarto, ps cadeado na porta e andava com as
chaves  cintura, sem as tirar nem para tomar banho, porque
desconfiava de todos, mesmo de Jaime e 
da sua prpria filha. No lhe faltavam razes. Pareces um
carcereiro, mam, dizia Alba, alarmada por essa mania de
prevenir o futuro  custa de amargar o presente. 
Alba era de opinio de que se no havia carne, comiam-se
batatas, e se no havia sapatos, usavam-se alpergatas, mas
Blanca, horrorizada com a simplicidade da filha, 
sustentava a teoria de que, acontea o que acontecer, no se
devia baixar de  nvel, com o que justificava o tempo gasto
nas suas argcias de contrabandista. Na 
realidade, nunca tinham vivido melhor desde a morte de Clara,
porque pela primeira vez havia algum na casa que se
preocupava com a organizao domstica e dispunha 
do que ia parar  panela. De Las Tres Marias chegavam
regularmente caixotes de alimentos que Blanca escondia. A
primeira vez apodreceu quase tudo e a pestilncia 
saiu dos quartos fechados, ocupou a casa e espalhou-se pelo
bairro. Jaime sugeriu  irm que desse, trocasse ou vendesse
os produtos perecveis, mas Blanca negou-se 
a compartilhar os seus tesouros. Alba compreendeu ento que a
me, que at ento parecia ser a nica pessoa equilibrada da
famlia, tambm tinha as suas prprias 
loucuras. Abriu um buraco na parede da despensa, por onde
tirava  mesma medida que Blanca armazenava. Aprendeu a
faz-lo com tanto cuidado para que no se notasse, 
roubando o acar, o arroz e a farinha com chvenas, partindo
os queijos e espalhando as frutas secas para que parecesse
obra de ratos, que Blanca demorou mais de 
quatro meses a suspeitar. Ento fez um inventrio escrito do
que tinha na arrecadao e marcava com cruzes o que tirava
para o uso da casa, convencida que assim 
descobriria o ladro. Mas Alba aproveitava o menor descuido da
sua me para fazer cruzes na lista, de modo que por fim Blanca
estava to confundida que no sabia 
se se tinha enganado ao fazer as contas, se na casa comiam
trs vezes mais do que ela calculava ou se era certo que
naquele maldito casaro ainda circulavam almas 
penadas.

O produto dos furtos de Alba ia parar s mos de Miguel, que o
repartia nos bairros dos subrbios e nas fbricas juntamente
com os seus panfletos revolucionrios 
apelando  lota armada para derrotar a oligarquia. Mas ningum
fazia caso. Estavam convencidos que se tinham chegado ao poder
por via legal e democrtica, ningum 
lho podia tirar, pelo menos at s prximas eleies
presidenciais.

-- So uns imbecis, no se do conta de que a direita se est
a armar! -- disse Miguel a Alba.

Alba acreditou nele. Tinha visto descarregar a meio da noite
grandes caixas de madeira no ptio da casa, e logo, com grande
sigilo, o carregamento foi armazenado, 
s ordens de Trueba, num dos quartos vazios. O avo, tal como a
me, ps um cadeado na porta e andava com a chave ao pescoo
na mesma bolsinha de camura onde trazia 
os dentes de Clara. Alba contou ao tio Jaime, que depois de
acordar uma trgua com o pai, tinha voltado a casa. Tenho
quase a certeza de que so armas, comentou 
para Jaime, que nessa altura estava na lua, e assim continuou
at ao dia em que o mataram. Ele no pode acreditar, mas a
sobrinha insistiu tanto, que aceitou falar 
com o pai  hora da refeio. As dvidas que tinham
dissiparam-se-lhes com a resposta do velho.

-- Na minha casa fao o que me d na real gana e trago quantas
caixas me  apetecer! No tornem a meter o nariz nos meus
assuntos! -- rugiu o senador Trueba dando 
um murro na mesa que fez danar e cortou secamente a conversa.

Nessa noite Alba foi ter com o tio Jaime ao tnel de livros e
props-lhe usar com as armas do av o mesmo sistema que ela
empregava com as vitualhas da me. Assim 
fizeram. Passaram o resto da noite abrindo um buraco na parede
do quarto contguo ao arsenal, que dissimularam por um lado
com um armrio e pelo outro com as prprias 
caixas proibidas. Por -ali puderam entrar no quarto fechado
pelo av, munidos de um martelo e de um alicate. Alba, que j
tinha experincia desse ofcio, apontou 
as caixas de baixo para as abrirem. Encontraram um arsenal que
os deixou boquiabertos, porque no calculavam que existissem
instrumentos to perfeitos para matar. 
Nos dias seguintes roubaram tudo o que puderam, deixando as
caixas vazias debaixo das outras e enchendo-as com pedras para
que no se notasse ao levant-las. Entre 
os dois sacaram pistolas de combate, pistolas metralhadoras,
espingardas e granadas de mo, que esconderam no tnel de
Jaime at que Alba pde lev-las no estojo 
do violoncelo para lugar seguro. O senador Trueba via passar a
neta arrastando a pesada caixa, sem suspeitar que no interior
forrado de pano rodavam as balas que 
tanto lhe tinham custado a passar pela fronteira e a esconder
em casa. Alba teve a ideia de entregar as armas confiscadas a
Miguel, mas o tio Jaime convenceu-a de 
que Miguel no era menos terrorista que o av e que era melhor
dispor delas de modo a que no pudessem fazer mal a ningum.
Discutiram vrias alternativas, desde 
atir-las ao rio at queim-las numa pira, e finalmente
decidiram que era mais prtico enterr-las em sacos de
plstico num lugar seguro e secreto, porque assim, 
um dia, poderiam servir para uma causa mais justa. O senador
Trueba estranhou ver o filho e a neta planeando uma excurso 
montanha, porque nem Jaime nem Alba tinham 
voltado a praticar qualquer desporto desde os tempos do
colgio ingls e nunca tinham manifestado inclinao pelas
incomodidades do andinismo. Um sbado pela manh 
partiram num jipe emprestado, equipados com uma tenda, um
cesto com provises e uma misteriosa mala que tiveram de
carregar os dois, porque pesava como um morto. 
Dentro iam os armamentos de guerra que tinham roubado ao av.
Foram entusiasmados rumo  montanha at onde puderam chegar
pelo caminho e depois avanaram a corta-mato, 
procurando um sitio tranquilo no meio da vegetao torturada
pelo vento e pelo frio. Ali puseram os seus apetrechos e
levantaram sem qualquer percia a pequena tenda, 
cavaram os buracos e enterraram os sacos, marcando cada lugar
com um monte de pedras. O resto do fim-de-semana passaram-no a
pescar trutas no rio e a ass-las num 
fogo de espinheiras, a andar pelos cerros como crianas
exploradoras e a recordar o passado. A noite aqueceram vinho
tinto com canela e acar e embrulhados  nos 
xailes brindaram pela cara que faria o av quando descobrisse
que o tinham roubado, rindo at lhes saltarem as lgrimas.

-- Se no fosses meu tio, casava-me contigo! -- gracejou Alba.

-- E Miguel?

-- Seria meu amante.

Jaime no achou graa e o resto do passeio esteve intratvel.
Nessa noite meteram-se cada um no seu saco de dormir, apagaram
o candeeiro de petrleo e ficaram em 
silncio. Alba adormeceu rapidamente, mas Jaime ficou at ao
amanhecer com os olhos abertos no escuro. Gostava de dizer que
Alba era como sua filha, mas nessa noite 
surpreendeu-se desejando no ser seu pai ou seu tio, mas ser
simplesmente Miguel. Pensou em Amanda e lamentou que j no
pudesse comov-lo, buscou na memria o rescaldo 
daquela paixo descomedida que uma vez sentiu por ela, mas no
o pde encontrar. Tinha-se tornado um solitrio. Ao principio
esteve muito perto de Amanda, porque 
se tinha encarregado do seu tratamento e via-a quase todos os
dias. A doente passou vrias semanas de agonia, at que pde
prescindir das drogas. Deixou tambm os 
cigarros e a bebida e comeou a fazer uma vida saudvel e
ordenada, ganhou algum peso, cortou o cabelo e voltou a pintar
os grandes olhos escuros e a pendurar colares 
e pulseiras tilintantes, numa pattica tentativa de recuperar
a descorada imagem que guardava de si mesma. Estava
apaixonada. Da depresso passou a um estado de 
euforia permanente e Jaime era o centro da sua mania. O enorme
esforo de vontade que fez para se libertar das suas numerosas
dependncias ofereceu-o a ele como 
prova de amor. Jaime no a estimulou, mas tambm no a
repudiou, porque pensou que a iluso do amor podia ajud-la na
recuperao, mas sabia que era tarde para eles. 
Mal pde tratou de criar a distncia, com a desculpa de ser um
solteiro perdido para o amor. Bastavam-lhe os encontros
furtivos com algumas enfermeiras complacentes 
do hospital ou as tristes visitas aos bordis, para satisfazer
as suas urgncias mais prementes, nos raros momentos livres
que lhe deixava o trabalho. Contra a sua 
vontade, viu-se envolvido numa relao com Amanda que na sua
juventude desejara com desespero, mas que j no o comovia nem
se sentia capaz de manter. S o inspirava 
um sentimento de compaixo, mas esta era uma das emoes mais
fortes que ele podia sentir. Em toda uma vida de convivncia
com a misria e a dor, no se lhe tinha 
endurecido a alma, mas, pelo contrrio, era cada vez mais
vulnervel  piedade. No dia em que Amanda lhe lanou os
braos ao pescoo e disse que o amava, abraou-a 
maquinalmente e beijou-a com uma paixo fingida, para que ela
no percebesse que no a desejava. Assim se viu apanhado numa
relao absorvente numa idade em que 
se julgava incapacitado para os amores tumultuosos. J  no
sirvo para estas coisas, pensava depois daquelas esgotantes
sesses em que Amanda, para o encantar, 
recorria a rebuscadas manifestaes amorosas que deixavam
ambos aniquilados.

A sua relao com Amanda e a insistncia de Alba, puseram-no
em contacto com Miguel. No podia evitar encontr-lo em muitas
ocasies. Fez o possvel por manter-se 
indiferente, mas Miguel terminou por cativ-lo. Tinha
amadurecido, j no era um jovem exaltado, mas no tinha
mudado nada na sua linha poltica e continuava pensando 
que sem uma revoluo violenta seria impossvel vencer a
direita. Jaime no estava de acordo, mas apreciava-o e
admirava o seu caracter corajoso. No entanto, considerava-o 
um desses homens fatais, possudos de um idealismo perigoso e
de uma pureza intransigente, que tingem de desgraa tudo o que
tocam especialmente as mulheres que 
tm a pouca sorte de os amar. Tambm no gostava da sua
posio ideolgica, porque estava convencido de que os
extremistas de esquerda como Miguel faziam mais dano 
ao Presidente que os de direita. Mas nada disso impedia que
tivesse simpatia por ele e se inclinasse perante a fora das
suas convices, a sua alegria natural, 
a sua tendncia para a ternura e a generosidade com que estava
disposto a dar a vida por ideais que Jaime partilhava, mas que
no tinha coragem de levar a cabo at 
s ltimas consequncias.

Nessa noite Jaime adormeceu preocupado e inquieto, incmodo no
saco de dormir, ouvindo muito prximo a respirao da sua
sobrinha. Quando despertou, ela tinha-se 
levantado e estava aquecendo o caf do pequeno almoo. Soprava
uma brisa fria e o Sol iluminava com reflexos dourados os
cumes das montanhas. Alba deitou os braos 
ao pescoo do seu tio e beijou-o, mas ele manteve as mos nos
bolsos e no devolveu a carcia. Estava perturbado.


Las Tres Marias foi um dos ltimos latifndios que a reforma
agrria expropriou no Sul. Os mesmos camponeses que tinham
nascido e trabalhado ao longo de geraes 
naquela terra, formaram uma cooperativa e assenhorearam-se da
propriedade, porque fazia trs anos e cinco meses que no viam
o patro e tinham esquecido o furaco 
das suas cleras. O administrador, atemorizado pelo rumo que
tomavam os acontecimentos e pelo tom exaltado das reunies dos
caseiros na escola, juntou os seus tarecos 
e ps-se ao largo sem se despedir de ningum e sem avisar o
senador Trueba, porque no queria enfrentar a sua fria e
porque pensou que j tinha cumprido ao adverti-lo 
vrias vezes. Com a sua partida, Las Tres Marias ficou algum
tempo  deriva. No havia quem desse as ordens e nem quem
estivesse disposto a cumpri-las, porque os 
camponeses saboreavam pela primeira vez nas suas vidas, o
gosto da liberdade e de serem os seus prprios amos.
Repartiram  entre si equitativamente os pastos e 
cada um cultivou o que lhe deu na gana, at que o governo
mandou um tcnico que lhes deu sementes a crdito e os ps em
dia sobre a procura do mercado, as dificuldades 
de transporte para os produtos e as vantagens dos adubos e
desinfectantes. Os camponeses fizeram pouco caso do tcnico,
porque parecia um janota da cidade e era 
evidente que nunca tinha tido um arado nas mos, mas de
qualquer modo celebraram a sua visita abrindo as sagradas
adegas do antigo patro, saqueando os seus vinhos 
velhos e sacrificando os touros reprodutores para comer os
testculos com cebola e coentro. Depois que o tcnico partiu,
comeram tambm as vacas importadas e as 
galinhas poedeiras. Esteban Trueba inteirou-se que tinha
perdido a terra quando o notificaram que iam pagar-lhe com
bonificaes do Estado, num prazo de trinta anos 
e pelo mesmo preo que ele mencionara na declarao de
impostos. Perdeu o controlo. Sacou do seu arsenal uma
metralhadora que no sabia usar e ordenou ao seu motorista 
que o levasse de carro numa tirada at Las Tres Marias sem
avisar ningum, nem sequer os seus guarda-costas. Viajou
vrias horas, cego de raiva, sem nenhum plano 
concreto na mente.

Ao chegar, tiveram de travar, porque a passagem estava fechada
por uma grossa tranca no porto. Um dos caseiros montava
guarda armado de um chuo e uma caadeira 
sem cartuchos. Trueba desceu do carro. Ao ver o patro, o
pobre homem tocou freneticamente o sino da escola, que lhe
tinham posto ao p para ele dar o alarme e a 
seguir atirou-se de borco para o cho. A rajada de balas
passou-lhe por cima da cabea e cravou-se nas rvores
prximas. Trueba no parou para ver se o tinha morto. 
Com uma agilidade inesperada na sua idade, meteu-se a caminho
da propriedade sem olhar para nenhum lado, de maneira que a
pancada na nuca apanhou-o de surpresa e 
atirou-o de bruos no p antes que conseguisse dar conta do
que se tinha passado. Despertou na sala de jantar da casa
senhorial, deitado sobre a mesa com as mos 
amarradas e uma almofada debaixo da cabea. Uma mulher
punha-lhe panos molhados na testa e  sua volta estavam quase
todos os caseiros olhando-o com curiosidade.

-- Como se sente, companheiro? -- perguntaram.

-- Filhos da puta! Eu no sou companheiro de ningum! --
gritou o velho tentando levantar-se.

Tanto se debateu e gritou, que lhe soltaram as cordas e o
ajudaram a pr-se em p mas quando quis sair, viu que as
janelas estavam tapadas por fora e a porta fechada 
 chave. Quiseram explicar-lhe que as coisas tinham mudado e
j no era o dono, mas no quis ouvir ningum. Deitava espuma
pela boca e o corao ameaava estalar-lhe, 
dizia improprios como um demente, ameaando com tais castigos
e vinganas, que os outros acabaram por rebentar a rir.
Esteban Trueba caiu numa cadeira, esgotado 
pelo tremendo esforo.  Horas depois, soube que era um refm e
que queriam film-lo para a televiso. Avisados pelo
motorista, os dois guarda-costas e alguns jovens 
exaltados do seu Partido tinham feito a viagem at Las Tres
Marias, armados com paus, boxes e correntes, para o libertar,
mas encontraram guarda dobrada no porto, 
apontados pela mesma metralhadora que o senador Trueba lhes
tinha proporcionado.

-- Ningum leva o companheiro como refm -- disseram os
camponeses, e para dar nfase correram-nos a tiro.

Apareceu um camio da televiso e os caseiros, que nunca
tinham visto nada semelhante, deixaram-nos entrar e posaram
para as cmaras com os maiores sorrisos, ao 
lado do prisioneiro. Nessa noite, todo o pais pde ver nos
crans o representante mximo da oposio amarrado, espumando
de raiva e gritando tais palavres que a 
censura teve de actuar. O Presidente tambm o viu e no achou
graa ao assunto, porque pensou que podia ser o detonador que
faria rebentar o barril de plvora em 
que o seu governo se sentava em equilbrio precrio. Mandou os
carabineiros resgatarem o Senador. Quando estes chegaram 
herdade, os camponeses, tornados valentes 
pelo apoio da imprensa, no os deixaram entrar. Exigiram uma
ordem judicial. O juiz da provncia, vendo que se podia meter
num sarilho e aparecer tambm na televiso, 
achincalhado pelos reprteres de esquerda, foi pescar
apressadamente. Os carabineiros tiveram que limitar-se a
esperar do outro lado do porto de Las Tres Marias, 
at que mandassem a ordem da capital.

Blanca e Alba souberam do caso como toda a gente, porque o
viram no noticirio. Blanca esperou at ao dia seguinte sem
fazer comentrios, mas ao ver que nem os carabineiros 
tinham podido resgatar o av, decidiu que chegara o momento de
voltar a encontrar-se com Pedro Tercero Garcia.

-- Tira essas calas sujas e pe um vestido decente -- ordenou
a Alba.

Apresentaram-se ambas no ministrio sem ter pedido entrevista.
Um secretrio quis det-las na antecmara, mas Blanca
afastou-o com um empurro e passou com passo 
firme, levando a filha a reboque. Abriu a porta sem bater e
entrou pelo gabinete de Pedro Tercero, que no via fazia dois
anos. Esteve quase a pontos de retroceder, 
julgando que se tinha equivocado. Em to curto prazo, o homem
da sua vida tinha emagrecido e envelhecido, parecia muito
cansado e triste, tinha o cabelo ainda negro 
mas mais ralo e curto, aparara a formosa barba e estava
vestido com um fato cinzento de funcionrio e uma gravata
triste da mesma cor. Blanca s o reconheceu pelo 
olhar dos seus antigos olhos.

-- Jesus! Como mudaste!... -- balbuciou.

A Pedro Tercero, no entanto, ela pareceu-lhe mais formosa do
que se recordava, como se a ausncia a tivesse rejuvenescido.
Naquele espao de rompo ele tinha tido 
tempo de se arrepender da sua deciso e de descobrir que  sem
Blanca perdera at o gosto pelas jovens que antes o
entusiasmavam. Por outro lado, sentado naquele 
escritrio, trabalhando doze horas dirias, longe da guitarra
e da inspirao do povo, tinha muito poucas oportunidades de
se sentir feliz.  medida que o tempo 
passava, tinha cada vez menos saudades do amor tranquilo e
repousado de Blanca. Mal a viu entrar com modos decididos e
acompanhada de Alba, compreendeu que no ia 
v-lo por razes sentimentais e adivinhou que a causa era o
escndalo do senador Trueba.

-- Venho pedir-te que nos acompanhes -- disse Blanca sem
prembulos. -- A tua filha e eu vamos buscar o velho a Las
Tres Marias.

Foi assim que Alba soube que Pedro Tercero Garcia era seu pai.

-- Est bem. Passemos por minha casa para buscar a guitarra --
respondeu, levantando-se.

Saram do ministrio num automvel preto como um carro
funerrio com chapas oficiais. Blanca e Alba esperaram na rua
enquanto ele subiu ao apartamento. Quando regressou, 
tinha trocado o fato cinzento pelo fato macaco e o seu poncho
de antigamente, calava alpergatas e levava uma guitarra
pendurada s costas. Blanca sorriu-lhe pela 
primeira vez e ele inclinou-se e beijou-a levemente na boca. A
viagem foi silenciosa durante os primeiros cem quilmetros,
at que Alba pde recuperar da surpresa 
e fez sair um fio de voz trmula, para perguntar por que no
lhe tinham dito j que Pedro Tercero era seu pai, assim lhe
teriam poupado tantos pesadelos de um conde 
vestido de branco, morto de febre no deserto.

--  melhor um pai morto do que um pai ausente -- respondeu
enigmaticamente Blanca, e no tornou a falar no assunto.

Chegaram a Las Tres Marias ao anoitecer e encontraram no
porto da herdade uma multido em conversa amigvel  volta de
uma fogueira onde se assava um porco. Eram 
os carabineiros, os jornalistas e os camponeses que estavam
dando baixa s ltimas garrafas da adega do Senador. Alguns
ces e vrias crianas brincavam iluminados 
pelo fogo, esperando que o leito rosado e brilhante acabasse
de assar. Os da imprensa reconheceram logo Pedro Tercero
Garcia, porque o tinham entrevistado amide, 
os carabineiros pela sua inconfundvel pinta de cantor popular
e os camponeses porque o tinham visto nascer naquela terra.
Receberam-no com afecto.

-- Que o traz aqui, companheiro? -- perguntaram-lhe os
camponeses.

-- Venho ver o velho -- sorriu Pedro Tercero.

-- Voc pode entrar companheiro, mas sozinho. A Dona Blanca e
a menina Alba vo aceitar um copinho de vinho -- disseram.

As duas mulheres sentaram-se  volta da fogueira com os outros
e o aroma suave da carne chamuscada recordou-lhes que no
comiam desde a  manh. Blanca conhecia 
todos os caseiros e tinha ensinado muitos deles a ler na
pequena escola de Las Tres Marias, por isso puseram-se a
recordar tempos passados, quando os irmos Snchez 
impunham a lei na regio, quando o velho Pedro Garcia acabou
com a praga das formigas e quando o Presidente era um eterno
candidato, que parava na estao a discursar-lhes 
dentro do comboio das suas derrotas.

-- Quem pensaria que alguma vez ia ser Presidente! -- disse
um.

-- E que um dia o patro ia mandar menos que ns em Las Tres
Marias -- riram-se os outros.

Conduziram Pedro Tercero Garcia a casa, directamente 
cozinha. Estavam l os caseiros mais velhos tomando conta da
porta da sala de jantar onde tinham o antigo 
patro prisioneiro. No tinham visto Pedro Tercero durante
anos, mas todos o recordavam. Sentaram-se  mesa a beber vinho
e a recordar o passado remoto, os tempos 
em que Pedro Tercero no era uma lenda na memria das gentes
do campo, mas apenas um rapaz rebelde apaixonado pela filha do
patro. Depois, Pedro Tercero pegou na 
guitarra, ajeitou-a na perna, fechou os olhos e comeou a
cantar com a sua voz de veludo a histria das galinhas e do
raposo, acompanhado em coro por todos os velhos.

-- Vou levar o patro, companheiros -- disse suavemente Pedro
Tercero numa pausa.

-- Nem sonhos, filho -- responderam.

-- Amanh viro os carabineiros com uma ordem judicial e vo
lev-lo como um heri.  melhor que eu o leve com o rabo entre
as pernas -- disse Pedro Tercero.

Discutiram o assunto durante um bom bocado e por fim
levaram-no  sala de jantar e deixaram-no s com o refm. Era
a primeira vez que estavam frente a frente desde 
o dia fatdico em que Trueba lhe cobrou a virgindade da filha
com uma machadada. Pedro Tercero lembrava-se dele como um
gigante furibundo, armado com um chicote 
de couro e uma bengala de prata, que fazia tremer  sua
passagem os caseiros e que alterava a natureza com o vozeiro
de trovo e a prepotncia de grande senhor. 
Surpreendeu-se ao ver que o seu rancor amassado durante tanto
tempo se esvaia na presena daquele ancio curvado e mirrado
que o olhava com susto. O senador Trueba 
esgotara a raiva e a noite que tinha passado sentado numa
cadeira de mos amarradas tinha-lhe provocado dores em todos
os ossos e nas costas um cansao de mil anos. 
A princpio teve dificuldade em reconhec-lo, porque no o
tinha voltado a ver desde h um quarto de sculo, mas ao notar
que lhe faltavam trs dedos na mo direita, 
compreendeu que isso era o culminar do pesadelo em que se
encontrava submergido. Observaram-se em silncio por longos
segundos,  pensando os dois que o outro encarnava 
o que de mais odioso havia no mundo, mas sem encontrar o fogo
do antigo dio nos coraes.

-- Venho tir-lo daqui -- disse Pedro Tercero.

-- Porqu? -- perguntou o velho.

-- Porque Alba mo pediu -- respondeu Pedro Tercero.

-- V para o caralho! -- balbuciou sem convico.

-- Bom, l vamos. Voc vem comigo.

Pedro Tercero comeou a desatar-lhe as cordas, que lhe haviam
voltado a pr nos pulsos para evitar que desse murros na
porta. Trueba desviou os olhos para no ver 
a mo mutilada do outro.

-- Tire -me daqui sem que me vejam. No quero que os
jornalistas saibam -- disse o senador Trueba.

-- Vou tir-lo daqui exactamente por onde entrou, pela porta
principal -- disse Pedro Tercero e comeou a andar.

Trueba seguiu-o com a cabea baixa, tinha os olhos
avermelhados e pela primeira vez, tanto quanto podia recordar,
sentia-se derrotado. Passaram pela cozinha sem 
que o velho levantasse a vista, atravessaram toda a casa e
percorreram o caminho desde a casa senhorial at ao porto da
entrada, acompanhados por um grupo de crianas 
travessas que brincava  sua volta e um squito de camponeses
silenciosos que caminhava atrs. Blanca e Alba estavam
sentadas entre os jornalistas e os carabineiros, 
a comer porco assado com os dedos e a beber grandes goles de
vinho tinto pelo gargalo da garrafa que circulava de mo em
mo. Ao ver o av, Alba comoveu-se, porque 
nunca o tinha visto to abatido desde a morte de Clara.
Engoliu o que tinha na boca e correu ao seu encontro.
Abraaram-se estreitamente e ela sussurrou-lhe qualquer 
coisa ao ouvido. Ento, o senador Trueba conseguiu dominar a
dignidade, levantou a cabea e sorriu com a antiga soberba s
luzes das mquinas fotogrficas. Os jornalistas 
fotografaram-no a subir para um automvel preto com matricula
oficial e a opinio pblica perguntou durante semanas que
significava aquela palhaada, at que outros 
acontecimentos muito mais graves apagaram a recordao do
incidente.

Nessa noite, o Presidente, que apanhara o hbito de enganar a
insnia jogando xadrez com Jaime, comentou o assunto entre
duas partidas, enquanto espiava com os olhos 
astutos, ocultos detrs dos culos grossos com aros escuros,
algum sinal de atrapalhao do amigo, mas Jaime continuou a
colocar as peas no tabuleiro sem dizer 
palavra.

-- O velho Trueba tem os colhes no stio -- disse o
Presidente. -- Merecia estar do nosso lado.

Nos meses que se seguiram, a situao piorou muito, aquilo
parecia um pas em guerra. Os nimos estavam muito exaltados,
especialmente entre as mulheres da oposio, 
que desfilavam pelas ruas batendo em tachos como protesto 
contra a falta de abastecimento. Metade da populao procurava
deitar abaixo o governo e outra metade 
defendia-o, sem que ningum tivesse tempo para trabalhar. Uma
noite, Alba admirou-se ao ver as ruas do centro escuras e
vazias. No tinham recolhido o lixo em toda 
a semana e os ces vadios esgravatavam entre os montes de
porcaria. Os postes estavam cobertos de propaganda impressa,
que a chuva de Inverno tinha desbotado, e 
em todos os espaos disponveis estavam escritas as palavras
de ordem de ambos os lados. Metade dos candeeiros tinha sido
apedrejada e nos edifcios no havia janelas 
iluminadas, a luz vinha de tristes fogueiras alimentadas com
jornais e tbuas, onde se aqueciam pequenos grupos que
montavam guarda em frente dos ministrios, dos 
bancos, dos escritrios, fazendo turnos para impedir que os
grupelhos da extrema direita os tomassem de assalto durante a
noite. Alba viu parar uma camioneta em 
frente de um edifcio pblico. Desceram vrios jovens com
capacetes brancos, baldes de tinta e brochas que cobriram as
paredes com uma base de cor clara. Depois 
desenharam grandes pombas de muitas cores, borboletas e flores
de sangue, versos do Poeta e apelos  unidade popular. Eram as
brigadas juvenis que acreditavam salvar 
a revoluo com murais patriticos e pombas panfletrias. Alba
aproximou-se e apontou-lhes o mural que havia do outro lado da
rua. Estava manchado com tinta vermelha 
e tinha s uma palavra escrita com letras enormes: Djacarta.

-- Que significa aquele nome, companheiros? -- perguntou.

-- No sabemos -- responderam.

Ningum sabia por que razo a oposio pintava aquela palavra
asitica nas paredes, nunca tinham ouvido falar nos montes de
mortos nas ruas dessa cidade distante. 
Alba montou na bicicleta e pedalou rumo a casa. Desde que
havia racionamento de gasolina e greve de transportes
pblicos, tinha desenterrado da cave o velho brinquedo 
da infncia para se deslocar. Ia a pensar em Miguel e um negro
pressentimento apertava-lhe a garganta.

H bastante tempo que no ia s aulas e comeava a sobrar-lhe
tempo. Os professores tinham declarado uma paragem indefinida
e os estudantes tomaram os edifcios 
das faculdades. Aborrecida de estudar violoncelo em casa,
aproveitava os momentos em que no estava a ss com Miguel,
passeando com Miguel ou discutindo com Miguel, 
para ir ao hospital do Bairro da Misericrdia ajudar o tio
Jaime e uns poucos mdicos mais, que continuavam exercendo,
apesar da ordem do Colgio Mdico de no trabalhar 
para sabotar o governo. Era uma tarefa herclea. Os corredores
atulhavam-se de doentes que esperavam durante dias para serem
atendidos, como um rebanho gemebundo. 
Os enfermeiros no resolviam coisa alguma. Jaime adormecia com
o bisturi na mo, to ocupado que muitas vezes se esquecia de
comer. Emagreceu e andava muito extenuado. 
Fazia turnos de dezoito horas e quando se deitava no catre no
conseguia pegar no sono, pensando nos enfermos que estavam  
espera das anestesias que no havia, 
nem seringas, nem algodo, e que mesmo que ele se
multiplicasse por mil, ainda no era suficiente, porque aquilo
era como tentar deter um comboio com a mo. Amanda 
tambm trabalhava no hospital como voluntria, para estar
perto de Jaime e manter-se ocupada. Nessas jornadas
esgotantes, a cuidar de doentes desconhecidos, recuperou 
a luz que a iluminava por dentro na sua juventude e por algum
tempo, teve a iluso de ser feliz. Usava um avental azul e
sapatilhas de borracha, mas Jaime julgava 
ouvir as missangas de outros tempos a tilintar sempre que ela
andava perto. Sentia-se acompanhado e teria desejado am-la. O
Presidente aparecia na televiso quase 
todas as noites para denunciar a guerra sem quartel da
oposio. Estava muito cansado e a voz falhava-lhe
constantemente. Fizeram constar que estava bbado e que 
passava a noite em orgias de mulatas trazidas do trpico por
via area para lhe aquecer os ossos. Avisou que os camionistas
em greve recebiam cinquenta dlares por 
dia do estrangeiro para manterem o pais parado. Responderam
que lhe enviavam granadas e armas soviticas nas malas
diplomticas. Disse que os seus inimigos conspiravam 
com os militares para fazer um golpe de estado, porque
preferiam ver a democracia morta, em vez de governada por ele.
Acusaram-no de inventar patranhas de paranico 
e de roubar as obras do Museu Nacional para as pr no quarto
da amante. Preveniu que a direita estava armada e decidida a
vender a ptria ao imperialismo e respondiam-lhe 
que tinha a despensa cheia de peitos de aves enquanto o povo
fazia bichas para o pescoo e as asas dos mesmos pssaros.

No dia em que Lusa Mora tocou a campainha da grande casa da
esquina, o senador Trueba estava na biblioteca a fazer contas.
Ela era a ltima das irms Mora que ainda 
restava neste mundo, reduzida ao tamanho de um anjo errante e
totalmente lcido, em plena posse da sua inquebrantvel
energia espiritual. Trueba no a via desde 
a morte de Clara, mas reconheceu-a pela voz, que continuava a
soar como uma flauta encantada e pelo perfume das violetas
silvestres que o tempo tinha suavizado, 
mas ainda perceptvel  distncia. Ao entrar na sala trouxe
consigo a presena alada de Clara, que ficou a flutuar no ar
perante os olhos enamorados do marido, que 
no a via desde h vrios dias.

-- Venho anunciar-lhe desgraas, Esteban -- disse Lusa Mora
depois de se ajeitar na poltrona.

-- Ai, querida Lusa! Disso j tive bastante... -- suspirou
ele.

Lusa contou o que tinha descoberto nos planetas. Teve que
explicar o mtodo cientfico que tinha usado, para vencer a
pragmtica resistncia do Senador. Disse que 
tinha passado os ltimos dez meses estudando a carta astral de
cada pessoa importante do governo e da oposio, incluindo o
prprio Trueba. A comparao das cartas 
dizia que nesse preciso momento histrico ocorreriam
inevitveis actos de sangue, dor e morte. 

-- No tenho a menor dvida, Esteban -- concluiu. --
Aproximam-se tempos terrveis. Haver tantos mortos que no se
podero contar. Voc far parte do grupo dos 
vencedores, mas o triunfo no lhe vai trazer mais que
sofrimento e solido.

Esteban Trueba sentiu-se incomodado em frente daquela pitonisa
inslita que transtornava a paz da sua biblioteca e lhe
alvoroava o fgado com desvarios astrolgicos, 
mas no teve coragem para a mandar embora, por causa de Clara,
que estava observando pelo rabo do olho l do seu canto.

-- Mas no vim aborrec-lo com noticias que escapam ao seu
controlo, Esteban. Vim falar com a sua neta Alba, porque tenho
uma mensagem da av para ela.

O senador Trueba chamou Alba. A jovem no via Lusa Mora desde
os sete anos, mas recordava-se perfeitamente dela. Abraou-a
com delicadeza, para no lhe desconjuntar 
o frgil esqueleto de marfim e aspirou com prazer uma baforada
daquele perfume inconfundvel.

-- Vim dizer-te que tenhas cuidado contigo -- disse Lusa Mora
depois de ter enxugado as lgrimas de emoo. -- A morte anda
a pisar-te os calcanhares. A tua av 
Clara protege-te do Mais-Alm, mas mandou-me dizer-te que os
espritos protectores so ineficazes nos cataclismos maiores.
Seria bom que fizesses uma viagem, que 
fosses at ao outro lado do mar, onde ficars a salvo.

Nessa altura da conversa, o senador Trueba tinha perdido a
pacincia e teve a certeza de se encontrar em frente duma
anci demente. Dez meses e onze dias mais tarde, 
recordaria a profecia de Lusa Mora, quando levaram Alba de
noite, durante o toque de recolher.


Captulo XIII

O Terror

O dia do golpe militar amanheceu com um sol radioso, pouco
usual na tmida Primavera que despontava. Jaime tinha
trabalhado quase toda a noite e s sete da manh 
s tinha no corpo duas horas de sono. Despertou-o a campainha
do telefone e uma secretria, com a voz ligeiramente alterada,
acabou por lhe espantar a modorra. Telefonavam-lhe 
do Palcio para o informar que devia apresentar-se no gabinete
do companheiro Presidente o mais depressa possvel, no, o
companheiro Presidente no estava doente, 
no, no sabia o que se estava a passar, ela tinha ordem de
chamar todos os mdicos da Presidncia. Jaime vestiu-se como
um sonmbulo e entrou no automvel, agradecendo 
que, pela sua profisso, tivesse direito a uma quota semanal
de gasolina, porque se no fosse assim, teria que ir at ao
centro de bicicleta. Chegou ao Palcio s 
oito e estranhou ver a praa vazia e um forte destacamento de
soldados nos portes da sede do governo, todos equipados com
farda de combate, capacetes e armamentos 
de guerra. Jaime estacionou o automvel na praa solitria,
sem reparar nos gestos que lhe faziam os soldados para no
parar ali. Desceu e imediatamente o rodearam 
apontando-lhe as armas.

-- Que se passa, companheiros? Estamos em guerra com os
chineses? -- sorriu Jaime.

-- Siga, no pode parar aqui! O trfego est interrompido! --
ordenou um oficial.

-- Sinto muito mas chamaram-me da Presidncia -- alegou Jaime
mostrando a identificao. -- Sou mdico.

Acompanharam-no at s pesadas portas de madeira do Palcio,
onde um grupo de carabineiros montava guarda. Deixaram-no
entrar. No interior do edifcio reinava uma 
agitao de naufrgio, os funcionrios corriam pelas  escadas
como ratos assustados e a guarda privada do Presidente estava
a empurrar os mveis contra as janelas 
e a distribuir pistolas pelos mais prximos. O Presidente veio
ao seu encontro. Tinha posto um capacete de combate que
parecia incongruente com a sua fina roupa 
desportiva e os sapatos italianos. Jaime compreendeu ento que
algo de grave estava a passar-se.

-- A Marinha sublevou-se, doutor -- explicou laconicamente. --
Chegou o momento de lutar.

Jaime pegou no telefone e chamou Alba para lhe dizer que no
sasse de casa e pedir-lhe que avisasse Amanda. Nunca mais
voltou a falar com ela, porque os acontecimentos 
desencadearam-se vertiginosamente. Durante a hora. que se
seguiu chegaram alguns ministros e dirigentes polticos do
governo e comearam as negociaes telefnicas 
com os insurrectos para medir a grandeza da sublevao e
procurar uma soluo pacfica. Mas, s nove e meia da manh,
as unidades armadas do pais estavam sob o comando 
de militares golpistas. Nos quartis, tinha comeado a purga
dos que permaneciam leais  Constituio. O general dos
carabineiros ordenou  guarda do Palcio que 
sasse, porque a policia acabava de aderir ao golpe.

-- Podem ir, companheiros, mas deixem as armas -- disse o
Presidente.

Os carabineiros estavam confusos e envergonhados, mas a ordem
do general era categrica. Nenhum se atreveu a desafiar o
olhar do Chefe de Estado, depositaram as 
armas no ptio e saram em fila, com a cabea baixa. Na porta,
um voltou-se.

-- Eu fico com o senhor, companheiro Presidente -- disse.

A meio da manh, tornou-se evidente que a situao no se
resolveria com o dilogo e comeou a retirar-se quase toda a
gente. S ficaram os amigos mais prximos 
e a guarda privativa. As filhas do Presidente foram obrigadas
pelo pai a sair. Tiveram de lev-las  fora e podiam ouvir-se
os seus gritos a cham-lo da rua. No 
interior do edifcio ficaram  roda de trinta pessoas
entrincheiradas nos sales do segundo andar, entre os quais
estava Jaime. Parecia-lhe estar no meio de um pesadelo. 
Sentou-se numa poltrona de veludo vermelho, com uma pistola na
mo, olhando-a apalermado. No sabia us-la. Pareceu-lhe que o
tempo corria muito lentamente, no seu 
relgio s tinham passado trs horas desse mau sonho. Ouviu a
voz do Presidente que falava pela rdio ao pas. Era a sua
despedida.

Dirijo-me queles que sero perseguidos, para Ihes dizer que
no vou renunciar: pagarei com a minha vida a lealdade do
povo. Estarei sempre junto de vs. Tenho 
f na ptria e no seu destino. Outros homens vo ultrapassar
este momento e muito mais cedo do que se pensa vo abrir-se as
grandes alamedas por onde vai passar 
o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o
povo! Vivam os trabalhadores! Estas so as minhas ltimas
palavras. Tenho a certeza de que o meu sacrifcio 
no ser em vo. 

O cu comeou a toldar-se. Ouviam-se alguns disparos isolados
e distantes. Nesse momento o Presidente estava a falar por
telefone com o chefe dos sublevados, que 
lhe ofereceu um avio militar para sair do pais com toda a
famlia. Mas ele no estava disposto a exilar-se em qualquer
lugar longnquo onde pudesse passar o resto 
da vida vegetando com outros mandatrios destitudos, que
tinham sado da ptria pela porta do cavalo.

-- Enganaram-se comigo, traidores. Aqui ps-me o povo e daqui
s sairei morto -- respondeu serenamente.


Ento, ouviram o rugido dos avies e comeou o bombardeamento.
Jaime atirou-se ao cho com os outros, sem poder acreditar no
que estava a viver, porque at ao dia 
anterior estava convencido de que no seu pais nunca se passava
nada e at os militares respeitavam a lei. S o Presidente se
manteve de p, aproximou-se de uma janela 
com uma bazuca nos braos e disparou contra os tanques na rua.
Jaime arrastou-se at ele e agarrou-o pelas pernas para o
obrigar a agachar-se, mas o outro disse 
um palavro e manteve-se de p. Quinze minutos depois ardia
todo o edifcio e dentro no se podia respirar por causa das
bombas e do fumo. Jaime andava de gatas 
por entre os mveis partidos e pedaos de tecto que calam 
sua volta como uma chuva mortfera, procurando auxiliar os
feridos, mas s podia dar consolo e fechar 
os olhos aos mortos. Numa sbita pausa do tiroteio, o
Presidente reuniu os sobreviventes e disse-lhes que se fossem
embora, que no queria mrtires nem sacrifcios 
inteis, que todos tinham uma famlia e teriam que realizar
uma importante tarefa depois: Vou pedir uma trgua para
poderem sair, acrescentou. Mas ningum se retirou. 
Alguns tremiam, mas todos estavam na aparente posse da sua
dignidade. O bombardeamento foi breve mas deixou o Palcio em
runas. s duas da tarde, o incndio devorara 
os antigos sales que tinham servido desde os tempos
coloniais, e s ficara um punhado de homens  volta do
Presidente. Os militares entraram no edifcio e ocuparam 
tudo o que ficara do rs-do-cho. No meio do estrondo ouviram
a voz histrica de um oficial que lhes ordenava que se
rendessem e descessem em fila indiana e com 
as mos no ar. O Presidente apertou a mo a cada um. Eu
descerei no fim, disse. No voltaram a v-lo com vida.

Jaime desceu com os outros. Em cada degrau da grande escadaria
de pedra havia um soldado. Pareciam ter enlouquecido. Davam
pontaps e coronhadas aos que desciam, 
com um dio novo, recentemente inventado, que tinha florescido
neles em poucas horas. Alguns disparavam as armas por cima das
cabeas dos rendidos. Jaime levou um 
pontap no ventre que o dobrou em dois e quando pde
endireitar-se, tinha os olhos cheios de lgrimas e as calas
quentes de merda. Continuaram a bater-lhes at 
 rua e ali mandaram-nos  deitar-se de borco no cho,
pisaram-nos, insultaram-nos at que se lhes acabaram os
palavres em espanhol e comearam a fazer sinais 
a um tanque. Os prisioneiros ouviram-no aproximar-se,
estremecendo o asfalto, com o seu pisar de paquiderme
invencvel.

-- Abram caminho porque vamos passar com o tanque por cima
destes ovos! -- gritou um coronel.

Jaime olhou do cho e julgou reconhec-lo, porque lhe lembrava
um rapaz com quem brincava em Las Tres Marias quando era
jovem. O tanque passou resfolgando a dez 
centmetros da sua cabea entre as gargalhadas dos soldados e
o silvo das sereias do bombeiros. Ao longe ouvia-se o rumor
dos avies de guerra. Muito tempo depois, 
separaram os prisioneiros em dois grupos, conforme a sua
culpa, e levaram Jaime para o Ministrio da Defesa que estava
transformado em quartel. Obrigaram-no a avanar 
agachado, como se estivesse numa trincheira, levaram-no
atravs de uma grande sala, cheia de homens nus, atados em
filas de dez, com as mos amarradas atrs das 
costas, to espancados, que alguns no conseguiam ter-se em
p, e o sangue corria a jorros sobre o mrmore do cho.
Conduziram Jaime  casa da caldeira, onde havia 
pessoas em p contra a parede vigiadas por um soldado lvido
que se passeava apontando-lhes a pistola-metralhadora. Passou
ali muito tempo imvel, parado, aguentando-se 
como um sonmbulo, sem conseguir compreender o que estava a
suceder, atormentado pelos gritos que se ouviam atravs da
parede. Notou que o soldado o observava. Baixou 
a arma e aproximou-se.

-- Sente-se a descansar, doutor, mas se eu o avisar, ponha-se
de p imediatamente -- disse num murmrio, passando-lhe um
cigarro aceso. -- O senhor operou a minha 
me e salvou-lhe a vida.

Jaime no fumava, mas saboreou aquele cigarro aspirando
lentamente. Tinha o relgio partido, mas pela fome e pela
sede, calculou que j era noite. Estava to cansado 
e incmodo nas suas calas sujas, que no imaginava o que ia
acontecer-lhe. Comeava a cabecear quando o soldado se
aproximou.

-- Levante-se, doutor -- sussurrou-lhe. -- Vm busc-lo. Boa
sorte!

Um instante depois entraram dois homens, algemaram-no e
conduziram-no junto de um oficial que tinha o cargo de
interrogar os prisioneiros. Jaime tinha-o visto algumas 
vezes na companhia do Presidente.

-- Sabemos que no tem nada a ver com isto, doutor --disse. --
S queremos que aparea na televiso e diga que o Presidente
estava bbado e se suicidou. Depois deixo-o 
ir para casa.

-- Faa essa declarao voc mesmo. Comigo no contem, seus
cabres! -- respondeu Jaime.

Agarraram-lhe os braos. O primeiro golpe caiu-lhe no
estmago. Depois levantaram-no, estenderam-no sobre uma mesa e
sentiu que lhe tiravam a  roupa. Muito tempo 
depois levaram-no inconsciente do Ministrio da Defesa. Tinha
comeado a chover e a frescura da gua e do ar reanimaram-no.
Despertou quando o subiram para um autocarro 
do Exrcito e o deixaram no assento traseiro. Atravs do vidro
observou a noite e, quando o veiculo se ps em marcha, pde
ver as ruas vazias e os edifcios embandeirados. 
Compreendeu que os inimigos tinham ganho e provavelmente
pensou em Miguel. O autocarro deteve-se no ptio de um
regimento, ali o deixaram. Havia outros prisioneiros 
em to mau estado como ele. Ataram-lhe os ps e as mos com
arame farpado e atiraram-no de bruos nas cavalarias. Jaime e
os outros passaram ali dois dias sem gua 
e sem comida, apodrecendo nos seus prprios excrementos, no
seu sangue e no eu espanto, ao fim dos quais os transportaram
a todos num camio at aos arredores do 
aeroporto. Num descampado fuzilaram-nos estendidos no cho,
porque no podiam aguentar-se em p e dinamitaram logo os
corpos. O assombro da exploso e o fedor dos 
despojos ficaram no ar por muito tempo.


Na grande casa da esquina, o senador Trueba abriu uma garrafa
de champanhe francs para celebrar a queda do regime contra o
qual ele tinha lutado ferozmente, sem 
suspeitar que nesse momento estavam a queimar os testculos ao
seu filho Jaime com um cigarro importado. O velho pendurou a
bandeira na entrada da casa e no saiu 
para a rua a danar porque era coxo e porque havia toque de
recolher obrigatrio, mas a vontade no lhe faltou, como disse
satisfeito  filha e  neta. Entretanto 
Alba, pendurada no telefone, tentava obter notcias das
pessoas que a preocupavam: Miguel, Pedro Tercero, o tio Jaime,
Amanda, Sebastin Gmez e tantos outros.

-- Agora vo pag-las! -- exclamou o senador Trueba levantando
o copo.

Alba tirou-lho da mo com uma pancada e atirou-o contra a
parede, fazendo-o em pedaos. Blanca, que nunca tinha tido
coragem de fazer frente ao pai, sorriu sem disfarar.

-- No vamos celebrar a morte do Presidente nem a dos outros,
av! -- disse Alba.

Nas lindas casas do Bairro Alto abriram as garrafas que tinham
esperado durante trs anos e brindaram pela nova ordem. Os
helicpteros voaram toda a noite, zumbindo 
como moscas de outros mundos.

Muito tarde, quase ao amanhecer, tocou o telefone e Alba, que
no se tinha deitado, correu a atend-lo. Aliviada, ouviu a
voz de Miguel.

-- Chegou o momento, meu amor. No me procures nem me esperes.
Amo-te -- disse.

-- Miguel! Quero ir contigo! -- soluou Alba.

-- No fales a ningum de mim, Alba. No vejas os amigos.
Rasga as  agendas, os papis, tudo o que possa relacionar-te
comigo. Vou-te querer sempre, lembra-te 
disso, meu amor -- disse Miguel e cortou a ligao.

A ordem de recolher durou dois dias. Para Alba foram uma
eternidade. As rdios transmitiam ininterruptamente hinos
guerreiros e a televiso mostrava s paisagens 
do territrio nacional e desenhos animados. Vrias vezes por
dia apareciam nos crans os quatro generais da Junta, sentados
entre o escudo e a bandeira, para promulgar 
os seus ditos: eram os novos heris da ptria. Apesar da
ordem de disparar contra quem sasse de casa, o senador Trueba
atravessou a rua para ir celebrar a casa 
dum vizinho. A algazarra da festa no chamou a ateno das
patrulhas que circulavam na rua, porque aquele era um bairro
onde no esperavam encontrar oposio. Blanca 
disse que tinha a maior enxaqueca da sua vida e fechou-se no
quarto.  noite, Alba ouviu-a andar pela cozinha e sups que a
fome tinha sido mais forte que a dor 
de cabea. Passou dois dias s voltas pela casa em estado de
desespero, revistando os livros do tnel de Jaime e a sua
prpria secretria para destruir o que considerou 
comprometedor. Era como cometer um sacrilgio, estava certa de
que quando o tio regressasse ia ficar furioso e deixaria de
ter confiana nela. Destruiu tambm as 
agendas onde estavam os nmeros de telefone dos amigos, as
suas mais preciosas cartas de amor e at as fotografias de
Miguel. As criadas da casa, indiferentes e 
aborrecidas, entretiveram-se durante o toque de recolher
fazendo empanadas, excepto a cozinheira, que chorava sem parar
e esperava com ansiedade o momento de ir 
ver o marido, com quem no tinha podido comunicar.

Quando se levantou por algumas horas a proibio de sair, para
dar  populao a oportunidade de comprar viveres, Blanca
comprovou admirada que as lojas estavam 
abarrotadas com os produtos que durante trs anos tinham
escasseado e que pareciam ter surgido como obra de magia nas
montras. Viu montes de frangos preparados e 
pde comprar o que quis, apesar de custar tudo o triplo porque
tinha sido decretada liberdade de preo. Notou que muitas
pessoas observavam os frangos com curiosidade, 
como se nunca os tivessem visto, mas poucas os compraram,
porque no os podiam pagar. Trs dias depois, o cheiro a carne
putrefacta empestava as lojas da cidade.

Os soldados patrulhavam as ruas nervosamente, vitoriados por
muita gente que tinha desejado a derrocada do governo. Alguns,
tornados uns valentaos pela violncia 
daqueles dias, detinham os homens com cabelo comprido ou
barba, sinais inequvocos do seu espirito rebelde, e mandavam
parar na rua as mulheres com calas para as 
cortarem  tesourada, porque se sentiam responsveis por impor
a ordem, a moral e a decncia. As novas autoridades disseram
que no tinham nada a ver com essas aces, 
nunca tinham dado ordens para cortar barbas ou calas,
provavelmente tratava-se de comunistas  disfarados de
soldados para desprestigiar as Foras Armadas e torn-las 
odiosas aos olhos dos cidados, porque no estavam proibidas
as barbas nem as calas, mas certamente, preferiam que os
homens andassem barbeados e com o cabelo curto 
e as mulheres com saias.

Correu o boato de que o Presidente havia sido morto e ningum
acreditou na verso oficial de se ter suicidado.


Esperei que se normalizasse um pouco a situao. Trs dias
depois do Pronunciamento Militar, dirigi-me no automvel do
Congresso ao Ministrio da Defesa, estranhando 
que no me tivessem ido buscar para me convidar a participar
no novo governo. Toda a gente sabe que fui eu o principal
inimigo dos marxistas, o primeiro que se ops 
 ditadura comunista e se atreveu a dizer em pblico que s os
militares podiam impedir que o pais casse nas garras da
esquerda. Alm disso, fui eu quem fez quase 
todos os contactos com o alto comando militar, quem serviu de
ligao com os gringos e pus o meu nome e o meu dinheiro 
disposio para comprar armas. No fim de 
contas, expus-me mais que ningum. Na minha idade o poder
poltico no me interessa para nada. Mas sou dos poucos que
podiam assessor-los, porque passei muito tempo 
ocupando cargos e sei melhor que ningum o que convm a este
pais. Sem assessores leais, honestos e capacitados, que pode
fazer meia dzia de coronis improvisados? 
S asneiras. Ou deixar-se enganar pelos espertos que se
aproveitam das circunstancias para se tornarem ricos, como de
facto est a suceder. Nesse momento, ningum 
sabia que as coisas iam ocorrer como ocorreram. Pensvamos que
a interveno militar era um passo necessrio para voltar a
uma democracia s, por isso me parecia 
to importante colaborar com as autoridades.

Quando cheguei ao Ministrio da Defesa fiquei surpreendido ao
ver o edifcio transformado em esterqueira. As ordenanas
lavavam os pisos com esfreges, vi algumas 
paredes picadas pelas balas e por todos os lados corriam
militares, agachados como se estivessem de verdade no meio de
um campo de batalha ou esperassem que cassem 
inimigos do tecto. Tive que aguardar quase trs horas para ser
atendido por um oficial. Ao principio julguei que naquele caos
no me tinham reconhecido e por isso 
me tratavam com to pouca deferncia, mas vi logo como eram as
coisas. O oficial recebeu-me com as botas sobre a secretria,
mastigando uma sanduche gordurosa, 
mal barbeado, com o dlman desabotoado. No me deu tempo de
lhe perguntar pelo meu filho Jaime nem de o felicitar pela
valente aco dos soldados que tinham salvo 
a ptria, mas pediu-me as chaves do automvel com o argumento
de que o Congresso tinha fechado, e por isso, tambm tinham
acabado as regalias dos congressistas. 
Sobressaltei-me. Era evidente, ento, que no  tinham nenhuma
inteno de voltar a abrir as portas do Congresso, como todos
espervamos. Pediu-me, no, ordenou-me, 
que me apresentasse no dia seguinte na catedral, s onze da
manh, para assistir ao Te Deum com que a ptria agradecia a
Deus a vitria sobre o comunismo.

--  verdade que o Presidente se suicidou? -- perguntei.

-- Foi-se embora -- respondeu-me.

-- Foi-se embora? Para onde?

-- Foi-se em sangue -- riu-se o outro.

Sa para a rua desconcertado, apoiado no brao do meu
motorista. No tnhamos maneira de regressar a casa, porque
no circulavam txis nem autocarros e no estou 
em idade para caminhar. Felizmente que passou um jipe de
carabineiros e me reconheceram.  fcil distinguir-me como
disse a minha neta Alba, porque tenho uma pinta 
inconfundvel de velho corvo raivoso e ando sempre vestido de
luto, com a minha bengala de prata.

-- Suba, Senador -- disse um tenente.

Ajudaram-nos a subir para o carro. Os carabineiros
mostravam-se cansados, pareceu-me evidente que no tinham
dormido. Confirmaram-me que estavam a patrulhar a cidade 
h trs dias, mantendo-se acordados com caf e comprimidos.

-- Encontraram alguma resistncia nas povoaes ou nas
cinturas industriais -- perguntei.

-- Muito pouca. O povo est tranquilo -- disse o tenente. --
Espero que a situao se normalize depressa, Senador. No
gostamos disto,  um trabalho sujo.

-- No diga isso, homem. Se vocs no se adiantassem, os
comunistas teriam dado o golpe e a estas horas voc, eu e
outras cinquenta mil pessoas estaramos mortos. 
No sabia que eles tinham um plano para implantar a ditadura?

-- Foi isso que nos disseram. Mas na povoao onde eu vivo h
muitos presos. Os vizinhos olham-me com receio. Aqui, acontece
o mesmo com os rapazes. Mas temos que 
cumprir ordens. A ptria est em primeiro lugar, no 
verdade?

-- Ora a est! Eu tambm lamento o que se est a passar,
tenente. Mas no havia outra soluo. O regime est podre. Que
teria sido deste pais, se vocs no pegassem 
nas armas?

No entanto, no fundo, no estava seguro. Tinha o
pressentimento de que as coisas no estavam a sair como as
tnhamos planeado e que a situao nos estava a escapar 
das mos, mas naquele momento acalmei as minhas inquietaes
pensando que trs dias so muito pouco para endireitar um pais
e que provavelmente o grosseiro oficial 
que nos atendeu no Ministrio da Defesa representava uma
minoria insignificante dentro das Foras Armadas. A  maioria
era como aquele tenente escrupuloso que me 
levou a casa. Supus que em pouco tempo a ordem se
estabeleceria e quando se aliviasse a tenso dos primeiros
dias, me poria em contacto com algum melhor colocado 
na hierarquia militar. Lamentei no me ter dirigido ao general
Hurtado, no o tinha feito por respeito e tambm, reconheo,
por orgulho, porque o correcto  que 
ele me procurasse e no eu a ele.

No soube da morte do meu filho Jaime seno duas semanas
depois quando nos tinha passado a euforia do triunfo, quando
toda a gente andava a contar os mortos e os 
desaparecidos. Um domingo, apresentou-se l em casa um soldado
que em segredo contou a Blanca o que tinha visto no Ministrio
da Defesa e o que sabia dos corpos 
dinamitados.

-- O doutor del Valle salvou a vida  minha me -- disse o
soldado olhando o cho, com o capacete de guerra na mo. --
Por isso venho dizer-vos como o mataram.

Blanca chamou-me para eu ouvir o que dizia o soldado, mas eu
neguei-me a acreditar. Disse ao homem que estava a fazer
confuso, que no era Jaime, mas outra pessoa 
que ele tinha visto na sala das caldeiras, porque Jaime no
tinha nada que fazer no Palcio Presidencial no dia da
rebelio militar. Tinha a certeza de que o meu 
filho tinha escapado para o estrangeiro por alguma passagem da
fronteira ou se tinha asilado nalguma embaixada, na hiptese
de o estarem a perseguir. Por outro lado, 
o seu nome no aparecia em nenhuma das listas das pessoas
procuradas pelas autoridades, por isso deduziu que Jaime no
tinha nada que temer.

Teria que passar muito tempo, vrias meses, na realidade, para
eu compreender que o soldado tinha dito a verdade. Nos
desvarios da solido eu aguardava o meu filho 
sentado na poltrona da biblioteca, com os olhos fixos no
umbral da porta, chamando-o com o pensamento, tal como chamava
Clara. Tanto o chamei, que finalmente cheguei 
a v-lo, mas apareceu-me coberto de sangue seco e andrajoso,
arrastando rolos de arame farpado sobre o soalho encerado.
Soube assim que tinha morrido como nos tinha 
contado o soldado. S ento comecei a falar da tirania. A
minha neta Alba, por seu lado, viu desenhar-se o ditador muito
antes de mim. Viu-o destacar-se entre os 
generais e gente da guerra. Reconheceu-o logo porque ela
herdou a intuio de Clara. Era um homem rude e de aparncia
simples, de poucas palavras, como um campons. 
Parecia modesto e poucos puderam adivinhar que algum dia o
veramos envolto numa capa de imperador, com os braos no ar,
para acalmar as multides carregadas em 
camies para o vitoriar, com os augustos bigodes tremendo de
vaidade, inaugurando o monumento s Quatro Espadas, em cujo
cimo um facho eterno iluminaria os destinos 
da ptria, mas, onde por  um erro de tcnicos estrangeiros
nunca se levantou chama nenhuma, mas apenas uma fumarada
espessa de cozinha que ficou a pairar no cu 
como uma constante tempestade de outros climas.

Comecei a pensar que tinha procedido erradamente e que talvez
no fosse essa a melhor soluo para fazer cair o marxismo.
Sentia-me cada vez mais s, porque j ningum 
necessitava de mim, no tinha os meus filhos nem Clara, com a
sua mania da mudez e distraco, parecia um fantasma. At Alba
se afastava cada vez mais, dia a dia. 
Via-a apenas em casa. Passava ao meu lado como uma rajada, com
as horrorosas saias compridas de algodo enrugado e o incrvel
cabelo verde, como o de Rosa, ocupada 
em tarefas misteriosas que levava a cabo com a cumplicidade da
av. Estou certo que nas minhas costas ambas tramavam coisas
secretas. A minha neta andava irritada, 
como Clara nos tempos do tifo, quando ps s costas o fardo da
dor alheia.


Alba teve muito pouco tempo para lamentar a morte do tio
Jaime, porque as urgncias dos necessitados a absorveram
imediatamente, de maneira que teve que guardar 
a dor para a sofrer mais tarde. S voltou a ver Miguel dois
meses depois do golpe militar e chegou a pensar que tambm
tinha morrido. No entanto, no o procurou, 
porque tinha instrues dele muito precisas nesse sentido e
alm disso soube que o citavam nas listas dos que se deviam
apresentar s autoridades. Isso deu-lhe esperana. 
Enquanto o procurarem, est com vida, deduziu.
Atormentava-se com a ideia de que o podiam apanhar vivo e
invocava a av para lhe pedir que isso no acontecesse. 
Prefiro mil vezes v-lo morto, av, suplicava. Sabia o que
se estava a passar no pais, por isso andava dia e noite com o
estmago oprimido, tremiam-lhe as mos, 
e quando se inteirava da sorte de algum prisioneiro, cobria-se
de inchaos dos ps  cabea, como um infectado pela peste.
Mas no podia falar disso a ningum, nem 
sequer ao av, porque as pessoas preferiam no o saber.

Depois daquela terrvel tera-feira, o mundo mudou de forma
brutal para Alba. Teve que habituar os sentidos para continuar
a viver. Teve que se acostumar  ideia 
de que no tornaria a ver os que mais tinha amado, o tio
Jaime, Miguel e muitos outros. Culpava o av pelo que se tinha
passado, mas logo, ao v-lo encolhido na 
sua poltrona chamando Clara e o filho num murmrio
interminvel, voltava-lhe todo o amor pelo velho e corria a
abra-lo, a passar-lhe os dedos pela cabeleira branca, 
a consol-lo. Alba sentia que as coisas eram de vidro, frgeis
como suspiros, e que a metralha e as bombas daquela
tera-feira inesquecvel, tinham destroado uma 
boa parte do que conhecia e que o resto tinha ficado
estraalhado e salpicado de sangue. Com o decorrer dos dias,
das semanas e dos meses, o que a principio parecia 
ter-se preservado da destruio, tambm comeou a mostrar
sinais de deteriorao.  Notou que os amigos e parentes a
evitavam, que alguns atravessavam a rua para 
no a cumprimentar ou viravam a cara quando se aproximava.
Pensou que corria o boato de que ajudava os perseguidos.

Assim era. Desde os primeiros dias a maior urgncia foi
esconder os que corriam perigo de morte. A princpio isso
pareceu a Alba uma ocupao quase divertida, que 
lhe permitia manter o pensamento noutras coisas e no pensar
em Miguel, mas logo verificou que no era brincadeira nenhuma.
Os ditos avisavam os cidados de que 
deviam denunciar os marxistas e entregar os fugitivos, ou
ento seriam considerados traidores  ptria e julgados como
tal. Alba recuperou milagrosamente o automvel 
de Jaime, que se salvara do bombardeamento e esteve uma semana
estacionado na mesma praa onde ele o deixara, at que soube
disso e o foi buscar. Pintou-lhe dois 
grandes girassis nas portas, de uma amarelo forte, para se
distinguir dos outros carros e facilitar assim a sua nova
tarefa. Teve que fixar a morada de todas as 
embaixadas, os turnos de carabineiros que as vigiavam, a
altura dos muros, a largura das portas. O aviso de que havia
algum para dar asilo chegava-lhe de surpresa, 
frequentemente atravs de um desconhecido que a abordava na
rua e que ela pensava ser enviado por Miguel. Ia ao lugar do
encontro em pleno dia e quando via algum 
a fazer sinais, advertido pelas flores amarelas pintadas no
automvel, parava um pouco para que subisse a toda a pressa.
Pelo caminho no falavam, porque ela preferia 
no saber nem o seu nome. s vezes tinha que passar todo o dia
com ele, inclusivamente escond-lo por uma ou duas noites,
antes de encontrar o momento adequado para 
o introduzir numa embaixada acessvel, saltando um muro nas
costas dos guardas. Esse sistema resultava mais rpido que os
tramites com embaixadores timoratos das 
democracias estrangeiras. Nunca mais voltava a saber do
exilado, mas guardava para sempre o seu agradecimento
comovido, e quando tudo terminava, respirava aliviada 
porque dessa vez tinha-se salvo. Certas ocasies teve que o
fazer com mulheres que no queriam afastar-se dos filhos, e
apesar de Alba lhos prometer fazer chegar 
a criana pela porta principal, porque nem o mais tmido
embaixador lhe recusaria isso, as mes negavam-se a deix-los
para trs, de maneira que no fim tinham tambm 
que passar as crianas por cima dos muros ou desc-los pelos
gradeamentos. Em breve todas as embaixadas estavam eriadas de
arame farpado e metralhadoras e tornou-se 
impossvel continuar a tom-las de assalto, mas manteve-se
ocupada por outras necessidades.

Foi Amanda quem a ps em contacto com os padres. As duas
amigas juntavam-se para falar em segredo de Miguel, a quem
nenhuma voltara a ver, e para recordar Jaime 
com uma nostalgia sem lgrimas, porque no havia uma prova
oficial da sua morte e o desejo que ambas tinham de o tornar a
ver era mais forte que o relato do soldado. 
Amanda tinha voltado a fumar por necessidade,  tremiam-lhe
muito as mos e tinha o olhar vago. Por vezes tinha as pupilas
dilatadas e movia-se pesadamente, mas 
continuava a trabalhar no hospital. Contou-lhe que muitas
vezes atendia gente que chegava desmaiada de fome.

-- As famlias dos presos, dos desaparecidos e dos mortos no
tm nada para comer. Os desempregados tambm no. Apenas um
prato de comida de priso de dois em dois 
dias. As crianas dormem na escola, esto subnutridas.

Acrescentou que o copo de leite e as bolachas que os alunos
recebiam antes todos os dias, tinham sido suprimidos e que as
mes calavam a fome dos filhos com gua 
chalada.

-- Os nicos que fazem alguma coisa para ajudar so os padres
-- explicou Amanda. -- As pessoas no querem saber a verdade.
A Igreja organizou refeitrios para dar 
um prato dirio de comida seis vezes por semana, aos menores
de sete anos. Claro que no  suficiente. Por cada criana que
come uma vez por dia um prato de lentilhas 
ou de batatas, h cinco que ficam de fora a olhar, porque no
chega para todos.

Alba compreendeu que tinham retrocedido aos tempos antigos,
quando a av Clara ia ao Bairro da Misericrdia substituir a
justia com a caridade. S que gora a caridade 
era mal vista. Verificou que quando percorria as casas das
pessoas amigas para pedir um pacote de arroz ou um pcaro de
leite em p, no se atreviam a dizer-lhe 
que no a primeira vez, mas depressa a evitavam. A principio,
Blanca ajudou-a. Alba no teve dificuldade em obter a chave da
despensa da me, com o argumento de 
que no havia necessidade de aambarcar farinha vulgar e
feijes de pobre, se se podia comer santola do mar Bltico e
chocolate suo, com o que pde abastecer os 
refeitrios dos padres por um tempo que, de qualquer modo, lhe
pareceu muito curto. Um dia levou a me a um dos refeitrios.
Ao ver a grande mesa de madeira, onde 
uma fila dupla de crianas com os olhos suplicantes esperava
que lhe dessem a rao, Blanca ps-se a chorar e caiu de cama
com enxaqueca por dois dias. Tinha continuado 
a lamentar-se se a filha no a obrigasse a vestir-se, a
esquecer-se de si mesma e a conseguir ajuda, mesmo que fosse a
roubar o av tirando do oramento familiar. 
O senador Trueba no quis ouvir falar do assunto, tal como
faziam as pessoas da sua classe e negou a existncia da fome
com a mesma teimosia com que negava a dos 
presos e a dos torturados, de maneira que Alba no pde contar
com ele e mais tarde, quando nem pde contar com a me, teve
que recorrer a mtodos mais drsticos. 
O mais longe que o av chegava era ao Clube. No andava pelo
centro e muito menos se aproximava da periferia da cidade ou
das povoaes dos subrbios. No lhe custou 
nada a crer que as misrias que a neta contava eram patranhas
dos marxistas.

-- Padres comunistas! -- Era a ltima coisa que me faltava
ouvir.

Mas quando comearam a chegar a toda a hora as crianas e as
mulheres  a pedir s portas das casas, no deu ordem de fechar
o porto gradeado e as persianas para 
no os ver, como faziam os outros, mas pelo contrrio aumentou
a mensalidade a Blanca e disse que tivessem sempre alguma
comida quente para lhes dar.

--  uma situao de momento -- assegurou. -- Logo que os
militares puserem ordem no caos em que o marxismo deixou o
pais, o problema est resolvido.

Os jornais disseram que os mendigos da rua, que no se viam
desde h tantos anos, eram mandados pelo comunismo
internacional para desprestigiar a Junta Militar e 
sabotar a ordem e o progresso. Puseram vedaes para tapar os
bairros de lata, ocultando-os dos olhos dos turistas e dos que
no queriam ver. Numa noite surgiram 
como por encanto jardins aparados e macios de flores nas
avenidas, plantados pelos desempregados para criar a fantasia
de uma primavera pacfica. Pintaram de branco 
as paredes, apagando os murais de pombas panfletrias e
retirando da vista para sempre os cartazes polticos. Qualquer
tentativa de escrever mensagens polticas 
na via pblica era punida com uma rajada de metralhadora no
local. As ruas limpas, ordenadas e silenciosas, abriram ao
comrcio. Em pouco tempo desapareceram as 
crianas mendigas e Alba notou que no havia ces vadios nem
caixotes de lixo. O mercado negro terminou no momento em que
bombardearam o Palcio Presidencial, porque 
os especuladores foram ameaados com a lei marcial e
fuzilamento. Nas lojas comearam a vender-se coisas que no se
conheciam nem de nome e outras que antes s conseguiam 
os ricos atravs do contrabando. A cidade nunca tinha estado
to bonita. Nunca a alta burguesia tinha sido mais feliz:
podia comprar uisque sem taxas e automveis 
a crdito.

Na euforia patritica dos primeiros dias, as mulheres
ofereciam as suas jias nos quartis, para a reconstruo
nacional, at as alianas de casamento, que eram 
substitudas por anis de cobre com o emblema da ptria.
Blanca teve de esconder a meia de l com as jias que Clara
lhe tinha dado, para que o senador Trueba no 
as entregasse s autoridades. Viu-se nascer uma nova e soberba
classe social. Senhoras muito importantes, vestidas com roupas
de outros lugares, exticas e brilhantes 
como lanternas nocturnas, pavoneavam-se nos centros de
diverso de brao dado com os novos e soberbos economistas.
Surgiu uma casta de militares que ocupou rapidamente 
os postos chave. As famlias, que antes tinham considerado uma
desgraa ter um militar entre os seus membros, moviam
influncias para meter os filhos na Academia 
Militar e ofereciam as filhas aos soldados. O pais encheu-se
de fardas, de mquinas blicas, de bandeiras, hinos e
desfiles, porque os militares conheciam a necessidade 
que o povo tinha dos seus prprios smbolos e cultos. O
senador Trueba, que por princpio detestava essas coisas,
compreendeu o que os amigos do Clube tinham querido 
dizer, quando asseguravam que o marxismo no  tinha nem a
menor oportunidade na Amrica Latina, porque no contemplava o
lado mgico das coisas.  Po, circo e 
algo que respeitar  tudo o que necessitam, concluiu o
Senador, lamentando no seu intimo que faltasse o po.

Orquestrou-se uma campanha destinada a limpar da face da terra
o bom nome do ex-Presidente, com a esperana de que o povo
deixasse de chorar por ele. Abriram a 
sua casa e convidaram o pblico a visitar o que chamaram o
palcio do ditador. Podia olhar-se para dentro dos seus
armrios e ficar pasmado com o nmero e qualidade 
dos seus casacos de camura, registar os caixotes, vasculhar a
despensa, para ver o rum cubano e o saco de acar que
guardava. Circularam fotografias grosseiramente 
trucadas que o mostravam vestido de Baco, com uma grinalda de
uvas na cabea, refastelando-se com matronas opulentas e
atletas do seu prprio sexo, numa orgia perptua 
que ningum, nem o prprio senador Trueba, acreditou serem
autnticas. Isto  demasiado, esto a exagerar, resmungou
quando soube.

De uma penada, os militares mudaram a histria universal,
apagando os episdios, as ideologias e as personagens que o
regime desaprovava. Ajeitaram os mapas, porque 
no havia nenhuma razo para pr o norte para cima, to longe
da ptria benemrita, se se podia pr em baixo onde ela ficava
mais favorecida e, de caminho, pintaram 
com azul da Prssia vastas margens de guas territoriais at
aos limites da sia e da frica e apoderaram-se de terras
longnquas nos livros de geografia, traando 
as fronteiras com toda a impunidade, at que os pases irmos
perderam a pacincia, deram um grito nas Naes Unidas e
ameaaram cair-lhes em cima com tanques de 
guerra e avies de caa. A censura, que a principio s abarcou
os meios de comunicao, logo se estendeu aos textos
escolares, s letras das canes, aos argumentos 
dos filmes e s conversas privadas. Havia palavras proibidas
pelos militares, como a palavra companheiro, e outras que
no se diziam por precauo, apesar de nenhuma 
faco as ter eliminado do dicionrio, como liberdade, justia
e sindicato. Alba perguntou de onde tinham sado tantos
fascistas de um dia para o outro, porque na 
larga trajectria democrtica do seu pais nunca os tinha
notado, excepto alguns exaltados durante a guerra, que por
macaquice vestiam camisas negras e desfilavam 
com o brao no ar, no meio das gargalhadas e das assobiadelas
dos transeuntes, sem que tivessem algum papel importante na
vida nacional. Nem se explicava a atitude 
das Foras Armadas, que provinham na sua maioria da classe
operria e que historicamente tinham estado mais perto da
esquerda do que da extrema direita. No compreendeu 
o estado de guerra interna nem viu que a guerra  a obra de
arte dos militares, o culminar dos seus treinos, a jia
dourada da sua profisso. No so feitos para 
brilhar na paz. O golpe deu-lhes a oportunidade de pr em 
prtica o que tinham aprendido nos quartis, a obedincia
cega, o manejo das armas e outras artes que 
os soldados podem dominar quando acalmam os escrpulos do
corao.

Alba abandonou os estudos, porque a Faculdade de Filosofia,
como muitas outras que abrem as portas do pensamento, foi
fechada. Tambm no continuou com a msica 
porque o violoncelo lhe pareceu uma frivolidade nessas
circunstancias. Muitos professores foram despedidos, presos ou
desapareceram, de acordo com uma lista negra 
que a polcia poltica detinha. Mataram Sebastin Gmez na
primeira limpeza, denunciado pelos prprios alunos. A
Universidade encheu-se de espies.


A alta burguesia e a direita econmica, que tinham propiciado
o golpe militar, estavam eufricos. No comeo assustaram-se um
pouco ao ver as consequncias da sua 
aco, porque nunca tinham vivido em ditadura e no sabiam o
que era. Pensaram que a perda da democracia ia ser transitria
e que se podia viver por algum tempo 
sem liberdades individuais nem colectivas, desde que o regime
respeitasse a liberdade de aco. Tambm no lhes importou o
desprestgio internacional, que os ps 
na mesma categoria de outras tiranias regionais, porque lhes
pareceu um preo barato para derrubar o marxismo. Quando
chegavam capitais estrangeiros para investir 
no pais, atriburam isso, naturalmente,  estabilidade do novo
regime passando por alto o facto de, por cada peso que
entrava, levarem dois de lucro. Quando se foram 
fechando, a curto prazo, quase todas as indstrias nacionais e
os comerciantes comearam a falir, derrotados pela importao
macia de bens de consumo, disseram 
que os foges brasileiros, os tecidos da Formosa e as
motocicletas japonesas eram muito melhores que qualquer outra
coisa que se tivesse algum dia feito no pais. 
S quando devolveram as concesses das minas s companhias
norte-americanas, depois de trs anos de nacionalizao,  que
algumas vozes disseram que isso era o mesmo 
que oferecer a ptria embrulhada em celofane. Mas quando
comearam a entregar aos antigos donos as terras que a reforma
agrria tinha dividido, tranquilizaram-se: 
tinham voltado os bons tempos. Viram que s uma ditadura
militar podia actuar com o peso da fora e sem ter que dar
contas a ningum para lhes garantir os privilgios, 
por isso deixaram de falar de poltica e aceitaram a ideia de
obter o poder econmico, enquanto os militares governavam. O
nico trabalho da direita foi assessor-los 
na elaborao dos novos decretos e das novas leis. Em poucos
dias acabaram com os sindicatos, os dirigentes operrios foram
presos ou mortos, os partidos polticos 
declarados indefinidamente suspensos, e todas as organizaes
de trabalhadores e estudantes, e at os colgios oficiais,
desmantelados. Era proibido reunir-se em 
grupo. O nico  stio onde as pessoas se podiam reunir era na
igreja, de modo que em pouco tempo a religio tornou-se moda e
os padres e as freiras tiveram que 
pr de parte os trabalhos espirituais para socorrer as
necessidades terrenas daquele rebanho perdido. O governo e os
empresrios comearam a v-los como inimigos 
potenciais e alguns sonharam resolver o problema assassinando
o cardeal, uma vez que o Papa, em Roma, se negou a tir-lo do
seu lugar e mand-lo para um asilo de 
frades alienados.

Uma grande parte da classe mdia alegrou-se com o golpe
militar, porque significava o voltar da ordem, da pureza dos
costumes, das saias nas mulheres e do cabelo 
curto nos homens, mas logo comeou a sofrer o tormento dos
preos altos e da falta de trabalho. O salrio no chegava
para comer. Em todas as famlias havia algum 
a lamentar e j no podiam dizer, como no principio, que se
estava preso, morto ou exilado, era porque se o merecia.
Tambm no puderam continuar a negar a tortura.

Enquanto floresciam os negcios de luxo, as financiadoras
milagrosas, os restaurantes exticos e as casas importadoras,
s portas das fbricas os desempregados faziam 
bicha  espera da oportunidade de trabalhar por um salrio
mnimo. A mo-de-obra desceu a nveis de escravido e os
patres puderam, pela primeira vez desde h muitas 
dcadas, despedir os trabalhadores  vontade, sem lhes pagar
indemnizao e prend-los pelo mais pequeno motivo.

Nos primeiros meses, o senador Trueba participou do
oportunismo dos da sua classe. Estava convencido de que era
necessrio um perodo de ditadura para o pais voltar 
ao redil do qual nunca devia ter sado. Foi um dos primeiros
latifundirios a recuperar a sua propriedade. Devolveram-lhe
Las Tres Marias em runas, mas inteira, 
at ao ltimo metro quadrado. H quase dois anos que estava 
espera desse momento, ruminando a raiva. Sem pensar duas
vezes, foi ao campo com meia dzia de rufias 
contratados e pde vingar-se a seu bel-prazer dos camponeses
que se tinham atrevido a desafi-lo e a tirar-lhe o que era
seu. Chegaram l numa manh luminosa de 
domingo, pouco antes do Natal. Entraram na propriedade com um
alvoroo de piratas. Os rufias meteram-se por todos os lados,
arreando nas pessoas aos gritos, com 
golpes e pontaps, juntaram pessoas e animais no ptio e
regaram imediatamente com gasolina as casinhas de tijolos, que
antes tinham sido o orgulho de Trueba, e 
pegaram fogo a tudo o que elas tinham. Mataram os animais a
tiro. Queimaram os arados, os galinheiros, as bicicletas e at
os beros dos recm-nascidos, numa confuso 
dos diabos que por pouco matava o velho Trueba de alegria.
Despediu todos os caseiros com o aviso de que se voltasse a
v-los  volta da propriedade, iam sofrer 
a mesma sorte que os animais. Viu-os partir mais pobres do que
nunca, numa grande e triste procisso, levando as crianas, os
velhos, os poucos ces que sobreviveram 
ao tiroteio, uma ou outra galinha  salva do inferno,
arrastando os ps pelo caminho de p que os afastava da terra
onde tinham vivido por vrias geraes. No porto 
de Las Tres Marias havia um grupo de gente miservel esperando
com olhos ansiosos. Eram outros camponeses desocupados,
expulsos de outras herdades, que chegavam 
to humildes como os antepassados de sculos atrs, a pedir ao
patro que lhes desse emprego na prxima colheita.

Nessa noite, Esteban Trueba deitou-se na cama de ferro que
tinha sido dos pais, na velha casa senhorial onde no ia h
muito tempo. Estava cansado e tinha no nariz 
o cheiro do incndio e dos corpos dos animais que tiveram de
queimar, para a podrido no infectar o ar. Ainda ardiam os
restos das casinhas de tijolo e  sua volta 
tudo era destruio e morte. Mas ele sabia que podia voltar a
levantar o campo, tal como o tinha feito uma vez, porque os
prados estavam intactos e as suas foras 
tambm. Apesar do prazer da vingana, no conseguiu dormir.
Sentia-se como um pai que castigara os filhos com demasiada
severidade. Toda a noite viu os rostos dos 
camponeses, a quem tinha visto nascer na propriedade,
afastando-se na estrada. Amaldioou o seu mau gnio. No
dormiu o resto da semana e, quando conseguiu faz-lo, 
sonhou com Rosa. Resolveu no contar a ningum o que tinha
feito e jurou que Las Tres Marias tornaria a ser a herdade
modelo que tinha sido. Fez constar que estava 
disposto a aceitar os caseiros de volta, sob certas condies,
evidentemente, mas nenhum regressou. Tinham-se espalhado pelo
campo, pelos cerros, pela costa, alguns 
iam a p para as minas, outros para as ilhas do Sul,
procurando cada um o po para a famlia com qualquer ofcio.
Enojado o patro regressou  capital sentindo-se 
mais velho do que nunca. Pesava-lhe a alma.


O Poeta agonizou na sua casa junto ao mar. Estava doente e os
acontecimentos dos ltimos tempos esgotaram-lhe o desejo de
continuar a viver. A tropa revolveu-lhe 
a casa, as suas coleces de bzios, as suas conchas, as suas
borboletas, as suas garrafas, as figuras de proa apanhadas em
tantos mares, os livros, os quadros, 
at os seus versos,  procura de armas subversivas e
comunistas escondidos, at que o seu velho corao de bardo
comeou a falhar. Levaram-no para a capital. Morreu 
quatro dias depois e as ltimas palavras do homem que cantou a
vida, foram: Vo fuzil-los! Vo fuzil-lo i! Nenhum dos
seus amigos se pde aproximar na hora da 
morte, porque estavam fora da lei, fugitivos, exilados ou
mortos. A sua casa azul do cerro estava meia em runas, o cho
queimado e os vidros partidos, no se sabia 
se era obra dos militares, como diziam os vizinhos, se dos
vizinhos, como diziam os militares. Velaram-no ali, alguns,
poucos, que se atreveram a ir e jornalistas 
de todas as partes do mundo que apareceram para dar a notcia
do enterro. O senador Trueba era  seu inimigo ideolgico mas
recebera-o muitas vezes em casa e sabia 
de cor os seus versos. Apresentou-se no velrio vestido de
negro rigoroso com a neta Alba. Velaram ambos junto do singelo
atade de madeira e acompanharam-no at 
ao cemitrio numa manh triste. Alba levava na mo um ramo dos
primeiros cravos da temporada, vermelhos como o sangue. O
pequeno cortejo percorreu a p, lentamente, 
o caminho do cemitrio, entre duas filas de soldados que
faziam cordo nas ruas.

As pessoas iam em silncio. Mas logo algum gritou roucamente
o nome do Poeta e uma s voz sada de todas as gargantas
respondeu: Presente! Agora e sempre! Foi 
como se tivessem aberto uma vlvula e toda a dor, o medo e a
raiva daqueles dias sasse dos peitos e rodasse pela rua e
subisse em clamor terrvel at s nuvens 
negras do cu. Outro gritou: Companheiro Presidente! E
responderam todos num s lamento, pranto de homem: Presente!
A pouco e pouco o funeral do Poeta transformou-se 
no acto simblico de enterrar a liberdade.

Muito perto de Alba e do av, os operadores de cmara de
televiso sueca filmavam para enviar para o gelado pas de
Nobel a viso pavorosa das metralhadoras colocadas 
de ambos os lados da rua, as caras das pessoas, o atade
coberto de flores, o grupo de mulheres silenciosas que se
apinhavam s portas da morgue, a dois quarteires 
do cemitrio, para ler as listas dos mortos. A voz de todos
elevou-se em canto e o ar encheu-se com as palavras de ordem
proibidas, gritando que o povo unido jamais 
ser vencido, fazendo frente s armas que tremiam nas mos dos
soldados. O cortejo passou diante de uma construo e os
operrios largando as ferramentas, tiraram 
os capacetes e fizeram fila, cabisbaixos. Um homem caminhava
com a camisa gasta nos punhos, sem colete e com os sapatos
rotos, recitando os versos mais revolucionrios 
do Poeta, com as lgrimas caindo-lhe pelas faces. Seguia-o o
olhar atnito do senador Trueba, que caminhava ao lado.

--  pena que fosse comunista -- disse o Senador  neta. --To
bom poeta e com as ideias to confusas. Se tivesse morrido
antes da rebelio militar, suponho que 
teria recebido uma homenagem nacional.

-- Soube morrer como soube viver, av -- respondeu Alba.

Estava convencida de que morrera no devido tempo, porque
nenhuma homenagem podia ter sido maior que aquele modesto
desfile de uns quantos homens e mulheres que o 
enterraram numa campa emprestada, gritando pela ltima vez os
seus versos de justia e liberdade. Dois dias depois, apareceu
no jornal um aviso da Junta Militar 
decretando luto nacional pelo Poeta e autorizando a pr as
bandeiras a meia haste nas casas particulares que o
desejassem. A autorizao vigorava desde o dia da 
sua morte at ao dia da publicao do aviso.

Do mesmo modo que no pde sentar-se a chorar a morte do tio
Jaime, 

O Poeta agonizou na sua casa junto ao mar. Estava doente e os
acontecimentos dos ltimos tempos esgotaram-lhe o desejo de
continuar a viver. A tropa revolveu-lhe
a casa, as suas coleces de bzios, as suas conchas, as suas
borboletas, as suas garrafas, as figuras de proa apanhadas em
tantos mares, os livros, os quadros, 
at os seus versos,  procura de armas subversivas e
comunistas escondidos, at que o seu velho corao de bardo
comeou a falhar. Levaram-no para a capital. Morreu 
quatro dias depois e as ltimas palavras do homem que cantou a
vida, foram: Vo fuzil-los! Vo fuzil-lo i! Nenhum dos
seus amigos se pde aproximar na hora da 
morte, porque estavam fora da lei, fugitivos, exilados ou
mortos. A sua casa azul do cerro estava meia em runas, o cho
queimado e os vidros partidos, no se sabia 
se era obra dos militares, como diziam os vizinhos, se dos
vizinhos, como diziam os militares. Velaram-no ali, alguns,
poucos, que se atreveram a ir e jornalistas 
de todas as partes do mundo que apareceram para dar a notcia
do enterro. O senador Trueba era  seu inimigo ideolgico mas
recebera-o muitas vezes em casa e sabia 
de cor os seus versos. Apresentou-se no velrio vestido de
negro rigoroso com a neta Alba. Velaram ambos junto do singelo
atade de madeira e acompanharam-no at 
ao cemitrio numa manh triste. Alba levava na mo um ramo dos
primeiros cravos da temporada, vermelhos como o sangue. O
pequeno cortejo percorreu a p, lentamente, 
o caminho do cemitrio, entre duas filas de soldados que
faziam cordo nas ruas.

As pessoas iam em silncio. Mas logo algum gritou roucamente
o nome do Poeta e uma s voz sada de todas as gargantas
respondeu: Presente! Agora e sempre! Foi 
como se tivessem aberto uma vlvula e toda a dor, o medo e a
raiva daqueles dias sasse dos peitos e rodasse pela rua e
subisse em clamor terrvel at s nuvens 
negras do cu. Outro gritou: Companheiro Presidente! E
responderam todos num s lamento, pranto de homem: Presente!
A pouco e pouco o funeral do Poeta transformou-se 
no acto simblico de enterrar a liberdade.

Muito perto de Alba e do av, os operadores de cmara de
televiso sueca filmavam para enviar para o gelado pas de
Nobel a viso pavorosa das metralhadoras colocadas 
de ambos os lados da rua, as caras das pessoas, o atade
coberto de flores, o grupo de mulheres silenciosas que se
apinhavam s portas da morgue, a dois quarteires 
do cemitrio, para ler as listas dos mortos. A voz de todos
elevou-se em canto e o ar encheu-se com as palavras de ordem
proibidas, gritando que o povo unido jamais 
ser vencido, fazendo frente s armas que tremiam nas mos dos
soldados. O cortejo passou diante de uma construo e os
operrios largando as ferramentas, tiraram 
os capacetes e fizeram fila, cabisbaixos. Um homem caminhava
com a camisa gasta nos punhos, sem colete e com os sapatos
rotos, recitando os versos mais revolucionrios 
do Poeta, com as lgrimas caindo-lhe pelas faces. Seguia-o o
olhar atnito do senador Trueba, que caminhava ao lado.

--  pena que fosse comunista -- disse o Senador  neta. --To
bom poeta e com as ideias to confusas. Se tivesse morrido
antes da rebelio militar, suponho que 
teria recebido uma homenagem nacional.

-- Soube morrer como soube viver, av -- respondeu Alba.

Estava convencida de que morrera no devido tempo, porque
nenhuma homenagem podia ter sido maior que aquele modesto
desfile de uns quantos homens e mulheres que o 
enterraram numa campa emprestada, gritando pela ltima vez os
seus versos de justia e liberdade. Dois dias depois, apareceu
no jornal um aviso da Junta Militar 
decretando luto nacional pelo Poeta e autorizando a pr as
bandeiras a meia haste nas casas particulares que o
desejassem. A autorizao vigorava desde o dia da 
sua morte at ao dia da publicao do aviso.

Do mesmo modo que no pde sentar-se a chorar a morte do tio
Jaime,  Alba tambm no pde perder a cabea a pensar em
Miguel ou a lamentar o Poeta. Estava absorvida 
na sua tarefa de procurar os desaparecidos, consolar os
torturados que regressavam com as costas em carne viva e os
olhos transtornados e procurar alimentos para 
os refeitrios dos padres. No entanto, no silncio da noite,
quando a cidade perdia a sua normalidade utilitria e a sua
paz de opereta, ela sentia-se assustada 
por pensamentos atormentados que tinha acalmado durante o dia.
A essa hora s circulavam na rua os furges cheios de
cadveres e de presos e os automveis da policia, 
como lobos perdidos, ululando na escurido do toque de
recolher. Alba tremia na cama. Apareciam os fantasmas
desgarrados de tantos mortos desconhecidos, ouvia a 
grande casa respirando como um arquejo de velha, apurava o
ouvido e sentia nos ossos os rudos terrveis: uma travagem
longnqua, um bater de porta, tiroteios, o 
barulho das botas, um grito surdo. A seguir vinha o longo
silncio que durava at ao amanhecer, quando a cidade voltava
a viver e o sol parecia apagar os terrores 
da noite. No era a nica pessoa acordada em casa. Muitas
vezes encontrava o av em camisa de dormir e pantufas, mais
velho e mais triste que de dia, aquecendo-se 
com uma chvena de caldo e resmungando blasfmias de
flibusteiro, porque lhe doam os ossos e a alma. Tambm a me
mexia na cozinha ou passava como uma apario 
da meia-noite pelos quartos vazios.

Assim passaram os meses e tornou-se evidente para todos,
inclusivamente para o senador Trueba, que os militares tinham
tomado o poder para ficar com ele e no para 
entregar o governo aos polticos de direita que tinham
propiciado o golpe. Era uma raa  parte, irmos entre si, que
falavam um idioma diferente do dos civis e 
com quem o dilogo era como que uma conversa de surdos, porque
a menor dissidncia era considerada traio no seu esquemtico
cdigo de honra. Trueba viu que tinham 
planos messinicos que no incluam os polticos. Um dia,
comentou a situao com Blanca e Alba. Lamentou que a aco
dos militares, cujo propsito era acabar com 
o perigo de uma ditadura marxista, tivessem condenado o pais a
uma ditadura mais severa e, pelos vistos, destinada a durar um
sculo. Pela primeira vez na sua vida, 
o senador Trueba admitiu que se tinha equivocado. Afundado na
poltrona, como um velho acabado, viram-no chorar em silncio.
No chorava pela perda do poder. Chorava 
pela ptria.

Ento, Blanca ajoelhou-se a seu lado, pegou-lhe na mo e
confessou que tinha Pedro Tercero Garcia a viver como um
anacoreta, escondido num dos quartos abandonados 
que mandara construir para Clara, no tempo dos espritos. No
dia seguinte ao golpe tinham-se publicado listas de pessoas
que deviam apresentar-se s autoridades. 
O nome de Pedro Tercero Garcia estava entre elas. Alguns, que
continuavam a pensar que naquele pas nunca se passava nada,
foram pelos seus prprios ps entregar-se 
ao Ministrio da  Defesa e pagaram-no com a vida. Mas Pedro
Tercero teve primeiro que os outros o pressentimento da
ferocidade do novo regime, talvez porque durante 
aqueles trs anos tivesse aprendido a conhecer as Foras
Armadas e no acreditava na histria de serem diferentes das
de outros lados. Nessa mesma noite, durante 
o toque de recolher, arrastou-se at  grande casa da esquina
e chamou  janela de Blanca. Quando ela assomou, com a vista
turvada pela enxaqueca, no o reconheceu, 
porque tinha cortado a barba e trazia culos.

-- Mataram o Presidente -- disse Pedro Tercero.

Ela escondeu-o nos quartos vazios. Arranjou um refgio de
emergncia, sem suspeitar que teria que o manter oculto
durante vrios meses, enquanto os soldados passavam 
o pais a pente fino  sua procura.

Blanca pensou que ningum se lembraria de que Pedro Tercero
Garcia estava em casa do senador Trueba no prprio momento em
que este escutava de p o Te Deum solene 
na catedral. Para Blanca foi o perodo mais feliz da sua vida.
Para ele, no entanto, as horas passavam-se com a mesma
lentido como se estivesse preso. Passava o dia entre quatro
paredes, com a porta fechada  chave, para que 
ningum tomasse a iniciativa de entrar para limpar e a janela
com as persianas e as cortinas corridas. No entrava a luz do
dia, mas podia adivinh-la pela mudana 
tnue das frinchas da persiana. De noite abria a janela de par
em par, para arejar o quarto -- onde tinha de ter um balde
tapado para fazer as suas necessidades 
--, e para respirar a plenos pulmes o ar da liberdade.
Ocupava o tempo a ler livros de Jaime, que Blanca lhe ia
levando s escondidas, ouvindo os rudos da rua, 
os sussurros do rdio ligado no volume mais baixo. Blanca
conseguiu-lhe uma guitarra em que ps trapos de l debaixo das
cordas, para ningum o ouvir compor em surdina 
as suas canes de vivas, de rfos, de prisioneiros e de
desaparecidos. Tratou de organizar um horrio sistemtico para
preencher o dia. Fazia ginstica, lia, 
estudava ingls, dormia a sesta, escrevia msica e tornava a
fazer ginstica, mas com tudo isso sobravam-lhe interminveis
horas de cio, at que finalmente ouvia 
a chave na fechadura da porta e via entrar Blanca, que lhe
levava os jornais, a comida, gua limpa para se lavar. Faziam
amor com desespero, inventando novas frmulas 
proibidas que o medo e a paixo transformavam em alucinadas
viagens s estrelas. Blanca j se tinha resignado  castidade,
 idade e aos seus variados achaques, 
mas o sobressalto do amor deu-lhe uma nova juventude.
Acentuou-se-lhe a luz da pele, o ritmo do andar e a cadncia
da voz. Sorria para dentro e andava como que adormecida. 
Nunca tinha sido to formosa. At o pai deu conta disso
atribuindo-o  paz da abundncia. Desde que Blanca no tem
que ir para a bicha, parece mais nova. Alba 
tambm reparou. Observara a me e o seu estranho sonambulismo
parecia-lhe suspeito, assim como a sua nova mania de levar
comida para o quarto. Em mais do que uma 
 ocasio teve a ideia de a espiar de noite, mas vencia-a o
cansao das suas mltiplas ocupaes de auxlio e quando tinha
insnias, tinha medo de se aventurar 
pelos quartos vazios onde sussurravam os fantasmas.

Pedro Tercero enfraqueceu e perdeu o bom humor e a doura que
o tinham caracterizado at ento. Aborrecia-se, amaldioava a
sua priso voluntria e bramava de impacincia 
por saber notcias dos amigos. S a presena de Blanca o
apaziguava. Quando ela entrava no quarto, abraava-a como um
alienado, para acalmar os terrores do dia e 
o tdio das semanas. Comeou a obcec-lo a ideia de que era
traidor e cobarde, por no ter compartilhado a sorte de tantos
outros e que o mais honroso seria entregar-se 
e enfrentar o seu destino. Blanca procurava dissuadi-lo com os
seus melhores argumentos, mas ele parecia no a ouvir. Tentava
ret-lo com a fora do amor recuperado, 
dava-lhe comida na boca, dava-lhe banho esfregando-o com um
pano hmido e punha-lhe p de talco como a uma criana,
cortava-lhe o cabelo e as unhas, barbeava-o. 
No fim, acabou por ter de lhe pr comprimidos tranquilizantes
na comida e soporferos na gua, para o fazer cair num sono
profundo e tormentoso, do qual despertava 
com boca seca e o corao mais triste. Em poucos meses, Blanca
viu que no podia t-lo prisioneiro indefinidamente e
abandonou os planos de lhe diminuir o espirito 
para o tornar o amante perptuo. Compreendeu que estava a
morrer em vida porque para ele a liberdade era mais importante
do que o amor, e que no havia p lulas milagrosas 
capazes de o fazer mudar de atitude.

-- Ajude-me, pap! -- suplicou Blanca ao senador Trueba. --
Tenho de faz-lo sair do pas.

O velho ficou paralisado pelo espanto e compreendeu quanto
estava gasto, ao procurar a raiva e o dio e no os poder
encontrar em nenhum lado. Pensou no campons 
que tinha partilhado um amor de meio sculo com a filha e no
pde descobrir nenhuma razo para o detestar, nem seque o seu
poncho, a sua barba socialista, a sua 
tenacidade ou as suas malditas galinhas perseguidoras de
raposos.

-- Caramba! Temos de procurar-lhe asilo, porque se o encontram
nesta casa, fodem-nos a todos -- foi a nica coisa que lhe
ocorreu dizer.

Blanca deitou-lhe os braos ao pescoo e cobriu-o de beijos,
chorando como uma menina. Era a primeira carcia espontnea
que fazia ao pai desde a mais remota infncia.

-- Eu posso met-lo numa embaixada -- disse Alba. -- Mas temos
de esperar o momento propcio e ter de saltar um muro.

-- No ser necessrio, filhinha -- respondeu o senador
Trueba. -- Ainda tenho amigos influentes neste pas.

Quarenta e oito horas depois, abriu-se a porta do quarto de
Pedro Tercero Garcia, mas em vez de Blanca apareceu o senador
Trueba no umbral. O fugitivo  pensou 
que tinha 
chegado finalmente a sua hora e, de certo modo, alegrou-se.

-- Venho tir-lo daqui -- disse Trueba.

-- Porqu? -- perguntou Pedro Tercero.

-- Porque Blanca me pediu -- respondeu o outro.

-- V para o caralho -- balbuciou Pedro Tercero.

-- Bom, para l vamos. Voc vem comigo.

Os dois sorriram simultaneamente. No ptio da casa, o carro
prateado de um embaixador nrdico estava  espera. Meteram
Pedro Tercero na bagageira do veculo, encolhido 
como um fardo, cobriram-no com sacos do mercado cheios de
hortalias. Nos assentos instalaram-se Blanca, Alba, o senador
Trueba e o seu amigo embaixador. O motorista 
levou-os  Nunciatura Apostlica, passando em frente de uma
barreira de carabineiros, sem que ningum os detivesse. No
porto da Nunciatura havia guarda reforada, 
mas ao reconhecer o senador Trueba e ao ver a placa
diplomtica do automvel deixaram-nos passar com uma saudao.
Detrs do porto, a salvo na sede do Vaticano, 
libertaram Pedro Tercero, tirando-o de baixo de uma montanha
de folhas de alface e de tomates rebentados. Levaram-no ao
gabinete do Nncio, que o esperava vestido 
com a sotaina episcopal e com um salvo-conduto acabado de
passar, para o mandar para o estrangeiro com Blanca, que tinha
decidido viver no exlio o amor adiado desde 
a meninice. O Nncio deu-lhes a bno. Era um admirador de
Pedro Tercero Garcia e tinha todos os seus discos.

Enquanto o sacerdote e o embaixador nrdico discutiam sobre a
situao internacional, a famlia despedia-se. Blanca e Alba
choravam de angstia. Nunca se tinham 
separado. Esteban Trueba abraou apertadamente a filha, sem
lgrimas, mas com a boca apertada, a tremer, esforando-se por
conter os soluos.

-- No fui um bom pai para si, filha -- disse. --  possvel
perdoar-me e esquecer o passado?

-- Gosto muito de si, pap! -- chorou Blanca, deitando-lhe os
braos ao pescoo, abraando-o desesperadamente, cobrindo-o de
beijos.

Depois, o velho virou-se para Pedro Tercero e olhou-o nos
olhos. Estendeu-lhe a mo, mas no conseguiu apertar a do
outro, porque lhe faltavam alguns dedos. Ento 
abriu os braos e os dois homens, num n apertado,
despediram-se, livres por fim dos dios e dos rancores que
durante tantos anos lhes tinham manchado a existncia.

-- Cuidarei da sua filha e tentarei faz-la feliz, senhor --
disse Pedro Tercero Garcia com a voz quebrada.

-- No duvido. Vo em paz, meus filhos -- murmurou o velho.

Sabia que no tornaria a v-los. 

O senador Trueba ficou sozinho em casa com a neta e alguns
empregados. Pelo menos assim pensava. Mas Alba resolvera
adoptar a ideia da me e usava a parte abandonada 
da casa para esconder gente por uma ou duas noites, at
encontrar outro lugar mais seguro ou a forma de tir-la do
pas. Ajudava os que viviam na sombra, fugindo 
durante o dia, misturados com o bulcio da cidade, mas que ao
cair da noite deviam estar ocultos, de cada vez num stio
diferente. As horas mais perigosas eram durante 
o toque de recolher, quando os fugitivos no podiam sair  rua
e a policia os podia caar  vontade. Alba pensou que a casa
do av era o ltimo stio que vasculhariam. 
Pouco a pouco, transformou os quartos vazios num labirinto de
refgios secretos onde escondia os protegidos, por vezes,
famlias completas. O senador Trueba s ocupava 
a biblioteca, a casa de banho e o seu quarto. Vivia ali
rodeado pelos seus mveis de acaju, as suas vitrinas
vitorianas e as alcatifas persas. Mesmo para um homem 
to pouco propenso aos impulsos do sentimento, aquela manso
sombria era inquietante: parecia ter um monstro oculto. Trueba
no compreendia a causa da sua mgoa, 
porque sabia que os rudos estranhos que os criados diziam
ouvir, provinham de Clara, que vagueava pela casa na companhia
dos espritos amigos. Tinha surpreendido 
muitas vezes a mulher deslizando pelos sales com a sua tnica
branca e o seu riso de rapariga. Fingia no a ver, ficava
imvel e at deixava de respirar, para no 
a assustar. Se fechava os olhos fazendo-se adormecido, podia
sentir o roar suave dos seus dedos na testa, a sua respirao
fresca passar como um sopro, o roar 
do seu cabelo ao alcance da mo. No tinha motivo para
suspeitar de algo anormal, no entanto fazia por no se
aventurar na regio encantada que era o reino da mulher 
e o mais longe onde ia era a zona neutra da cozinha. A antiga
cozinheira tinha-se ido embora, porque num tiroteio tinham-lhe
morto por engano o marido e o seu filho 
nico, que estava numa aldeia do Sul, fora pendurado num poste
com as tripas enroladas ao pescoo, como vingana do povo por
ter cumprido ordens dos superiores. 
A pobre mulher perdeu a razo e em pouco tempo Trueba perdeu a
pacincia, farto de encontrar na comida os cabelos que ela
arrancava no seu lamento ininterrupto. 
Por essa altura, Alba estreou-se nas panelas, valendo-lhe um
livro de receitas, mas apesar da sua boa vontade, Trueba
acabou por jantar quase todas as noites no 
Clube, para ter uma refeio decente pelo menos uma vez por
dia. Isso deu a Alba maior liberdade para o trfego de
fugitivos e maior segurana para meter e tirar 
a gente de casa antes do toque de recolher, sem o av
suspeitar.

Um dia apareceu Miguel. Ela estava a chegar a casa, quando ele
saiu ao seu encontro. Tinha estado  espera dela escondido nas
moitas do jardim. Pintara o cabelo 
de amarelo plido e vestia um fato azul assertoado. Parecia um
vulgar empregado de banco, mas Alba reconheceu-o logo e no
pde calar um grito de jbilo que lhe 
subiu das entranhas. Abraaram-se no jardim,  vista dos 
transeuntes e de quem quis ver, at que caram em si e
compreenderam o perigo. Alba levou-o para dentro 
de casa, para o seu quarto. Caram na cama num entrelaado de
braos e pernas, chamando um ao outro os nomes secretos que
usavam nos tempos da cave, amaram-se com 
desespero, at que sentiram a vida a escapar-se-lhes e a alma
a rebentar, ficando quietos, a ouvir as estrepitosas batidas
dos seus coraes, at se acalmarem um 
pouco. Alba olhou-o ento pela primeira vez e viu que tinha
estado amando um desconhecido, que no s tinha o cabelo de um
viking, mas que no tinha a barba de 
Miguel, nem culos redondos de perceptor e parecia muito mais
magro. Ests horrvel!, soprou-lhe ao ouvido. Miguel
tinha-se transformado num dos chefes da guerrilha, 
cumprindo assim o destino que ele prprio traara desde a
adolescncia. Para descobrir o seu paradeiro, tinham
interrogado muitos homens e mulheres, o que pesava 
no esprito de Alba como pedra de moinho, mas para ele isso
no era mais que uma parte do horror da guerra, e estava
disposto a correr sorte igual quando chegasse 
o momento de encobrir outros. Entretanto, lutava na
clandestinidade, fiel  teoria de que  violncia dos ricos se
havia que opor a violncia do povo. Alba, que 
imaginara mil vezes que ele estava preso ou que o tinham morto
de alguma maneira horrvel, chorava de alegria, saboreando-lhe
o cheiro, o corpo, a voz, o calor, 
o afagar das mos calosas pelo uso das armas e o hbito de
desafiar, rezando, e amaldioando e beijando-o e odiando-o por
tanto sofrimento acumulado e desejando 
morrer ali mesmo, para no tornar a penar na sua ausncia.

-- Tinhas razo, Miguel. Passou-se tudo o que dizias que se ia
passar -- admitiu Alba, soluando no seu ombro.

Contou-lhe das armas que roubara ao av e que escondera com o
tio Jaime e ofereceu-se para ir com ele busc-las. Teria
gostado de lhe dar tambm as que no tinham 
podido roubar e tinham ficado na adega da casa, mas, poucos
dias depois do golpe militar, tinham ordenado  populao
civil que entregasse tudo o que se pudesse 
considerar arma, at as facas de mato e os canivetes das
crianas. As pessoas deixavam os seus pacotinhos embrulhados
em papel de jornal  porta das igrejas, porque 
no se atreviam a lev-los aos quartis, mas o senador Trueba,
que tinha armas de guerra, no sentiu nenhum temor porque as
suas estavam destinadas a matar comunistas, 
como toda a gente sabia. Telefonou para um amigo, o general
Hurtado e este mandou um camio do exrcito para as levar.
Trueba levou os soldados at ao quarto das 
armas e ai pde verificar, mudo de surpresa que metade das
caixas estavam cheias de pedras e palha, mas compreendeu que
se admitisse a falta, ia incriminar algum 
da sua prpria famlia ou a meter-se ele prprio num sarilho.
Comeou a dar desculpas que ningum lhe pedia, j que os
soldados no podiam saber o nmero de armas 
que ele tinha comprado. Suspeitava de Blanca e Pedro Tercero
Garcia, mas as faces coradas da neta tambm o  fizeram
duvidar. Depois que os soldados levaram as 
caixas assinando um recibo, pegou Alba por um brao e
sacudiu-a como nunca tinha feito, para confessar se tinha
alguma coisa a ver com as metralhadoras e as espingardas 
que faltavam: No me perguntes o que no queres que diga,
av, respondeu Alba olhando-o nos olhos. No voltaram a falar
do assunto.

-- O teu av  um desgraado, Alba. Algum o vai matar como
ele merece -- disse Miguel.

-- Vai morrer na cama. J est muito velho -- disse Alba.

-- Quem com ferro mata, no pode morrer com chapeladas. Talvez
eu mesmo o mate um dia.

-- No o queira Deus, porque obrigavas-me a fazer o mesmo
contigo -- respondeu Alba ferozmente.

Miguel explicou-lhe que no podiam ver-se durante muito tempo,
talvez nunca mais. Tentou explicar-lhe o perigo que
significava ser companheira de um guerrilheiro, 
mesmo que estivesse protegida pelo apelido do av, mas ela
chorou tanto e abraou-o com tanta angstia, que ele teve que
prometer-lhe que embora com o risco das 
suas vidas, procurariam a ocasio de se verem algumas vezes.
Miguel ento acedeu, tambm, ir com ela buscar as armas e
munies enterradas na montanha, porque era 
do que mais necessitava na sua luta temerria.

-- Espero que no estejam transformadas em sucata -- murmurou
Alba. -- E que eu consiga recordar o stio exacto, porque j
l vai um ano.

Duas semanas depois, Alba organizou um passeio com as crianas
do seu refeitrio popular numa camioneta que lhe emprestaram
os padres da parquia. Levava cestos 
com a merenda, um saco de laranjas, bolas e uma guitarra.
Nenhuma das crianas notou que recolhera no caminho um homem
louro. Alba conduziu a pesada camioneta, com 
a sua carga de crianas, pelo mesmo caminho da montanha que
antes tinha percorrido com o tio Jaime. Duas patrulhas
mandaram-na parar e teve de abrir os cestos da 
comida, mas a alegria contagiante das crianas e o inocente
contedo das bolsas afastaram toda a suspeita dos soldados.
Puderam chegar tranquilos ao stio onde as 
armas estavam escondidas. As crianas brincaram ao agarra e s
escondidas. Miguel fez com elas um jogo de futebol, sentou-as
 sua volta e contou-lhes histrias 
e depois todos cantaram at enrouquecer. Rapidamente desenhou
um plano do local para regressar com os companheiros pelas
sombras da noite. Foi um agradvel dia no 
campo em que por algumas horas puderam esquecer a tenso do
estado de guerra e gozar o morno sol da montanha, ouvindo a
gritaria das crianas que corriam entre as 
pedras com o estmago cheio pela primeira vez em muitos meses. 

-- Miguel, tenho medo -- disse Alba. -- Ser que nunca vamos
poder fazer um vida normal? Porque no vamos para o
estrangeiro? Porque no escapamos agora, que ainda 
 tempo?

Miguel apontou as crianas e Alba compreendeu.

-- Ento deixa-me ir contigo! -- suplicou ela, como tantas
vezes o tinha feito.

-- No podemos ter uma pessoa sem treino neste momento. Muito
menos uma mulher apaixonada -- sorriu Miguel. --  melhor que
tu continues cumprindo a tua tarefa. 
H que ajudar estes pobres midos. at virem tempos melhores.

-- Pelo menos, diz-me como te posso encontrar.

-- Se a polcia te apanhar, o melhor  que no saibas nada --
respondeu Miguel.

Ela estremeceu.


Nos meses seguintes, Alba comeou a traficar com o mobilirio
da casa.

A princpio s se atreveu a tirar as coisas dos quartos e da
cave, mas quando vendeu tudo, comeou a levar uma por uma as
cadeiras antigas do salo, as bengalas 
barrocas, os cofres coloniais, os biombos trabalhados, at ao
jogo de toalhas da sala de jantar. Trueba deu por isso mas no
disse nada. Calculava que a neta estivesse 
a dar ao dinheiro um fim proibido, como julgava que tinha
feito com as armas que lhe roubara, mas preferiu no o saber,
para poder continuar a aguentar-se em precria 
estabilidade num mundo que se fazia em pedaos. Sentia que os
acontecimentos escapavam ao seu controlo. Compreendeu que a
nica coisa que realmente lhe importava 
era no perder a neta, porque ela era o nico lao que o unia
 vida. Por isso tambm no disse nada quando ela foi tirando,
um por um, os quadros das paredes e 
as tapearias antigas para as vender aos novos ricos.
Sentia-se muito velho e muito cansado, sem foras para lutar.
J no tinha as ideias to claras e tinha-se-lhe 
apagado a fronteira entre o que lhe parecia bom e o que
considerava mau. De noite, quando o sono o surpreendia, tinha
pesadelos com casinhas de tijolo incendiadas. 
Pensou que se a sua nica herdeira decidia deitar a casa pela
janela, ele no o podia evitar, porque lhe faltava muito pouco
para estar no caixo e no precisaria 
mais do que da mortalha. Alba quis falar com ele, para lhe dar
uma explicao, mas o velho negou-se a ouvir a histria dos
meninos com fome que recebiam comida de 
esmola com o produto da sua tapearia de Aubisson, ou dos
desempregados que sobreviviam mais uma semana com o seu drago
chins de pedra. Tudo isso, teimava ele, 
era uma monstruosa patranha do comunismo internacional, mas,
no caso remoto de ser verdade, no cabia a Alba tomar essa
responsabilidade, mas ao governo, ou em ltima 
instncia   Igreja. No entanto, no dia em que chegou a casa e
no viu o retrato de Clara pendurado  entrada, considerou que
o caso estava a ultrapassar os limites 
da sua pacincia e foi ter com a neta.

-- Onde diabo est o quadro da tua av? -- bradou.

-- Vendi-o ao consul ingls, av. Disse-me que o poria num
museu de Londres.

-- Probo-te que tornes a tirar seja o que for desta casa! A
partir de amanh, ters uma conta no banco, para os teus
alfinetes -- respondeu.

Esteban Trueba depressa viu que Alba era a mulher mais cara da
sua vida e que um harm de cortess no teria sido to caro
como aquela neta de cabeleira verde. No 
a censurou porque tinham voltado os tempos da boa sorte e
quanto mais gastava mais tinha. Desde que a actividade
poltica estava proibida sobrava-lhe tempo para 
os negcios e calculou que, contra todos os prognsticos, ia
morrer muito rico. Colocava o dinheiro nas novas financiadoras
que proporcionavam aos investidores multiplicar 
o seu dinheiro, de um dia para o outro, de maneira espantosa.
Descobriu que a riqueza lhe dava um imenso tdio, porque se
tornava fcil ganh-la, sem encontrar aliciante 
de maior e nem sequer o prodigioso talento para o esbanjamento
da sua neta conseguia despejar-lhe as algibeiras. Com
entusiasmo reconstruiu e melhorou Las Tres Marias, 
mas depois perdeu o interesse em qualquer outro
empreendimento, porque notou que graas ao novo sistema
econmico no era necessrio esforar-se e produzir, uma 
vez que o dinheiro atra mais dinheiro e sem nenhuma
participao sua as contas bancrias engrossavam dia a dia.
Assim, fazendo contas, deu um passo que nunca imaginou 
dar na vida: mandava todos os meses um cheque a Pedro Tercero
Garcia, que vivia com Blanca, exilados no Canad. Ambos se
sentiam ali plenamente realizados na paz 
do amor satisfeito. Ele escrevia canes revolucionrias para
os trabalhadores, para os estudantes e, sobretudo, para a alta
burguesia que as tinha adoptado como 
moda, traduzidas para ingls e francs, com grande xito,
apesar das galinhas e raposos serem criaturas
subdesenvolvidas, sem o esplendor zoolgico das guias e 
dos lobos desse gelado pais do Norte. Blanca, entretanto,
plcida e feliz, gozava pela primeira vez na sua vida de uma
sade de ferro. Instalou um grande forno em 
casa para cozer os prespios de monstros que se vendiam muito
bem, por se tratar de artesanato indgena, tal como previra
Jean de Satigny, vinte e cinco anos atrs, 
quando os quis exportar. Estes negcios, os cheques do pai e a
ajuda canadiana, davam o suficiente e Blanca, por precauo,
escondeu no seu canto secreto a meia 
de l com as inesgotveis jias de Clara. Esperava nunca as
vender para que um dia Alba as pudesse usar.


Esteban Trueba no soube que a polcia poltica tinha vigiado
a casa at  noite em que levaram Alba. Estava a dormir e, por
casualidade, no estava  ningum escondido 
no labirinto dos quartos abandonados. As coronhadas na porta
da casa tiraram o velho do sono com o ntido pressentimento da
fatalidade. Mas Alba tinha despertado 
antes, quando ouviu as travagens dos automveis, o rudo dos
passos, as ordens a meia voz e comeou a vestir-se porque no
teve dvidas de que chegara a sua hora.

Nesses meses, o Senador tinha aprendido que nem s quer a sua
limpa trajectria de golpista era garantia contra o terror.
Nunca imaginou, todavia, que veria entrar 
na sua casa, ao abrigo do toque de recolher, uma dzia de
homens sem uniforme, armados at aos dentes, que o tiraram da
cama sem contemplaes e o levaram pelo brao 
at ao salo, sem lhe deixar calar as pantufas ou
agasalhar-se com um xaile. Viu outros que abriam com um
pontap a porta do quarto de Alba e entravam com as
metralhadoras 
na mo, viu a neta completamente vestida, plida, mas serena,
esperando-os de p, viu-os dando-lhe empurres e levando-a com
armas apontadas, at ao salo onde lhe 
ordenaram que ficasse junto do velho sem fazer o menor
movimento. Ela obedeceu sem pronunciar uma s palavra, alheia
 raiva do av e  violncia dos homens que 
percorriam a casa partindo as portas, esvaziando os armrios 
coronhada, tombando os mveis, esventrando os colches,
revolvendo o contedo dos roupeiros, aos pontaps 
nas paredes e gritando ordens, em busca de guerrilheiros
escondidos, de armas clandestinas e outras provas. Tiraram as
criadas das camas e fecharam-nas num quarto, 
vigiadas por um homem armado. Deram voltas s estantes da
biblioteca e os adornos e obras de arte do Senador rolaram
pelo cho com estrpito. Os livros do tnel 
de Jaime foram parar ao ptio, onde os empilharam, os regaram
com gasolina e os queimaram numa pira infame, que foram
alimentando com os livros mgicos dos bas 
encantados do bisav Marcos, a edio esotrica de Nicolau, as
obras de Marx em encadernao de couro e at as partituras das
peras do av, numa fogueira escandalosa 
que encheu de fumo todo o bairro e que, em tempos normais,
teria atrado os bombeiros.

-- Entreguem todas as agendas, livros com direces, os livros
de cheques, todos os documentos pessoais que tenham! --
ordenou o que parecia o chefe.

-- Sou o senador Trueba! No me reconhece, homem de Deus? --
gritou o avo desesperado. -- No podem fazer-me isto!  uma
agresso. Sou amigo do general Hurtado!

-- Cala-te, velho de merda! Enquanto eu no te autorizar no
tens o direito de abrir a boca! -- respondeu o outro com
brutalidade.

Obrigaram-no a entregar o contedo da secretria e meteram em
sacos tudo o que lhes pareceu importante. Enquanto um grupo
acabava de revistar a casa, outro continuava 
a atirar livros pela janela. No salo ficaram quatro homens
sorridentes, chocarreiros, ameaadores, que puseram os ps em
cima dos mveis, beberam uisque escocs 
pela garrafa e partiram um a um os  discos da coleco de
clssicos do senador Trueba. Alba calculou que tinham passado
pelo menos duas horas. Estava a tremer, 
no era frio, mas de medo. Pensara que aquele momento chegaria
um dia, mas tivera a esperana irracional de que a influncia
do av podia proteg-la. Mas ao v-lo 
encolhido num sof, pequeno e miservel como um velho enfermo,
compreendeu que no podia esperar ajuda.

-- Assina aqui! -- ordenou o chefe a Trueba, pondo-lhe um
papel diante do nariz. --  uma declarao de que entramos com
uma ordem judicial, e que te mostramos as 
nossas identificaes, que tudo est em regra, que procedemos
com todo o respeito e boa educao, que no tens nenhuma
queixa a fazer. Assina!

-- Nunca assinarei isso! -- exclamou o velho furioso.

O homem deu uma rpida meia volta e esbofeteou Alba. O golpe
atirou-a ao cho. O senador Trueba ficou paralisado de
surpresa e de espanto, compreendendo por fim 
que tinha chegado a hora da verdade, depois de quase noventa
anos a viver sob a sua prpria lei.

-- Sabias que a tua neta  a puta de um guerrilheiro? -- disse
o homem.

Abatido, o senador Trueba assinou o papel. Depois aproximou-se
a custo da neta e abraou-a, acariciando-lhe o cabelo com uma
ternura nele desconhecida.

-- No te preocupes, filhinha. Tudo se vai arranjar, no podem
fazer-te nada, isto  um erro, fica tranquila -- murmurava.

Mas o homem afastou-o brutalmente e gritou aos outros que
tinham de ir. Dois brutamontes levaram Alba pelos braos,
quase pelo ar. A ltima coisa que ela viu foi 
a figura pattica do av, plido como a cera, a tremer, em
camisa de dormir e descalo, que do umbral da porta lhe
assegurava que no dia seguinte ia resgat-la, 
falaria directamente com o general Hurtado, iria com os seus
advogados busc-la onde quer que ela estivesse, para a trazer
de volta para casa.

Fizeram-na subir para uma camioneta para junto do homem que
lhe tinha batido e de outro que guiava assobiando. Antes de
lhe porem tiras de fita gomada nas plpebras, 
olhou pela ltima vez a rua vazia e silenciosa, admirada de
que apesar do barulho e dos livros queimados nenhum vizinho
tivesse assomado para ver. Sups que, tal 
como muitas vezes ela prpria tinha feito, estavam a espreitar
pelas frinchas das persianas e pelas pregas das cortinas, ou
que tinham tapado a cabea com almofadas 
para no saber. A camioneta ps-se em marcha e ela, cega pela
primeira vez, perdeu a noo do espao e do tempo. Sentiu uma
mo hmida e grande na perna, apertando, 
beliscando, subindo, explorando, uma respirao pesada na
cara, sussurrando vou-te aquecer puta, j vais ver, e outras
vozes e risos, enquanto o veiculo dava voltas 
e voltas, no que lhe pareceu uma viagem interminvel. No
soube onde a  levavam at que ouviu o rudo de gua e sentiu
as rodas da camioneta passar sobre madeira. 
Ento adivinhou o seu destino. Invocou os espritos dos tempos
da mesa p-de-galo e do irrequieto aucareiro da av, invocou
os fantasmas capazes de desviar o rumo 
dos acontecimentos, mas eles pareciam t-la abandonado, porque
a camioneta seguiu o mesmo caminho. Sentiu uma travagem, ouviu
um pesado porto que se abria chiando 
e se tornava a fechar depois de ela entrar. Ento Alba entrou
no pesadelo, naquele que a sua av tinha visto na sua carta
astrolgica ao nascer e Lusa Mora, num 
momento de premonio. Os homens ajudaram-na a descer. No
conseguia dar dois passos. Recebeu o primeiro golpe nas
costelas e caiu de joelhos sem poder respirar. 
Os dois levantaram-na pelos sovacos e arrastaram-na um longo
espao. Sentiu os ps sobre a terra e depois sobre a
superfcie spera de um cho de cimento. Pararam.

-- Esta  a neta do senador Trueba, coronel -- ouviu dizer.

-- J vi -- respondeu outra voz.

Alba reconheceu sem hesitar a voz de Esteban Garcia e
compreendeu nesse momento que ele a tinha esperado desde o dia
remoto em que a sentara nos joelhos, quando 
ela era uma criana.


Captulo XIV

A Hora da Verdade


Alba estava encolhida no escuro. Tinham-lhe tirado com um
puxo a fita gomada dos olhos e no seu lugar puseram-lhe uma
venda apertada. Tinha medo. Recordou o treino 
do tio Nicolau quando a prevenia contra o perigo de ter medo
do medo, e concentrou-se para dominar o tremor do corpo e
fechar os ouvidos aos rudos pavorosos que 
lhe chegavam do exterior. Tentou evocar os momentos felizes
com Miguel, procurando ajuda para enganar o tempo e encontrar
foras para o que se ia passar, dizendo 
a si prpria que devia suportar umas quantas horas sem que os
nervos a atraioassem, at que o av pudesse mover a pesada
mquina do seu poder e influncias, para 
a tirar dali. Procurou na memria um passeio com Miguel pela
costa, no Outono, muito antes que o furaco dos acontecimentos
virasse o mundo de pernas para o ar, 
na poca em que as coisas ainda se chamavam por nomes
conhecidos e as palavras tinham um significado nico, quando
povo, liberdade e companheiro eram s isso, povo, 
liberdade e companheiro e no ainda contra-senhas. Tentou
tornar a viver esses momentos, a terra vermelha e hmida, o
intenso odor das matas de pinheiros e eucaliptos, 
onde o tapete de folhas secas apodrecia, depois do longo e
clido Vero, e onde a luz acobreada do Sol se filtrava por
entre as copas das rvores. Tentou recordar 
o frio, o silncio e essa preciosa sensao de serem os donos
da terra, de ter vinte anos e ter a vida  sua frente, de se
amarem tranquilos, brios de perfume a 
bosque e a amor, sem passado, sem suspeitar o futuro, com a
nica e incrvel riqueza desse instante presente, em que se
olhavam, se ouviam, se beijavam, se exploravam, 
envolvidos pelo murmrio do vento entre as rvores e pelo
rumor prximo das ondas rebentando contra as rochas ao p da
falsia, estalando num fragor de espuma cheirosa, 
e eles os dois, abraados dentro do mesmo poncho como 
siameses dentro da mesma pele, rindo e jurando que seria para
sempre, convencidos de que eram os nicos 
a descobrir o amor em todo o universo.

Alba ouvia os gritos, os longos gemidos e o rdio no mximo. O
bosque, Miguel, o amor, perderam-se no tnel profundo do seu
terror e resignou-se a enfrentar o destino 
sem subterfgios.

Calculou que tinha passado toda a noite e uma boa parte do dia
seguinte, quando a porta se abriu pela primeira vez e dois
homens a tiraram da cela. Levaram-na entre 
insultos e ameaas  presena do coronel Garcia, a quem ela
podia reconhecer de olhos fechados, pelo hbito da sua
maldade, mesmo antes de lhe ouvir a voz. Sentiu-lhe 
as mos agarrando-lhe a cara, os dedos grossos no pescoo e
nas orelhas.

-- Agora vais-me dizer onde est o teu amante -- disse. --
Isso evitar muita chatice aos dois.

Alba respirou aliviada. Ento no tinham detido Miguel!

-- Quero tomar banho -- respondeu Alba com a voz mais firme
que pde articular.

-- Vejo que no vais cooperar, Alba.  pena -- suspirou
Garcia. -- Os rapazes tero de cumprir o seu dever, eu no
posso impedi-lo.

Houve um breve silncio  sua volta e ela fez um esforo
desmedido para recordar a mata de pinheiros e o amor de
Miguel, mas as ideias enredaram-se-lhe e j no 
sabia se estava a sonhar, nem de onde provinha aquela
pestilncia de suor, de excremento, de sangue e urina e a voz
do locutor de futebol que anunciava uns golos 
filandeses que nada tinham a ver com ela, entre outros berros
prximos e precisos. Um bofeto brutal atirou-a ao cho, mos
violentas voltaram a p-la de p, dedos 
ferozes apertaram-lhe os seios triturando-lhe os mamilos e o
medo venceu-a por completo. Vozes desconhecidas
pressionavam-na, ouvia o nome de Miguel, mas no sabia 
o que lhe perguntavam e s repetia incansavelmente um no
monumental enquanto lhe batiam, lhe mexiam, lhe arrancavam a
blusa, e ela no podia pensar, s repetia 
no e no, calculando quanto podia resistir antes de esgotar
as foras, sem saber que aquilo era s o comeo, at que se
sentiu desfalecer e os homens a deixaram 
tranquila, estendida no cho, por um tempo que lhe pareceu
muito
curto.

Ouviu a voz de garcia e adivinhou que eram as mos dele
ajudando-a a levantar-se, levando-a at uma cadeira,
ajeitando-lhe a roupa, vestindo-lhe a blusa.
-- Ai, meu Deus! -- disse. -- Olha como te deixaram! Eu
disse-te, Alba. Agora tenta acalmar-te, vou dar-te uma chvena
de caf.

Alba rebentou a chorar. O lquido morno reanimou-a, mas no
lhe sentiu  o sabor, porque o bebia misturado com sangue.
Garcia segurava a chvena aproximando-a com 
cuidado, como um enfermeiro.

-- Queres fumar?

-- Quero ir tomar banho -- disse ela, pronunciando cada slaba
com dificuldade atravs dos lbios inchados.

-- Com certeza, Alba. Vo levar-te a tomar banho e depois
poders descansar. Eu sou teu amigo, compreendo perfeitamente
a tua situao. Ests apaixonada e  por 
isso que o proteges. Sei que no tens nada a ver com a
guerrilha. Mas os rapazes no acreditam em mim se digo isso,
no vo conformar-se at que lhes digas onde 
est Miguel. Na realidade j o tm cercado, sabem onde est,
vo apanh-lo, mas querem ter a certeza de que tu no tens
nada a ver com a guerrilha, ests a perceber? 
Se o proteges, se te negas a falar, eles vo continuar a
suspeitar de ti. Diz-lhes o que querem saber e, ento, eu
mesmo te levo a casa. Vais dizer, no  verdade?

-- Quero tomar banho -- repetiu Alba.

-- Vejo que s casmurra, como o teu av. Est bem. Vais tomar
banho. Vou dar-te a oportunidade de pensar um pouco -- disse
Garcia.

Levaram-na  casa de banho, onde teve que esquecer-se do homem
que estava ao seu lado agarrando-a pelo brao. Depois
levaram-na para a cela. Na pequena cela solitria 
da priso tentou aclarar as ideias, mas estava atormentada
pela dor da pancada, pela sede, pela venda apertada nas
fontes, pelo rudo atroador do rdio, pelo terror 
dos passos que se aproximavam e pelo alivio quando eles se
afastavam, pelos gritos e pelas ordens. Encolheu-se como um
feto no cho e abandonou-se aos vrios sofrimentos. 
Esteve assim vrias horas, talvez dias. Por duas vezes, um
homem foi tir-la dali e guiou-a at uma latrina ftida, onde
no conseguiu lavar-se porque no tinha 
gua. Dava-lhe um minuto, punha-a na sanita com outra pessoa
silenciosa e trpega como ela. No podia adivinhar se era
outra mulher se era um homem. A princpio 
chorou, lamentando que o tio Nicolau no lhe tivesse dado um
treino especial para suportar a humilhao, que lhe parecia
pior que a dor, mas por fim resignou-se 
 sua prpria imundcie e deixou de pensar na insuportvel
necessidade de se lavar. Deram-lhe a comer milho tenro, um
pedao de frango e um pouco de gelado, que 
ela adivinhou pelo sabor, pelo cheiro, pela temperatura, e que
devorou apressadamente com a mo, admirada por aquele jantar
de luxo, inesperado naquele lugar. Depois 
soube que a comida para os prisioneiros daquele recinto vinha
da nova sede do governo, que se tinha instalado num edifcio
improvisado, porque o antigo Palcio dos 
Presidentes no era mais que um monto de escombros.

Tentou contar os dias passados desde a sua deteno mas a
solido,  a escurido e o medo baralharam-lhe o tempo e
deslocaram-lhe o espao, acreditava ver cavernas 
povoadas de monstros, imaginava que a tinham drogado e, por
isso, sentia todos os ossos frouxos e as ideias loucas, tinha
inteno de no comer nem beber, mas a 
fome e a sede eram mais fortes que a sua deciso. Perguntava a
si prpria por que razo o av no tinha ido resgat-la. Nos
momentos de lucidez podia compreender 
que no era um sonho mau e que no estava ali por engano.
Resolveu esquecer at o nome de Miguel.

A terceira vez que a levaram onde estava Esteban Garcia, Alba
estava mais preparada, porque atravs da parede da cela podia
ouvir o que se passava na sala do lado, 
onde interrogavam prisioneiros, e no teve iluses. Nem sequer
fez por invocar os bosques dos seus amores.

-- Tivestes tempo para pensar, Alba. Agora vamos falar os dois
calmamente, vais dizer-me onde est Miguel e assim sairemos
disto rapidamente -- disse Garcia.

-- Quero tomar banho -- respondeu Alba.

-- Estou a ver que ests a gozar comigo -- disse ele. -- Sinto
muito, mas aqui no podemos perder tempo.

Alba no respondeu.

-- Tira a roupa! -- ordenou Garcia com outra voz.

Ela no obedeceu. Despiram-na com violncia, arrancando-lhe as
calas apesar dos seus pontaps. A recordao ntida da sua
adolescncia e do beijo de Garcia no jardim 
deram-lhe a fora do dio. Lutou contra ele, gritou, at que
se cansaram de lhe bater e lhe deram uma curta trgua, que
aproveitou para invocar os espritos compreensivos 
da av, para que a ajudassem a morrer. Mas ningum veio em seu
auxlio. Duas mos levantaram-na, quatro deitaram-na numa
tarimba metlica gelada, dura, cheia de 
porcas que lhe feriam as costas, ataram-lhe os tornozelos e os
pulsos com correias de couro.

-- Pela ltima vez, Alba. Onde est Miguel? -- perguntou
Garcia.

Ela negou silenciosamente. Tinham-lhe prendido a cabea com
outra correia.

-- Quando estiveres disposta a falar, levanta um dedo -- disse
ele.

Alba ouviu outra voz.

-- Eu manejo a mquina -- disse.

E ento ela sentiu a dor atroz que lhe percorreu o corpo e
tomou completamente conta dela e que nunca, nos dias da sua
vida, poderia esquecer. Afundou-se na escurido.

-- Disse-lhes para terem cuidado com ela, seus cabres! --
ouviu a voz de  Esteban Garcia, que chegava de muito longe,
sentiu que lhe abriam as plpebras, mas 
no viu nada mais que um resplendor difuso, sentiu a seguir
uma picadela no brao e tornou a perder-se na inconscincia.

Um sculo depois, Alba acordou molhada e despida. No sabia se
estava coberta de suor, de gua ou de urina, no podia
mover-se, no recordava nada, no sabia onde 
estava nem qual era a causa do mal-estar intenso que a tinha
reduzido a um farrapo. Sentiu uma sede de deserto e pediu
gua.

-- Aguenta, companheira -- disse algum ao seu lado. --
Aguenta at amanh. Se beberes gua, tens convulses e podes
morrer.

Abriu os olhos. No os tinha vendados. Um rosto vagamente
familiar estava inclinado sobre ela, umas mos taparam-na com
uma manta.

-- Recordas-te de mim? Sou Ana Daz. Fomos companheiras na
Universidade. No me reconheces?

Alba negou com a cabea, fechou os olhos e abandonou-se  doce
iluso da morte. Mas umas horas mais tarde despertou e ao
mover-se sentiu que lhe doa tudo at  
ltima fibra do corpo.

-- Em breve te sentirs melhor -- disse uma mulher que lhe
acariciava a cara e lhe afastava as madeixas de cabelo hmido
que lhe tapavam os olhos. -- No te mexas 
e tenta relaxar-te. Eu estarei a teu lado, descansa.

-- Que se passou? -- balbuciou Alba.

-- Deram-te forte, companheira -- disse a outra com tristeza. 

-- Quem s tu? -- perguntou Alba.

-- Ana Daz. Estou aqui h uma semana. Apanharam tambm o meu
companheiro, mas ainda est vivo. Vejo-o uma vez por dia
quando o levam a tomar banho.

-- Ana Daz? -- murmurou Alba.

-- Eu prpria. No ramos muito amigas na Universidade mas
nunca  tarde para comear. A verdade  que a ltima pessoa
que pensava encontrar aqui eras tu, condessa 
-- disse com doura de mulher. -- No fales, tenta dormir,
para o tempo ser mais curto para ti. A memria h-de voltar-te
a pouco e pouco. Foi por causa da electricidade.

Mas Alba no conseguiu dormir, porque a porta da cela abriu-se
e entrou um homem.

-- Pe-lhe a venda! -- ordenou a Ana Daz.
-- Por favor...! No v que est muito fraca. Deixe-a
descansar um pouco...

-- Faz o que te digo!

Ana inclinou-se sobre a tarimba e ps-lhe a venda nos olhos.
Tirou-lhe a manta e quis vesti-la, mas o guarda afastou-a com
um empurro, levantou a prisioneira pelos 
braos e sentou-a. Entrou outro para o ajudar e os dois
levaram-na pendurada, porque no podia caminhar. Alba pensava
que estava  a morrer, se  que no estava 
j morta. Sentiu que avanava por um corredor onde o rudo dos
passos era devolvido pelo eco. Sentiu uma mo na cara,
levantando-lhe a cabea.

-- Podem dar-lhe gua. Levem-na e dem-lhe outra injeco.
Vejam se pode engolir um pouco de caf e tragam-na -- disse
Garcia.

-- Vestimo-la, coronel?

-- No.


Alba esteve nas mos de Garcia muito tempo. Poucos dias depois
ele deu conta de que ela o tinha reconhecido, mas no
abandonou a precauo de a manter com os olhos 
vendados, inclusivamente quando estavam sozinhos. Traziam e
levavam diariamente novos prisioneiros. Alba ouvia os
veculos, os gritos, o porto que se fechava e 
procurava contar os presos, mas era quase impossvel. Ana Daz
calculava que havia  roda de duzentos. Garcia estava muito
ocupado, mas no deixou passar um dia 
sem ver Alba, alternando a violncia desesperada, com a
comdia do bom amigo. Por vezes parecia sinceramente comovido
e com a sua prpria mo dava-lhe colheradas 
de sopa, mas no dia em que lhe enfiou a cabea num balde cheio
de excrementos, at ela desmaiar de nojo, Alba compreendeu que
ele no queria averiguar o paradeiro 
de Miguel, mas sim vingar-se das ofensas que lhe tinham feito
desde o nascimento e que tudo o que pudesse confessar no
modificaria a sua sorte como prisioneira 
particular do coronel Garcia. Ento saiu a pouco e pouco do
crculo privado do seu terror e, o seu medo comeou a diminuir
e pde sentir compaixo pelos outros, 
pelos que penduravam pelos braos, pelos recm-chegados, por
aquele homem sobre quem passaram com uma camioneta por cima
dos ps agrilhoados. Levaram todos os prisioneiros 
ao ptio, ao amanhecer, e obrigaram-nos a ver, porque isso era
tambm um caso pessoal entre o coronel e o prisioneiro. Foi a
primeira vez que Alba abriu os olhos 
fora da penumbra da cela, e a suave claridade da madrugada e o
orvalho entre as pedras, onde se tinham juntado os charcos da
chuva da noite, pareceram-lhe insuportavelmente 
luminosos. Arrastaram o homem, que no ops resistncia, nem
se podia ter de p, e deixaram-no no centro do ptio. Os
guardas tinham a cara coberta com lenos, para 
que nunca pudessem ser reconhecidos no caso improvvel das
coisas mudarem. Alba fechou os olhos quando ouviu o motor da
camioneta, mas no pde fechar os ouvidos 
ao berro que lhe ficou a vibrar na memria para sempre.

Ana Daz ajudou-a a resistir durante o tempo que estiveram
juntas. Era uma mulher invencvel. Tinha suportado todas as
brutalidades, tinham-na violado diante do 
companheiro, tinham-nos torturado juntos, mas ela no tinha
perdido a capacidade do sorriso ou da esperana. Nem a perdeu
quando  a levaram para uma clnica secreta 
da polcia poltica, porque, por causa de um espancamento,
perdeu a criana que esperava e comeou a esvair-se em sangue.

-- No importa, um dia terei outro -- disse a Alba quando
voltou  cela.

Nessa noite, Alba ouviu-a chorar pela primeira vez, tapando a
cara com o cobertor para afogar a tristeza. Aproximou-se dela,
abraou-a, embalou-a, limpou-lhe as 
lgrimas, disse-lhe todas as palavras ternas que pde
recordar, mas nessa noite no havia consolo para Ana Daz, de
modo que Alba limitou-se a aconcheg-la nos braos, 
aquecendo-a como a uma criana e desejando suportar ela
prpria aquela dor para lhe dar alvio. A manh surpreendeu-as
a dormir enroladas como dois animaizinhos. 
De dia esperavam ansiosamente o momento em que a longa fila de
homens passasse para o banho. Iam com os olhos vendados, e
para se guiarem cada um levava a mo no 
ombro do que seguia  frente, vigiados por guardas armados.
Entre eles ia Andr. Pela minscula janela gradeada da cela,
elas podiam v-los, to perto que se pudessem 
estender a mo t-los-iam tocado. Sempre que passavam, Ana e
Alba cantavam com a fora do desespero e de outras celas saam
vozes femininas. Ento, os prisioneiros 
endireitavam-se, levantavam os ombros, viravam a cabea na sua
direco e Andr sorria. Tinha a camisa rasgada e manchada de
sangue seco.

Um dos guardas deixou-se comover pelo hino das mulheres. Uma
noite levou-lhes trs cravos numa jarra de gua, para
ornamentarem a janela. De outra vez, foi dizer 
a Ana Daz que precisava de uma voluntria para lavar a roupa
de um preso e limpar-lhe a cela. Levou-a onde estava Andr e
deixou-os ss por alguns minutos. Quando 
Ana Daz regressou estava transfigurada e Alba no se atreveu
a falar-lhe para no lhe interromper a felicidade.

Um dia, o coronel Garcia deu por si a acariciar Alba como um
apaixonado e a falar-lhe da sua infncia no campo, quando a
via passar ao longe, pela mo do av, com 
os bibes engomados e o halo verde das suas tranas enquanto
ele, descalo na lama, jurava a si mesmo que um dia lhe faria
pagar caro a sua arrogncia e se vingaria 
do seu maldito destino de bastardo. Rgida e ausente, nua e a
tremer de asco e frio, Alba no o ouvia nem o sentia, mas
aquela quebra na nsia de a atormentar, soou 
ao coronel como uma campainha de alarme. Ordenou que pusessem
Alba no canil e disps-se furiosamente a esquec-la.

O canil era uma cela pequena, fechada como um tmulo, sem ar,
escura e gelada. Havia seis ao todo, construdas como lugar de
castigo numa cisterna vazia. Eram ocupadas 
por perodos mais ou menos curtos, porque ningum resistia
muito tempo nelas, no mximo poucos dias, antes de comear a
divagar, a perder a noo das coisas, o significado 
das palavras, e a angstia do tempo ou, simplesmente, comear
a morrer. A princpio, encolhida na sua sepultura, sem poder
sentar-se, nem deitar-se apesar do seu 
pequeno  tamanho, Alba defendeu-se contra a loucura. Na
solido, compreendeu quanto necessitava de Ana Daz. Julgava
ouvir pancadinhas imperceptveis e longnquas, 
como se lhe mandassem mensagens em cdigo de outras celas, mas
logo deixou de lhes prestar ateno, porque verificou que toda
a forma de comunicao era intil. 
Abandonou-se, decidida a acabar o suplicio de uma vez, deixou
de comer e s bebia um gole de gua quando era vencida pela
prpria fraqueza. Tentou no respirar, 
no se mover e ps-se  espera da morte com impacincia.
Passou muito tempo. Assim, quando tinha conseguido quase o seu
propsito, apareceu a av Clara, a quem tinha 
invocado tantas vezes para a ajudar a morrer, com o argumento
de que a graa no era morrer, porque isso chegaria de
qualquer modo, mas sim sobreviver, o que era 
um milagre. Viu-a tal como sempre a tinha visto na sua
infncia, com a tnica de linho branco, as luvas de Inverno, o
seu dulcssimo sorriso desdentado e o brilho 
travesso dos olhos de avel. Clara trouxe a ideia salvadora de
escrever com o pensamento, sem lpis nem papel, para lhe
manter o esprito ocupado, para se evadir 
do canil e viver. Sugeriu-lhe, tambm, que escrevesse o
testemunho que um dia poderia servir para trazer  luz o
terrvel segredo que estava a viver, para que o 
mundo conhecesse o horror que se vivia paralelamente 
existncia agradvel e ordenada daqueles que no queriam
saber, dos que podiam ter a iluso de uma vida normal, 
dos que podiam negar que flutuavam numa jangada num mar de
lamentos, ignorando, apesar de todas as evidncias, que a
poucos quarteires do seu mundo feliz estavam 
os outros, os que sobrevivem ou morrem no lado escuro. Tens
muito que fazer, por isso deixa de te lamentar, bebe gua e
comea a escrever, disse Clara  neta antes 
de desaparecer como tinha chegado.

Alba tentou obedecer  av, mas logo que comeou a apontar com
o pensamento, o canil encheu-se de personagens da sua
histria, que entraram atropelando-se e envolvendo-a 
nas suas anedotas, nos seus vcios e virtudes, esmagando os
seus propsitos documentais e deitando por terra o seu
testemunho, intoxicando-a, exigindo-lhe, apressando-lhe, 
e ela anotava  pressa, desesperada, porque  medida que
escrevia uma nova pgina, ia-se apagando a anterior. Esta
actividade mantinha-a ocupada. A princpio, perdia 
o fio com facilidade e esquecia na mesma medida em que
recordava novos factos. A menor distraco ou um pouco mais de
medo ou de dor, emaranhavam-lhe a histria 
como um novelo. Mas logo inventou um cdigo para recordar com
ordem, e ento pde entrar no seu prprio relato to
profundamente que deixou de comer, de se coar, 
de se cheirar, de se queixar, e chegou a vencer, uma por uma,
as suas inmeras dores.

Constou que estava a morrer. Os guardas abriram o postigo do
canil e  tiraram-na sem nenhum esforo, porque estava muito
magra. Levaram-na de novo ao coronel Garcia, 
que durante aqueles dias tinha renovado o dio, mas Alba no o
reconheceu. Estava para l do seu poder.


Por fora, o hotel Cristbal Coln tinha o mesmo aspecto
andino de uma escola primria, tal como eu o recordava. Eu
perdera a conta dos anos que tinham passado desde 
a ltima vez que ali estivera, e imaginei que podia vir
receber-me o mesmo Mustaf de outros tempos, aquele negro
azul, vestido como uma apario oriental com a 
sua dupla fileira de dentes de chumbo e a sua cortesia de
vizir, o nico negro autntico no pais, todos os outros eram
pintados, como tinha asseverado Trnsito Soto. 
Mas no foi assim. O porteiro levou-me a um cubculo muito
pequeno, apontou-me um assento e indicou-me uma senhora com ar
triste e bonito de tia da provncia, fardada 
de azul e com gola branca engomada, que ao ver-me to velho e
fraco, teve um gesto de enfado. Tinha uma rosa vermelha na
mo.

-- O cavalheiro vem sozinho? -- perguntou.

-- Claro que venho s! -- exclamei.

A mulher passou-me a rosa e perguntou-me que quarto preferia.

-- -me indiferente -- respondi surpreendido.

-- Esto livres o Estbulo, o Templo e as Mil e Uma Noites.
Qual quer?

-- As Mil e Uma Noites -- disse ao acaso.

Levou-me por um longo corredor assinalado com luzes verdes e
flechas vermelhas. Apoiado na bengala, arrastando os ps,
segui-a com dificuldade. Chegmos a um pequeno 
ptio onde se levantava uma mesquita em miniatura com absurdas
ogivas de vidros coloridos.

--  aqui. Se deseja beber alguma coisa, pea por telefone --
informou.

-- Quero falar com Trnsito Soto. Foi para isso que vim --
disse.

-- Sinto muito, mas a senhora no atende particulares. S os
fornecedores.

-- Eu tenho que falar com ela! Diga-lhe que sou o senador
Trueba. Ela conhece-me.

-- No recebe ningum, j lhe disse -- respondeu a mulher
cruzando os braos.

Levantei a bengala e disse-lhe que se dentro de dez minutos
no aparecesse Trnsito Soto em pessoa, partiria os vidros e
tudo o que estava dentro daquela caixa de 
Pandora. A da farda recuou espantada. Abriu a porta da
mesquita e encontrei-me dentro de uma Alhambra de pacotilha.
Uma escada curta de azulejos, coberta de falsos 
tapetes persas, levava a um quarto hexagonal com um tecto em
cpula, onde algum tinha posto tudo o que pensava que
existisse num harm da Arbia, sem ter l estado 
nunca: almofades de damasco, perfumadores de vidro,
campainhas e toda a espcie de baratezas de  bazar. Entre as
colunas, multiplicadas at ao infinito por sbia 
disposio de espelhos, vi uma casa de banho de mosaico, maior
que um dormitrio com um grande tanque onde calculei que se
podia lavar uma vaca e com maior razo 
se podiam refastelar dois amantes brincalhes. No se parecia
nada com o Cristbal Coln que eu tinha conhecido. Sentei-me a
custo na cama redonda, sentindo-me de 
repente muito cansado. Doam-me os velhos ossos. Levantei os
olhos e um espelho no tecto devolveu-me a imagem: um pobre
corpo mirrado, um rosto triste de patriarca 
bblico, sulcado de rugas amargas e os restos de uma melena
branca. Como o tempo passou!, suspirei.

Trnsito Soto entrou sem bater.

-- Alegro-me de o ver, patro -- saudou como sempre.

Tinha-se tornado urna senhora madura, magra, com um carrapito
severo, ataviada com um vestido de l, e duas voltas de
soberbas prolas no pescoo, majestosa, serena, 
com mais aspecto de concertista de piano que de dona de
prostbulo. Tive dificuldade em relacion-la com a mulher de
outros tempos, com uma serpente tatuada  roda 
do umbigo. Pus-me de p para a cumprimentar e no consegui
trat-la por tu, como dantes.

-- Est com muito bom aspecto, Trnsito -- disse, calculando
que devia ter mais de sessenta e cinco anos.

-- Tenho passado bem, patro. Recorda-se de que, quando nos
conhecemos, eu lhe disse que um dia ia ser rica? -- sorriu
ela.

-- Alegro-me que o tenha conseguido.

Sentmo-nos lado a lado na cama redonda. Trnsito serviu um
conhaque para cada um e contou-me que a cooperativa de putas e
maricas tinha sido um negcio estupendo 
durante dez longos anos, mas que os tempos tinham mudado e que
tinham sido obrigados a dar-lhe outra volta, porque, por culpa
da liberdade de costumes, do amor livre, 
da plula e de outras inovaes, j ningum precisava de
prostitutas, excepto os marinheiros e os velhos. As meninas
decentes deitam-se de borla, imagine-se a competncia, 
disse ela. Explicou-me que a cooperativa comeou a arruinar-se
e que os scios tiveram de ir trabalhar noutros ofcios melhor
remunerados e at Mustaf partiu, de 
regresso  ptria. Ento pensou que o que era preciso era um
hotel de encontros, um stio agradvel para que os casais
clandestinos pudessem fazer amor e onde um 
homem no tivesse vergonha de levar a noiva pela primeira vez.
Nada de mulheres, essas traz o cliente. Ela prpria o decorou,
segundo os impulsos da sua fantasia, 
tendo em considerao o gosto da clientela e assim, graas 
sua viso comercial, que a levou a criar um ambiente diferente
em cada canto disponvel, o hotel Cristbal 
Coln transformou-se no paraso das almas perdidas e dos
amantes furtivos. Trnsito Soto fez sales franceses com
mveis acolchoados, baias com feno fresco e cavalos 
de papelo que observavam os namorados com os seus imutveis
olhos de vidro pintado, cavernas  pr-histricas, com
estalactites e telefones forrados em pele de 
puma. 

-- Visto que no veio fazer amor, patro, vamos falar no meu
escritrio, para deixar este quarto para a clientela -- disse
Trnsito Soto.

Pelo caminho, contou-me que depois do golpe a polcia poltica
tinha arrasado o hotel por duas vezes cada vez que tiravam os
casais da cama e os levavam na ponta 
da pistola at ao salo principal, encontravam um ou dois
generais entre os clientes, e por isso deixaram de incomodar.
Tinha muito boas relaes com o novo governo, 
como tivera com os governos anteriores. Disse-me que o
Cristbal Coln era um negcio florescente e que todos os anos
ela renovava algumas decoraes, substituindo 
naufrgios em ilhas polinsicas por severos claustros de
convento e baloios barrocos por potros de tortura, segundo a
moda, podendo introduzir muita coisa numa 
residncia de propores relativamente normais graas ao
artificio dos espelhos e das luzes que podiam multiplicar o
espao, enganar o clima, criar o infinito e 
suspender o tempo.

Chegmos ao seu escritrio, decorado como uma cabina de
aeronave, de onde dirigia a sua incrvel organizao com a
eficincia de um banqueiro. Contou-me quantos 
lenis se lavavam, quanto papel higinico se gastava, quantos
licores se consumiam, quantos ovos de codorniz se coziam
diariamente -- so afrodisacos --, quanto 
pessoal era necessrio e a quanto chegava a conta da luz, da
gua e do telefone, para manter a navegar aquele descomunal
porta-avies de amores proibidos.

-- E agora, patro, diga-me o que posso fazer por si -- disse
finalmente Trnsito Soto, acomodando-se na cadeira reclinvel
de piloto areo, enquanto brincava com 
as prolas do colar. -- Suponho que veio para que lhe pague o
favor que lhe devo desde h cinquenta anos, no  verdade?

Ento eu, que tinha estado  espera que ela mo perguntasse,
abri a torrente da minha ansiedade e contei-lhe tudo, sem
esconder nada, sem uma s pausa, desde o principio 
at ao fim. Disse-lhe que Alba  a minha neta nica, que eu
tinha ficado s no mundo, que se me tinha mirrado o corpo e a
alma, tal como Frula disse ao amaldioar-me, 
e a nica coisa que me falta  morrer como um co, que aquela
neta de cabelo verde  ltima coisa que me resta, o nico ser
que realmente me importa, que por desgraa 
saiu idealista, um mal da famlia,  uma dessas pessoas
destinadas a meter-se em problemas e a fazer-nos sofrer a ns,
os que estamos ao p, deu-lhe para andar a 
dar asilo a fugitivos nas embaixadas, fazia-o sem pensar,
estou certo, sem dar conta que o pas est em guerra, guerra
contra o comunismo internacional ou contra 
o povo, j no se sabe, mas guerra no fim de contas, e que
essas coisas so punidas por lei, mas Alba anda sempre na lua
e no d pelo perigo, no o faz por maldade, 
antes pelo contrrio, f-lo porque tem o corao destravado
como a av, que ainda anda a socorrer os pobres nas minhas
costas, nos  quartos abandonados da casa, 
a minha Clara clarividente, e qualquer tipo que chegue junto
de Alba contando a histria de que o perseguem, consegue que
ela arrisque a pele para o ajudar, mesmo 
que seja totalmente desconhecido, eu j lhe disse, j a avisei
muitas vezes de que podiam fazer-lhe uma armadilha e um dia ia
acontecer que o suposto marxista era 
um agente da polcia poltica, mas ela no me ligou, nunca me
ligou na vida,  mais casmurra que eu, mas mesmo que seja
assim, dar asilo a um pobre diabo de vez 
em quando no  uma malfeitoria, no  algo to grave que
merea que a levem presa, sem considerar que  minha neta,
neta de um senador da Repblica, membro proeminente 
do Partido Conservador, no podem fazer isso com algum da
minha prpria famlia, na minha prpria casa, porque ento que
diabo fica para os outros, se pessoas como 
ns caem assim, quer dizer que ningum est a salvo, que no
valeram de nada, mais de vinte anos no Congresso e ter todas
as relaes que tenho, eu conheo toda 
a gente neste pas, pelo menos toda a gente importante,
inclusivamente o general Hurtado, que  meu amigo pessoal, mas
neste caso no me serviu de nada, nem sequer 
o cardeal me pde ajudar a encontrar a minha neta, no 
possvel que ela desaparea como por magia, que a levem uma
noite e eu no volte a saber nada dela, passei 
um ms  sua procura e a situao j me est a pr louco,
estas so as coisas que desprestigiam a Junta Militar no
estrangeiro e do azo a que as Naes Unidas comecem 
a foder-nos com os direitos humanos, eu ao principio no
queria ouvir falar de mortos, de torturados, de desaparecidos,
mas agora no posso continuar a pensar que 
so calnias dos comunistas, se at os prprios gringos, que
foram os primeiros a ajudar os militares e mandaram os seus
pilotos de guerra para bombardear o Palcio 
dos Presidentes, esto agora escandalizados pela matana, e
no  que eu esteja contra a represso, compreendo que ao
princpio  necessrio ter firmeza para impor 
a ordem, mas alambazaram-se, esto a exagerar as coisas e com
a histria da segurana interna e de acabar com os inimigos
ideolgicos, esto a acabar com toda a 
gente, ningum pode estar de acordo com isso, nem eu prprio,
que fui o primeiro a atirar penas de galinha aos cadetes e a
ajudar o golpe, antes que os outros tivessem 
a ideia na cabea, fui o primeiro a aplaudi-lo, estive
presente no Te Deum da catedral, e por isso mesmo no posso
aceitar que estejam a acontecer estas coisas na 
minha ptria, que desapaream as pessoas, que levem a minha
neta de casa  viva fora e eu no possa impedi-lo, nunca se
tinham passado aqui coisas assim, por isso, 
justamente por isso,  que tive de vir falar consigo,
Trnsito, nunca imaginei que h cinquenta anos, quando voc
era uma rapariguinha raqutica do Farolito Rojo, 
que um dia teria que vir a suplicar-lhe de joelhos que me faa
este favor, que me ajude a encontrar a minha neta, atrevo-me a
pedir-lho porque sei que tem boas relaes 
com o governo, falaram-me de si, estou certo que ningum
conhece melhor as pessoas importantes nas Foras  Armadas, sei
que voc lhes organiza festas e pode chegar 
onde eu nunca teria acesso, por isso peo-lhe que faa alguma
coisa pela minha neta antes que seja demasiado tarde, porque
h semanas que estou sem dormir, corri 
todos os gabinetes, todos os Ministrios, todos os velhos
amigos, sem que ningum me pudesse ajudar, j no me querem
receber, obrigam-me a ficar na sala de espera 
durante horas, a mim, que fiz tantos favores a essa mesma
gente, por favor, Trnsito, pea-me o que quiser, ainda sou um
homem rico, embora nos tempos do comunismo 
as coisas tivessem sido difceis para mim, expropriaram-me a
terra, voc soube disso certamente, deve ter visto na
televiso e nos jornais, foi um escndalo, aqueles 
camponeses ignorantes comeram os meus touros reprodutores e
puseram as minhas guas de corrida a puxar o arado e em menos
de um ano Las Tres Marias estava em runas, 
mas agora eu enchi a herdade de tractores e estou a levant-la
de novo, tal como o fiz uma vez, quando era jovem, estou a
fazer o mesmo agora que estou velho, mas 
no acabado, enquanto esses desgraados que tinham o titulo de
propriedade da minha propriedade, a minha, andam a morrer de
fome, como uma cambada de pobres diabos, 
 procura de algum trabalhito miservel para subsistir, pobre
gente, eles no tiveram a culpa, deixaram-se enganar pela
maldita reforma agrria, no fundo eu j lhes 
perdoei e gostaria que voltassem a Las Tres Marias, cheguei
mesmo a pr anncios nos jornais para os chamar, ho-de voltar
um dia e no terei remdio seno estender-lhes 
a mo, so como crianas, bom, mas no  disso que lhe vim
falar, Trnsito, no quero roubar-lhe o seu tempo, o
importante  que tenho uma boa situao e os meus 
negcios vo de vento em popa, por isso posso dar-lhe tudo o
que me pedir, qualquer coisa, contanto que encontre a minha
neta Alba antes que um demente me continue 
a mandar mais dedos cortados ou comece a mandar orelhas e
acabe por pr-me maluco ou matar-me com um enfarte,
desculpe-me que fique desta maneira, me tremam as mos, 
estou muito nervoso, no posso explicar o que se passou, um
pacote pelo correio e l dentro s trs dedos humanos,
cortados rente, uma piada macabra que me traz 
recordaes, mas essas recordaes no tm nada a ver com
Alba, a minha neta nem sequer era nascida na altura, sem
dvida eu tenho muitos inimigos, todos nos, os 
polticos, temos inimigos, no seria difcil haver um anormal
disposto a chatear-me enviando-me dedos pelo correio,
justamente no momento em que estou desesperado 
pela priso de Alba, para me pr ideias horrveis na cabea,
que se no fosse por estar no limite das minhas foras, depois
de ter esgotado todos os recursos, no 
teria vindo incomod-la a si, por favor, Trnsito, em nome da
nossa velha amizade, tenha piedade de mim, sou um pobre velho
destroado, tenha piedade e procure a 
minha neta Alba antes que acabem por mandar-ma em pedacinhos
pelo correio, solucei.

Trnsito Soto chegou  posio que tem, entre outras coisas,
porque soube  pagar as suas dvidas. Suponho que usou o
conhecimento do lado mais secreto dos homens 
que esto no poder, para me pagar os cinquenta pesos que lhe
emprestei uma vez. Dois dias depois, chamou-me ao telefone.

-- Sou Trnsito Soto, patro. Est satisfeito o seu pedido --
disse.


Eplogo


Esta noite morreu o meu av. No morreu como um co, como
receava, mas calmamente nos meus braos, confundindo-me com
Clara e por vezes com Rosa, sem dor, sem angstia, 
consciente e sereno, mais lcido que nunca e feliz. Agora est
estendido no veleiro de gua mansa, sorridente e tranquilo,
enquanto eu escrevo sobre a mesa de madeira 
que era da minha av. Abri as cortinas de seda azul para que a
manh entre alegre neste quarto. Na gaiola antiga, junto da
janela, h um canrio novo, cantando e 
no centro do quarto vem-se os olhos de vidro de Barrabs. O
meu av contou-me que Clara desmaiara no dia em que ele, para
lhe agradar, colocou a pele do animal 
como tapete. Rimos at s lgrimas e decidimos ir  cave
buscar os despojos do pobre Barrabs, soberbo na sua
indefinvel constituio biolgica, apesar da passagem 
do tempo e do abandono e voltar a p-lo no mesmo lugar onde
meio sculo antes o pusera o meu av, em homenagem  mulher
que mais amou na vida.

-- Vamos deix-lo aqui, que  onde sempre devia ter estado --
disse.

Cheguei a casa numa brilhante manh de Inverno numa carroa
puxada por um cavalo escanzelado. A rua, com a sua dupla fila
de castanheiros centenrios e as manses 
senhoriais, parecia um cenrio imprprio para aquele modesto
veculo, mas quando este parou em frente da casa do meu av
encaixava muito bem com o estilo. A grande 
casa da esquina estava mais triste e velha do que podia
recordar, absurda com as excentricidades arquitectnicas e as
pretenses de estilo francs, com a fachada 
coberta de hera apodrecida. O jardim era um emaranhado de mato
e quase todos as portadas estavam penduradas dos gonzos. O
porto estava aberto como sempre. Toquei 
 campainha e passado um bocado, senti umas alpergatas que se
aproximavam  e uma criada desconhecida abriu-me a porta.
Olhou-me sem me conhecer e senti no nariz 
o maravilhoso perfuma a madeira e a mofo da casa onde nasci.
Os olhos encheram-se-me de lgrimas. Corri  biblioteca,
pressentindo que o av estava  minha espera 
onde sempre se costumava sentar, encolhido numa poltrona.
Admirei-me de o ver to velho, to minsculo e trmulo,
mantendo do passado apenas a branca melena leonina 
e a pesada bengala de prata. Abraamo-nos estreitamente por
muito tempo, sussurrando av, Alba, Alba, av, beijmo-nos e
quando ele viu a minha mo, rebentou a chorar, 
a dizer maldies e a dar bengaladas nos mveis, como fazia
dantes, e eu ri-me porque afinal no estava to velho e
acabado como me parecera a princpio.

Nesse mesmo dia, o av quis que sassemos do pas. Tinha medo
por minha causa. Mas expliquei-lhe que no podia ir-me embora,
porque longe desta terra eu seria como 
as rvores que se cortam para o Natal, esses pobres pinheiros
que duram algum tempo e morrem depois.

-- No sou tonto, Alba -- disse, olhando-me fixamente. -- A
verdadeira razo por que queres ficar  Miguel, no  verdade?

Tive um sobressalto. Nunca Ihe tinha falado em Miguel.

-- Desde que o conheci, soube que no ia poder tirar-te daqui,
minha filhinha -- disse com tristeza.

-- Conheceste-o? Est vivo, av? -- sacudi-o, agarrando-o pela
roupa.

-- A semana passada ainda estava, quando nos vimos pela ltima
vez.

Contou-me que depois de me terem prendido, Miguel apareceu uma
noite na grande casa da esquina. Esteve quase a dar-lhe uma
apoplexia de susto, mas em poucos minutos, 
compreendeu que os dois tinham uma meta comum: libertar-me.
Depois, Miguel voltou frequentemente para o ver, fazia-lhe
companhia e juntavam os seus esforos para 
me procurar. Foi Miguel quem teve a ideia de ir falar com
Trnsito Soto, ao av isso nunca teria ocorrido.

-- Acredite-me, senhor. Eu sei quem tem o poder neste pas. A
minha gente est infiltrada em todos os lados. Se h algum
que possa ajudar Alba neste momento, essa 
pessoa  Trnsito Soto -- assegurou-lhe.

-- Se conseguirmos tir-la das garras da polcia poltica, meu
filho, ter de sair daqui. Vo os dois. Posso conseguir-vos
salvo-condutos e no vos faltar dinheiro 
-- ofereceu o av.

Mas Miguel olhou-o como se ele fosse um velhinho sem tino e
comeou a explicar-lhe que tinha uma misso a cumprir e no
podia fugir assim.

-- Tive de resignar-me  ideia de que ficars aqui, apesar de
tudo -- disse o av abraando-me. -- E agora conta-me tudo.
Quero saber at ao ltimo pormenor.

De maneira que eu contei tudo. Disse-lhe que depois que a mo
infectou, levaram-me para uma clnica secreta para onde
mandavam os prisioneiros que no lhes interessava 
deixar morrer. L, atendeu-me um mdico alto, de  maneiras
elegantes, que parecia odiar-me tanto como o coronel Garcia e
se negava a dar-me calmantes. Aproveitava 
cada curativo para me expor a sua teoria pessoal a respeito da
forma de acabar com o comunismo no pas e, se possvel, no
mundo.  parte isso, deixava-me em paz. 
Pela primeira vez em vrias semanas tinha lenis limpos,
comida suficiente e luz natural. Era Rojas quem me tratava, um
enfermeiro de tronco macio e cara redonda, 
vestido com uma bata azul celeste sempre suja e extremamente
bondoso. Dava-me de comer na boca, contava-me interminveis
histrias de longnquos desafios de futebol 
disputados entre equipas que eu nunca tinha ouvido nomear e
conseguia calmantes para me injectar s escondidas, at
conseguir fazer parar o meu delrio. Rojas tinha 
assistido nessa clnica a um desfile interminvel de
desgraados. Tinha verificado que na sua maioria no eram nem
assassinos nem traidores  ptria, por isso tratava 
bem os prisioneiros. Muitas vezes acabava de curar algum e
levavam-lho de novo. Isto  como encher o mar de areia,
dizia com tristeza. Soube que alguns lhe pediram 
para os ajudar a morrer e, pelo menos num caso, julgo que o
fez. Rojas tomava nota rigorosamente dos que entravam e saam
e podia recordar-se, sem hesitar, dos nomes, 
das datas e das circunstncias. Jurou-me que nunca tinha
ouvido falar de Miguel e isso devolveu-me a coragem para
continuar a viver, mesmo que por vezes casse no 
abismo negro da depresso e comeasse a repetir a cantilena de
que queria morrer. Ele falou-me de Amanda. Prenderam-na ao
mesmo tempo que a mim. Quando a levaram 
a Rojas, j no havia nada a fazer. Morreu sem denunciar o
irmo, cumprindo a promessa que lhe fizera muito tempo atrs,
no dia em que o levou  escola pela primeira 
vez. O nico consolo foi ter sido tudo mais rpido do que eles
tinham desejado, porque o seu organismo estava muito
debilitado pelas drogas e pela infinita desolao 
que a morte de Jaime lhe deixou. Rojas tratou de mim at
baixar a febre. A minha mo comeou a cicatrizar e a voltar-me
a razo, e ento acabaram-se-lhe os pretextos 
para continuar a reter-me; mas no me mandaram voltar para as
mos de Esteban Garcia, como eu temia. Suponho que nesse
momento actuou a influncia benfica da mulher 
do colar de prolas a quem fui visitar, com o av, para lhe
agradecer ter-me salvo a vida. Quatro homens foram buscar-me
de noite. Rojas acordou-me, ajudou-me a 
vestir e desejou-me boa sorte. Beijei-o, agradecida.

-- Adeus, menina! Mude o penso, no o molhe e se voltar a
febre  porque se infectou outra vez -- disse-me da porta.

Levaram-me para uma cela estreita onde passei o resto da noite
sentada numa cadeira. No dia seguinte, transferiram-me para um
campo de concentrao para mulheres. 
Nunca esquecerei quando me tiraram a venda dos olhos e me
encontrei num ptio quadrado e luminoso, rodeada de mulheres
que cantavam, para mim, o Hino  Alegria. 
A minha amiga Ana Daz estava entre  elas e correu a
abraar-me. Instalaram-me imediatamente num beliche e deram-me
a conhecer as regras da comunidade e as minhas 
responsabilidades.

-- At que te cures no tens de lavar nem coser, mas tens de
cuidar das crianas -- disseram-me.

Eu tinha resistido ao inferno com certa integridade, mas
quando me senti acompanhada, quebrei. A menor palavra de
carinho provocava-me uma crise de choro, passava 
a noite com os olhos abertos na escurido no meio da
promiscuidade das mulheres, que faziam turnos para cuidar de
mim, acordadas, sem nunca me deixar sozinha. Ajudaram-me 
quando as ms recordaes comeavam a atormentar-me ou me
aparecia pela frente o coronel Garcia mergulhando-me no
terror, ou quando Miguel me ficava preso num soluo.

-- No penses em Miguel -- diziam-me, insistiam. -- No se
deve pensar nos entes queridos nem no mundo que existe para l
destes muros.  a nica maneira de sobreviver.

Ana Daz conseguiu um caderno escolar e ofereceu-mo.

--  para escreveres, para veres se tiras de dentro de ti o
que est podre, se melhoras de uma vez e cantas connosco e nos
ajudas a coser -- disse-me.

Mostrei-lhe a mo e neguei com a cabea, mas ela ps-me o
lpis na outra mo e disse-me que escrevesse com a esquerda.
Pouco a pouco, comecei a faz-lo. Tentei ordenar 
a histria que comeara no canil. As minhas companheiras
ajudaram-me quando a pacincia me faltava e o lpis me tremia
na mo. Em certas ocasies, atirava tudo para 
longe, mas em seguida apanhava o caderno, endireitava-o,
arrependida, porque no sabia quando poderia conseguir outro.
Outras vezes acordava triste e cheia de pressentimentos, 
virava-me para a parede e no queria falar com ningum, mas
elas no me deixavam, sacudiam-me, obrigavam-me a trabalhar, a
contar histrias s crianas. Mudavam-me 
a ligadura com cuidado e punham-me o papel na frente.

 Se quiseres conto-te o meu caso, para o escreveres,
diziam-me, riam-se, gracejavam, alegando que todos os casos
eram iguais e que era melhor escrever histrias 
de amor porque isso agradava a toda a gente. Tambm me
obrigavam a comer. Repartiam as raes com inteira justia, a
cada qual segundo a sua necessidade e a mim 
davam-me um pouco mais porque diziam que eu estava s com a
pele e o osso e dessa maneira nem o homem mais necessitado
iria olhar para mim. Eu estremecia, mas Ana 
Daz lembrava-me que eu no era a nica mulher violada e devia
esquecer isso, como tantas outras coisas. As mulheres passavam
o dia a cantar em coro. Os carabineiros 
batiam na parede.

-- Calem-se, suas putas! 

-- Faam-nos calar vocs, se puderem, seus cabres, a ver se
se atrevem! -- E continuavam a cantar mais forte e eles no
entravam porque tinham aprendido que no 
se pode evitar o inevitvel.

Tentei descrever os pequenos acontecimentos da seco de
mulheres, que tinham prendido a irm do Presidente, que nos
tiraram os cigarros, que tinham chegado novas 
prisioneiras, que Adriana tivera outro dos seus ataques e se
tinha atirado aos filhos para os matar, que tivemos que lhos
tirar das mos e me sentei com um menino 
em cada brao, para lhes contar as histrias mgicas dos bas
encantados do tio Marcos, at que adormeceram, enquanto eu
pensava no destino daquelas crianas, crescendo 
naquele lugar, com a me transtornada, criadas por outras mes
desconhecidas que no tinham perdido a voz para uma cano de
embalar, nem o gesto para um carinho 
e eu perguntava a mim prpria, escrevia, de que maneira os
filhos de Adriana poderiam restituir a cano e o gesto aos
filhos ou aos netos daquelas mesmas mulheres 
que os acarinhavam.

Estive no campo de concentrao poucos dias. Numa quarta-feira
 tarde os carabineiros foram buscar-me. Tive um momento de
pnico, pensando que me levariam de novo 
a Esteban Garcia, mas as minhas companheiras disseram-me que
se eles usavam uniforme no eram da polcia poltica e isso
tranquilizou-me um pouco. Deixei-lhes o 
meu colete de l, para o desmancharem e fazerem qualquer coisa
quente para os meninos de Adriana e dei-lhes todo o dinheiro
que tinha quando me detiveram e que, 
com a escrupulosa honestidade que tm os militares para o
transcendente, me tinham devolvido. Meti o caderno nas calas
e abracei-as a todas, uma por uma. A ltima 
coisa que ouvi ao sair foi o coro das minhas companheiras
cantando para me dar animo, tal como faziam com todas as
prisioneiras que chegavam ou deixavam o acampamento. 
Eu ia a chorar. Tinha sido feliz ali.

Contei ao av que me tinham levado num carro celular com os
olhos vendados, durante o toque de recolher. Tremia tanto que
ouvia o bater dos dentes. Um dos homens 
que estava comigo na parte traseira do veiculo, ps-me um
caramelo na mo e deu-me umas palmadinhas no ombro.

-- No se preocupe, menina. No lhe vai acontecer nada. Vamos
solt-la e dentro de algumas horas estar com a sua famlia --
disse num murmrio.

Deixaram-me numa lixeira perto do Bairro da Misericrdia.

O mesmo que me deu o doce ajudou-me a descer.

-- Cuidado com o toque de recolher -- segredou-me ao ouvido.
-- No se mova at amanhecer.

Ouvi um motor e pensei que iam esmagar-me e que depois
aparecia na imprensa que eu tinha sido atropelada num acidente
de trnsito, mas o carro afastou-se sem me 
tocar. Esperei algum tempo, paralisada de frio e de medo, at
que por fim resolvi tirar a venda para ver onde me encontrava. 
Olhei  volta. Era um stio baldio, 
um descampado cheio de lixo onde corriam ratazanas por entre
desperdcios. Brilhava uma lua tnue que me permitiu ver ao
longe o perfil de um miservel bairro de 
carto, zinco e tbuas. Compreendi que devia respeitar a
recomendao do guarda e ficar ali at amanhecer. Teria
passado a noite na lixeira, se no chega um rapazinho 
agachado nas sombras e me faz sinais em segredo. Como j no
tinha muito a perder, caminhei na sua direco, cambaleando.
Ao aproximar-me, vi a sua carinha ansiosa. 
Deitou-me uma manta pelos ombros, pegou-me na mo e levou-me
para o bairro sem dizer palavra. Caminhmos agachados,
evitando a rua e os poucos candeeiros acesos, 
alguns ces ladraram, mas ningum assomou para saber o que
era. Atravessmos um ptio de terra onde umas roupas calam
como pendes presas a um arame e entramos numa 
barraca desconjuntada como todas as outras ali. Dentro havia
uma nica lmpada iluminando tristemente o interior.
Comoveu-me a extrema pobreza: os nicos mveis 
eram uma mesa de pinho, duas cadeiras toscas e uma cama onde
dormiam vrias crianas amontoadas. Veio receber-me uma mulher
baixa, de pele escura, com as pernas 
atravessadas de varizes e os olhos afundados numa rede de
rugas bondosas, que no conseguiam dar-lhe um aspecto de
velhice. Sorriu e vi que lhe faltavam alguns dentes. 
Aproximou-se e ajeitou-me a manta, com um gesto rude e tmido
que substituiu o abrao que no se atreveu a dar-me.

-- Vou dar-lhe um chazinho. No tenho acar mas vai-lhe fazer
bem tomar qualquer coisa quente -- disse.

Contou-me que tinham ouvido o carro e sabiam o que significava
um veculo circulando de noite durante o toque de recolher
naqueles ermos. Esperaram at ficar certos 
de que se tinha ido embora e depois o menino saiu para ver o
que tinham deixado. Pensavam encontrar um morto.

-- s vezes vm atirar-nos para aqui um fuzilado para a gente
ganhar medo -- explicou-me.

Ficmos a conversar o resto da noite. Era uma daquelas
mulheres esticas e prticas do nosso pas, que tm um filho
de cada homem que passa pelas suas vidas e que 
alm disso recolhem no seu lar as crianas que outros
abandonam, os parentes mais pobres e qualquer pessoa que
necessite de uma me, uma irm, uma tia, mulheres 
que so a trave mestra de muitas vidas alheias, que criam
filhos para os verem ir embora depois e que vem tambm partir
os seus homens, sem um queixume, porque 
tm outras coisas mais urgentes para fazer. Pareceu-me igual a
tantas outras que conheci nos refeitrios populares, no
hospital do meu tio Jaime, na casa do vigrio 
onde iam perguntar pelos seus desaparecidos, na morgue onde
iam buscar os seus mortos. Disse-lhe que  se tinha arriscado
muito ao ajudar-me, e ela sorriu. Ento, 
eu soube que o coronel Garcia, e outros como ele, tm os seus
dias contados porque no conseguiram destruir o esprito
dessas mulheres.

De manh, acompanhou-me a casa de um compadre que tinha uma
carroa de aluguer com um cavalo. Pediu-lhe que me trouxesse a
casa e foi assim que cheguei aqui. Pelo 
caminho, pude ver a cidade nos seus terrveis contrastes, as
barracas cercadas por tapumes para dar a iluso de no
existirem, o centro compacto e cinzento, e o 
Bairro Alto, com os jardins ingleses, os parques, os
arranha-cus de vidro e os meninos louros passeando de
bicicleta. At os ces me pareceram felizes, tudo em 
ordem, tudo limpo, tudo tranquilo e aquela slida paz das
conscincias sem memria. Este bairro  como um outro pas.

O av ouviu-me com tristeza. Acabava de desmoronar-se um mundo
que ele tinha acreditado ser bom.

-- Enquanto estivermos aqui  espera de Miguel, vamos arranjar
um bocado esta casa -- disse por fim.

Assim fizemos. A principio passamos o dia na biblioteca,
inquietos, pensando que poderiam voltar a levar-me outra vez
para Garcia, mas depois decidimos que o pior 
 ter medo do medo, como dizia o meu tio Nicolau, e que havia
que ocupar a casa por inteiro e comear a fazer uma vida
normal. O meu av contratou uma empresa especializada 
que a percorreu desde o telhado at  cave, passando com
mquinas polidoras, limpando vidros, pintando e desinfectando,
at que ficou habitvel. Meia dzia de jardineiros 
e um tractor acabaram com o matagal, trouxeram relva enrolada
como um tapete, um invento prodigioso dos gringos, e em menos
de uma semana tnhamos at lamos crescidos, 
a gua tinha voltado a brotar nas fontes cantantes e mais uma
vez se levantaram, arrogantes, as esttuas do Olimpo, limpas
finalmente de tanta caca de pombo e tanto 
esquecimento. Fomos juntos comprar pssaros para as gaiolas
que estavam vazias desde que a minha av, pressentindo a
morte, lhes abriu as portas. Pus flores frescas 
nas jarras e bandejas com fruta sobre as mesas, como no tempo
dos espritos e o ar impregnou-se com o seu aroma. Depois
demos o brao, o meu av e eu, e percorremos 
a casa, parando em cada lugar para recordar o passado e saudar
os imperceptveis fantasmas de outras pocas, que apesar de
tantos altos e baixos, persistem nos seus 
postos. O meu av teve a ideia de escrevermos esta histria.

-- Assim poders levar as razes contigo se algum dia tiveres
de ir embora daqui, filhinha -- disse.

Desenterrmos dos cantos secretos e esquecidos, os velhos
lbuns e tenho aqui, sobre a mesa da minha av, um monto de
retratos: a bela Rosa junto de um baloio 
descolorido, a minha me e Pedro Tercero Garcia aos quatro
anos,  a dar milho s galinhas no ptio de Las Tres Marias, o
meu av quando era jovem e media um metro 
e oitenta, prova irrefutvel de que se cumpriu a maldio de
Frula e de que se lhe foi mirrando o corpo na mesma medida em
que se lhe encolheu a alma, os meus tios 
Jaime e Nicolau, um, taciturno e sombrio, gigantesco e
vulnervel, e o outro, delgado e gracioso, voltil e
sorridente, tambm a Ama e os bisavs del Valle, antes 
de morrerem no acidente, enfim, todos menos o nobre Jean de
Satigny, de quem no h nenhum testemunho cientfico e de cuja
existncia cheguei a duvidar.

Comecei a escrever com a ajuda do meu av, cuja memria
permaneceu intacta at ao ltimo instante dos seus noventa
anos. Com o seu punho e letra escreveu vrias 
pginas e quando considerou que tinha dito tudo, deitou-se na
cama de Clara. Eu sentei-me a seu lado,  espera com ele, e a
morte no tardou a chegar-lhe suavemente, 
apanhando-o no sono. Talvez sonhasse que era a sua mulher que
lhe acariciava a mo e o beijava na testa, porque, nos ltimos
dias, ela no o abandonou nem um instante, 
seguia-o pela casa, espreitava-lhe por cima do ombro quando
lia na biblioteca e deitava-se com ele de noite, com a formosa
cabea coroada de caracis, apoiada no 
seu ombro. A princpio era um halo misterioso, mas  medida
que o meu av foi perdendo para sempre a raiva que o
atormentou durante toda a existncia, ela apareceu 
tal como era nos seus melhores tempos, rindo com todos os
dentes e alvoroando os espritos com o seu voo fugaz. Tambm
nos ajudou a escrever e, graas  sua presena, 
Esteban Trueba pde morrer feliz murmurando o seu nome, Clara,
clarssima, clarividente.

No canil, escrevi pensando que um dia teria o coronel Garcia
vencido na minha frente e poderia vingar todos os que tm de
ser vingados. Mas agora duvido do meu dio. 
Em poucas semanas, desde que estou nesta casa, parece ter-se
diludo, ter perdido os contornos. Suspeito que tudo o que
aconteceu no  fortuito, mas que corresponde 
a um destino traado antes do meu nascimento e que Esteban
Garcia  parte desse desenho.  um trao rude e torcido, mas
nenhuma pincelada  intil. No dia em que 
o meu av derrubou nos matagais do rio a sua av, Pancha
Garcia, acrescentou outro degrau a uma cadeia de factos que se
deviam cumprir. Depois, o neto da mulher 
violada repete o gesto com a neta do violador e dentro de
quarenta anos, talvez o meu neto viole a sua nas matas do rio
e assim, pelos sculos vindouros, numa histria 
infindvel de dor, de sangue e amor. No canil, tive a ideia de
que estava a fazer um quebra-cabeas em que cada pea tem uma
posio precisa. Antes de as colocar, 
a todas, parecia-me incompreensvel, mas estava certa de que
se o conseguisse terminar, daria um sentido a cada uma e o
resultado seria harmonioso. Cada pea tem 
uma razo de ser tal como , inclusivamente o coronel Garcia.
Em alguns momentos tenho a impresso de que j vivi isto e que
j escrevi estas mesmas palavras, mas 
compreendo que no sou eu, mas  outra mulher, que escreveu nos
seus cadernos para que eu viesse a servir-me deles. Escrevo,
ela escreveu, que a memria  frgil 
e o transito de uma vida  muito breve e sucede tudo to
depressa que no conseguimos ver a relao entre os
acontecimentos, no podemos medir a consequncia dos 
actos, acreditamos na fico do tempo, no presente, no passado
e no futuro, mas tambm pode ser que tudo acontea
simultaneamente, como diziam as irms Mora, que 
eram capazes de ver no espao os espritos de todas as pocas.
Por isso, a minha av Clara escrevia nos seus cadernos para
ver as coisas na sua dimenso real e para 
enganar a m memria. E agora procuro o meu dio e no consigo
encontr-lo. Sinto que se apaga na medida em que explico a mim
prpria a presena do coronel Garcia 
e de outros como ele, que compreendo o meu av e tomo
conhecimento das coisas atravs dos cadernos de Clara, das
cartas da minha me, dos livros da administrao 
de Las Tres Marias e de tantos outros documentos que esto
agora sobre a mesa, ao alcance da mo. Ser-me- muito difcil
vingar todos os que tm de ser vingados, 
porque a minha vingana no seria mais que outra parte do
mesmo ritual inexorvel. Quero pensar que o meu ofcio  a
vida e que a minha misso no  prolongar o 
dio, mas apenas encher estas pginas enquanto espero o
regresso de Miguel, enquanto enterro o meu av que descansa
agora a meu lado neste quarto, enquanto aguardo 
que cheguem tempos melhores, gerando a criana que trago no
ventre, filha de tantas violaes ou talvez filha de Miguel,
mas sobretudo minha filha.

A minha av escreveu durante cinquenta anos nos seus cadernos
de anotar a vida. Guardados por alguns espritos cmplices,
salvaram-se por milagre da pira infame 
onde morreram tantos outros papis da famlia. Tenho-os aqui,
a meus ps, atados com fitas de cores, separados por
acontecimentos e no por ordem cronolgica, tal 
como ela os deixou antes de se ir embora. Clara escreveu-os
para que me servissem agora para resgatar as coisas do passado
e sobreviver ao meu prprio espanto. O 
primeiro  um cader
delicada caligrafia infantil. Comea assim Barrabs chegou 
famlia por via martima...
